Capítulo 83 - Vislumbre
O enorme casarão de madeira de três andares está adiante do quarteto. Gentilmente coberto por vinhas entre as paredes e vidraças, pigmentos de pétalas e flores nas telhas, ele não possui uma placa como as pousadas humanas ou o refúgio élfico.
一 Essa é a pousada? 一 apesar de perguntar sobre o edifício a sua frente, a atenção de Raisel está totalmente direcionada para a gigantesca árvore de galhos espaçados; estendendo-se até os confins dos céus.
一 Sim. Não tem placa porque a Ema não quer que esse lugar seja só uma pousada… mas aconchegante como um lar. 一 Tejin empurra a porta sem maçaneta e espera os outros entrarem.
Ainda assim, alguém o reconhece de imediato.
一 Tejin! 一 entusiasmada, os passos dela ecoam pelo assoalho de lenha.
Jogando-se nos braços dele, uma mulher com uma grande queimadura na bochecha aparece. O cabelo dela dividido entre preto e vermelho esvoaça aos ares. Seus trajes são diferentes de tudo o que o menino já havia visto. Uma bermuda larga branca com as barras amarradas por cordas, cinto trançado e um pequeno colete azul escuro por cima de uma regata preta.
Gentilmente, os braços do meio-elfo a envolvem num abraço apertado, mas um suor escorre da lateral de seu semblante. Os olhos celestes fitam de soslaio os próprios companheiros.
一 Ema, nós temos visita… 一 os óculos decaem um pouco pelo choque entre seus corpos.
O rosto afundado contra o peitoral dele, se direciona até os outros três. Diferente do rapaz, as íris da mulher são verdejantes como esmeralda. Sua pele desgastada pelo sol ruboriza de repente, destacando suas bochechas.
一 B-Bem vindos! 一 como uma força de repulsão, ela se afasta. A atenção vaga pelo cômodo até se fixar novamente nos convidados. 一 Essa é minha pousada… mas sintam-se à vontade como sua segunda c-casa.
Ao ver Jeanice, Ema se move tão rápido quanto um vulto; segurando as suas mãos repentinamente.
一 Você é nova por aqui?! Caramba! Faz tanto tempo que não temos mais meios-sangue vindo de fora! 一 chacoalhando os braços da garota para cima e pra baixo repetidas vezes.
Exposta a tanta radiância, a recém-chegada sente tontura por estar sendo estimulada visualmente e pelo toque repentino.
O comerciante, por sua vez, recolhe a sua dona do estabelecimento como um gato pela nuca. A baixinha ruiva de fios bicolores apenas aceita o seu destino…
一 Desculpa por ela. Essa cabeça-de-vento não sabe se conter… 一 os olhos de Tejin se fecham com um sorriso sem graça.
一 Poxa, mas eu preciso recepcionar os novos visitantes de forma calorosa… 一 em choramingos, ainda está suspensa no ar sob a mão do homem.
Entretanto, o loiro tira Raisel e Jeanice do caminho. Encarando o velho amigo com incontáveis veias saltadas pelo rosto, Kimich parece estar com um ódio fervente.
一 Seu orelhudo desgraçado, se você me dizer que essa é a sua esposa, eu vou decretar sua sentença de morte bem aqui… 一 o Gewissen transparente emite uma distorção de calor intensa pela área.
Soltando Ema, o moreno encara o alquimista com a mesma raiva ardente.
一 É minha esposa sim… E aí, vai fazer o que, criança? 一 encostando as testas umas nas outras, parecem estarem prontos para a briga.
Porém, a nanica meia-elfa estoura um cascudo na cabeça dos dois. O punho ainda solta vapor pela intensidade do golpe. Tanto Tejin quanto Kimich estão agachados com a mão no cocuruto.
一 Você… deve ser o Kimich, não é? 一 observando-o com apenas um dos olhos, os lábios arqueados parecem satisfeitos.
一 Sou… 一 com o rosto direcionado para o chão, as mãos acodem a região ainda latejante. Todavia, um aroma delicioso de pão fresco hipnotiza as suas narinas.
一 O Tejin me falou muito de você. Ele disse que– Bmf! Bmf!
A palma do marido surge como uma mordaça contra a tagarela. De soslaio, ele a julga naturalmente por sempre falar demais…
一 De qualquer modo, essa é minha esposa, Ema… O loiro é o patife, a garota é a Jeanice e o menino é o neto do Yurgen, Raisel.
Conforme os apresenta, a dona da pousada muda de semblante ao ouvir o nome de Yurgen. Seriamente, ela se desprende da mão do esposo. Indo até o menino, ele instintivamente sente que seria ameaçado e prepara o sabre para ser sacado, mas o contato caloroso o preenche. Um abraço silencioso e completamente repentino.
一 Senhorita Ema…? 一 estranhando isso, ele primeiro encara Tejin que está contente. Mas com a margem da visão, o rosto da mulher está enraizado de dor… ou será de alívio?
一 Me desculpa… É que, o Yurgen salvou a minha vida, mas nunca mais pude vê-lo… 一 afastando-se, afaga cuidadosamente a marca de queimadura na bochecha.
Estalando os arredores com uma palma, a atmosfera melancólica e sentimentalista desaparece.
一 É um prazer conhecer vocês, eu sou a Ema! Vocês parecem cansados. Por que não entram pra comer e relaxar um pouco? 一 ela abre espaço para eles ao ficar do lado do marido.
