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    Siegfried sentiu o coração parar por um instante quando a explosão o atingiu e seu sangue se tornou gelo.

    Primeiro foi como se mil milhares de agulhas atravessassem-lhe o corpo ao mesmo tempo, rasgando músculos e perfurando ossos. Cada fibra do seu ser gritando em agonia. E então… Nada. Sua mente ficou nublada por um segundo e, quando voltou, o mundo era branco. A princípio, pensou que estivesse cego, mas não — era apenas neve.

    O quarto inteiro havia sido tingido de branco. As paredes revestidas com uma fina camada de gelo, enquanto os móveis quebrados desapareciam por baixo da neve e a neblina densa obscurecia a visão. Se não soubesse melhor, poderia pensar que estavam do lado de fora; transportados para alguma floresta abandonada ou coisa do tipo.

    Até que viu Eroth.

    A elfa surgiu como uma aparição, saindo da neblina e se aproximando calmamente. Seu vestido de chemise e o pequeno manto azul haviam desaparecido; em seu lugar, trajava uma armadura completa feita de gelo cristalino.

    A couraça ajustada para realçar suas formas femininas; o peitoral levemente arredondado e a cintura fina terminando em uma curta saia de placas. Os braçais e as grevas perfeitamente moldadas para abraçar a sua figura; braços finos e coxas grossas. Mas ao invés de metal, tudo era feito de gelo. Limpo como um espelho que refletia as imagens ao seu redor. Quase invisível em meio a tanto branco. Um cavaleiro fantasma.

    Siegfried voltou a sentir o seu sangue gelar.

    — Vocês lutaram bem — disse Eroth —, mas toda resistência termina aqui. Curvem-se diante do inevitável!

    Melias Kroft foi o primeiro a se pôr de pé. Os cabelos prateados embranquecidos e rígidos do frio; as mãos arroxeadas tremendo tanto que mal conseguia segurar o bastão. Ainda assim, estava de pé.

    Parecia querer dizer algo, mas, se chegou a dizer de fato, ninguém ouviu.

    Eroth se limitou a erguer o braço, apontando para o seu ex-marido quase sem se importar e, no mesmo instante, o peito de Melias Kroft começou a sangrar. Foi só quando o sangue escorreu vermelho pelo ar, dando forma à lâmina invisível, que Siegfried percebeu que a baronesa Kroft segurava uma espada feita de gelo semitransparente.

    O Homem de Olhos Amarelos se apressou em recuar, se libertando da lâmina invisível e tombando para trás, enquanto Eroth assistia com um sorriso no rosto e perguntava:

    — Quem é o próximo?

    No mesmo instante, uma flecha cortou o ar e atingiu a elfa na viseira aberta, mas ao invés de perder um olho, Eroth desapareceu como se nunca tivesse existido. Seu corpo tornou-se névoa e essa névoa se misturou à neblina que tomava conta do quarto.

    E então voltou a aparecer em outro lugar, como se sempre tivesse estado lá:

    — Eu esperava uma luta digna, mas vejo que subestimei minha própria superioridade.

    Siegfried sentiu o seu sangue explodir em chamas e deixou que Lili tomasse conta. O calor dela derretendo o lago congelado que era seu sangue. Fogo contra gelo. E, antes que se desse conta, estava de pé novamente.

    “Mate!”

    Encurtou a distância entre si e Eroth em um piscar de olhos. O aço anão atravessando o peito dela.

    Outra ilusão.

    Eroth se desfez em neblina e voltou a surgir em outro lugar. Desta vez, atrás de Siegfried. Mas antes que o rapaz pudesse fazer algo, Melias Kroft destruiu também essa ilusão. E a original apareceu por trás dele:

    — Que tipo de covarde ataca uma mulher pelas costas?

    E sua espada de gelo atravessou o peito do Homem de Olhos Amarelos, que caiu de joelhos. Mas ao invés de se deixar fraquejar e desistir, Melias segurou a lâmina com as mãos nuas, prendendo Eroth onde estava. Não uma ilusão, mas a verdadeira.

    E Blossom não deixou a oportunidade passar.

    Eroth nem teve tempo de praguejar, antes que uma flecha atingisse a lateral do seu elmo de gelo. E por mais impressionante que a sua armadura fosse, era também bastante delicada — o elmo rachou e se desfez como cacos de vidro, que desapareceram em flocos de neve antes de atingirem o chão, expondo metade do rosto da elfa.

    Uma armadura de vidro. Imponente, mas frágil.

    E enquanto Eroth se distraía procurando por Blossom, escondida na névoa, Siegfried se lançou contra a baronesa Kroft — e desta vez não era uma ilusão. O aço anão atravessou-lhe o peito completamente e o impacto fez a sua armadura desaparecer em uma explosão de flocos de neve brilhantes que voaram em todas as direções, criando um pequeno redemoinho que gelava os ossos.

    E então era apenas Eroth novamente, com o seu vestido de chemise branco arruinado de sangue e o manto azul tornado marrom.

    Infelizmente, acabou errando o coração, mas pouca diferença fez e percebeu isso quando a olhou nos seus olhos cor de âmbar que brilhavam de forma intensa. Lágrimas. Foi como soube que a vitória estava em suas mãos. Mas não era a primeira vez, por isso girou o cabo da espada e arrancou a lâmina violentamente, fazendo questão de abrir a ferida.

    Eroth cambaleou para trás e as suas pernas trêmulas vacilaram, fazendo-a cair no chão.

    “Mate!”, sussurrou Lili.

    Siegfried deu um passo na direção dela e a elfa se apressou em tentar levantar; quando não conseguiu, virou de costas e se arrastou para longe. Não que houvesse para onde ir.

    — N-não — ela disse. — Assim não. Eu não cheguei tão longe pra acabar assim.

    Eroth já havia alcançado a parede do quarto quando parou e se virou para Siegfried, que se aproximava calmamente.

    “Ela não tá se curando”, percebeu.

    Será que estava sem magia? Talvez mesmo os poderes dela tenham limites. Teria usado todos eles na batalha? Se fosse esse o caso, então agora não passava de uma mulher indefesa. Ainda assim, tinha de ser cauteloso.

    — E-espere! — disse Eroth. — O que vai fazer?

    — …

    — V-você não pode me matar. Eu poupei a sua vida. Mais de uma vez. Salvei sua amiga.

    — Você matou Ethel e transformou Mimosa em um monstro.

    — P-posso trazê-las de volta.

    Siegfried parou.

    — As duas! Posso trazê-las de volta. Você precisa de mim. Eu…

    Mas antes que pudesse terminar a sua frase, uma flecha atingiu seu peito, prendendo-a na parede. Eroth tragou o ar com força; uma, duas, três vezes, e então perdeu a consciência.

    Quando Siegfried se virou, Blossom estava a pouco menos de três metros dele, com o seu arco vazio ainda apontado na direção de Eroth. Os dois trocaram um olhar rápido e então ela se afastou.

    Aparentemente, Melias Kroft não era o único em busca de vingança.

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