Capítulo 84 - Cinzas sob as Brasas
Pelas arestas da porta, um calor desconhecido preenche o quarto gradualmente como um aroma adocicado. De repente, a presença de Ema havia se tornado algo de receio, mesmo sob as suas labaredas gentis. O nome de Yurgen e a sua relação com ele, enfim, traziam um peso diferente aos ombros do garoto…
Ele respira fundo e gira a maçaneta.
一 Algo do meu avô…?
一 Sim… Posso entrar pra gente conversar antes? 一 fitando-o, as orelhas alongadas reagem à algo oculto no breu do seu olhar.
一 Claro. 一 um gelo no estômago ressoa por todo o corpo enquanto abre espaço para ela entrar.
A entrada se fecha.
A mulher com mecha ruiva se acomoda sobre a cama com as palmas nas coxas. Encarando-a, Raisel se senta numa cadeira de frente para ela.
一 Você… também fez um Contrato com o demônio dele, não é? 一 cabisbaixa, o semblante dela se ergue pouco a pouco.
Essa pergunta estremece toda a silhueta do rapaz, mas ele aperta seus joelhos com firmeza.
一 Fiz… Meu avô me passou sua escuridão para que eu não morresse. Se não fosse por ele, eu teria morrido pelo menos duas vezes. 一 o ar que escapa de seus lábios é pesado.
As íris esmeralda de Ema se estreitam. Os cantos da boca arqueiam-se enquanto os pulmões são recarregados com a sua energia vibrante.
一 Pode parecer um tabu eu falar isso, mas eu não acho que demônios, as Estrelas Escuras, são tão ruins… 一 as palmas dela se separam para cada lado; apalpando o lençol do colchão. 一 Você deve saber de Tsarllain, mas eu vou te contar sobre a verdade do que realmente aconteceu lá.
Raisel sente os músculos endurecerem como pedra ao ouvir isso. Sob o ritmo das piscadas dos olhos da mulher, ele entende que não é mentira. Por isso, as costas naturalmente são atraídas até o encosto da cadeira.
一 Tsarllain foi um massacre quando meu avô perdeu o controle sobre Leraje… Não foi isso?
一 Foi. À primeira vista, pode parecer só um massacre de mais um Pagão qualquer, mas naquela época, o Terceiro Campanário e os Puros estavam subjugando nós, os Meio-Sangue. 一 olhando para as borboletas reluzentes no teto, a sua luz parece revigorar as lembranças daquele dia. 一 Tsarllain era uma cidade livre como Kanthen, mas ainda tínhamos esperança de que os Puros nos aceitassem. Só que isso é impossível.
Mergulhando na psique de Ema, as imagens distorcidas refletem a sua perspectiva. Os habitantes dessa antiga cidade eram todos ruivos como ela. As casas eram arquitetonicamente mais agressivas, quase negligenciando por completo a harmonia com a natureza. Os incontáveis prédios de mármore e marfim refletiam a luz da alvorada, mas completamente borrada pela maldade inerente do preconceito.
一 Eu tenho descendência da Casa Rhosmad, meu sangue é quase completamente Puro. 一 segurando a grande mecha ruiva no cabelo, os fios avermelhados deslizam entre os dedos. 一 Mas mesmo assim, meus esforços para ser aceita foram em vão. Eu, naquela época, fui afogada pela minha raiva… pelo meu ódio.
Uma brisa mais violenta na madrugada estremece a vidraça, chacoalhando o silêncio momentâneo.
一 Foi quando conheci Yurgen. Um humano no auge dos seus trinta ou quarenta anos, acalmando alguém com quase o dobro da idade dele… Eu realmente fiquei admirada. Ele é um homem gentil. Mas essa gentileza fez com que ele sentisse demais a nossa injustiça. 一 encarando a mão coberta pelo cabelo ruivo, ela o esmaga com o punho.
一 Não sei como os seguidores de Gusion apareceram, mas naquele dia, os Puros da cidade sumiram… Nós fomos aprisionados por um ritual das Trevas e iríamos morrer. Mas, esse ritual teve um efeito diferente em Yurgen. Suas mágoas e ressentimentos saíram do controle e Leraje lhe deu a força para acabar com todos os Servos de Gusion.
