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    Era o primeiro dia de inverno — o dia da humildade —, mas o pátio do Castelo dos Ossos estava cheio de vida.

    Blossom havia retornado ontem de manhã. Ela, Andrella, Kira e mais onze plebeus; um rapaz de quinze anos e um homem de trinta, com o restante sendo mulheres entre quatro e quarenta anos.

    Deveriam ter sido dezoito plebeus, mas um dos homens escolheu ficar para trás; o resto da comunidade havia-no excluído depois de ter se provado um covarde na batalha contra Siegfried há duas semanas, quando atearam fogo na taverna onde estava e tentaram matá-lo.

    Não pôde deixar de sentir certa piedade pelo rapaz. Deve ter pensado em si mesmo como um herói, enfrentando os estrangeiros perigosos que invadiram seu povoado. Todas as mulheres assistindo; torcendo por ele. E agora morreria de frio e sozinho, enquanto essas mesmas mulheres sorriam e brincavam no pátio de Siegfried…

    A maioria delas.

    Invadir e tomar o Castelo dos Ossos foi mais fácil do que Siegfried havia esperado por um motivo bastante simples: os três ogros que protegiam a fortaleza haviam fugido há mais de três semanas, quando Blossom libertou as quimeras e ajudou Siegfried e Mimosa a escaparem. Na confusão, Eroth perdeu seu controle sobre os monstros e estes deixaram o castelo.

    Onde estavam agora? De uma coisa tinha certeza: pelo menos um fez do pântano seu novo lar.

    Durante a viagem de volta, Blossom acabou se deparando com a criatura e perdeu seis plebeus — dentre eles, três garotinhos com menos de onze anos e três mulheres que já passavam dos trinta. Apenas com bastante esforço e sacrifícios que a jovem conseguiu espantar o monstro.

    “E se vou governar estas terras, é melhor já começar a pensar em enfrentá-lo.”

    Havia pouca caça no pântano, em especial durante o inverno. Se o ogro não partisse logo, em busca de outra área de caça, não teria escolha senão voltar ao Castelo dos Ossos atrás de alimento.

    Mas ninguém parecia pensar nisso.

    As mulheres sorriam e brincavam com total desapego, enquanto andavam pelo pátio do castelo, limpando e fazendo os preparativos para o casamento.

    Siegfried estava no quarto de Mimosa, vendo tudo da janela aberta. E, embora a garota já tivesse se recuperado, vinha evitando-o com bastante afinco desde que soube do noivado.

    — E você concordou!?

    — Eu não tive muita escolha.

    — Sei. Realmente. Aposto que deve ter sido um sacrifício ‘enorme’ pra você.

    E foi a última vez que Mimosa lhe dirigiu a palavra. Exceto que voltou alguns minutos depois pedindo detalhes. E então, sim, foi a última vez que ela lhe dirigiu a palavra.

    Embora Mimosa não acreditasse, a verdade é que Siegfried também não estava satisfeito com o desenrolar repentino.

    Melias Kroft o pôs em uma posição delicada. Claro, Siegfried poderia recusar o casamento e forçá-lo a entregar o Castelo dos Ossos — poderia mesmo matá-lo e encerrar o assunto de uma vez por todas. Mas e depois?

    Um homem sozinho não pode defender um castelo inteiro. Precisava de aliados. Não só de subordinados e soldados, mas também de comandantes — homens para liderá-los na sua ausência. E, por mais que lhe doesse admitir, Melias Kroft era a sua melhor opção no momento — e se para garantir a sua lealdade precisava que seu futuro filho tivesse uma ou duas gotas de sangue Kroft, que seja.

    Mas a esposa que Melias escolheu…

    — Espera que eu me case com a sua neta?

    — Se quiser o castelo, sim.

    — Ela tem o quê? Cinco anos?

    — Sete.

    — E espera que eu ponha um filho em uma criança de sete anos?

    — Só se você for doente. Não sei de onde veio, mas em Thedrit não temos o costume de levar criancinhas pra cama de casal.

    — De onde eu venho, casamentos são formalizados com uma noite de núpcias.

    — Um costume bárbaro, sem dúvidas. Não fazemos isso por aqui. Uma vez que aceite ela como sua esposa, ela será sua esposa. Não há lei que o impeça de ter sua… ‘Noite de núpcias’. Mas ela é nova demais pra isso. Se faz tanta questão de foder alguém no seu casamento, eu posso lhe arranjar algumas rameiras.

    E deste modo tudo foi decidido.

    Cinco dias haviam se passado desde então e o casamento seria hoje, pois o primeiro dia de inverno era sagrado. Simbólico.

    E não, não haveria rameiras!

    Segundo as tradições, o pretendente a noivo deve completar uma tarefa dada pela família da noiva com o intuito de testar sua coragem e força. Embora a tarefa fosse pensada para ser desafiadora, era do interesse da família que não fosse impossível — uma tarefa fácil demais poderia vir a desmerecer a virtude da própria noiva como uma mulher ‘fácil’, assim como uma tarefa difícil demais poderia afastar futuros pretendentes e impedi-la de se casar.

    A maioria dos familiares escolhe um simples combate corpo-a-corpo entre o pretendente e o pai da noiva — algo particularmente comum entre plebeus. Desta forma, o pai da garota pode ‘perder de propósito’ em favor de um pretendente que lhe agrade, embora tal prática não seja bem-vista.

    Tecnicamente, Siegfried já havia derrotado o pai e o avô de Eva. E, embora estivesse disposto a repetir o feito, isso não foi necessário.

    Melias Kroft havia pedido a sua ajuda para tomar o Castelo dos Ossos e isso por si só foi considerado uma missão de casamento.

    A próxima etapa teria sido a unção do noivo por um sacerdote que reconheça seus feitos e virtudes, mas isso também não foi necessário por um simples motivo:

    — Você é um cavaleiro?! — Melias Kroft não se deu ao trabalho de esconder o espanto. — Sabe que mentir sobre isso é uma ofensa grave, não é?

    — Agora sei. Seja como for, continuo sendo um cavaleiro.

    — Quem o armou?

    — A Baronesa Raven Whitefield, senhora do Salão Branco.

    — Uma mulher não pode armar um cavaleiro!

    — Mas uma matriarca, sim.

    E foi o fim da discussão.

    Aparentemente, cavaleiros não precisam ser ungidos por um sacerdote para se casar, pois presume-se que já foram sagrados por seus feitos e suas virtudes foram atestadas pelo próprio Elyon.

    Em outras palavras, tudo o que Siegfried tinha de fazer era esperar.

    Esperar enquanto a sua pequena esposa era banhada e preparada por Andrella e outra plebeia qualquer, pois a tradição diz que a noiva deve passar o dia do seu casamento sendo preparada por mulheres santas — não apenas sacerdotisas, mas também mães de família… O que não inclui viúvas.

    Normalmente, a mãe da própria noiva estaria presente para confortar a filha, assim como a mãe do noivo e outras parentes. Mas Eroth era uma prisioneira e a mãe de Siegfried estava morta há muito tempo. As mulheres que estavam com Eva agora não passavam de estranhas.

    Thedrit era cheia de tradições.

    — Milorde — chamou uma serva qualquer. Uma das mulheres que Blossom resgatou. — Está na hora.

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