Capítulo 87 - Rascunhos Internos
一 Nesse caso, vou deixá-los ao seu cuidado, mestre. 一 levantando-se do sofá, o meio-elfo arruma os óculos na face.
Encarando-o com um semblante carrancudo, os lábios de Azlam decaídos demonstram um pavio curto prestes à estourar. Os ombros de Tejin estremecem com o perigo iminente e, no instante seguinte, um suspiro farto escapa da boca do ancião.
一 Eu não mordo, moleque… Se está confuso com algo, eu posso ajudá-lo. 一 de braços cruzados, sustenta a visão com firmeza para enaltecer a sua postura.
一 Certo… Nesse caso, tem algo estranho acontecendo em Kanthen. 一 de pé, o reflexo esbranquiçado das lentes ofuscam os olhos do homem; que dá sequência:
一 Há alguns dias, os Guardas encontraram corpos em um beco na parte sudeste da cidade. Pelo relatório, eles estavam ali há algumas semanas. Mas ontem, nós encontramos mais corpos e o estado desses cadáveres era completamente diferente…
Ouvindo tudo com cuidado, Azlam acaricia o cavanhaque estendido com a palma. Sem saber o que esperar, tanto Raisel quanto Jeanice e Tejin, estão tensos ao ponto de não conseguirem encarar o sábio.
一 Hm… Não detectei nenhuma energia anormal durante esse tempo. É provável que sejam apenas criminosos comuns. Talvez um pouco mais organizados, mas Liam e Leander devem resolver. 一 a mão se estende até o copo de argila para beber o restante do chá.
Tomando alguma coragem, o garoto fita com os olhos baixos o velho. Sua desconfiança de que eram forças de Balmund entram em conflito direto com a certeza do tutor.
“Será mesmo que são apenas bandidos…? Se eu fosse mais forte, eu teria capturado aquela pessoa.” 一 apertando os próprios joelhos, a frustração o consome como ferrugem apesar da semana de treinamento na Base Temporária dos Selvagens.
Dessa forma, Tejin suspira aliviado.
一 Se você não detectou nada, então deve estar tudo bem. 一 dando meia-volta, aproxima-se da porta para abri-la. 一 Vou avisar os irmãos sobre o seu relato e o do Raisel, a tensão deve diminuir um pouco assim.
A porta então se fecha. Sozinhos com o recém-conhecido, Jeanice está com as mãos encharcadas de nervosismo. O garoto também não se difere muito.
一 Kuhum… Retomando sobre a Suspensão do Contrato, moleque, existem duas consequências nisso. A primeira é que você vai ser incapaz de processar emoções negativas. Como o seu Beisen está vinculado ao seu demônio, a única opção é entorpece-la como um todo. 一 após pigarrear, o velho se levanta e caminha em passos lentos até o menino, com uma partícula brilhante acima do dedo.
一 Isso não me parece um problema tão grande… E a segunda? 一 acompanhando-o com curiosidade e receio, as gargalhadas de Leraje desapareceram.
一 É que toda essa carga negativa virá de uma vez após a Suspensão acabar. Acredito que teremos no máximo meio mês, considerando o seu limite emocional. Então é muito provável que ele te possua. 一 encarando-o com seriedade, Azlam aponta a partícula rumo ao centro do abdômen do menino. 一 Você vai mesmo aceitar?
一 Vou.
Os olhos de Azlam quase pulam para fora. A resposta do garoto não teve sequer um pingo de hesitação. Sua determinação é inabalável durante as suas trocas de olhares.
“Uma luz dourada irradiante, inerente à maldade, mas que porta um breu tão profundo quanto o próprio abismo. Talvez você seja capaz daquilo…” 一 pensa o velho consigo mesmo enquanto o dedo segue rumo à barriga dele.
As peles não se encostam, mas a energia esmeralda infiltra-se diretamente no brilho áureo do menino. No instante seguinte, Raisel sente o corpo inteiro ser comprimido. Os dentes se fecham e a coluna arqueia para trás; esticando fortemente o pescoço. Não é uma simples dor física, mas algo além da carne. É como ter a alma reduzida à um grão de areia. Todo o vigor no corpo se esvaí. As raízes negras de Beisen incrustadas na alma do menino desaparecem.
No fim de tudo, após alguns instantes, o velho recua a palma.
一 Arf… Arf… 一 completamente destruído e ofegante, Raisel parece estar tão desgastado ao ponto de não conseguir levantar a cabeça.
“Vou desmaiar… Eu não estava tão cansado antes por causa da influência do Leraje…?” 一 cedendo a consciência para o acúmulo de fadiga por tudo o que aconteceu, o silêncio consome a sua mente.
