Algo naquele sorriso gentil desencadeou diversas lembranças em Zac. O seu coração foi inundado por um sentimento muito belo, sua mente vagou e, logo em seguida, um lindo sorriso apareceu em seu rosto. Em meio aos seus pensamentos, algumas imagens surgiram em sua cabeça.

    Uma janela é quebrada, e o impacto causado no vidro faz com que os cacos voem em todas as direções. Um pedaço de vidro, de tamanho relativamente médio, reflete o rosto de uma mulher movimentando os lábios e dizendo: “Meu Filho Amado”. Porém, esse mesmo fragmento vai ganhando cada vez mais velocidade e, enquanto gira, continua refletindo o sorriso. Entretanto, aquele sorriso que outrora era belo muda completamente.

    O caco segue com tudo em direção à testa de Zac, até que finalmente acerta sua têmpora esquerda. Nesse mesmo momento, ele sente um vento forte vindo em sua direção, o que o faz abrir os olhos. Aos poucos, ele vai recobrando a consciência até compreender toda a situação.

    Ele olhou para baixo e viu seu lobo sorrindo para ele. Automaticamente, Zac acariciou seu belo animal. Logo depois, observou que Dionísio estava com um olhar diferente em seu rosto.

    Dionísio estava sentindo um mix de emoções. Claramente, ele não sabia se estava com medo ou se estava alegre. Ele chegou a ensaiar um leve sorriso, que surgiu devido a uma grande carga de epinefrina em sua corrente sanguínea. Durante alguns segundos, ele esqueceu completamente que estava atrasado e apenas aproveitou o passeio.

    A imagem foi se distanciando, mostrando os jovens montados em seus respectivos lobos. Ela se afastou novamente, até que de longe foi possível ver e admirar a beleza da capital do ensino.

    Ao norte, uma estrutura colossal, um projeto arquitetônico moldado para ser o mais belo entre todos, e que possivelmente foi feito com os melhores materiais. Além disso, sua estrutura possuía um tamanho exorbitante e, diferente da cidade, apresentava muita vida. Sendo possível observar uma árvore gigantesca e alguns alunos sentados ao seu redor, aproveitando a sombra projetada.

    De repente, começamos a acompanhar um corvo de coloração preta e olhos azuis.

    Suas penas emanavam uma fumaça negra que acompanhava o deslocamento causado pelo vento. Só que ele era diferente de um corvo comum, pois, ao invés de duas patas, esse corvo possuía três.

    Pegando os jovens de surpresa, o segundo sinal tocou. O semblante de Dionísio mudou completamente: sua felicidade deu lugar a um sentimento de preocupação e ansiedade.

    Para a felicidade deles, ambos já conseguiam avistar a entrada da Academia.

    Um belo portal feito de ouro branco foi visto. O seu arco vinha diretamente do solo, e as suas duas bases eram semelhantes às de duas rosas-do-deserto que se encontravam no topo do arco e se entrelaçaram. As rosas tinham uma coloração azul-celeste, e as folhas eram constituídas de ouro puro. A sua fundação dava origem a um corredor de grama verde com uma tonalidade clara, que se estendia por todo aquele caminho. Em meio aos arbustos, foi possível ver algumas plantas conhecidas como jasmin-azul. Além disso, o chão era coberto por ladrilhos na cor branca com detalhes em dourado nas pontas, que, quando encaixados, revelavam a majestosa forma da estrela de Davi, como um símbolo sagrado esculpido pela própria harmonia.

    No final do extenso corredor, também era possível ver a entrada principal da academia. Alguns jovens andavam e conversavam entre si. No lado esquerdo, havia um majestoso coreto feito de ouro branco, com detalhes em dourado. Em seu interior, alguns jovens recitavam magias. Já no lado direito, havia uma grande árvore que gerava uma sombra cobrindo boa parte da academia. Além disso, alguns espíritos de luz vagavam por aquelas proximidades. Uma leve brisa bateu nas folhas de coloração verde-escura, que, por estarem fortes e firmes, não caíram.

