Zac então começou a ler o livro em voz alta, porém em uma língua diferente, que Dionísio e Clara não conseguiram entender. Entretanto, no meio de sua leitura, uma palavra foi reconhecida pelos dois.

    Clara ficou em choque. Ela olhou para Zac, demonstrando grande espanto. Seu corpo estava atônito e já não conseguia esboçar reação. Além disso, estava mais branca do que o normal e com uma leve tremedeira nos membros superiores.

    Dionísio, ao ver sua amiga nesse estado, tentou entender o que estava acontecendo. Ao perceber seus amigos nessa situação, ele ficou sem saber o que fazer. Desesperadamente, ele se aproximou de sua amiga.

    — Clara, por que você está assim? Parece que viu um fantasma! Você está bem?

    — Estou sim, é porque estou perplexa, Dionísio. Ele está lendo o livro, e eu não sei como.

    — É isso que fazemos com livros, né? Hehehe… — respondeu Dionísio, soltando algumas risadas, tentando, de alguma forma, melhorar a situação.

    — Dionísio, você não entende. Ele não deveria estar conseguindo ler este livro, pois todos esses livros estão com suas páginas em branco. O Arthur catalogou todos eles e me mostrou que estavam em branco, porque ontem, a pedido do professor Kyron, nós limpamos essa sala.

    — Então como ele está lendo?

    — Não sei. Só sei que estou sentindo uma sensação muito ruim, e vocês precisam sair logo daqui.

    Uma sirene tocou e ecoou por toda a Academia. Enquanto o alarme soava, uma voz feminina, muito serena, anunciou que os alunos não precisavam se preocupar e que tudo seria resolvido.

    — Zac, largue o livro e saia daqui agora! — exclamou Clara, a voz carregada de urgência.

    Enquanto isso, no instante em que Zac começou a ler, sua mente foi transportada para um lugar distante. Ele se viu diante de uma casa velha. No interior, conseguiu distinguir a silhueta da mulher que tantas vezes desenhara. Ao fundo, uma voz masculina ecoava, abafada pelo choro de um bebê. Então, de repente, a porta da casa rangeu ao ser aberta, emitindo um som agudo e envelhecido. Nesse exato momento, Zac despertou, atordoado, com a sirene da Academia reverberando pelos corredores e com Clara insistindo para que ele largasse o livro.

    Com lágrimas nos olhos e visivelmente abalado pelo que presenciara, Zac começou a recuar, sendo empurrado por Dionísio, que rapidamente tomou o livro de suas mãos.

    — Dionísio, leve-o ao banheiro, que fica logo ali. Eu resolvo isso. — ordenou Clara, apontando para a direção.

    Dionísio não hesitou. Guiou Zac pelo corredor enquanto Clara retornava à sala. Calmamente, recolocou os livros no armário, tentando ocultar qualquer evidência do ocorrido.

    Depois de organizar tudo, fechou a porta com firmeza e começou a caminhar pelo corredor como se nada tivesse acontecido. Porém, antes de chegar ao final do corredor, dois guardas surgiram apressados, a preocupação estampada em seus rostos.

    — Você viu algo estranho por aqui? — perguntou um deles, com o olhar atento. — A sirene disparou. Algo perigoso foi detectado neste local.

    Clara manteve a expressão serena e respondeu com tranquilidade:

    — Não estou entendendo nada. Estava apenas organizando alguns livros que estavam há tempos jogados na biblioteca, e, de repente, ouvi a sirene tocar.

    Um dos guardas a observou por um momento, como se algo lhe despertasse uma memória, e então exclamou:

    — Espere… você é Clara, filha de Apolo! Eu me lembro de você andando com seu pai lá no quartel-general. Caramba, menina, como você cresceu!

    Clara esboçou um leve sorriso, tentando dissipar qualquer desconfiança.

    — Pois é… o tempo passa.

    — Aliás, mande um abraço para o seu pai! — acrescentou o guarda, amistosamente, antes de seguirem seu caminho.

    Clara continuou a andar pelo corredor, o coração disparado, mas o semblante inabalável. Por dentro, sabia que aquele incidente mudaria o rumo de muita coisa na Academia.

    — Sou eu mesma. Pode deixar, só vai demorar um pouco, pois faz bastante tempo que não o vejo.

    — Viemos até aqui porque foi relatado que uma alma negativa muito forte estava sendo gerada neste local. Deve ter sido um mal-entendido. Apenas mande lembranças ao seu pai.

    — Certo. Qual é o nome do senhor?

    — Apenas diga a ele que o guerreiro que sobreviveu à grande Fenrir mandou lembranças.

    Clara, aliviada, passou uma das mãos pelo rosto e seguiu na direção da sala do Conselho.