Um som agudo pinta o espaço vazio de sua imaginação. A sensação de estar flutuando em um imenso breu é relaxante. Não há pressão, não há estresse. É como estar submerso em águas calmas. Conforme o som agudo se estende, maior é a quantidade de pontos verdejantes no espaço interno sombreado de Raisel.
Aos poucos, os olhos dele se abrem. A luz do dia vindo através da vidraça fina é acolhedora. Seu semblante é sério, neutro e rígido como uma rocha. O corpo inteiro latejante pela fadiga, gradualmente, recobra da sua anestesia.
“Quanto tempo… se passou?” 一 apressadamente, ele se levanta da cama macia. Tão pouco é seu interesse no cômodo, que rapidamente se arrasta até a porta.
A maçaneta redonda gira, revelando Azlam em alerta enquanto Jeanice medita na sala em que se reuniram no início. Notando-o de canto dos olhos, o sábio flutua sutilmente por uma brisa de ar, aproximando-se e ultrapassando-o para ir até um corredor ao fundo: uma porta aberta de brilho ofuscante.
一 “Venha.” 一 a energia verdejante pulsa e a ordem atinge diretamente a consciência de Raisel.
Sem o peso das suas manoplas ou da sua espada, sente que lhe falta algo, e ele sabe exatamente o que. Enquanto se apoia nas paredes para seguir o velho até o fulgor crescente, o entorpecimento dos seus medos tornou a sua mente mais prática, ao invés de pensativa ou reflexiva.
Ao passar pelo brilho, a paisagem se revela. Sobre uma planície incomensurável, reside uma árvore de pétalas douradas tão grandiosa quanto uma montanha. Seus ramos tornam a noite clara como o dia, mas no alto céu, quatro estrelas brilham em uma forte coloração esbranquiçada. Porém, o que se propaga é um silêncio completamente inebriante…
一 Sua cabana é… uma Ruína? 一 espantado pela grandiosidade do cenário, Raisel não sabe para onde olhar.
一 Sim… Mas não viemos aqui para falar disso. 一 contemplando a vista assim como o rapaz, a grandiosidade da grande árvore de folhas áureas sempre o enche de alegria. 一 Garoto, você sabe o que é Formel?
O ancião, com toda a sua pomposidade, se vira para encará-lo de frente. Suas trocas de olhares não são apenas uma mera visualização um do outro, mas uma tentativa de desvendar o núcleo de suas essências, a sua alma.
Engolindo seco, o jovem aperta os punhos.
一 Não… Só sei que a Jeanice e o Tejin conseguem usar. É uma forma aprimorada de Feitiçaria?
一 O senso comum dita que sim. Contudo, minha tese aponta para algo mais… vasto. Cada indivíduo recebe uma Constelação Guardiã e garante o seu Glanz ao longo da vida… alguns no nascimento e outros depois da morte. 一 os pés do velho sequer afundam contra o gramado ao aproximar-se do rapaz.
一 Com a imagem manifestada da sua Constelação, o Schaltung é formado. Uma série de linhas e pontos interligados ao redor do nosso Núcleo, amplificando e filtrando o uso de energia, além de conceder uma habilidade em comum da sua Constelação. 一 a palma apontada para o céu na altura do próprio peito, enfim, tece um círculo mágico.
一 Mas o Formel também faz uma função parecida. Ele filtra o desgaste de energia e estabelece um Rascunho para que o seu Gewissen se manifeste sem qualquer excesso, seja mental ou espiritual. Nesse caso, eu tenho uma teoria de que seria possível fazer um “Schaltung Artificial”, um Circuito independente das vontades dos deuses ou dos demônios… 一 de repente, ele esmaga o círculo sobre a mão; fechando-a bem forte. 一 Entende onde eu quero chegar?
Ao ouvir tudo aquilo, uma espécie de choque percorre por todo o seu corpo. Não é apenas uma oportunidade, e sim a chance de se tornar completo da sua própria maneira. O ânimo preenche as íris douradas e, dessa forma, os lábios se curvam para seus dentes aparecerem.
一 Entendo…! Você quer testar a sua teoria comigo, já que não tenho uma Constelação e, consequentemente, as chances de eu ter um Schaltung são zero! 一 sem receio algum, a palma bate contra o próprio abdômen. A interferência de não ter os males emocionais está o influenciando, mas mesmo sabendo, ele não parece se importar. 一 Pode me usar de cobaia à vontade, Senhor Azlam!
As sobrancelhas ralas sobem com a confirmação convicta. O sorriso incompleto surge à feição do ancião e, apalpando a própria barba longa como um chicote, ele diz:
一 Esteja pronto para torrar seu cérebro, garoto humano! 一 enquanto sua energia verdejante irradia como um vendaval solene.

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