Capítulo 0147: O cavaleiro e a barda
Não havia sala de tortura.
Tal como era de se esperar, os bandidos haviam ocupado aquele que antes devia ter sido o Salão Frost. Uma pequena fortaleza com muros de três metros de altura e um salão no centro. Menor do que o Salão Branco.
Não havia casa de banho, nem caserna ou outras estruturas além do que devia ser a cozinha e um pequeno casebre com grades que fazia as vezes de uma prisão.
Mas era tudo.
“Da forma que o barão Frost falava, pensei que fosse um castelo.”
Os bandidos nunca se incomodaram de construir novas estruturas. Tão pouco pareciam reparar as que já existiam. A fortaleza estava deteriorada de tal modo que bastaria um dia e duas catapultas para pô-la abaixo.
Por isso Siegfried foi torturado ao ar livre.
Os pulsos em carne viva da corda que prendia as suas mãos atrás das costas, enquanto o bandido mais velho o espancava com um pedaço de ferro. Não havia nem técnica, nem habilidade em seus métodos. Ele não tinha sequer as ferramentas de tortura mais básicas.
Sinceramente, era mais provável Siegfried morrer de vergonha por ter sido capturado por bandidos tão incompetentes do que qualquer outra coisa.
Ainda assim, uma barra de metal era uma barra de metal. E doía.
— Onde tão seus amigos!? — perguntava o velho. — Quantos cês são!? Fala!
Não que ele pudesse responder, já que o idiota o havia atingido nas costelas por mais de uma vez, tirando-lhe o fôlego e deixando impossível de falar. Não que pretendesse dizer algo.
Menos de duas horas depois, quando o velho se convenceu de que não tiraria nada dele, desistiu e jogou o rapaz na pequena prisão enferrujada:
— Cê devia ter aberto o bico, moleque. Não vai gostar do que o chefe vai fazer contigo. Nenhum de cês dois vai.
E foi embora.
Siegfried não se moveu. Havia caído de bruços e podia sentir o gosto de lama na boca; terra batida tornada úmida por anos de descaso com a chuva, neve e sangue daqueles que vieram antes dele.
Levou um tempo para raciocinar e lembrar do que o velho disse:
“Nós dois?!”
Então se forçou a olhar ao seu redor, procurando por Ethel, mas seu coração disparou ao ver outra pessoa… Uma garota sentada nas sombras. Não devia ter mais de quinze anos.
E sua pele era de ébano.
— Gwen?
Mas não era ela.
Embora a cor da pele estivesse certa, seus olhos eram castanhos e o cabelo negro mais volumoso. Usava uma longa saia de lã colorida que chegava aos tornozelos; blusa branca com decote ombro a ombro e manga ¾ que parava logo abaixo do seu cotovelo; e sandálias. Além de brincos e joias.
Não era difícil reconhecer uma cigana.
— Cara — ela disse. — Pegaram pesado contigo, ein?
— Quem é você?
— Mimosa. Mimi. Milinda. Mimaravilhosa. Pode escolher. E você?
— Eu tô procurando alguém. Só tem você aqui?
— Vou tentar não levar pro coração essa tua cara de decepção, mas é. Eles levaram as outras tem mais ou menos uma hora, eu acho.
— Outras?
— As garotas do banquete. Não é por isso que cê tá aqui? Achei que tinha vindo resgatar uma delas. Bem romântico, por sinal. Nota dez pelo esforço, mas vou ter que te dar um quatro por ter sido capturado.
— Eu tenho que ir pra lá! — E se pôs de joelhos. As costelas estalando e o pulmão queimando do esforço.
— E vai fazer o quê? Deve ter tipo uns dez caras lá fora.
— Nove! E já matei bem mais do que isso.
— Não me diga. E quantos ogros?
— …
— Ah! Não sabia dessa, né? Cê já viu um ogro? Não?! Foi o que eu pensei. A maioria nunca viu. Imagina um cavaleiro com três metros de altura, que gosta de comer carne humana. Acha que dá conta?
— Eles controlam aquela coisa? Como?
— Como um mestre do canil controla seus cães?!
Levou um instante para que Siegfried juntasse as pontas e chegasse à conclusão. As garotas que a Mimosa mencionou. ‘Garotas do banquete’. Tinha pensado que fossem diversão para o banquete — como rameiras e servas. Mas estava errado. Elas eram o banquete.
Então lembrou do que a velha havia dito antes de deixarem o povoado:
“Ouvi dizer que assaram a lady Frost e serviram a coitada em uma bandeja, marinada e temperada, como um porco.”
Na época, pensou que fosse apenas uma história. As pessoas tendem a exagerar. Mas agora…
— Eu tenho que ir pra lá!
E arrebentou as cordas que prendiam suas mãos atrás das costas. Uma tarefa mais fácil do que se poderia imaginar, já que eram feitas com tiras de pele de animal ao invés de cânhamo e já estavam apodrecidas há muito tempo.
Mas foi o bastante para impressionar Mimosa.
— Cê tá falando sério?! Eles têm um exército.
— Um esquadrão, na melhor das hipóteses.
— E um ogro!
— Já matei orcs. Não são tão diferentes assim.
— Espera! — Ela agarrou seu braço. — Se você tá tão determinado assim em se matar, então tá. Mas pelo menos podia fazer um esforço pra sair de lá vivo, né?
— Do que cê tá falando?
— Eu vou te ajudar.
E sorriu, como se tivesse acabado de conseguir algo importante. E alguma coisa nela fez o rapaz lembrar de Gwen.
“Era assim que ela sorria quando eu dizia que ia fazer algo estúpido.”
Mas o que a Mimosa esperava ganhar com a sua estupidez?
Fosse o que fosse, ela não mentiu quando disse que iria ajudá-lo. Levou apenas um minuto para destrancar a porta da prisão usando um grampo de cabelo e outras coisas que tirou das roupas.
Do lado de fora, encontraram a fortaleza deserta. Nem bandidos, nem servas ou guardas. Ninguém fazia a patrulha do perímetro, mas pelo menos os idiotas lembraram de fechar os portões.
Quando finalmente chegaram à entrada do salão, Mimosa o impediu de seguir em frente e mandou que a esperasse, voltando cinco minutos depois com sua espada, algumas bandagens e uma lira.
A garota passou um pouco de pomada em seus hematomas, apertou bem as bandagens e então estavam prontos.
— Eu não vi as garotas lá dentro, eles devem ter levado elas pro quarto no fim do salão. Não deve ser tão difícil chegar lá, a maioria deles tá caindo de bêbada. Mas o ogro…
— Eu tenho minha espada. Não preciso de mais.
— É o que vamos ver. Vou distrair eles o máximo que puder, mas eu não demoraria muito lá dentro se fosse você.
E já estava prestes a entrar, quando Mimosa o parou novamente:
— Espera! Você não pode morrer sem me dizer o seu nome primeiro! Então, anda logo!
— É Siegfried.
— Siegfried. — Ela refletiu por um momento, tirou uma nota da sua lira e finalmente disse: — Que droga de nome, ein. Não rima com nada.
E entraram no salão.

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