Índice de Capítulo

    No amanhecer do quinto dia, Raquel acorda assustada enquanto tem o lençol escorado no peito. Olhando de um lado para o outro, não reconhece o quarto, mas logo se lembra de tudo o que aconteceu durante a noite… De repente, vem a se encolher nas próprias pernas; completamente constrangida.

    Os olhos azulados lacrimejantes deslizam para o lado buscando o rapaz, mas seu calor já deixou a cama há tempos. Por isso, ela suspira fundo.

    Tocando os pés no chão, estende os braços para o alto e permanece na ponta dos dedos para se espreguiçar.

    “Certo! Vou voltar pro meu quarto para ver como a mamãe está… Depois vou procurar a Senhora Yolina e contar a ela meu desejo. Eu vou ficar ao lado dele… custe o que custar!” 

    Fechando os dois punhos com força, encara a si mesma no espelho. Os olhos dela por pouco não saltam para fora. Rapidamente cobre o pescoço com as mãos e fica tão sem jeito que as pernas perdem parte da força…

    一 Rê, rê… 一 de maneira sem graça, uma risada de nervosismo mascara a sua preocupação em como esconder as marcas.

    De qualquer forma, Raquel se recompôs ligeiramente. Do lado de fora do quarto, os sons de gavetas e armários se fechando ecoam pelo corredor durante a manhã; é como se um tornado estivesse ali dentro.

    Em poucos minutos, ela abre a porta de fininho. Os fios de cabelo bagunçados agem como um radar ruivo de detecção. Então, ela desce as escadas com cuidado e segue para o seu quarto o mais rápido possível.

    Entrando como uma fugitiva, as costas escoradas contra a porta permitem que ela suspire em segurança. Mas ao fitar o cômodo, as sobrancelhas se unem no centro da testa.

    一 A mamãe… não está aqui.

    Enquanto caminha até a cama, nota um bilhete sobre a bancada. Os dedos fisgam o papel e os olhos percorrem pelas letras:

    “Obrigada por ontem, meu amor. Fui para o ‘Jardim’ treinar. Devo voltar para o quarto na hora do almoço para comermos juntas

    O.B.S: Sei que você foi ver o Raisel, sua danadinha… Quando eu disse que queria netinhos, eu estava brincando, viu?~ 

    O corpo da ruiva passa por três processos: se trinca, ferve e explode. A fumaça dessa “explosão” encobre todo o quarto, tendo a névoa saindo pelas arestas da porta.

    Entre o nevoeiro cinzento de outro cômodo, os olhos dourados estão mais concentrados do que nunca. Erguendo-se da destruição, o rapaz se impõe diante da Lobo outra vez.

    Sangrar e lutar em total condição de ferimento, aos poucos, se torna algo comum. Entre hematomas, cortes e ossos quebrados, Raisel arma a postura da Jägerjagd. O corpo, completamente trêmulo, permanece em pé puramente pela sua força de vontade.

    Vendo-o, a Lobo sorri por debaixo da máscara. De maneira idêntica, ela também se prepara para o combate. Contudo, diferente do treino com a Lebre, as suas Áreas de Ações estão quase completamente restritas ao corpo. Em pequenas oscilações, elas se expandem para frente e se encolhem; pulsando esporadicamente.

    Na vastidão do vazio esbranquiçado, ambos desaparecem em outro pico de velocidade. O choque das suas vontades gera um casulo espiral segmentado entre o vermelho e o dourado. Lá dentro, a troca de ataques acontecesse em frenesi.

    Os braços do rapaz se movem como chicotes enquanto imóvel. Mas colidindo com cada ataque com igualdade, gradualmente o ritmo da Comandante passa a aumentar.

    Raisel espreme os dentes com força. Contra a sua vontade, as suas pernas recuam conforme a mulher avança de passo em passo. Ele sequer pisca durante as defesas e ataques, cada milésimo é importante para não deixá-la usar seu ponto cego. Mas, no fim, o resultado se repete.

    Os dedos rígidos como lâminas da Lobo o engolem por golpes vindo de todas as direções. A sequência de ataques impactantes usando a palma e cortantes usando as garras atingem ele implacavelmente. Em um único segundo, coxas, braços, peitoral e ombros são golpeados doze vezes…

    A somatória desse dano faz o casulo desfazer-se, liberando Raisel como um vulto para longe.

    一 Blergh… 一 o sangue que escorre dos seus lábios já nem são liberados com ânsia. Eles apenas saem.

