Capítulo 85 - Aromas e Segredos
Com a chegada do dia, o quarteto se reúne no salão de entrada sob a companhia de Ema. Prontos para tomar um café da manhã, Raisel, Kimich e Tejin estão discutindo sobre algo enquanto Jeanice, ainda sonolenta, vaga entre os seus sonhos e a realidade; completamente derretida na cadeira.
一 Você tem certeza que viu a estrela de Balmund, Ray? 一 de braços cruzados, os fios morenos estão amarrados em um coque; permitindo que sua orelha pontuda se destaque.
一 Não. Essa pessoa foi pra longe depois de esquivar do meu ataque e, quando tentei usar a expansão sensorial, ela bloqueou usando sua energia. 一 penteando o cabelo para deixar sua franja cair para a direita, as manoplas negras vestem os seus braços.
一 E a energia era como? Tinha alguma característica especial que você notou? 一 ao lado direito de Raisel, o alquimista lixa as unhas com cuidado através de um pequeno item de metal.
一 Era roxa, mas tinha muitas camadas de tons… O mais próximo do corpo dessa pessoa era mais claro e, quanto mais distante, mais escuro. Fora isso, mais nada… Estava muito escuro.
O feiticeiro e o loiro se encaram por um instante.
一 A hipótese de ser um Pagão está descartada então. É um Lumificado… Mas pode ser até um meio-elfo, um Puro Sangue ou, na pior das hipóteses, alguém de Balmund mesmo. 一 no fim, um suspiro carregado balança os fios negros na testa.
一 Orelhudo, e sobre os assassinatos? O corpo que o Leander encontrou eram iguais aos mesmos que vimos no caminho pra cá?
A porta da cozinha abre. Com uma cesta de pães, queijo e carne em fatias flutuantes através da energia chamuscada de Ema, ela coloca o café da manhã sobre a mesa. Em instantes, uma garrafa de café se aproxima junto das xícaras.
Sem demora, Tejin prepara o seu pão para comer.
一 Não. Eram outros e estavam bem inteiros em comparação ao que vimos. Provavelmente são casos diferentes. Esses que estão sob a Vigia de Kanthen já tem suspeitos encaminhados: alguns membros da Svartalfar, e eu relatei os que encontramos para eles.
一 Esses caras ainda existem? Pensei que já tivessem desistido há muito tempo. 一 o bico do loiro encosta cuidadosamente sobre o café em sua xícara.
一 Não só ainda existem, como estão ainda maiores. Por isso é um problema.
一 Svartalfar são um grupo de criminosos de meio-elfos? 一 terminando de mastigar o seu sanduíche, Raisel põe um dos punhos à frente dos lábios para falar.
一 Sim e não… São mais extremistas que odeiam com todas as forças os Puros. A filosofia deles é fazer com que sofram na mesma moeda que a gente sofre. Mas bem, considerando o tamanho do grupo agora, pode ser que houve alguma distorção desse objetivo principal. De qualquer forma, está sendo investigado. 一 com uma beliscada na massa recheada por queijo, as orelhas dele se movem brevemente.
Finalmente saindo da cozinha, a parcialmente ruiva enxuga as mãos. Retirando o avental de rosas com textura de escamas de lagarto, a mulher se aproxima de Jeanice para acordá-la em definitivo.
一 Soube que os Svartalfar estão se preparando para o Vanaheim, meninos. Se eles tiverem alguma relação com essas mortes, então deve ser só um membro isolado. 一 massageando os ombros da garota de cabelo moreno, aos poucos, ela começa a despertar.
Dessa vez, Raisel e Kimich se entreolham ao ouvirem sobre a possibilidade de ser um membro exclusivo. Vendo isso com um olhar de curiosidade, Tejin toma um gole de café.
Logo, a manhã passa rapidamente. O calor úmido do meio-dia transforma o ambiente em uma constante de sombras frescas e ardor solar. Do lado de fora da pousada, o grupo está preparado para sair, com destaque do colar prateado com pingente circular no pescoço de Raisel.
一 Ema, vou até a cabana do ancião com Raisel e a Jeanice. Na volta, quero ir encontrar com os Svartalfar. Pode adiantar as coisas para irmos lá? 一 o canto dos lábios arqueados brevemente quase torna Tejin irreconhecível.
一 Claro, amor! Estou sob as suas ordens. 一 diferente do marido, um sorriso de bochecha à bochecha se abre no semblante dela.
Vendo os dois, Jeanice, Kimich e Raisel se afastam um pouco. Diferente dos rapazes, a curiosa meia-elfa observa a cena de soslaio à partir da aresta dos seus cabelos.
O nariz do feiticeiro toca cuidadosamente a ponta do nariz de sua amada. Nesse momento, eles parecem sincronizar as suas energias, tendo o azul celeste dele envolvendo o fogaréu acolhedor dela.
