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    A cerimônia de investidura estava prestes a começar.

    Tão logo Siegfried se recuperou da desidratação, a baronesa Whitefield determinou que seguissem em frente com os ritos apropriados. Lavina havia lhe banhado e esfregado com tanta força que sua pele quase parecia brilhar de tão clara.

    Depois, as servas trouxeram uma túnica e calças, ambas feitas de lã branca imaculada. Pentearam-no até que seu cabelo estivesse liso e teriam feito também suas unhas, se não as tivesse impedido.

    Quando terminou, sentia-se uma noviça prestes a fazer seus votos de castidade.

    “Pareço uma garota.”

    Sua pele estava tão branca, lisa e macia que mal se reconheceu quando lhe deram um espelho. Já tinha dezessete anos, mas o reflexo que viu bem podia pertencer a alguém de quinze ou quatorze. E o seu cabelo havia crescido longo novamente; mesmo preso para trás em um coque, ainda fazia o rapaz parecer um pouco afeminado.

    Mas Lavina o encarava com o mesmo desejo de sempre. De fato, seus olhos pareciam brilhar um pouco mais ao vê-lo daquela forma. E não era a única. As servas que ajudaram-no a se preparar também pareciam um pouco excitadas demais.

    Siegfried voltou a se olhar no espelho.

    Talvez não pudesse culpá-las. As mulheres eram claramente mais bonitas que os homens; macias, pequenas e cheirosas. Não era difícil entender o porquê de uma garota se sentir atraída por outra. O verdadeiro mistério era descobrir como tantas pareciam gostar de ter um homem grande, peludo e suado por cima delas. Um desejo que Siegfried jamais entenderia.

    Lavina mandou as servas embora para avisarem a baronesa Whitefield de que ele estava pronto e então se aproximou, fingindo alisar o amarrotado em sua túnica para poder chegar mais perto:

    — O senhor está muito bonito, milorde.

    — Pareço uma garota.

    — Uma garota muito bonita, se me permite.

    Siegfried riu e Lavina corou, enquanto prosseguia:

    — O senhor vai ser um grande cavaleiro…

    “Ela quer que eu diga alguma coisa”, notou. Só não sabia dizer o que era, por isso a observou em silêncio.

    A garota tinha o rosto vermelho como um tomate e as mãos tremiam. Pequena, macia e cheirosa. Um pouco tímida, mas leal. Tentou imaginá-la ao seu lado — como esposa e mãe dos seus filhos.

    “É isso que ela quer?”

    Teria sido uma vida tranquila.

    Talvez até mesmo agradável.

    Siegfried a afastou gentilmente e então deixou o quarto do lorde do Salão Branco, sem olhar para trás.

    Assim que passou pela porta, a atenção de todos se voltou para o rapaz. Viu soldados Lawgard e o que restava dos Espadas Brilhantes, ordenados e em silêncio. Poderia tê-los tomado por estátuas, se não fossem seus olhos o seguindo a cada passo. Quanto tempo levaria até a próxima revolta?

    As servas da casa Whitefield também estavam lá e pareciam bem mais animadas de vê-lo. Aquelas que não o haviam ajudado a se vestir, ficaram um pouco mais agitadas e começaram a cochichar o que quer que fosse entre si, em meio a risinhos e olhares mal disfarçados.

    Sentia-se um bobo.

    “Só falta um chapéu de sininhos.”

    Elsa, Allane e Will, apesar de serem apenas suas escravas, ocupavam os lugares mais próximos ao trono, ao lado de Astrid Whitefield, Alethra Gaelor e Salazar Gaelor. Siegfried não havia exigido que isso fosse feito, nem ao menos mencionou algo a esse respeito — tinha de ter sido uma decisão da própria baronesa Whitefield; ela queria agradá-lo e se esforçava bastante na tarefa.

    Gelo e Carrasco estavam lá para fazer a proteção do trono e dos convidados, no caso de uma nova batalha se iniciar, mas Fantasma ainda não havia se recuperado dos ferimentos e ficou responsável por vigiar o barão Lawgard e seu filho.

    Ethel e a baronesa Whitefield o esperavam em cima do estrado.

    Ethel usava seu hábito sacerdotal de lã branca e um colar de metal com o rosto de um rei jovem; provavelmente Elyon. Discreta e recatada, mas não podia esconder as suas curvas de mulher e havia algo na sua castidade que convidava os homens ao pecado.

    A lady Whitefield, por outro lado, era toda pompa e elegância. Seu vestido de veludo verde-floresta era longo e ricamente bordado com fios de prata em padrões intrincados de flores; sua capa negra chegava aos tornozelos, mas não lhe escondia o vestido e era presa no lugar por um pequeno e brilhante broche de prata com a adaga da casa Whitefield. Uma tiara de prata e um sorriso eram o toque final do seu visual.

    “As mais bonitas são as mais perigosas.”

