Capítulo 3 - Decisões
Os olhos dourados agora estão ofuscados pelo do pilar. A coloração azulada, imponente, parece estar vindo diretamente do alto como uma ponte entre a terra e o céu.
De frente para aquilo, a realidade do menino mais parece um pesadelo.
A noite, antes iluminada pelas estrelas e lanternas, de repente, ganha um tom mais escuro por mais que houvesse mais luz.
Tudo aconteceu rápido demais.
O choque não paralisou apenas as suas pernas.
Ele… realmente está vivo?
Por mais que a dor esteja presente em todo o corpo, algo além da sensação física o desampara. O rosto vira de um lado para o outro, buscando referência de algo ou alguém…
Mas resta apenas poeira e escombros.
De frente para a coluna azul brilhante, pulsações de energia começam a banhar todo o ambiente.
Desse fenômeno, cristais surgem como espinhos que rastejam pelo chão e propagam iguais serpentes. O vácuo desse cataclisma estremece o ar e a terra, mas também rompe de vez o espírito do garoto.
Ser engolido é inevitável. Ele… não tem forças.
Os olhos paralisados encaram a vinda da morte. Talvez, morrer seja a melhor opção.
As pálpebras se fecham pouco a pouco. O instante desacelera, contemplando as poucas memórias que lhe pertencem.
Mas alguém o empurra no último instante.
O clarão azul segue em frente enquanto Raisel vira cambalhotas pelo chão.
Com o contato, as raízes que prendiam os seus pés já não existem mais. A dificuldade de se levantar é visível, mas a visão se fixa sobre o seu salvador.
一 VOVÔ!
O velho observa de cenho franzido o rapaz, mas não era hora de enrolação.
Firmando-se contra o chão, o Yurga se levanta junto do neto.
Aproximando-se da criança, as mãos calejadas apertam os ombros do menino.
一 Ray, me escuta… A gente tem que sair daqui…
一 Mas e-e… os outros? 一 o rosto se abaixa lentamente.
Com os dentes cerrados, veias saltam pela testa do velho. Os palmos firmes sobem grosseiramente, segurando as bochechas e levantando a cabeça do jovem.
一 Não é hora de pensar nos outros! Você nem ao menos conseguiu se proteger…!
Uma gota despenca até o chão, caindo dos olhos imóveis de Raisel, que encara o seu avô.
“Eu sou… fraco?”
As lágrimas escorrem sem ele conseguir entender o porquê.
Ao ver isso, Yurga desvia o olhar. O coração do homem experiente dói, mas eles devem seguir em frente. Só que o seu discípulo não está pronto.
O som das cascatas de vidro voltam a assombrar o ambiente, trazendo mais tremores pelo o que restou do vilarejo.
Sem demora, o velho pega o menino e o ergue até o ombro direito.
一 E-Eu consigo correr sozinho! Me põe no chão! 一 se debatendo, até dá umas palmadas nas costas do avô.
一 Quieto! Não é hora de birra! Você não tá bem, então se acalme primeiro! 一 se afastando do pilar, as ondas de cristais anteriores começam a derreter.
Por mais que fosse verdade, ele aperta os punhos o mais forte possível.
Essa frustração, enfim, veio com o silêncio iminente, mas com o caos contínuo do cataclisma.
Novas marés brilhantes saem para todos os lados da coluna brilhante. A expansão brusca dessa energia colossal parece estar os convidando para a morte.
Demonstrando uma incrível agilidade, por mais que esteja carregando alguém, Yurga salta de um lado ao outro ao esquivar-se dos novos cristais, usando até mesmo os destroços como superfície.
Mas por algum motivo, ele não está usando o Gewissen…
Diante à correria, o grito das pessoas, choro de alguns e o clamor de outros, ganham notoriedade aos ouvidos do rapaz.
Os olhos dourados encaram o chão, mas um berro familiar puxa a sua atenção.
一 KALI!
Ao direcionar o olhar com a poeira já tendo sido quase completamente apaziguada, ele avista dois conhecidos encarando alguém em meio aos cristais.
“Lila… Lavi?” 一 novamente, tudo parece desacelerar.