    Esticado contra o chão, o corpo dele não aguenta mais. Tudo está latejando, ardendo e coçando, desde a ponta dos dedos dos pés até o fio de cabelo

    一 Levante-se. Seus inimigos não vão deixar você se recuperar. 一 a predadora o encara com frieza.

    Os murmúrios de dor escapam da sua voz, mas ele se ergue com os ombros encolhidos. A postura da arte marcial entra em prontidão.

    一 Ótimo. Descansar… Voltaremos depois do almoço para treinarmos o seu físico. 一 dando meia-volta, a Lobo passa pela porta.

    Sem ela no cômodo, o garoto desaba.

    “Meditar… Preciso me recuperar o máximo possível, ou eu realmente vou morrer.” 一 os olhos com fundos vermelhos mostram o seu desespero silencioso.

    Não perdendo tempo, ele adormece enquanto inicia o processo para concentrar Gewissen em seus machucados.

    Da escuridão proporcionada pela pouca iluminação, o brilho rosado do globo enaltece a pequena silhueta da anciã sentada em outro cômodo.

    Sobre a porta dupla enorme, toques tímidos batem contra a sua madeira.

    一 Entre. 一 ríspida, sequer tirou os olhos do mapa continental.

    Esgueirando-se por entre a fresta da entrada, Raquel surge com os olhos baixos.

    一 Com licença… Você tem um tempo para mim, Senhora Yolina? 一 ela vem a encarar as pequenas costas daquela mulher, mas com uma sombra gigantesca atrás dela.

    一 Raquel, não é? A filha da Spencer. Venha aqui. 一 deslizando o dedo sobre a estrutura flutuante, os pinos de marcação se movem.

    一 Sim… 一 com passos tímidos, esboça muita curiosidade e contemplação ao ver a energia da velha.

    一 Você sabe como eu conheci a sua mãe? 一 abaixando o dedo, o rosto dela direciona-se ao chão.

    一 Foi pela minha tia, Sarina, pelo o que ela me contou. 一 os pulsos cruzados à frente da cintura demonstram respeito, mas principalmente nervosismo com os ombros rígidos.

    一 Isso. Naquela época, eu estava tentando negociar com a matriarca Spencer, a sua avó, e me deparei com Carmen se escondendo atrás de Sarina. Sua tia devia ter uns quinze anos e a sua mãe, dez. 一 os olhos sempre semi-abertos da senhora se fecham completamente para acessar as memórias antigas.

    Saber que houve uma época em que Carmen era tímida, causa um choque em Raquel. Seu nervosismo passa a ser dissipado pela sensação calorosa em seu peito.

    “Então a mamãe já foi fraca… Pelo jeito dela, sempre pareceu que ela nasceu já sabendo segurar uma espada.~” 一 entre a franja ruiva, os olhos turquesa sorriem.

    一 Você me lembra muito ela em sua juventude. 一 virando-se lentamente, os lumes rosados de Yolina a encaram diretamente.

    一 Sempre ouvi que eu pareço muito minha mãe. 一 ri com graça, inclinando brevemente a cabeça.

    一 Não. Você não parece a sua mãe. Estou falando da Sarina, sua tia.

    As palavras da anciã a atingem como um relâmpago. Não foi apenas um corte em que acreditava, mas uma quebra de uma vidraça comparativa. Afinal de contas, ela é a filha de uma poderosa espadachim, mas que não nasceu com talento para lutar. Isso é refletido até pelo poder da sua benção de Andrômeda…

    一 É a… primeira vez que me dizem isso. A mamãe evita falar sobre a minha tia. Tudo o que eu sei são… fragmentos. 一 agarrando o próprio vestido, o incômodo em seu peito dói como cacos sendo moídos a pó.

    Yolina suspira com pesares. Levantando-se apoiada pela bengala, a felina segue até a garota.

    一 A verdade é que a Spencer nunca superou o trauma de ter perdido a Sarina. É irônico pensar que mesmo sendo mais poderosa, a força da sua mãe nunca se comparou ao que sua tia representava. Ela era uma “Rosa Selvagem”. Alguém que seguia em frente mesmo desmanchando em pétalas.

    A senhora ergue a ponta da bengala até o centro do peitoral de Raquel; escorando-a contra a sua vestimenta de gola alta.

    一 Sua compaixão e determinação eram indomáveis. Essa é a verdadeira natureza de uma Spencer.

    Ao ouvir tudo, os olhos turcos acendem-se em um tom avermelhado. A Constelação de Andrômeda ressoa com o fervor no coração da ruiva, fazendo com que seu espírito se eleve inconscientemente.