    Siegfried se aproximou do trono pela frente, para que todos o vissem, então se ajoelhou.

    A baronesa Whitefield fez um pequeno discurso a respeito da cavalaria, citando também alguns dos feitos do rapaz, incluindo sua vitória sobre Eradan Lancaster na Torre da Justiça e a participação na conquista do Castelo Silvergraft.

    Meras formalidades, até que ela finalmente foi ao que interessa:

    — Diante de nosso único e eterno rei, Elyon, seus santos e de todos aqui presentes. Eu, Raven Whitefield, o nomeio para serdes cavaleiro. Você aceita esse dever e responsabilidade?

    — Sim, minha senhora. Eu aceito.

    — Então pode fazer os seus votos.

    — Por minha honra e minha vida, prometo seguir em frente de cabeça erguida, na doce vitória, sim, mas principalmente na amarga derrota. Se eu for derrotado em batalha, que não me permita ceder ao medo e siga em frente sem hesitar.

    Era possível sentir o desconforto no ar. Todos no salão pareciam confusos. E como não? Que tipo de cavaleiro começaria seus juramentos dizendo que poderia fracassar?

    Mas o rapaz não deu atenção e seguiu em frente:

    — Sou um guerreiro e devo cumprir as ordens de meus superiores, mas prometo jamais me calar à vista da maldade, da crueldade e da injustiça. Se eu desafiar os meus comandantes, que o faça em nome daqueles que não o podem.

    A baronesa Whitefield não deixou transparecer o desconforto em seu rosto, mas estava lá. É claro que estava. Tinha acabado de jurar desobedecer seus superiores se não gostasse das ordens.

    — Se eu tomar vidas inocentes, que não tire disso qualquer prazer pessoal.

    A essa altura, qualquer empolgação que pudesse ter enchido o coração dos convidados, se esvaiu. Ninguém ousava falar, mas todos o julgavam por suas palavras. Que tipo de covarde diz que tirará vidas inocentes em seus votos de cavalaria!?

    — Se eu abandonar minha lealdade e trair meus benfeitores, prometo não atacá-los pelas costas, nem entregar suas fraquezas a quem o faria. Se o destino me permitir, juro também não pegar em armas contra eles ou iniciar confrontos.

    Siegfried estava de cabeça baixa, mas isso não o impediu de ‘ver’ o queixo de todos no salão cair.

    Ele tinha acabado de dizer que trairia a baronesa Whitefield?

    Um silêncio desconfortável se arrastou pelo salão por quase um minuto inteiro, até a lady Whitefield finalmente tomar uma decisão; ela recuperou sua compostura e deu prosseguimento à cerimônia:

    — Um cavaleiro deve ser bom, justo e leal. Mas a verdade é que o nosso país enfrenta hoje tempos sombrios, onde decisões difíceis devem ser feitas e ninguém entende isso melhor do que os nossos guerreiros. Fico feliz por encontrar um rapaz que saiba disso, embora ainda seja tão jovem. Sacerdotisa!

    Ethel se aproximou com a espada de Siegfried e sussurrou uma pequena prece. De repente, uma luz amarelada envolveu a lâmina; brilhante como uma tocha. Os burburinhos começaram e então ninguém mais se lembrava dos votos.

    A baronesa Whitefield recebeu a arma com toda a dignidade exigida de sua posição, mas ele não deixou de notar que a fidalga segurava a espada com cuidado, como se temesse que a luz fosse queimá-la ou algo do tipo.

    Então tocou o ombro de Siegfried com a ponta da lâmina e disse:

    — Em nome da honra e da cavalaria, eu agora o nomeio cavaleiro. Que Elyon o abençoe e guie-o nessa longa jornada. Que sua espada permaneça afiada e sua armadura, resistente. Que a sua coragem nunca vacile e sua lealdade nunca enfraqueça. Que seja um cavaleiro de verdade, em ações e palavras. Levante-se e diga o seu nome.

    Um cavaleiro precisa de um sobrenome, mas o rapaz não tinha nenhum, por isso teve de criá-lo. Havia pensado bastante nisso; não tanto quanto ao seu nome, mas se deveria usá-lo. Pensou que talvez pudesse ser visto como um desrespeito. Mas que mal faria a essa altura, depois de tudo que havia dito?

    Então se levantou e disse:

    — Siegfried Blackfield.

    A maioria não notou, simplesmente aplaudiu e prestou atenção enquanto ele recebia de volta a espada brilhante. Pareciam pensar que a arma havia sido abençoada por Elyon. Um milagre. Ou talvez o nascimento de algum herói. Mas o rapaz sabia que era apenas uma das magias de Ethel.

    Embora eles não dessem tanta importância para o sobrenome que Siegfried havia escolhido, isso não se aplicava à baronesa Whitefield e sua filha, que pareciam bastante sombrias em meio aquela comemoração.

    — Blackfield, ein — sussurrou a lady Whitefield.

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