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    Siegfried e os outros chegaram ao Castelo dos Ossos um pouco após o entardecer, mas decidiram esperar até à noite para invadir.

    Melias Kroft usou o tempo para meditar, Tom preferiu rezar e Blossom tomou para si a tarefa de vigiar o perímetro, enquanto Mimosa se aconchegava em Siegfried — algo que vinha fazendo bastante; embora fosse aquela com mais camadas de roupa para espantar o frio, era também a que mais tremia.

    A garota-nagah usava quatro trajes sobrepostos. Roupas íntimas de linho, por baixo de um vestido de lã, por baixo de um vestido cottehardie e um surcote, por baixo de uma capa forrada com pele de raposa. Ainda assim, não foi o bastante. A sua cauda era a parte mais sensível e também a mais exposta. Embora os vestidos cobrissem boa parte dela, a sua ponta estava completamente descoberta e arrastava na água gelada e lamacenta do pântano quando Siegfried não a carregava — e não podia carregá-la o tempo todo.

    Mesmo quando paravam, não podiam correr o risco de acender uma fogueira, então a sua única fonte de calor eram as roupas já muito umedecidas da viagem e o próprio Siegfried, que a mantinha aquecida sempre que possível.

    — Tô começando a achar que isso é só uma desculpa pra você ficar agarrada comigo.

    — Engraçado, eu ia dizer o mesmo.

    E riram.

    Estavam ambos aconchegados no galho mais forte de uma árvore, Mimosa enroscada em Siegfried com a sua cauda, quando o rapaz ouviu uma voz familiar em sua mente.

    “Ora! Ora! O que temos aqui.”

    E sentiu o sangue gelar ao reconhecer a voz de Eroth.

    Quando a noite finalmente veio, não havia lua e as estrelas se escondiam por trás de nuvens escuras. O nevisco havia se tornado uma verdadeira nevasca e com ela veio um nevoeiro espesso que cobria a paisagem de tal modo que precisavam se manter próximos uns dos outros para não se perderem. Tudo a mais de três metros não passava de um borrão — quando podiam ver algo.

    A passagem que usaram para escapar da última vez havia sido selada, então coube a Blossom encontrar outra. No fim, tiveram de escalar uma velha árvore inclinada que se curvava próxima ao muro, como se convidasse os intrusos a invadirem o castelo. Entrar era sempre mais fácil do que sair.

    Novamente, Blossom tomou a liderança e foi a primeira a saltar para o lado de dentro. E assim que garantiu que não havia ogros por perto, deu um sinal para que os outros a seguissem; Siegfried foi o próximo e pegou Mimosa quando ela pulou atrás dele — normalmente a garota teria sido mais do que capaz de aterrissar sozinha, mas o frio havia lhe deixado morosa e seus reflexos não estavam tão bons.

    Tom pulou em seguida e Siegfried também o ajudou a aterrissar. Melias Kroft foi o último e não precisou de ajuda; algo que fez questão de deixar bem claro:

    — Da próxima vez que estender a mão pra mim, eu arranco ela e guardo no meu bolso.

    E esbarrou no ombro de Siegfried ao passar por ele.

    Aparentemente, o Homem de Olhos Amarelos ainda guardava algum rancor do rapaz. Se por ter sido humilhado, perdido o Castelo dos Ossos ou simplesmente sentir ciúmes de Andrella, era difícil dizer. Não que importasse.

    Melias Kroft não lhe representava ameaça.

    O pátio do castelo era um enorme nada tingido de branco e terrivelmente frio; a única coisa que se podia ouvir era o vento uivando tão violentamente que os passos deles não se sobressaiam, mesmo que corressem. Um deserto branco.

    E embora mal pudessem ver um palmo à frente do rosto, Siegfried sentia como se estivessem sendo observados. Aquele era o domínio de Eroth afinal. E não havia como saber até onde iam seus poderes.

    “Eu sou uma deusa”, lembrou de tê-la ouvido dizer há muito tempo. “Ou o mais perto de uma que você jamais chegará.”

