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    O pântano era frio.

    E com o inverno se aproximando, as noites eram ainda mais frias. Para piorar a situação, uma leve garoa havia começado assim que o trio deixou o Castelo dos Ossos e agora já não tinham mais o vagão da Mimosa para abrigá-los — este ficou para trás, tal como a maioria de suas coisas.

    Siegfried conseguiu recuperar apenas as roupas que trazia no corpo, o lenço que Dara tricotou para ele no inverno passado e a sua espada. O que já era bem mais do que as garotas. Blossom tinha o seu arco com uma aljava de flechas, mas Mimosa não recuperou nada além do vestido desbotado que usava.

    E o clima não ajudava.

    Siegfried podia sentir o frio cortando a sua pele. E embora Blossom não parecesse se importar com as suas roupas encharcadas ou o vento gelado, o mesmo não poderia ser dito de Mimosa.

    A jovem tornara-se letárgica desde que deixaram o castelo, movendo-se lentamente. A sua cauda, rígida; o corpo tremendo tanto que quase parecia prestes a ter uma convulsão. Mas não julgou que estivesse tão mal.

    Até que, de repente, caiu.

    Siegfried estava três passos na frente do grupo, liderando o caminho, quando ouviu o corpo dela atingir a água lamacenta do pântano e correu para ajudá-la. Só então percebeu o quão gelada estava. Seu coração, tão fraco que quase parecia não pulsar. A pele pálida. E, não importava o que fizesse, a jovem se recusava a acordar.

    — Mas que merda é essa?!

    — Ela tá perdendo calor — disse Blossom, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Cobras regulam a sua temperatura usando o ambiente. E tá frio. Então ela não consegue se aquecer.

    Siegfried precisou de um instante para absorver a informação. Agora que Mimosa era um monstro, parecia ainda mais frágil do que antes.

    — Precisamos achar um abrigo.

    Mas onde?

    As árvores eram todas muito finas e a copa delas não protegia da chuva. Além disso, onde estavam, a água chegava quase no joelho. Era impossível se manter seco, quem dirá acender uma fogueira.

    Sem escolha, pegou Mimosa no colo e apressou o passo. O pântano não era tão extenso. Talvez um dia inteiro de caminhada antes de chegarem ao fim dele. Quem sabe pudesse cruzá-lo ainda mais rápido. Chegar a um lugar seco. Encontrar abrigo.

    Ao invés disso, encontraram outra coisa.

    Já haviam se afastado bastante do Castelo dos Ossos. Três horas de caminhada, noite à dentro. E não seria fácil encontrar seus rastros no meio do pântano. Ainda assim, foram seguidos.

    Siegfried foi o primeiro a notar.

    Um pequeno farfalhar na copa das árvores, uma brisa suave vindo das suas costas e então a leve ondulação na água atrás deles. Quando se virou, a primeira coisa que viu foram as lâminas voando em sua direção: espinhos negros como carvão e grandes como adagas.

    A maioria caiu na água ou atingiu uma das árvores próximas, mas um deles quase levou o seu olho.

    E, de repente, lá estava a criatura…

    Seu corpo era de uma leoa adulta, com cerca de um metro e quarenta de comprimento. Espinhos afiados com trinta centímetros se projetavam do meio da sua coluna até a ponta da sua cauda — onde terminavam em um amontoado de espinhos maiores que lembravam a cabeça de uma maça de armas com espigões

    A sua pelagem de um tom dourado avermelhado e asas que chegavam a cinco metros e meio de envergadura quando a criatura as abria.

    O rosto da quimera era o de uma mulher jovem, com cerca de vinte e poucos anos, mas que não demonstrava qualquer traço de humanidade. Um animal. Uma monstruosidade. E seu desconforto se tornou ainda maior quando ela falou:

    — Socorro! — Sua voz, idêntica a de uma mulher assustada, embora a sua face não demonstrasse medo algum. Um animal. Uma predadora. Mas ao invés de rugidos, o que saía de sua boca eram os gritos de uma mulher: — Por favor! Alguém. Estou perdida.

    Siegfried entregou Mimosa para Blossom e então avançou.

    A criatura abriu suas enormes asas de morcego e ficou nas patas traseiras para lhe mostrar que era muito maior. E quando rugiu, sua voz feminina se transformou em outro pedido de ajuda:

    — Socorro! Alguém. Por favor!

    O aço anão arrancou a pata esquerda da quimera, que deixou escapar um grito de dor antes de fugir para a copa das árvores e desaparecer por entre a escuridão. Mas não sem deixar uma lembrança. Assim que Siegfried voltou para as garotas, notou que Mimosa estava sangrando.

    Um dos espinhos de antes havia atingido a jovem no braço. Apenas um corte superficial, mas agora estava imóvel e isso dificilmente era algo bom no seu estado atual, por isso se apressou em parar o sangramento com a única coisa que tinha à sua disposição naquele momento: o lenço de Dara. O tecido era curto demais para o braço dela, então foi preciso arrancar também o cordão da sua camisa para amarrá-lo em volta da ferida. Infelizmente, era o melhor que podia fazer.

    — Precisamos seguir em frente.

    E foi o que fizeram.

    Não levou muito tempo para Siegfried lembrar que podia manter Mimosa aquecida usando o calor do seu próprio corpo. Algo que Blossom se mostrou incapaz de fazer; embora andasse e falasse, não era muito diferente de um cadáver no resto — também regulava a sua temperatura de acordo com o ambiente, embora não sentisse calor ou frio.

    Assim que encontraram um lugar mais ou menos seco em uma árvore baixa que puderam escalar, o rapaz se apressou em mandar que parassem e descansassem. Acordou na manhã seguinte com Mimosa enroscada nele e prendendo ambos na árvore até que ela mesma acordasse.

    Deixaram o pântano ao entardecer daquele dia. Nessa altura, Mimosa já era capaz de se manter acordada, embora ainda sentisse cãibras e não conseguisse mais se equilibrar sozinha com sua cauda rígida, por isso passava a maior parte do tempo nos braços de Siegfried.

    — Eu vou acabar mal-acostumada se você não parar de me carregar assim — brincou a jovem.

    Também conseguiram acender uma fogueira ao anoitecer, embora não tenha sido fácil encontrar galhos secos o bastante, especialmente graças à chuva que se recusava a ir embora. Vez ou outra, o céu se acalmava, mas não durava muito. E em breve seria neve, não chuva.

    Como se tudo isso não bastasse, a mulher-leão vinha seguindo o trio desde seu último encontro.

    Podiam ouvi-la na copa das árvores durante o dia ou espreitando por entre as sombras durante a noite. De vez em quando também viam ou ouviam uma de suas presas mortas — cobras e crocodilos em sua maioria; e às vezes ela fazia questão de deixar as suas carcaças logo à frente do grupo, como um aviso.

    Mas havia um lado positivo: como a quimera fez questão de estabelecer seu domínio sobre a área de caça, os predadores depressa aprenderam a se manter longe, por isso não chegaram a encontrar nenhum em seu caminho.

    Chegaram no povoado ao anoitecer do dia seguinte. Dois dias depois de terem deixado o Castelo dos Ossos.

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