Eles se encaram enquanto as suas energias, azul claro e rosa intenso, se entrelaçam. Acenando com a cabeça, Ema parece permitir algo enquanto Tejin saí.
一 Vou deixar vocês aqui por enquanto. Vou visitar o Quartel como eu havia falado pro Leander… 一 portanto, a porta se fecha.
Nesse ambiente de forro baixo, há diversas cadeiras e mesas dispostas próximos da bancada. É onde o trio se acomoda.
一 O primeiro andar é a recepção, mas também onde podem fazer suas refeições. Eu acabei de fazer pão. Querem comer antes de irem para os quartos? 一 virando-se, ela possui uma grande trança única que ultrapassa até a cintura.
一 Pode ser. Não acredito que aquele idiota não me contou que era casado… Tsc. 一 automaticamente vem a pensar nas noites de bebedeira em que ficou falando de mulher para o meio-elfo, e o chamando de frouxo por nunca sair com ninguém.
一 Pois é. Eu nunca suspeitei de que o Tejin tinha família aqui. Mas bem, parando para pensar, toda semana ele viajava pra cá… Era pra ver você, não é? 一 Raisel solta a espada escorada ao chão; encostada na bancada.
Jeanice começa a se recuperar do atordoamento…
一 Eu… já sabia disso. Ele me contou enquanto me ensinava sobre Formel. 一 encostando os polegares dos pés uns nos outros, a sapatilha da morena está mais frouxa.
Da cozinha atrás da bancada de recepção, a gargalhada de Ema é bastante calorosa e autêntica.
一 O Tejin nunca foi de falar muito sobre ele mesmo. Até eu não sei de muitas coisas sobre ele, e olha que faz quase vinte anos que somos casados. Mas isso não me incomoda…~ 一 entre memórias perdidas de paixão, ela retorna com uma cesta contendo os mais variados tipos de pães.
一 Podem pegar.
Disponibilizando o lanche da tarde para eles, a meia-ruiva oferece também em garrafas de vidro, café e chá. Enquanto comem, ela se senta no banquinho para a recepção, observando exclusivamente Jeanice.
一 Você vem de onde? 一 o maxilar apoiado pelas duas palmas, sustentam a sua cabeça.
一 K-Kromslaing… 一 quase engasgando por estar recebendo tanta atenção, mordisca o pão de brioche com tanto cuidado que parece estar o roendo.
一 Hm… Não sei onde fica, mas deve ter sido horrível. Suas cicatrizes são piores do que as minhas. Você tem quantos anos? Parece tão novinha… 一 encantada com a beleza da morena, as pernas balançam pelo ar atrás do balcão.
一 Tenho vinte e cinco…
Raisel e Kimich, pouco a pouco, viram a cabeça até ela. Paralisados pela revelação, eles se entreolham. Aproximando-se as orelhas, começam a cochichar:
一 Ei, Ray, você sabia disso?
一 Claro que não! Pra mim ela tinha a minha idade!
一 Sua idade? Ela é nove anos mais velha que você, seu idiota! Eu achei que ela fosse uma velhota, mas ela tão quase a minha idade… Será que eu–
一 Rapazes… vocês sabem que conseguimos escutar vocês, não é? 一 o punho sobe já latejando de vontade para encontrar a cabeça de alguém. Mas ela aponta para Jeanice.
A morena está quase virando um tomate de tanto constrangimento. No fim, o cascudo selvagem fez novas vítimas…
Com isso, as janelas transitam do dourado imaculado para o crepúsculo ardente. A iminente chegada da noite torna o epicentro da floresta bastante frio. O vidro borrado pela temperatura baixa do lado de fora, não invade o lado de dentro da pousada que permanece quente.
Após tomar um banho no seu quarto individual, Raisel muda as vestimentas para algo mais regional. Uma grande faixa na cintura como cinto, uma regata preta como colete de gola alta e as cordas nas extremidades de sua calça larga.
“Até que é bem confortável… Muito mais leve que as roupas humanas. Isso é feito do que será?” 一 com as manoplas negras apoiadas em cima do armário e a espada escorada nele, o garoto está bem relaxado.
“Leraje alertou sobre outro Contratante, mas aqui dentro eu não sinto nada… Esse lugar parece protegido por algum feitiço ou algo assim.” 一 passando a lateral do punho contra a vidraça, observa o lado de fora de Kanthen.
一 “Não é feitiço. Toda a pousada está envolta pela energia daquela mulher… É um brilho ardente completamente irritante…” 一 a voz de Leraje surge em um tom de incômodo; será que sua observação sobre Raisel está sendo prejudicada como uma cegueira por uma luz muito forte?
Por outro lado, as luzes exteriores são sutis, vindo puramente do pó luminescente e dos pequenos insetos, como as borboletas, que possuem hábitos noturnos. Uma paisagem realmente reconfortante e surreal para a sua realidade…
“E pensar que eu conseguiria realizar meu sonho… Viajar, ver mais do mundo. Mas isso não parece ser importante… Não tenho mais você pra observar minhas conquistas, vovô.” 一 a dor que o preenche não causa uma expressão em sua face, mas é algo silencioso como uma lança em suas costas, atravessando-o.
Na calmaria do fim da tarde, alguém bate na porta desse quarto…
一 Raaaiseeel, é a Ema. Tem algo do Yurgen que eu quero te entregar. Você tá acordado?
Encarando a porta com surpresa, ele não hesita para correr até ela para abri-la, como se estivesse sendo atraído para os fragmentos que restaram de seu avô nesse mundo: as suas ações.

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