A palma vem a tocar a queimadura eterna em sua bochecha. Seus olhos verdejantes são tomados pela visão das chamas negras e da luz emergente vinda dos céus. A cena quando um único homem foi alvo de todo o Terceiro Campanário.
Os lábios dela hesitam, mas a voz continua a escapar:
一 Eu senti medo dele, por mais que eu o admirasse… Mas as pessoas que Leraje matou naquele dia foram todos hostis. Não sei o que aconteceu com os outros Tsarlianos como eu. Sinceramente, nunca encontrei outra pessoa que esteve lá. 一 um sorriso gentil ofusca as trevas em seu coração.
一 O que eu quero dizer com tudo isso, Raisel, é que seu avô não era um monstro. Ele era alguém que fazia o que devia ser feito. Um buscador da verdade.
Essas palavras espetam o coração do garoto. Não é uma reação do seu corpo, mas uma reação da sua alma. A escuridão em seu Núcleo se agitou por um instante. Como resultado, a sua vista oscila momentaneamente junto de uma dor aguda na cabeça.
一 Urgh…! 一 a palma tapa o rosto com força.
一 Raisel?! 一 as sobrancelhas altas começam a decair com um suor lateral no semblante.
一 Estou bem… Estou bem. 一 com a outra mão, acena sutilmente para ela.
“O que foi isso…? Foi Leraje?”
Aliviada, os ombros de Ema relaxam. Ela encara a própria coxa. O punho direito busca algo no bolso de sua calça volumosa, retirando uma espécie de colar prateado com um pingente grande circular.
一 Tome. É algo que ele deixou cair naquele caos… Eu o consertei e o mantive como uma memória, mas eu sinto que devo dar isso pra você agora.
O cintilar puro do metal encontra o ouro nos olhos do garoto. Entretanto, com o canto dos olhos, Raisel vê uma sombra de olhos púrpura na janela. O corpo age automaticamente ao se levantar da cadeira, agarrando a espada na bainha sobre o balcão. A silhueta imediatamente foge. Mas a janela é estourada por ele enquanto se impulsiona para cima ao se arremessar até o teto usando uma das mãos.
一 Raisel?! 一 assustada, o vácuo forte a fixa na cama contra a sua vontade.
Sobre o telhado da pousada, o garoto o persegue com seus pés descalços. Em um pressionar mais profundo, os músculos da perna esquerda usada como base saltam incrivelmente e o gelo das telhas sob os solados se esvaí. Com uma explosão física de velocidade, o sabre ri ao ser sacado.
De soslaio, a figura sombria desacelera ao vê-lo se aproximar repentinamente. O vulto negro do golpe rasga as trevas envolventes que se dissipa. O corte apenas atingiu o manto daquela pessoa.
Erguendo o semblante, o brilho dos olhos dourados encaram firmemente o outro. Acima do telhado de uma das casas acopladas em uma árvore gigante, os cabelos esbranquiçados esvoaçam pela brisa do luar. A luz prateada do céu que ultrapassa pelos galhos contrasta com a imensidão de cores dos fungos brilhantes.
一 QUEM É VOCÊ?! 一 a aura dele é emitida como uma seta até a figura.
Entretanto, uma energia roxa com fundo esbranquiçado se impõe perante a identificação. O Gewissen dessa pessoa é tão denso que o púrpura se expande em diversos tons.
Em silêncio, o fulgor de uma insígnia de estrela de seis pontas chega aos olhos do rapaz. Mas, no mesmo instante, a pessoa desaparece ao ser comprimida por um breu até sumir. O som de sucção se torna claro ao estar contra o vento; restando apenas a friagem no lugar onde o espião estava.
A brisa gelada da noite ressoa por toda a pele.
“Aquele insígnia… é um Cavaleiro de Balmund?”
A postura de luta se desfaz, mas o punho pressiona o cabo do sabre fortemente. Sob as dúvidas sobre essa figura enigmática, as luzes das janelas começam a apagar uma a uma.

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