Capítulo 0192: O vadio do pântano
O Castelo dos Ossos amanheceu tingido de branco.
Durante a noite, uma nevada modesta havia começado e não mostrava sinais de que iria parar tão cedo. Uma manhã escura, fria e morosa — perfeita para passar o dia inteiro debaixo dos lençóis. Mas mesmo um lorde ainda tem seus deveres.
Siegfried levantou, trocou de roupas e, antes de sair, deu uma olhada em Eva. Sua pequena esposa dormia na própria cama, do outro lado do quarto. Apesar da maturidade que se forçava a exibir quando acordada, dormia feito a criança que era — deitada em uma posição estranha que seria mais do que um pouco desconfortável para um adulto; os lençóis enrolados descobrindo-lhe partes do corpo, enquanto ela comia o travesseiro.
O rapaz sorriu e foi embora em silêncio, deixando que ela dormisse.
O resto do castelo, no entanto, já encontrava-se de pé e pronto para mais um dia de trabalho. Vez ou outra passava por uma serva qualquer e esta parava tudo o que estava fazendo para lhe fazer uma pequena reverência e dizer:
— Bom dia, milorde.
Já estava nos estábulos, se preparando para deixar o castelo, quando recebeu a notícia: uma plebeia havia vindo até ele suplicar por ajuda.
Foi encontrá-la no portão de entrada; uma mulher jovem, embora fosse quase dez anos mais velha. A barriga inchada de repetidas gravidezes; os cabelos castanhos levemente desgrenhados pelo vento; o rosto redondo corado de frio. Apesar da neve, não vestia nada além de um vestido de lã bege e desbotado.
Assim que viu Siegfried se aproximar em seu garanhão marrom, a mulher congelou e nada disse.
— O que houve? — perguntou Siegfried.
E a mulher caiu de joelhos tão rápido que, por um momento, pensou que ela tivesse desmaiado. Na verdade, era apenas uma reverência bastante exagerada. A cabeça tão baixa que quase tocava o chão.
— M-milorde. Lorde Black. Senhor. M-muito obrigada por me receber.
— Levante-se.
A mulher hesitou por um instante, mas no fim obedeceu e se pôs de pé — embora os seus olhos ainda se mantivessem firmemente fixados ao chão, como se este fosse o único lugar seguro no mundo.
— Me diga o que aconteceu.
— O-o meu marido, milorde. Um homem atacou ele ontem à noite, mutilou metade do seu braço e então fugiu de volta pro pântano.
Uma solicitação.
De fato, o Conde Gaelor recebia algumas, vez ou outra. Esperava ter a oportunidade de ganhar a confiança dos plebeus, mas nunca pensou que seria tão cedo. Talvez as suas cavalgadas diárias tenham feito algum bem no fim das contas. Só então lembrou que devia tê-la recebido em seu trono; passar a imagem de um lorde era importante.
“Da próxima vez, com certeza.”
Como era a sua primeira solicitação, Siegfried queria passar uma boa impressão aos demais plebeus. Deu o seu casaco antigo para a mulher que tremia de frio, chamou por Andrella para cuidar do homem ferido e Blossom para servir de escolta; até mesmo permitiu que a plebeia cavalgasse com ele de volta para casa.
E não passaram despercebidos.
Conforme avançavam, mais e mais pessoas se aproximavam para ver o Lorde Blackfield dividindo a cela com uma simples plebeia; alguém a quem conheciam — uma vizinha, uma amiga, uma parente… Escoltada pelo próprio suserano deles. Certamente que isso deixou uma forte impressão.
Haviam-no recebido como o marido de Eva Kroft, mas não o conheciam e muitos ainda o temiam por sua condição de mercenário e estrangeiro. Mesmo a mulher que veio até o seu castelo deve ter reunido toda a sua coragem apenas para lhe suplicar por ajuda. Mas, se fizesse certo, seria apenas a primeira de muitos.
♦
Chegaram até a casa da mulher em cerca de nove minutos. E poderia ter sido ainda mais rápido, se Siegfried não tivesse feito questão de reduzir o passo para que os moradores pudessem vê-los.
A casa, tal como esperava, era apenas uma pequena construção de madeira e telhado de sapê, com não mais de dois cômodos — uma sala e um quarto. As paredes de barro e palha para manter o local aquecido, embora com pouco sucesso. E os únicos móveis que viu eram todos feitos à mão de forma amadora. Um lugar vazio e humilde… Não. Medíocre. Menos que medíocre, na verdade.