    Enquanto isso, no momento em que Zac estava lendo o livro, o professor Kyron entrou no banheiro e foi até o lavatório. Ele abriu a torneira, lavou o rosto e riu em voz alta. Logo em seguida, Kyron ouviu o som de uma gaita vindo da direção de um dos boxes.

    O banheiro era majestoso, assim como tudo naquele lugar. Era revestido com ladrilhos brancos e detalhes em ouro e marfim. Contava com cinco boxes feitos de madeira de acácia. Na frente deles, havia um espelho gigantesco com moldura de ouro puro. Logo abaixo, estendia-se uma bancada de mármore branco com veios dourados, onde estavam instaladas cinco pias, cada uma com uma torneira feita de ouro. Um detalhe curioso sobre essas torneiras era que funcionavam em resposta à alma: para abrir, era necessário injetar mana, o que liberava uma água capaz de limpar e curar.

    Kyron perguntou em alta voz:

    — É esse o garoto que estávamos aguardando?

    Uma voz respondeu:

    — Sim, é ele mesmo. E tudo ocorreu como planejado. Ele conseguiu se conectar mais uma vez.

    Logo em seguida, ouviram o som de uma descarga. De repente, um aluno saiu de um dos boxes, olhando ao redor, completamente confuso.

    Kyron estalou os dedos, e o tempo retrocedeu para o momento em que ele estava se aproximando da pia. Ele encarou o espelho novamente e ouviu a gaita mais uma vez. Desta vez, porém, saiu do banheiro e deixou a porta fechar suavemente atrás de si.

    Enquanto isso, os guardas chegaram à sala da reitora. Ela era uma mulher de cabelos grisalhos, trajando um vestido azul com detalhes dourados. Sob o vestido, havia um forro branco, do qual surgiam desenhos semelhantes a flores, que se espalhavam até desabrochar ao longo do tecido. O vestido era elegante, moderno e sem muito volume na parte superior, realçando sua postura imponente.

    — Querida reitora, fomos ao local informado e, quando chegamos lá, encontramos apenas a filha mais nova de Apolo, organizando alguns livros antigos na sala ao lado da Biblioteca.

    — Ah, sim. Provavelmente a Clara, por possuir uma quantidade impressionante de mana, acabou ativando alguns livros antigos. Essa menina era realmente esplêndida. Nem mesmo eu conseguiria realizar tal proeza. Guardas! Ordeno que recolham esses livros e os tragam para mim. Precisamos guardá-los com segurança. Não sabemos que mistérios eles possuíam, apenas que sua magia inundou boa parte da escola com uma energia nefasta.

    A reitora levantou-se de sua cadeira, feita de madeira de acácia com um estofado de tonalidade azul-turquesa. Ela lançou um olhar para a mesa, feita de marfim, posicionada à sua direita. Com um leve sopro, uma energia emanou de seus lábios, transformando a mesa em um holograma que exibia toda a academia.

    Não era apenas um holograma; parecia algo vivo, fluindo em uma tonalidade azul-turquesa. No centro do mapa projetado, uma mancha negra pulsava, localizada na área identificada como a biblioteca. A mancha, como uma sombra viva, expandia-se lentamente em todas as direções.

    A reitora fechou os olhos por um instante e, em seguida, cobriu o olho direito com uma das mãos. Quando os abriu novamente, sua palma exibia um símbolo que lembrava uma flor com um olho no centro. Com outro sopro, a mancha negra desapareceu do holograma.

    Enquanto ela soprava, um vento forte surgiu no pátio da escola, cobrindo toda a academia. Uma leve brisa, gerada pela grande árvore central, dirigiu-se à sala ao lado da biblioteca. Pelos corredores, pequenos pólens flutuavam, formando um delicado funil de vento que, aos poucos, se desfez. Esses pólens absorveram toda a névoa negra que pairava sobre o local.

    Dionísio, ao perceber o vendaval, puxou Zac rapidamente e o levou para o banheiro. Lá, encheu as mãos com a água da pia e a jogou no rosto do amigo, tentando despertá-lo.

    — Eu ia ver ele! Eu nunca consegui… Era a voz dele, não era? Dio, eu ia ver! — Lágrimas escorriam pelo rosto de Zac.

    — Calma, vamos resolver isso. Respira fundo, relaxa um pouco e descansa.

    Zac apertou o cordão em sua mão, contendo o choro, e encarou o amigo.

    — Por que fizeram isso comigo? Eu estava tão perto… Eu ia ouvir a voz dele.

    — Desculpa, Zac. Eu tive que te tirar de lá. Os guardas estavam chegando, e agora começou essa ventania louca na escola.

