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    Elliot Kroft era não mais que uma sombra do que um dia havia sido.

    O seu corpo musculoso havia secado, dando ao velho barão uma aparência esquelética e esguia. Os cabelos prateados, tornados tão brancos como a neve. A boca manchada de sangue fresco por cima de sangue seco, tal como as suas mãos. O corpo despido sem o menor pudor, feito um animal.

    Também não pôde deixar de notar que a sua cabeça estava muito bem grudada ao corpo, como se nunca tivesse sido decapitado. Um monstro.

    A única centelha de humanidade que viu em Elliot foi ódio. Por trás dos olhos vermelhos e brilhantes, o lorde morto-vivo o reconheceu e se encheu de ódio. O instinto assassino de um predador? Sim. Um animal defendendo o seu território? Talvez. Um homem em busca de vingança? Disso não tinha dúvidas, pois a criatura sabia quem o rapaz era:

    — Siegfried! — disse. A voz rouca e mais do que um pouco incômoda, como se não fosse natural que aquela coisa falasse. A sensação era como a de ouvir um animal tentando falar a língua humana. Não parecia certo.

    Siegfried saltou do cavalo e se aproximou:

    — Elliot Kroft. Tô começando a achar que nem o capeta quer você, vai ver é por isso que ele continua te mandando de volta.

    Mas a criatura não parece ter gostado muito da brincadeira, pois imediatamente avançou feito um animal selvagem e saltou em cima de Siegfried. Rápido. Muito rápido. Rápido demais…

    O pântano era escorregadio demais para se mover corretamente, por isso Siegfried não teve escolha senão firmar bem os pés para não cair e, naquele breve instante em que o monstro saltou, sua mente clareou.

    O mundo deixou de existir. Restavam apenas ele e o seu inimigo. A sua espada deixou de ser uma arma e se tornou uma extensão do seu próprio corpo. O mundo se desfez em névoa. A lâmina mostrou o caminho e cada fibra do seu corpo se moveu sozinha em perfeito uníssono.

    Quando a criatura estava quase em cima de Siegfried, o rapaz se abaixou e o aço anão a abriu do pescoço à virilha, fazendo chover sangue negro e pútrido.

    Elliot Kroft voou por cima de Siegfried sem sequer tocá-lo e então caiu atabalhoado na água suja do pântano, ao lado do garanhão marrom, que logo se afastou da criatura em silêncio — um animal corajoso e esperto; um cavalo normal teria fugido em pânico.

    Levou um instante até Siegfried notar que havia, de fato, sido ferido.

    Não saberia dizer quando ou como, mas de algum modo a criatura havia conseguido lhe rasgar as costas e, embora não pudesse ver o corte, ainda reconhecia a sensação de ser apunhalado — as garras do monstro haviam atravessado a sua brigantina e rasgado-lhe a carne; a respiração pesada e difícil; a camisa grudenta de sangue. O corte fora profundo.

    Lembrou-se então dos ferimentos das vítimas. As marcas de garras. A carne destroçada.

    “Devia ter trazido uma armadura.”

    Ao invés de lamentar, Siegfried avançou.

    A criatura ainda se erguia, quando a atacou e o aço anão lhe atravessou o peito molhado de sangue negro e viscoso. E quanto ao corte de antes? Nada. Havia desaparecido. De algum modo, Elliot Kroft estava se regenerando. E rápido. Muito rápido. A carne fumegante se fechando em volta da lâmina, como se tentasse assimilá-la ao próprio corpo. Prendendo-o onde estava.

    Siegfried sentiu o peito queimar e se encher de sangue quando as garras do monstro lhe rasgaram a brigantina em busca do coração. Uma vez e então outra, fazendo em pedaços o couro e as placas metálicas por baixo da sua armadura. Escavando-lhe a carne.

    Ao invés de recuar, Siegfried ergueu o corpo esquelético de Elliot no ar com a sua espada e sacudiu a lâmina, fazendo-o voar para longe.

    Não devia estar fazendo isso. Devia manter a criatura por perto e terminar logo o serviço, ao invés de ficar jogando-a de um lado para o outro. Mas as feridas não eram superficiais e precisava de um instante, por menor que fosse, para recuperar o fôlego.

    Elliot, não.

    A criatura voltava a se erguer, como se nada tivesse acontecido. Estava molhado de água do pântano e apenas isso. Nenhum corte ou ferida. Era como se nem o tivesse tocado. E Elliot não falhou em apontar isso:

    — Você não pode me vencer. Não mais. Um cão selvagem é um cão selvagem; e você se tornou mole. Se cobriu em seda, mulheres e banquetes, mas não é lorde nenhum! Não. É só um bandido nojento.

    — …

    — Depois que eu te matar, tomarei de volta o que é meu por direito! Sua cabeça, na ponta de uma lança, será minha testemunha. Farei um banquete com a carne daquela cadela ruiva que me traiu e arrancarei o bastardo que você pôs na barriga da minha filha. Sua breve conquista será esquecida. Você será esquecido. E quando a primavera chegar, ninguém lembrará do seu nome. Seu legado será a morte. Sua história será nada!

    — Cê fala muito pra alguém que eu já matei duas vezes.

    E, novamente, Elliot se enfureceu e atacou. O seu ego era mais frágil do que um fio de algodão. Por sorte, lutava como um animal, não um cavaleiro…

    As suas garras rasgaram a lateral da cabeça de Siegfried e quase lhe levaram a orelha esquerda. O sangue escorrendo rubro e vigoroso. Em resposta, o rapaz arrancou fora uma das pernas da criatura, que tombou no chão sem nada do meio da coxa para baixo. E isso não regenerou.

    Embora o corte tenha se fechado e o sangue parado de fluir, a perna não voltou a crescer.

    Siegfried sorriu, mas a sua vista já começava a embaçar. Tinha o peito e as costas úmidos de sangue; queimando de dor. A lateral da cabeça também não estava muito melhor; já podia sentir a enxaqueca lhe esmagando o crânio.

    Nem sequer notou Elliot se movendo até que este já estivesse em cima dele.

    Embora não tivesse uma perna, a criatura se lançou no rapaz e o agarrou, abocanhando o seu pescoço feito um animal. Arrancando-lhe bocados de carne e engolindo de uma vez. Ao invés de dor, Siegfried se encheu de uma calmaria entorpecente que enervou os seus sentidos. Isso não era bom e sabia disso.

    “Se mexe!”, disse a si mesmo.

    Mas o seu corpo precisou de ainda mais um instante antes de finalmente obedecê-lo. Um tanto quanto pesado, um tanto quanto lento. Ainda assim, a lâmina partiu Elliot ao meio — o aço anão lhe rasgou a cintura, dilacerando a carne borrachuda e rompendo-lhe os ossos podres, antes de finalmente parti-lo em dois.

    As pernas caíram inertes, mas o seu tronco ainda se movia e lutava para não afundar na água do pântano que ameaçava engoli-lo.

    Acabou…

    Não. Mas estava perto.

    Pisou nas costas de Elliot, afundando o que lhe restava do corpo na água e então enfiou a espada na sua nuca. De novo e mais uma vez, até que o corpo parou de se mover e a cabeça começou a boiar solta.

    Siegfried caiu de joelhos.

    A batalha havia terminado, mas ainda havia muitas perguntas que precisavam ser feitas. E Eroth teria muito o que explicar.

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