Foram encontrar o marido dela deitado em um colchão de palha no único quarto, com duas crianças ao seu lado; um garotinho de quatro anos e outro de dois — seus filhos.
Siegfried deixou que Andrella cuidasse do homem, mas o resultado já lhe era bastante óbvio bem antes dela começar: não havia como salvá-lo. O seu braço esquerdo estava pálido e descarnado, com vários bocados de carne em falta e profundas marcas de garras que lhe rasgaram os músculos. Sem mencionar a necrose que se espalhava, subindo-lhe das pontas dos dedos até o pescoço.
Teria sido uma das criaturas de Eroth que escaparam?
— O que exatamente atacou o seu marido?
— Milorde?! Ah! Sim. E-eu não cheguei a vê-lo. Estava muito escuro. Mas tenho certeza de que era um velho. Um vadio, eu acho. Vestido em trapos. Nunca o vi por aqui antes.
— Um velho?
— Isso mesmo. Q-quero dizer: sim, senhor, milorde.
Pouco provável.
Um homem não conseguiria fazer nada nem mesmo remotamente próximo aos ferimentos do marido dela. Tinha de ser um animal… Ou um monstro.
Andrella terminou de examinar o homem não mais de vinte minutos depois. A sua resposta foi exatamente a que esperava: estaria morto ainda hoje, a menos que recebesse um elixir de cura — um recurso do qual Siegfried não poderia abrir mão. O estoque do castelo já estava baixo e eles não possuíam os meios para fabricar mais; Eroth estava presa e Kira não sabia como fazê-los.
Mas queria passar uma boa impressão e não lhe parecia uma boa ideia dizer à mulher que a vida do seu marido não valia um elixir. Ao invés disso, omitiu essa parte e explicou que ele morreria em breve.
A mulher chorou, Andrella lhe deu algumas ervas medicinais para ajudar o seu marido com a dor e Siegfried prometeu que acharia o culpado…
Mas não achou.
A descrição dela havia sido vaga demais e o vilarejo tinha poucos vadios. Também não foi capaz de encontrar outras testemunhas — e a sua busca pelo pântano mostrou-se tão infrutífera quanto. Próximo ao entardecer, não teve outra escolha senão abandonar as buscas e retornar ao castelo derrotado.
Na manhã seguinte, recebeu a visita de outro plebeu. Na manhã depois desta, foram três. Na seguinte, mais dois. Todos eles com a mesma solicitação: um vadio matou um de seus parentes ou amigos.
Mais um dia, mais uma solicitação, mais um fracasso.
Por quatro dias, Siegfried ouviu os apelos do povo. Por quatro dias, se embrenhou no meio do pântano em busca do assassino. E por quatro dias voltou de mãos abanando.
Estava voltando ao castelo após mais um fracasso, quando um pensamento incômodo lhe veio à mente: e se tudo aquilo não passasse de uma piada? Seria essa a ideia deles de diversão? Fazer o seu lorde passar o dia inteiro andando em círculos no meio do pântano, enquanto riem e se divertem bebendo em uma taverna qualquer? Estariam fazendo isso como uma forma de humilhá-lo? De puni-lo por executar Elliot e casar com Eva? Por ter ‘roubado’ o Castelo dos Ossos? Seriam eles tão ousados a esse ponto? Tão estúpidos?
Estava tão imerso em dúvidas que mal notou que já havia chegado ao pátio do castelo, até que avistou uma pequena comoção próxima ao jardim; um grupo de servas se reunia em volta de algo.
Quando se aproximou, descobriu o motivo: Mimosa e Wayne.
O guarda se apressava em vestir as roupas, envergonhado, mas não era nele que todas prestavam atenção. Mimosa estava ao seu lado, completamente despida e chorando — por um momento, um pensamento sombrio passou pela mente de Siegfried e o rapaz tocou o cabo da espada; Wayne viu isso e congelou onde estava:
— E-eu não fiz nada! Senhor. Milorde.
E era verdade… Talvez.
Siegfried deu uma boa olhada em Mimosa. As suas roupas jogadas em um canto, ao lado das de Wayne. Mas quando desceu os olhos pelo corpo dela, percebeu o motivo de tantas lágrimas: as suas pernas… Se foram. No lugar delas, estava de volta a sua enorme cauda de cobra.

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