    一 Então, por favor… me torne uma Rosa Selvagem. Eu não consigo ver as pessoas que eu amo sofrendo tanto e ficar parada… 一 a menina leva as mãos até a bengala e a aperta com força, encarando a senhora diretamente.

    Vê-la brilhando intensamente em um véu carmesim, fez com que o coração desgastado da frágil anciã batesse errado. É uma sensação de nostalgia, como se estivesse vendo um déjà vu vívido à sua frente.

    Com um sorriso, ela vem a dizer:

    一 Não se preocupe, Raquel. Por sorte, alguém perfeito para você chegou há pouco tempo. Quem sabe, talvez você não se torne apenas uma “rosa selvagem”, mas guie as pessoas importantes para você como um jardim de rosas. 一 abaixando a bengala, Yolina dá meia-volta para ir novamente até o seu banquinho.

    一 O Terceiro Comandante, o Raposa, será o seu mentor. Ele é quem me auxilia para as estratégias e lida com o reconhecimento de eventuais perigos. É perfeito com o seu futuro papel para ser o apoio de Raisel.

    Ao fundo da sala, a máscara de focinho longo e olhos afiados surgem das sombras; parecia um fantasma do quão oculto estava. Os olhos desse homem brilham em um tom amarelo opaco 一 Talvez por causa da máscara 一 semelhante, mas diferente às cores de Raisel.

    一 Será um prazer ensiná-la, Raquel Spencer… Eu tenho uma grande dívida com a sua tia. 一 a voz jovial mansa retrata inteligência e astúcia em pouca idade.

    Entre o silêncio após as vozes ecoantes no Salão de Reuniões Estratégicas, eventualmente a pouca iluminação deixa de existir. O meio-dia surge como o encontro de todos: Raisel, Raquel, Carmen e Tejin. Mas o estranho sumiço de Kimich ainda é sentido pelo grupo.

    Papeando após o descanso, a hora de voltar para seus respectivos treinos chega. Dessa forma, o quinto e o sexto dia passam em um piscar de olhos.

    Na manhã do sétimo dia, é o momento de ir até Kanthen.

    Reunidos no fim de um grande corredor com duas portas enormes de aço, Raisel e o grupo estão reunidos, incluindo o alquimista loiro que estava desaparecido até então. O semblante de cansaço nele indica que não passou a semana de preparação à toa.

    Entretanto, sob as luminárias de borboletas, as chamas da fênix aparecem envolvendo o espaço como um casulo. As labaredas se dissipam, revelando duas manoplas escuras e uma espada negra como a noite sobre os braços da Lebre.

    一 Raisel. Isso é para você. Demorou mais do que o esperado para convencer a Ovelha, mas no fim, ela acabou cedendo. 一 esticando os equipamentos para o rapaz, os olhos dele brilham por nunca ter visto algo tão sofisticado.

    Sobre as mangas da jaqueta de couro preto, equipou as manoplas finas como ossos negros; contrastando com suas ombreiras de prata. Na cintura, o sabre escuro ornamentado parecia uma vértebra.

    一 Cuide bem do seu equipamento. Esse conjunto é de muita qualidade… Se chama Dunkler Knochen. 一 cruzando os braços, a ruiva alta de terno estranha a sua aparência.

    Em poucos dias, a atmosfera sobre Raisel mudou. Não só pelo seu cabelo curto e tombado para o lado direito em uma franja única grande, mas sua postura e físico se tornaram visivelmente melhores.

    一 Raisel… 一 a garota de cabelos escarlates o encara com um pesar.

    Ao lado dela, a mãe segura seu ombro como um conforto.

    一 Eu vou voltar. Não precisa se preocupar, Raquel.

    Aproximando-se, eles tocam os lábios um dos outros brevemente. Carmen arregala os olhos, surpresa pela atitude do rapaz. Por outro lado, a Lebre, a Lobo e Jeanice desviam o olhar. Já Kimich e Tejin sorriem com satisfação.

    一 Vamos indo, Raisel. Deve demorar três dias para chegarmos até lá. 一 o meio-elfo põe a mão sobre o enorme portão.

    一 Tudo bem… Se cuidem, Carmen, Raquel. E obrigado por tudo, Lobo, Lebre e senhora Yolina. 一 respeitosamente acena com a cabeça e desaparece entre o fulgor rosado.

    Do lado de fora da Base criada pelo poder da anciã, a friagem, a umidade e a natureza saúdam os viajantes da vez. O grupo é composto pelos feiticeiros meios-elfos, o alquimista e o contratante de um demônio.

    Esse lugar é uma imensa floresta mágica. Quais segredos o território de Roderich esconde e quais perigos os esperam?

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