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    O jantar naquela noite foi pombo assado, recheado com queijo e marinado com ervas, mas Siegfried não comeu. Estava ocupado demais, observando Mimosa de longe, enquanto a jovem flertava com Wayne.

    Embora Wayne fosse o único rapaz solteiro do castelo, as garotas raramente disputavam sua atenção — era um covarde e todas elas sabiam disso; viram-no fugir com o rabo entre as pernas quando enfrentou Siegfried e poucas mulheres querem um covarde.

    Com todos os quatro homens restantes no Castelo dos Ossos sendo comprometidos, havia bem poucas opções de romance para as mulheres; e alguns rumores de relações impróprias entre elas já começavam a surgir. De fato, o próprio Siegfried chegou a flagrar duas delas despidas dividindo o mesmo lençol, mas ambas alegaram estarem apenas dormindo:

    — E por que estão nuas?

    — Ah! Hum. N-nossas roupas… E-elas estão secando, milorde. I-isso. Não temos muitas mudas de roupa. Lavamos elas à tarde e as deixamos secando durante a noite, enquanto dormimos.

    Para ser bem sincero, elas não lhe pareceram muito convincentes, mas o rapaz não dava a mínima.

    Talvez fosse diferente em Thedrit, mas, em Qaredia, a família era tudo — para o povo de Dragoslav, a sua vida pertence a eles e não a si mesmo. Você deve viver de um modo que honre aos seus ancestrais, não envergonhe os seus parentes e dê orgulho aos seus descendentes.

    “Pois a sua vida é limitada, mas a sua memória será eterna”, diziam.

    O tipo de coisa que aquelas mulheres faziam teria sido motivo mais que o bastante para que fossem ambas apedrejadas até a morte. A prática homossexual era vista quase como heresia e uma mancha grosseira na imagem de toda a sua linhagem, muito embora Siegfried tenha descoberto um ou dois casos do tipo em sua infância — normalmente de algum soldado anão que não encontrou nenhuma mulher viva em um vilarejo recém-saqueado e, por isso, decidiu se aproveitar de algum dos órfãos… Garotos não muito mais velhos que o próprio Siegfried na época.

    Não à toa, sempre teve a impressão de que pessoas desse tipo não fossem nada além de um bando de degenerados indignos de confiança… Até se tornar um mercenário.

    Havia pouco pudor na vida de um mercenário e, embora alguns deles fossem de fato um bando de degenerados, nem sempre este era o caso. Levou algum tempo, mas Siegfried aprendeu a não se importar com esse tipo de coisa.

    “Se ambos se sentem bem com isso, não é da minha conta.”

    Além disso, tinha mais o que fazer do que se importar com a vida alheia e sabia melhor do que prejudicar os seus irmãos-de-armas por motivos triviais — não é uma boa ideia irritar os homens que lutarão ao seu lado. Por isso, deixou que as garotas continuassem com suas mentiras e esqueceu do assunto, mas não de Mimosa…

    Ao contrário das outras garotas, Mimosa não parecia se importar com a covardia passada de Wayne. Como uma cigana, suas opções românticas também eram limitadas, embora Siegfried desconfiasse que havia outro motivo por trás de sua escolha — fora Eroth quem lhe devolveu as pernas e o rapaz não havia gostado nem um pouco de saber disso:

    — Você enlouqueceu!? Foi ela que fez isso com você!

    — Por isso mesmo. Ela era a única que podia me trazer de volta ao normal.

    — A Kira também podia! Ela tava estudando um modo de fazer isso sozinha. Você sabe disso.

    — A Kira é cega! E, da última vez que eu perguntei, ela disse que ia levar anos pra me trazer de volta ao normal! A Eroth fez em menos de uma hora! Eu não sei o porquê você tá tão irritado. Funcionou!

    — E o que ela pediu em troca?

    — Nada.

    — E você não acha isso estranho?

    — Não! Não acho! E mesmo que achasse, não me importo. Acabou! Eu finalmente voltei ao normal. Pensei que você fosse ficar feliz por mim.

    — Eu tô…

    — Pois não parece!

    E esse foi o fim da discussão.

    Andrella tentou lhe explicar os sentimentos de Mimosa após ela ter ido embora, mas não era como se Siegfried não entendesse. Claro que ser transformada em um monstro foi uma experiência horrível e assustadora. Não era difícil imaginar o desespero dela; viver como uma aberração, forçada a se esconder por vergonha e medo do que as pessoas fariam se a descobrissem. Podia entender isso.

