Capítulo 0189: Justiça!
Eroth não podia se mover.
Seus pulsos, presos por grilhões — cada um dos quais, preso a uma parede oposta, de modo que seus braços estivessem sempre abertos e muito bem esticados. Em volta do seu pescoço, uma coleira — presa ao chão, de modo que não pudesse se levantar. Os pés, acorrentados um ao outro.
Suas correntes, as mesmas que havia usado em Siegfried há muito tempo. Até a cela era a mesma; em parte por praticidade, em parte por vingança.
Não apenas isso, mas como era uma bruxa e a extensão completa de seus poderes ainda lhes era desconhecida, tiveram de amordaçá-la, vendá-la e cobrir seu rosto com uma sacola de pano. Não podia ver. Não podia falar. Ainda assim…
Poder.
Siegfried havia-na despido como uma forma de humilhação, mas não funcionou.
Eroth não tinha qualquer pudor e claramente não era humana. Não sentia fome ou sede e, portanto, não podia torturá-la privando-lhe de suas refeições. Tampouco parecia necessitar de uma latrina — ela simplesmente não tinha qualquer necessidade fisiológica. Continuava tão linda como sempre; e isso era frustrante.
Mesmo acorrentada naquele buraco, despida e exposta feito um animal, privada de comida e água…
“Você ainda pensa em mim como uma mera mortal”, disse Eroth. “Mas se esquece de que sou uma deusa!”
“E ainda assim, aqui estamos nós.”
“Se acha que esta prisão pode me deter…”
“Não tenho tempo pros seus delírios de grandeza. Nós te derrotamos. Você perdeu. Aceite isso.”
Siegfried não podia ver o rosto de Eroth por baixo da sacola, mas, de alguma forma, ainda conseguiu ver o sorriso no rosto dela, quando disse:
“Eu pareço derrotada pra você?”
“…”
“Se estou nesta cela, garanto que é por um motivo. Um único motivo e apenas um: porque eu quero. Não se iluda pensando o contrário.”
“Você é maluca.”
“Então por que não me mata?! Ora! Será que é porque não pode ou porque não consegue?!”
“Você fala grande pra alguém que tava implorando pela vida há alguns dias.”
“Talvez. Ainda assim, eu tinha razão, não é?! Você precisa de mim. Precisa do meu poder.”
“Isso eu ainda vou decidir.”
“Leve o tempo que precisar. A resposta será a mesma. Você teme que eu me vire contra você. Teme não ser capaz de me deter. Pois bem! Tem razão em temer. Mas, acorrentada ou não, você nunca estará seguro. Nenhum de vocês está. Não de verdade. Ainda assim, eu não lhe desejo mal algum. Eu o acolhi, te protegi e fiz florescer algo lindo dentro de você. Estenda a sua mão e eu posso ser a sua deusa. Posso lhe dar poder. Posso lhe dar tudo.”
“Se eu ganhasse uma moeda toda vez que uma maluca me dissesse isso…”
♦
O dia da humildade passou, o inverno chegou e um novo dia começava no baronato de Kroft.
Cinco dias haviam se passado desde o casamento de Siegfried e Eva Blackfield. Estava na hora dos plebeus conhecerem o seu novo lorde.
O pântano amanheceu tão frio e fétido como era de se esperar. A neve já começava a cair, embora ainda fosse apenas um nevisco não muito intimidador. Ainda assim, o vento e a umidade forçavam qualquer um que saísse de casa a vestir o máximo de agasalhos que pudesse. O dia perfeito para ficar na cama — não que alguém tenha feito isso; hoje não.
Pelo menos uma centena e meia havia vindo conhecer seu novo suserano. Ora! E por que não? A vida no pântano era pacata e carente de novidades. Além disso, a fuga dos ogros e a chegada de Blossom com as mulheres não passou despercebida. Todos ali estavam ansiosos por respostas e os rumores voavam mais rápido que o vento.
— É o fim — diziam alguns. — A bruxa está criando um exército de monstros. É por isso que ela raptou tantas mulheres.
— Não! — diziam outros. — A bruxa morreu, não vê?! O barão finalmente matou ela e pôs os monstros pra correrem. Aquelas mulheres são pro harém dele. Sortudo desgraçado.
Quando os ogros escaparam há quase um mês, fizeram uma pequena refeição com os moradores antes de partir. Não foram poucos os que perderam a vida, antes das criaturas seguirem viagem. Pelo menos três dúzias. Talvez mais. Talvez muito mais.
Na época, sem dúvida, devem ter pensado que se tratava de um ataque de Eroth. O fim do mundo.
“Nossa fuga custou a vida deles”, Siegfried refletiu por um momento. “E agora tenho de fazê-los se ajoelhar e me louvar como o seu lorde e salvador.”