一 ME PÕE NO CHÃO! ELES TÃO PRECISANDO DE AJUDA! 一 se debate mais uma vez.
一 E O QUE VOCÊ VAI PODER FAZER LÁ? 一 a paciência estourou como a rolha de uma garrafa.
一 EU VOU PEGAR ELES E CORRER COM VOCÊ!
Yurga estala a língua.
Em relutância, eles jamais poderiam ignorar alguém em perigo. Mas o jovem está mesmo mais calmo? O velho teria que dar o seu voto de confiança…
一 Não usa a sua energia de maneira alguma… 一 um tom fraco como um arfar acompanha um espasmo de sobrancelhas.
Apesar de estranhar isso, a urgência de salvar os trigêmeos é o foco principal na mente de Raisel.
Ao largar o rapaz, ele imediatamente parte em arrancada até Lila e Lavi.
Conforme se aproxima, a cena fica nítida aos olhos trêmulos do inexperiente.
Para evitar uma hesitação, o rapaz morde o lábio inferior ao ponto de sangrá-lo.
Uma nova avalanche arrasta o chão para engolir as crianças.
Mas com precisão cirúrgica, Raisel agarra a garota e o garoto em cada braço.
Ficando para trás do vulto, a figura de Kali, o Herói Espadachim, está emaranhado naqueles cristais.
O desespero de Lila, o rosto em choque de Lavi enquanto encara o seu irmão, o seu melhor amigo e o seu mais fiel subordinado, preso, fazem as pernas do jovem salvador tremerem.
Os espinhos cristalinos perfuraram o peito, os ombros, os braços, as pernas e parte do rosto de Kali. Mas mesmo nessa situação, o rosto do corajoso não expressa dor, apenas um sorriso de alívio.
Já mais distante da tragédia, Raisel reencontra Yurga junto de uma dezena de pessoas que estavam no Festival.
O rapaz se agacha e solta as crianças. A pergunta “Onde estão os seus pais?” vem à mente, mas dada a situação, o mais provável é que o pior aconteceu.
Os gêmeos encaram a paisagem, ajoelhados diante ao fenômeno.
Um domo de energia se ergue, obstruindo a visão da destruição.
A energia azul vinda daquele fenômeno era belíssima, mas como pôde trazer tanta desgraça?
Raisel levanta cabisbaixo após ver o coração dos seus irmãozinhos destruídos.
Apertando o próprio punho, ele caminha até o avô e Carmen que também conseguiu escapar de tudo aquilo.
Conforme chega, o rapaz nota o estranho silêncio da senhorita Carmen.
Olhando para os arredores, o rapaz procura Raquel que, provavelmente, está curando alguém ferido com as suas habilidades. Mas não há sinal dela…
一 Car-
Interrompido com um gesto de mão de Yurga apontada para a sua direção, o olhar do velho diz tudo. De alguma forma, ele sabia o que o garoto iria perguntar.
Os olhos do menino passam para a sogra ao lado. O olhar dela já não brilha mais. Os lábios boquiabertos…. não há expressão.
A testa de Raisel se comprime…
Os olhos lacrimejam…
Os joelhos cedem.
Ele queria gritar, espernear. Mas ao abrir a boca, tudo se esvai de maneira silenciosa.
Para o namorado, o cheiro da sua amada, o sorriso, o calor… Tudo se transformou em memórias agora?
一 Tem um jeito… Tem um jeito de salvar quem ficou preso ali.
A voz de Yurga faz Raisel vibrar que, espontaneamente, olha para o mentor com infinitas dúvidas. Mas antes que pudesse falar algo, Carmen agarra o velho homem pelo colarinho.
一 Yurga… Não, Yurgen… Não me querer te matar aqui e agora… 一 a mulher tira o grande homem do chão usando apenas uma das mãos.
一 Não tô brincando… Você sabe…
一 QUAL VAI SER A HISTÓRIA E A PROMESSA DESSA VEZ? OLHA COMO VOCÊ TÁ! ACHA QUE TEM CONDIÇÃO DE SAIR POR AÍ VIAJANDO DE NOVO!?
Yurga permanece em silêncio por alguns segundos, mas volta a falar após respirar fundo.