一 Estarei te esperando.~ 一 sussurrando baixinho, os olhos esmeralda estão hipnotizados nas íris de diamante dele.
Dando meia-volta após se afastar um pouquinho, ele se aproxima do grupo e toma à frente para liderá-los até a cabana do ancião, o seu mestre.
Conforme seguem para o norte de Kanthen, o centro da cidade fica para trás. Entretanto, a flora é bem diferente das muralhas, ou do interior de Yothergran. As árvores são comuns, ao contrário dos troncos que parecem montanhas. O ambiente, repleto de pétalas dos mais diferentes tons, permeia um aroma paradisíaco aos viajantes.
Na caminhada após alguns minutos, o trajeto fica mais íngreme. Na base desse monte, Kimich repentinamente cessa os seus passos; ficando para trás e de cabeça baixa. O breu mergulha o seu rosto…
Preocupados, os três o encaram em completo silêncio…
一 Pessoal, eu encontro vocês depois. Me deu… vontade de cagar. 一 seriamente, ele levanta a cabeça. Encarando-os com seus olhos castanhos repletos de determinação, pelo visto, a situação era urgente…
Com todo esse mistério, os três que o observavam parecem congelar. Raisel segura o riso, enquanto Jeanice está com a cabeça nas nuvens. Mas a reação mais esperada é a de Tejin: preparando para sacar a varinha e congelar esse maldito da cabeça aos pés.
一 Arfh… Tá, tá. Só não morre. 一 tratando essa situação como qualquer coisa, ele abana a mão para o alquimista enquanto se vira de volta para o trajeto; deixando-o para trás.
一 Se cuida, cagão. 一 rindo, o garoto acena para ele enquanto segue o feiticeiro.
一 Até… 一 a meia-elfa acena com os dedos fluindo de cima para baixo como uma onda.
Portanto, o trio aos poucos some de vista perante a nevasca arco-íris.
Em alta velocidade, Kimich parte para a direita ao dobrar a sua trajetória como uma serpente, mesmo em corrida. Com o canto dos olhos, parece verificar se algo ainda está atrás de si. Momentos depois, ele chega numa área mais aberta onde enormes rochas se empilham como dominó.
Encurralado pelos pedregulhos, ainda de costas, o loiro relaxa os ombros e põe as mãos nos bolsos do sobretudo branco; respirando fundo.
一 Cara, você vai mesmo me seguir até pra me ver cagar, rato da Yolina? 一 de soslaio, ele encara as sombras das árvores distantes. 一 Sai daí logo se quiser evitar conflito.
Emergindo das trevas das árvores, um homem de longos cabelos negros e uma máscara de gato preto aparece. Sua vestimenta é um colete negro com diversas faixas pretas pelos braços. As pernas estão cobertas por uma calça cargo escura e os pés com um par de coturnos.
一 Desde quando você me percebeu, Alquimista do Infinito? 一 com os pulsos cruzados para trás da cintura, a coluna ereta demonstra uma postura confiante e digna.
一 Hã… Por que eu te falaria isso? 一 coçando a orelha com o dedo mindinho, parece estar totalmente desinteressado.
一 . . .
Os dois se encaram por alguns segundos, até Kimich terminar de coçar o ouvido e assoprar a cera.
一 Vou ser direto: para de me seguir. Não sei o que a velha gagá pensa de mim, mas eu não vou me aliar com Balmund ou sei-lá-oque. Eu só estou coletando informações sobre o paradeiro de Hermeceu aproveitando que estamos aqui.
Ouvindo isso, o homem abaixa brevemente o olhar. Seus olhos estreitos por debaixo da máscara, ganham um tom de seriedade.
一 Nós sabemos onde e com quem Hermeceu está. Você pode se aliar a nós–
Sem dar chance sequer para o Pantera formular a frase, o alquimista toca o pedregulho atrás de si. Uma espécie de letra “K” estilizada é gravada sobre a superfície e, no outro instante, as pedras posicionadas como dominó se fundem formando uma imensa criatura de rochas.
Toda a área estremece e a poeira causada pelo baque da criatura cria uma tempestade de poeira. Sobre a zona devastada, o guerreiro dos Selvagens emerge das sombras mais uma vez. Uma grande sombra está projetada contra o chão. Ao olhar para cima, a única coisa que o homem vê é uma gigantesca serpente de pedra.
Sentado sobre a cabeça dela e de pernas cruzadas, Kimich transmite o seu Gewissen para o lacaio:
一 “Já disse que não quero virar peão dela. Vou só te capturar e te fazer de refém para ela contar… É muito mais fácil.”
一 Tsc… 一 estalando a língua, o Pantera estende as mãos para os lados e duas foices negras aparecem.
A criatura novamente se move. Com um ataque em espiral utilizando o rabo, é como uma broca massiva capaz de causar crateras. Novamente, o baque acontece, mas tudo se apaga…

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