Capítulo 35 - Tremor nas mãos
Fernanda e a jovem se encaravam em silêncio, separadas por poucos passos. Nenhuma das duas desviava o olhar. O ar parecia pesado, como se algo estivesse prestes a ruir.
Após alguns segundos, a jovem virou o rosto com desgosto, encarando a parede.
Ela se chamava Gabriela. Filha de Fernanda.
Fernanda fechou a porta atrás de si.
— Você tem me evitado há dias — disse, a voz contida. — E agora isso. Tentando fugir.
Gabriela permaneceu calada.
— Eu não sei mais o que fazer com você — continuou. — Não sei mesmo.
O silêncio se estendeu, incômodo.
— Eu te dei um lugar seguro. Comida. Um teto. Um lar. Tudo o que posso oferecer nesse mundo. E mesmo assim você faz essas coisas… — a voz falhou. — Você tem ideia do quanto isso me machuca?
— Eu não pedi nada disso — Gabriela murmurou. — Muito menos pra nascer.
Fernanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, tentando se recompor. Então puxou o objeto envolto em pano sobre a mesa e o revelou: uma arma de pregos.
— Sabe o que mais dói? — disse, em tom baixo. — Eu confiava em você. De verdade. Cheguei a considerar o que você me pediu… deixar você ir em uma das buscas de suprimentos.
Gabriela não reagiu.
— Mas descobrir que você estava fazendo coisas escondidas, bem debaixo do meu nariz… — Fernanda tocou a arma com a ponta dos dedos. — Usando o meu nome pra isso… — respirou fundo. — Isso me fez sentir traída.
Silêncio.
— Depois disso… — continuou. — Depois dessas birras e mentiras… mudei de ideia. Não vou deixar.
Gabriela estalou a língua, sem olhá-la.
— Talvez — disse — nada disso estaria acontecendo se eu tivesse uma mãe de verdade.
O sangue subiu no rosto de Fernanda.
— Eu sou sua mãe! — elevou a voz. — Eu sempre fui!
Gabriela virou o rosto lentamente, os olhos carregados de raiva.
— Não é. Você só se importa com esse acampamento idiota… — cuspiu as palavras. — E com aquela puta mal comida.
O tapa veio antes que Fernanda pudesse pensar.
O som seco ecoou pela sala. Gabriela virou levemente o rosto para o lado, sem reagir ou demonstrar qualquer emoção.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
A mão de Fernanda tremia.
— Eu… eu não sei o que deu em mim. Me desculpa. Eu não queria…
Gabriela cuspiu no chão.
Sem dizer mais nada, caminhou até a porta. Fernanda deu um passo à frente, mas parou, sem saber como impedi-la.
Antes de sair, Gabriela falou, sem virar o rosto:
— O professor Damon estava realmente certo sobre você.
A porta se fechou.
Fernanda ficou sozinha, olhando para a porta, em choque consigo mesma.
A mão que havia batido em sua filha tremia. Ela a ergueu lentamente, como se não a reconhecesse mais.
“…não sou uma… boa mãe?”
O pensamento veio fraco, quase envergonhado.
As lágrimas escorreram antes que pudesse contê-las.
Com a mão ainda trêmula, levou-a ao peito, sentindo apenas o peso silencioso do que havia feito.
Naquele mesmo momento, a quilômetros dali, Derek realizava um golpe rápido e preciso com a faca em um morto-vivo.
O morto-vivo ainda estava de pé quando a lâmina entrou pelo olho, atravessando o crânio. Ele retirou a faca imediatamente.
O corpo caiu pesado ao chão, inerte.
Derek vestia roupas diferentes das de antes — intactas, sem rasgos, marcadas apenas por poucas manchas secas de sangue. Uma mochila firme estava presa às suas costas, bem ajustada.
O morto-vivo no chão não era comum.
Era um anormal.
Ele o caçava havia horas.
Ele estava em um banheiro público, no interior de um shopping abandonado. Não havia qualquer iluminação. Nenhuma lâmpada. Nenhuma fresta de luz. Apenas escuridão, interrompida vez ou outra pelo som distante de estruturas cedendo.
O lugar perfeito para treinar sua habilidade.
Com o trabalho quase concluído, Derek ergueu a faca acima da cabeça. Usando o cabo de ferro, começou a golpear o crânio do anormal até o osso ceder com um estalo úmido.
O cérebro ficou exposto.
Com cuidado quase metódico, ele enfiou os dedos, arrancou a parte onde o cheiro era mais forte — mais denso — e engoliu tudo de uma vez.
A regeneração veio devagar.
Ele limpou a lâmina nos trapos do morto-vivo e a guardou na mochila.
Mas como ele havia chegado àquelas novas roupas, àquela mochila ou lugar?
Desde que aquela mudança aconteceu, Derek quase não havia encontrado variantes. Eram raras — raras demais para justificar o uso constante da habilidade. A maioria dos encontros se limitava a mortos-vivos comuns, espalhados demais para oferecer qualquer risco real.
Ainda assim, ele passou os dias seguintes testando seus próprios limites. Sempre precisava fechar os olhos para usar a habilidade. Quando tentava mantê-los abertos, a concentração simplesmente se desfazia.
No breu, onde não havia nada para ver, o foco vinha mais fácil — o mundo visual deixava de interferir.
Ignorar o ambiente era parte do processo. Os sons continuavam ali, os cheiros também, mas ele aprendia a empurrá-los para o fundo da mente, deixando apenas um rastro específico para se destacar.
O olfato, porém, ainda era falho. O fedor dos mortos-vivos continuava agressivo, pesado demais quando se acumulava em ambientes fechados. No começo, causava apenas uma leve tontura, o suficiente para atrapalhar o foco. Não o fazia perder a consciência, mas exigia esforço constante.
Com o tempo, aprendeu a suportar. Não melhorava — apenas se acostumava.
Foi assim que descobriu o limite.
Usar a habilidade por tempo demais afetava sua percepção. Primeiro vinha a leve tontura, depois tudo ao redor parecia confuso, borrado em sua mente, como se os cheiros e rastros se embaralhassem.
Quando percebia, já estava no chão, imóvel, consciente, mas sem poder fazer nada além de observar o mundo ao redor sem se mover. Não dormia. Não desmaiava de verdade.
Sentia apenas sua mente sobrecarregada, e o tempo passando sem poder fazer qualquer coisa. Forçar além disso não trazia benefício algum — apenas prolongava o estado.
Após muitos testes, ele chegou a estimativa de uso. Podendo usar por sete minutos, a cada três dias.

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