一 Eu não consigo viajar mais… Mas o garoto consegue…
Arregalando os olhos verdes ao escutar aquilo, a senhorita volta a atenção para o menino em prantos no chão.
Em um estalo de língua ao ver a feição dele, a raiva dela apenas ficou mais forte.
一 VOCÊ TÁ DE BRINC-
一 NÃO TÔ, CARMEN! EU NÃO TÔ! 一 ele agarra os pulsos da mulher com firmeza.
Com esse gesto, o agarrão sobre o colarinho se afrouxa e o velho consegue encostar os pés ao solo novamente.
Carmen desaba.
Escorando o rosto sobre o peitoral do homem, o ódio dela agora dá lugar para uma tristeza que escorre através de seus olhos.
一 Não me dê falsas esperanças de novo… Por favor… Por favor… Por favor… 一 os dedos dela cravam no tecido da veste.
Yurgen, convicto, abraça a mulher com o lado direito do corpo.
一 Quando alguém fica preso no Nascimento de uma Ruína, ela pouco a pouco absorve a energia de tudo o que é vivo dentro daquela bolha… 一 os olhos prateados vão até Raisel.
一 Uma vez, eu me encontrei com outro Nômade e ele me disse que Imoriel, a Calamidade da Moral, era capaz de neutralizar uma Ruína de nascer… 一 o velho arqueiro se vira para o garoto.
一 Ray. Nós temos pouco tempo. Um fragmento me atingiu… minha energia também está sendo absorvida.
A frente da costela esquerda, antes ocultada pelo ângulo, revela uma estalactite fincada sobre o corpo do mentor.
一 Temos que encontrar Imoriel e fazer ele neutralizar esse nascimento…
O menino escutou tudo com clareza, mas por que ele não consegue responder?
Ele sequer recebeu um Glanz. Então, como poderia almejar encontrar com uma das maiores entidades desse mundo?
Enquanto encara as mãos trêmulas sujas de terra, as simples palavras trocadas com a sua amada abrem os seus olhos.
“Você vai viajar por todo lugar… Eu não quero que você me deixe aqui. Se eu fosse mais forte, eu poderia ir com você…”
“Não precisa se preocupar… Eu sempre vou voltar pra ver você.”
“Promete?”
“Eu prometo.”
Engolindo o desamparo, mas não as suas hesitações, Raisel se ergue com a visão ainda turva.
一 Entendi… Vamos tentar… 一 por mais que aperte os punhos, as mãos não param de tremer.
Mesmo com as dúvidas, o garoto tem chamas em seu olhar.
Enxugando as lágrimas e o ranho com a manga da camiseta, ele devia ser firme para poder salvar as pessoas que ainda poderiam ser resgatadas.
一 Por onde vamos começar? 一 arregaçando as mangas.
一 Vamos atravessar Fyodor e ir até o Distrito Comercial de Balmund… Julgando pelo tamanho do pilar que caiu, devemos ter, na melhor das hipóteses, um mês pra Ruína absorver tudo ao redor.
Um pouco mais calma, Carmen se afasta do velho e usa as costas das mãos para secar o rosto encharcado.
Yurgen estreita o olhar e suspira.
A ruiva parte para a direção de Lila e Lavi.
Sozinhos, avô e neto se encaram.
一 A gente deve chegar nas Ruínas Fyodor até o nascer do sol se sairmos agora. Não vamos perder tempo…
O garoto acena com a cabeça e segue o caminho logo atrás do mentor.
Aproximando-se das crianças e da mulher, eles irão seguir um destino diferente enquanto o restante dos sobreviventes vão até o vilarejo mais próximo.
一 Eu vou… com vocês até Fyodor, mas acho bom chamarmos o Olga. Vou tentar pedir a ajuda dele… 一 totalmente desanimada, Carmen segura o pulso de Lavi. Os gêmeos estão de mãos dadas.
一 Não acho que ele vai querer ajudar… 一 a mão calejada passa pela nuca.
一 Você devia ter mais fé no seu próprio filho, Yurgen… 一 sequer olhou para o velho de novo.
Após isso, eles partem em silêncio.
Naquele céu, agora sem estrelas, existe somente uma luz dourada que brilha sobre a sombra dessa aventura.

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