    Tanto Dionísio quanto Zac conseguiam sentir uma presença muito boa emanando daquela árvore. Eles continuavam seguindo em frente até que passaram por alguns alunos que estavam se aproximando da academia, os quais olharam para os lobos com um semblante de desprezo e rejeição.

    Dionísio se sentiu bem desconfortável com aqueles olhares, mas continua seguindo o caminho. Zac então conseguiu ver uma escadaria no final do corredor. Na base das escadas, estavam dois leões feitos de marfim, um de cada lado. A extremidade dá origem a duas escadas em direções opostas, que continuavam a subir. Um pouco mais acima, era possível enxergar uma parede com uma estrela dourada semelhante à estrela de Davi. Observando melhor, notou-se que um dos triângulos que formavam a estrela era semelhante à letra A.

    Zac e Dionísio passaram pela entrada e percorreram boa parte daquele extenso corredor. Os lobos davam pequenos saltos, trocavam olhares entre si e pareciam estar se comunicando. Ambos estavam muito felizes, mostrando suas bocas abertas, línguas para fora e a baba pegajosa que pingava no chão.

    No meio de tanta euforia e felicidade, o lobo em que Zac estava montado acabou esbarrando em alguns alunos que caminhavam pelo corredor. Zac, após esbarrar naqueles jovens, olhou para trás com um semblante sem graça e disse:

    — Ei, me desculpe, foi sem querer!

    Entre aqueles alunos, dois jovens olharam para Zac com o mesmo semblante de reprovação e nojo.

    Um deles, de cabelo branco preso em um rabo de cavalo, vestia uma roupa semelhante à de Zac, mas com mais detalhes dourados e um comprimento ligeiramente maior. Ele bateu nas vestes com as mãos, tentando remover a fumaça preta que havia ficado incrustada na roupa após o choque com os lobos.

    O outro jovem, de cabelo curto com tonalidade dourada, ajeitou o florete preso à sua bainha, que se deslocara com o impacto. Vestindo um uniforme idêntico ao do colega, ele endireitou a gola e engoliu em seco.

    Eles trocaram olhares, e o jovem de cabelo branco esboçou um sorriso confiante.

    — Aceito suas sinceras desculpas, mas quem vai ter que me desculpar agora é você! Não posso permitir que essas criaturas sujas corram pelo nosso corredor.

    Depois de falar, o jovem estendeu as mãos em direção aos dois lobos e, com uma voz calma e controlada, começou a recitar um feitiço.

    — Luz Divina! — disse o jovem de cabelos brancos.

    Em seguida, uma energia branca se condensou diante dele. Subitamente, um feixe de luz partiu em direção aos lobos. Zac e Dionísio, sem entender o que estava acontecendo, entraram em pânico ao perceberem o poder devastador daquele ataque.

    Zac não conseguia pensar em outra coisa além de que aquele ataque poderia ser fatal para seus lobos.

    — JACK e HOLLY, descansem! — bradou Zac.

    A fumaça negra que constituía os animais começou a se desfazer, deixando de ser sólida e voltando a ser apenas um gás que se dissipou com o vento.

    Zac e Dionísio perderam o equilíbrio e caíram em direção à escadaria.

    Em seguida, o jovem de cabelos dourados tirou o seu florete da bainha e avançou rapidamente em direção ao ataque feito por seu amigo. Ao alcançar, com apenas um movimento, ele cortou o feitiço em oito partes, ou seja, ele se dividiu em oito feixes de luz que já não causavam dano algum e se desfaziam ao entrar em contato com o chão.

    Estirado ao chão, Dionísio agarrou sua harpa com as mãos trêmulas. Um som grave e vibrante ecoou no ar enquanto ele dedilhava a nota Dó, como se sua alma inteira estivesse contida naquele acorde. Desespero estampado no rosto, ele ergueu a voz, que soou entrecortada e aflita:

    — O que vocês estão fazendo? Vocês são malucos? Queriam nos matar? Vocês são alunos assim como nós… O rapaz que possuía o florete novamente deu um disparo, mas desta vez ele avançou em direção a Dionísio.