    Assim que todos os cinco estavam juntos, Blossom liderou o caminho até a entrada do prédio principal — apesar de não poderem vê-lo, a garota conhecia o castelo bem o bastante para levá-los até lá e mesmo Siegfried lembrava mais ou menos a direção correta. De vez em quando podiam ver uma sombra ou escutar um barulho qualquer ao longe, mas nada além disso. Eram invisíveis…

    Até que entraram no prédio e deram de cara com Esmond Kroft.

    O primogênito do barão Kroft estava andando sozinho no corredor escuro e, antes que pudesse gritar por ajuda, Blossom o agarrou e tampou a sua boca. As coisas tinham acabado de ficar complicadas.

    Melias Kroft puxou uma faca e começou a se aproximar do garotinho, quando Mimosa se pôs entre eles, de repente muito acordada, e sussurrou indignada:

    — O que você tá fazendo?

    — Não temos tempo pra isso. Se ela notar que estamos aqui…

    — Então vai simplesmente matar ele?

    — Se o soltarmos, ele vai gritar e todos nós estaremos mortos.

    — Ele não é o seu neto?!

    — É ele ou a gente!

    E, simples assim, estavam em um impasse.

    Esmond era só uma criança; mal devia ter oito anos. Ninguém ali queria realmente matá-lo, mas não tinham tempo. Não podiam correr o risco.

    “Se eu tomar vidas inocentes, que não tire disso qualquer prazer pessoal”, Siegfried lembrou de seus votos.

    Não seria a primeira criança a morrer na ponta da sua espada e, por pior que fosse, era pouco provável que fosse a última. Então apertou o cabo da espada. Mas antes que pudesse fazer algo, Blossom soltou Esmond e todos prenderam a respiração por um momento. No entanto, ele não gritou, nem tentou fugir ou o que fosse. Ao invés disso, ajeitou a postura, os encarou de cima por cinco segundos e perguntou calmamente:

    — Vocês vieram matar a minha mãe?

    Silêncio.

    Até que Siegfried confirmou e o garoto completou:

    — Só ela?

    — Só ela.

    — Então vão em frente. Não me importo.

    Mas ninguém se moveu. E se ele estivesse apenas esperando que se afastassem para acordar o castelo inteiro ou chamar alguém?

    Não podiam confiar nele, mas não precisavam. Siegfried foi o primeiro a perceber: Blossom sabia que o garoto não gritaria, por isso o soltou. Ela tinha servido à casa Kroft por pouco tempo, mas aparentemente foi o bastante para entender a dinâmica familiar.

    Não existe amor entre os nobres.

    Talvez Esmond fosse apenas um covarde tentando proteger a si mesmo ou quem sabe desejava herdar o título de barão Kroft — agora que o seu pai estava morto, Eroth era a única coisa em seu caminho… Não que uma criança de oito anos fosse dar um grande lorde, mas não seria impossível que fosse esse o seu objetivo. A maioria dos fidalgos tem mais ambição do que bom senso, de qualquer modo.

    “Não que ele vá conseguir o que quer. Esse castelo é meu.”

    Siegfried deixou todos para trás e começou a subir as escadas, com Blossom logo atrás dele; Mimosa esperou até que Melias Kroft e Tom os seguissem, antes de começar a subir também, deixando o pequeno Esmond para trás.

    Não voltaram a encontrar ninguém. Os corredores do segundo e terceiro andar estavam completamente vazios. E não foi difícil achar o quarto de Eroth, pois tanto Blossom como Melias sabiam o caminho. O cômodo ficava no terceiro andar, onde havia apenas duas portas; uma à direita e outra à esquerda. Entraram na da esquerda.

    E encontraram Eroth esperando por eles.

    A elfa estava sentada na sua cama de dossel, com as cortinas de lã abertas. O vestido branco de chemise, com um pequeno manto azul por cima. Assim que os viu, ela sorriu e disse:

    — Por que demoraram tanto?

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