    — Onde estamos? — Zac perguntou, ainda tentando recuperar o fôlego. — Eu preciso voltar lá, Dio! Preciso ler aqueles livros! Eles podem me dizer quem eu sou, de onde vim, quem são os meus pais… Ou talvez o significado deste cordão e o propósito deste Grimório.

    — Acalme-se, Zac. Respire. Depois falaremos com a Clara. — Dionísio segurou os ombros do amigo, tentando transmitir alguma tranquilidade. — Cara, eu nunca te vi assim. Fiquei preocupado. Você gritou, e, quando pegou o livro, começou a falar palavras que ninguém entendia… Bem, na verdade, teve uma palavra que eu reconheci.

    — Eu não lembro de nada. — A voz de Zac saiu trêmula, quase um sussurro.

    — Por que você falou o nome Naftali?

    Zac franziu a testa, confuso. — Não sei do que você está falando, Dio. Eu não falei isso. Só sei que preciso voltar para aqueles livros.

    Com o fim do vendaval, os dois saíram do banheiro e seguiram em direção à sala do Conselho.

    Enquanto isso, Kyron estava sentado na sala dos professores, observando a movimentação ao seu redor. De repente, uma esfera de água no alto da sala começou a balançar. Logo, a voz da reitora ecoou pela sala, saindo da esfera cristalina:

    — Professores, acabamos de presenciar uma magia amaldiçoada de nível (A-) se manifestando no interior da academia. Eu consegui conter, mas peço que todos os que possuam magia de selamento venham à minha sala imediatamente. Em especial, Kyron, exijo sua presença.

    Antes mesmo de a mensagem terminar, Kyron já estava de pé, um sorriso enigmático se formando em seu rosto. Ele deixou a sala sem pressa.

    — Então ele estava certo… O garoto se conectou mais uma vez — murmurou, enquanto caminhava pelo corredor.

    Poucos minutos depois, a reitoria emitiu um segundo comunicado:

    — Alguns livros amaldiçoados estão sendo levados para a minha sala e serão selados ainda hoje. Muitos devem estar se perguntando como livros desse calibre estavam jogados e sem proteção. Até hoje, esses livros não passavam de páginas em branco. Porém, uma jovem conseguiu despertá-los, emanando energia suficiente para gerar um exército de almas negras.

    Kyron, com um olhar desapontado, caminhava em direção aos guardas que estavam recolhendo os livros. Ele percebeu que eram apenas quatro e, com um leve movimento de cabeça, fez um gesto de reverência. Sem dizer nada, continuou seu caminho.

    Os guardas colocaram os livros em caixotes e seguiram em direção à sala da reitora. Enquanto caminhavam pelos corredores, começaram a ouvir um som peculiar, semelhante ao de uma gaita.

    O som tornou-se mais evidente à medida que se aproximavam da escadaria que levava ao andar superior da academia, onde ficava a reitoria. Conforme subiam os degraus, o som da gaita se intensificava, ecoando por todo o ambiente.

    De repente, uma neblina esverdeada começou a se espalhar, cobrindo todo o andar superior. O som da gaita cresceu ainda mais, agora acompanhado por um ruído de sapateado, como se alguém estivesse dançando no final da escadaria. A atmosfera ficou sufocante, e o gás tóxico contido na neblina fez com que todos os presentes no local desmaiassem.

    A visibilidade tornou-se quase nula; a névoa densa impedia que qualquer coisa fosse vista claramente. No entanto, sons perturbadores ecoavam: caixas sendo abertas e fechadas repetidamente. Ao fundo, passos firmes podiam ser ouvidos, movendo-se deliberadamente por entre a fumaça.

    Os guardas, expostos ao gás tóxico por tempo demais, não resistiram e acabaram sucumbindo.

    A perspectiva mudou: agora se via pelos olhos de alguém que estava atrás dos guardas e testemunhou a névoa esverdeada avançar lentamente. A neblina cobriu seus sapatos enquanto o som de sua tosse ecoava pelas escadarias. O alarme da academia disparou novamente, mas, desta vez, tudo ao redor parecia desacelerar.

    O silêncio foi rompido apenas por um som nítido e perturbador: o estalar de dedos.

    Madeira de Acácia: O nome acácia vem do grego akákios, que significa “inocência” ou “que não tem maldade”, simbolizando a pureza, a santidade, a durabilidade e a resiliência. Uma madeira resistente e durável, de cor marrom caramelado, que pode ser usada em móveis.

    Azul-turquesa: é a cor da comunicação e da clareza, o turquesa representa a calma, a tranquilidade e a clareza mental; evocando alguns dos elementos naturais mais imponentes como o céu e o mar. 

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