    Mas Eroth era perigosa.

    Se ela devolveu as pernas de Mimosa, havia um plano por trás disso. Algo do qual nenhum deles gostaria, mas a jovem parecia não ver isso… Ou escolhia não ver.

    Tal como Siegfried escolhia não ver a forma como Mimosa flertava com Wayne.

    Sabia que era apenas uma forma dela tentar provocá-lo. Incomodá-lo. Talvez até mesmo lhe fazer ciúmes. Mas uma pequena parte de si imaginava se talvez não estivesse errado; se talvez não devesse ter sido menos paranoico e ficado feliz por ela.

    “Se tivesse feito isso, ela estaria ao seu lado agora e não do dele”, sussurrou Lili em seu ouvido.

    Wayne tinha apenas quinze anos, tal como a Mimosa. Um garoto bastante normal e pouco impressionante. Um camponês por baixo das vestes de um soldado. E não estava em posição de rejeitar qualquer garota; ainda assim, parecia um tanto quanto desconfortável perto de Mimosa — como se tentasse se obrigar a falar com ela. Uma atitude que Siegfried não seria capaz de entender, por mais que tentasse. Mimosa era linda. Linda demais para alguém como ele.

    O cabelo negro e volumoso caindo por sobre os seus ombros nus, em ondas de mechas bem cuidadas que brilhavam sob a luz das lamparinas do salão. A sua blusa branca de tecido fino em um decote ombro a ombro que lhe desnudava os ombros. A longa saia de lã colorida, rica em tons vivos e padrões intrincados, balançando suavemente a cada movimento e terminando logo acima das sandálias que deixavam seus pés à mostra. Brincos e joias completavam o seu visual, adornando-lhe o pescoço e os pulsos. Um tanto quanto provocante. Um tanto quanto escandalosa.

    Siegfried só percebeu o quanto a observava quando a jovem virou o rosto de repente e lhe deu um sorriso cheio de orgulho e com uma boa pitada de arrogância, como se tudo não passasse de um teatro e ela quisesse apenas chamar a sua atenção.

    Por algum motivo, lembrou de Gwen e sentiu o peito doer, como se tivesse sido apunhalado por uma adaga fantasma.

    — O senhor está bem? — perguntou Eva, sentada ao seu lado.

    Siegfried não respondeu. O fôlego lhe escapava. A testa empapada de suor. Por um breve momento, sentiu como se o seu próprio coração ameaçasse parar de bater. Dor. Dor intensa. Como se o seu peito estivesse sendo esmagado por dentro.

    Eva foi a primeira a notar; Mimosa, a segunda. Mas um lorde não pode parecer fraco e o rapaz não permitiria que mais alguém o visse daquela forma. Bebeu da sua caneca de vinho, um gole de cada vez, como uma mulher. A dor diminuiu, então respirou fundo e ela finalmente desapareceu. Mas não queria correr o risco do mesmo acontecer novamente, por isso se levantou e abandonou a mesa de jantar, retornando ao seu quarto. Eva o seguiu, embora não precisasse — sua pequena esposa era bastante dedicada à sua posição.

    Se dirigiram até o terceiro andar, onde o antigo quarto de Eroth havia sido reformado e agora servia de aposentos para Siegfried.

    Eva era jovem demais para dividir a cama com o seu marido, mas tampouco gostava de seu antigo quarto no segundo andar — aparentemente, Esmond lhe assustava.

    “Teme o próprio irmão, mas não o homem que invadiu sua casa, matou seu pai e forçou ela a se casar.”

    Um tanto quanto estranho. Mas era o direito dela e não havia outros quartos no terceiro andar, portanto, foi adicionada uma segunda cama aos aposentos de Siegfried, onde a sua pequena esposa poderia dormir tranquilamente. Havia inclusive mandado instalar uma divisória simples de tecido no meio do quarto, para lhe dar alguma privacidade. Talvez ela se sentisse grata por isso, pois desde então havia começado a agir feito uma esposa amorosa de verdade:

    — O senhor não parece bem.

    — Só estou cansado.

    — Parece mais do que isso.

    — …

    — Milorde, não tenho como obrigá-lo a me contar se não quiser, mas sou sua esposa e estou preocupada.

    — Não foi nada.

    — … Sim, senhor. Eu entendo.

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