    — Você estava falando o quê mesmo? Precisei me aproximar para te ouvir. Pode fazer o favor de repetir?

    Zac ainda estava caído no chão devido ao choque. Ele foi mais afetado por ter usado uma grande quantidade de energia para retirar seus animais de campo, o que fez com que ele continuasse desacordado, no chão, junto aos seus pertences, que caíram de sua mochila no momento da queda.

    A nota tocada por Dionísio gerou uma aura verde ao redor dos dois, que os curou e reparou a energia gasta.

    — Eu só quero entender o que levou vocês dois a nos atacarem.

    — Olá, Dionísio, há quanto tempo. Me desculpe pelo arranhão que causamos em vocês. Aliás, você mais do que ninguém sabe que é proibido usar magia sem autorização, certo? Nós apenas fizemos o nosso papel de veteranos, e como bom veterano, te peço para que isso não se repita. Ouviu, Dionísio? — Respondeu o jovem de cabelo dourado.

    Com a cabeça baixa, Dionísio a balançou, fazendo o movimento de afirmação, enquanto continuava tocando sua harpa.

    O jovem de cabelo branco e rabo de cavalo se aproximou de Dionísio.

    — Por sermos do terceiro ano, devemos manter a ordem na academia. E, além disso, como ousam sujar o nosso instituto com essa fumaça amaldiçoada? Sobretudo, esse garoto e essas feras não podem frequentar este instituto. — Com um olhar triste, Dionísio não se importou muito com o que aqueles dois estavam dizendo, ele só queria que seu amigo melhorasse logo e se levantasse.

    Terminando sua fala, ele notou que havia um livro caído no chão, ainda emanando uma fumaça negra. Sem nem pensar duas vezes, ele apontou uma das mãos e começou a conjurar um feixe de luz em direção ao livro.

    Porém, no momento em que ele terminou de conjurar, o terceiro sinal começou a tocar.

    A magia começou a ser canalizada, quando subitamente apareceu um rapaz com um sobretudo branco, cheio de detalhes dourados, e com uma espada nas costas. Ele tocou no dedo daquele jovem, fazendo com que o ataque fosse redirecionado para o chão.

    O rapaz que apareceu do nada olhou para os jovens que estavam caídos.

    — Vocês estão atrasados para minha aula e, se eu fosse vocês, não faria isso novamente.

    Zac foi recobrando a consciência aos poucos. De relance, ele olhou para frente e viu um rapaz de cabelo branco e curto, com óculos dourados, um sobretudo branco e azul. Ele também notou alguns símbolos em seu sobretudo e uma espada grande em suas costas.

    Sem entender muita coisa, ele olhou para Dio e o viu tocando a harpa.

    — Dio, o que aconteceu? Você está bem? Eu consegui salvar meus lobos?

    — Creio que sim, Zac. Eles desapareceram antes do ataque chegar. Aliás, como você está? Fiquei muito preocupado. A última coisa que vi foi você gritando e estendendo sua mão na minha direção.

    — Estou bem melhor, graças a você. Só não consigo me lembrar de ter estendido minha mão.

    Voltando um pouco no tempo, foi possível ver que, no momento em que os lobos desapareceram, Zac apontou uma de suas mãos em direção ao seu amigo, e uma fumaça negra o acompanhou.

    A fumaça recebeu todo o impacto destinado a Dionísio e, logo em seguida, se dissolveu. Apenas os olhares mais atentos perceberam, pois a fumaça se moveu junto com a sombra de Dionísio.

    Epinefrina: ou adrenalina é um hormônio e neurotransmissor que o corpo produz naturalmente nas glândulas suprarrenais, que é liberada em situações de perigo ou estresse.

    Jasmin azul: também conhecido como Plumbago Auriculata, simboliza simplicidade, modéstia e amabilidade

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