Capítulo 0170: Dúvidas e conflito
A leve garoa já havia se tornado uma tempestade quando chegaram ao povoado; uma comunidade abandonada a pouco mais de meio quilômetro da floresta de onde vieram.
Cerca de vinte ou trinta casas. As melhores delas tinham a madeira envelhecida, cinzenta e podre em sua base, que já começava a afundar no solo; as piores, além disso, foram também dominadas por ervas daninhas, arbustos e trepadeiras que cresciam ao seu redor. E uma ou outra havia desabado sobre si mesma há muito tempo.
Ainda assim, continuava sendo o melhor abrigo que o trio encontrou desde que deixou o Castelo dos Ossos.
Escolheram uma velha taverna mais próxima de onde chegaram e só um pouco melhor do que as outras estruturas ao seu redor. Os elementos e o tempo haviam apagado a maior parte da tinta em sua placa, mas ainda era possível ler o bastante para saber que se chamava: O Macaco Imortal.
A porta de entrada estava um pouco inchada por causa da umidade e não abria, por isso Siegfried precisou derrubá-la com um chute. As dobradiças enferrujadas cederam e a porta atingiu o chão com um estrondo, permitindo que o vento frio da noite invadisse o salão vazio. Nada.
Siegfried liderou o caminho, enquanto Blossom e Mimosa o seguiam.
Tal como era de se esperar, o lugar já havia visto dias melhores. Suas janelas escuras de sujeira e as paredes ao redor descascando da umidade, com manchas de mofo em cada canto, para não mencionar o frio e o fedor. Mas parecia quase um palácio se comparado ao pântano do qual vieram.
— Vamos passar a noite aqui — decidiu Siegfried. — Amanhã eu dou uma olhada nas outras casas pra ver se encontro alguma coisa.
E começaram a explorar a taverna.
Infelizmente não tinha o conhecimento, tão pouco as ferramentas necessárias para reparar a porta, por isso o melhor que pôde fazer quanto a ela foi escorá-la onde estava e arrastar uma mesa para mantê-la no lugar.
A despensa estava vazia, assim como os demais cômodos do primeiro andar. Quando terminaram de vasculhá-lo, os três seguiram para o segundo. Obviamente a porta escorada não manteve o frio longe, então Siegfried decidiu que seria melhor se fossem para uma sala qualquer no andar de cima, longe do vento.
Foi onde encontraram as crianças.
Estavam escondidas em um dos dois quartos no segundo andar, mas assim que Siegfried quebrou a porta com um chute, deixaram escapar um grito e o rapaz soube que estavam lá.
Um garoto de sete anos, outro de oito e um grupo de trigêmeas de dez anos. Todos eles de cabelos castanhos; as garotas de um tom mais acobreado do que os garotos com seus cabelos escuros que beiravam o negro. Embora não houvesse dúvidas quanto às trigêmeas, não pareciam ser irmãos. Não todos eles. Órfãos, provavelmente. Reunidos por nada além do medo de ficarem sozinhos…
E a mulher que estava com eles.
A única adulta que encontraram. Uma garota com vinte e quatro anos. Cabelos negros como a noite e olhos castanhos. E a julgar pela forma como ela parecia tentar esconder o garoto mais novo atrás de si, provavelmente era a sua mãe ou irmã mais velha.
— Tudo bem — disse Mimosa, tentando sorrir de forma amigável. — Não vamos machucá-los.
E talvez tivessem acreditado nela, se não fosse pela sua enorme cauda de cobra. Assim que as crianças a viram, começaram a chorar ou gritar. Mesmo a mulher mais velha agarrou o garotinho com mais força, como que tentando protegê-lo.
Enquanto isso, Siegfried vasculhava o resto do quarto em busca de mais alguém que pudesse estar escondido. Quando não encontrou nada, perguntou:
— O que estão fazendo aqui?
Mas a mulher se limitou a encará-lo, dando o seu melhor para esconder o medo, e não disse nada. O motivo era fácil de imaginar.
“Ela pensa que somos bandidos. Ou coisa pior.”
Até que Blossom falou:
— Desculpe a invasão. Só estamos procurando um lugar quente pra passar a noite. Vamos partir amanhã de manhã, bem cedo, se estiver tudo bem por vocês.
A mulher hesitou. Deu uma boa olhada na jovem e, após um breve silêncio, reuniu coragem o bastante para dizer:
— P-podem ficar com o outro quarto.
— Obrigada.
Não que precisassem da sua permissão. Ainda assim, era bom que estivessem em bons termos. E ela deve ter percebido isso. Então o trio seguiu para o quarto ao lado, muito mais frio e vazio do que o anterior.