— Hum — sussurrou para si mesmo. — Então é isso que significa ser um nobre.
Todos os preparativos já haviam sido feitos.
Sir Siegfried Blackfield deixou o Castelo dos Ossos com uma pequena comitiva. Vestindo as cores de sua casa: negro e branco. Calça, túnica e botas negras, com alguns pequenos detalhes bordados em branco. Andrella e as outras mulheres haviam colocado todo o seu esforço na confecção das roupas pela última semana; eram roupas dignas de um barão.
À sua direita, Eva Blackfield em seu vestido cottehardie dividido verticalmente em duas cores: negro como carvão e branco como a neve. Também feito por Andrella e as suas ajudantes.
Como era de praxe, o casal veio montado em seus cavalos. Por sorte, o Castelo dos Ossos ainda tinha alguns. Siegfried vinha no garanhão marrom e imponente do ex-barão Elliot Kroft, enquanto Eva vinha em uma pequena égua castanha da qual parecia gostar bastante.
Um pouco avançado à frente deles, estavam os dois únicos guardas do castelo. Ambos os homens que Blossom trouxe. Orel era o mais velho, com trinta anos; Wayne tinha quinze. Uma dupla bem pouco ameaçadora. Vestiam cota de malha, roupas escuras e traziam uma lança cada. Mas a coisa mais impressionante neles era, sem dúvida, o escudo com o brasão da casa Blackfield: um pássaro negro em fundo branco.
Atrás, vinha Melias Kroft, Blossom e o prisioneiro. Uma comitiva bastante pequena, mas não havia motivo para trazer as servas ou as crianças.
Andrella precisava cuidar do castelo e Mimosa teria assustado os plebeus, por isso nenhuma delas veio também.
A multidão abriu espaço conforme Siegfried e sua comitiva iam se aproximando, permitindo que chegassem até um pequeno palanque que fora montado com antecedência no centro do vilarejo. Mas o rapaz podia sentir os olhos da plebe sobre ele. Observando. Admirando. Julgando. E, dentre eles, um rosto familiar: o velho taverneiro que ele e Mimosa conheceram há muito tempo, embasbacado com o que via.
Siegfried desmontou e ajudou sua esposa a fazer o mesmo, enquanto Blossom tomava conta dos cavalos e Melias Kroft puxava o prisioneiro. Os guardas se puseram em posição, fazendo questão de deixar o brasão nos escudos bem visível, e então começou…
— Meu nome é Sir Siegfried Blackfield! — sua voz trovejou pela multidão. — E estou aqui para dizer que o domínio de terror do seu antigo lorde, o barão Elliot Kroft, chegou ao fim. O barão Kroft era um herege e um traidor. Ele usou magia negra para se manter no poder, satisfez seus desejos macabros com mulheres inocentes e criou abominações por diversão. Vocês sofreram muito nas mãos dele. Estou aqui para dizer que não mais!
Siegfried ergueu bem a espada e Melias Kroft se apressou em empurrar o prisioneiro de joelhos ao seu lado e arrancar o seu capuz, revelando ao mundo Elliot Kroft.
O sol fraco e cinzento queimou os olhos do antes orgulhoso lorde. O cabelo prateado, sujo de lama e endurecido como palha. As suas roupas, trapos velhos e simples. Seu corpo: esquelético, pálido e desnutrido. Um cadáver ambulante.
Siegfried já havia matado-o antes, mas Eroth achou um modo de trazê-lo de volta à vida… Ou algo bem próximo disso.
Encontraram-no apodrecendo nas masmorras logo depois de derrotarem Eroth. Uma criatura esquálida e patética, amarrada a uma mesa — mais para que não caísse no chão do que para impedi-la de escapar. Uma sombra do que tinha sido. Mas uma sombra útil. Melias Kroft convenceu Siegfried de que sua execução pública seria uma ótima forma de apresentar ao povo comum o seu novo lorde. Não havia como discordar disso.
Elliot Kroft não se moveu. Permaneceu de joelhos ao seu lado sem dizer uma palavra. Sem mover um músculo. Nem mesmo quando Siegfried arrancou sua cabeça.
— Não mais tirania! — disse Siegfried. — O lorde monstro está morto e uma nova casa nasce neste dia. A casa Blackfield.
Eva se aproximou, segurou a mão de seu marido e a multidão deve tê-la reconhecido, pois ficaram embasbacados por um momento. Não conheciam Siegfried, mas conheciam a lady Eva Kroft. E foi a visão dela que os fez comprar o seu discurso e comemorar.
“Talvez casar com ela não tenha sido uma má ideia, afinal de contas.”

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