O piso de madeira deformado, com algumas das tábuas podres. Mofo crescendo nos cantos e teto do quarto, que pingava ininterruptamente. Sem mencionar suas janelas mal vedadas, que pouco faziam para impedir que o frio tomasse conta do quarto, mesmo fechadas. O cheiro de madeira úmida impregnando o ar.
Tal como o quarto anterior, aquele também tinha apenas uma cama, muito mais desgastada; o seu colchão de palha: velho, achatado e úmido. Pelo menos, a mulher havia lhes dado uma coberta de lã grossa, meio mofada e completamente desbotada, mas grande o bastante para os três.
— É tudo o que temos — ela disse, se dirigindo à Blossom. — Sinto muito.
Então foi embora, mas não sem antes lançar um olhar avaliador sobre Siegfried e Mimosa. Estava claro que não gostava deles. E por que deveria? Mesmo antes de Mimosa ser transformada numa quimera, já era uma cigana. Uma cigana monstro dificilmente despertava confiança nos outros. E um rapaz maltrapilho armado com uma espada, menos ainda — especialmente com tantos deles assaltando inocentes na estrada hoje em dia.
Blossom era o mais próximo que tinham de uma jovem limpa, humilde e bem-comportada.
“A Ethel também era boa com as pessoas”, mas preferia não pensar nisso.
♦
A cama era grande o bastante para dois adultos, mas mesmo assim o trio ficou espremido, com a Mimosa no meio deles; Siegfried a abraçando por trás, enquanto ela abraçava Blossom, para se manter aquecida.
Mas talvez não tenha sido uma boa ideia tirar as roupas encharcadas.
A mulher de antes foi bastante gentil em oferecer vestidos novos para Mimosa e Blossom, mas não havia nada para Siegfried, que teve de se manter nu por baixo da coberta. Algo que as incomodou bem menos do que supunha.
— Já dormimos juntos antes — disse Mimosa. — Não vejo como isso seria diferente. Ou pretende deitar no chão? Vai acabar pegando um resfriado. É assim que quer morrer?
Blossom foi ainda menos compreensiva:
— Não vejo como isso seria um problema, mas pode usar o meu vestido se quiser.
Obviamente, Siegfried recusou.
E, de repente, lá estavam…
A sua mão direita na barriga de Mimosa. A bunda dela encaixada no seu quadril, enquanto dormiam de conchinha. O cheiro de folhagem e chuva no cabelo desgrenhado da jovem. E de todas as conversas que tiveram, a que veio à sua mente foi…
“Você gosta de mim?”
Não.
E percebeu isso já há algum tempo. Não gostava dela. Nem de Lavina, ou Dara, Lura. A verdade é que nunca gostou de nenhuma delas. Luxúria era a única coisa que sentia por elas. Exceto Lura. O que sentia por ela era… Diferente.
Dara alimentava a sua ambição. Era uma nobre. Herdeira da casa Essel. Casar com ela faria dele conde, com seu próprio castelo, terras e exército. Ela lhe dava tudo! Tudo aquilo o que desejava e mais um pouco. Além disso, era bonita. Não. Era linda! Para não dizer que tinha sido também a sua primeira e, por algum tempo, a única. Como poderia não amá-la? Como poderia não ser leal a ela? A noiva perfeita.
Até que Anna lhe mostrou que o que Dara tinha entre as pernas não era especial e Lavina deu a ele muito mais.
E quanto às outras? Beth, Ethel, Mimosa. Menos ainda. Apenas donzelas bonitas de ver em terras onde tudo era feio; gentis onde tudo era violento; e limpas onde tudo era sujo. Um pequeno pedaço de paraíso no meio do inferno. Nada mais, nada menos. Únicas apenas pela falta de opções. Tal como Mimosa havia dito:
“Era a mesma coisa quando eu me juntava com uma caravana. Os garotos começam a ficar impacientes quando passam muito tempo sozinhos com uma garota. É pra isso que existem as rameiras.”
No fim das contas, talvez não amasse nada e a ninguém.
“Finalmente entendeu, não é?”, sussurrou Lili em seu ouvido. “Os seus sonhos de cavalaria sempre foram apenas isso, sonhos. E ela não é especial. Nenhuma delas é. Nenhuma delas nunca vai ser. Honra, devoção, amor. Palavras bonitas, só isso. Nada além disso. Por que se apegar a elas?”
Lili segurou a sua mão e a conduziu, puxando a barra do vestido de Mimosa para cima, antes de fazê-lo deslizar os dedos até a barriga dela. Sua pele quente e macia.
“Você pode ter tudo.”
Mimosa estremeceu, mas não se moveu, e antes que ele se desse conta, tinha a mão-cheia com o seio esquerdo dela.
“Você merece ter tudo!”
Até que um grito o interrompeu.

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