Capítulo 36 - Vulcan
Certo dia, enquanto buscava um abrigo para passar a noite, Derek encontrou o edifício Vulcan.
O enorme prédio, que ele lembrava de ter visto inúmeras vezes em fóruns antigos, ainda guardava traços de luxo, mas agora estava dominado pelo abandono e pelo silêncio pesado.
Corpos espalhados pelo chão, e alguns mortos-vivos permaneciam imóveis entre os escombros, à espreita de qualquer sinal de vida.
Para Derek, aquela visão já não era novidade. Sua mente, acostumada ao cenário, enxergava o lugar quase como nas fotos antigas.
O ambiente estava escuro, iluminado apenas pela fraca luz do fim de tarde. Ao subir as escadas com cautela, a claridade desapareceu por completo — não havia janelas por onde a luz pudesse entrar.
Sem iluminação, Derek decidiu usar o momento para aguçar seus sentidos, especialmente o olfato, tentando se orientar sem depender apenas de sua habilidade.
A subida foi lenta e tensa. Cada passo parecia arriscado, e o medo de escorregar e despencar pelos degraus o obrigava a avançar devagar.
No segundo andar, a escuridão persistia, mas os gemidos dos mortos-vivos ecoavam ao redor. Pelo cheiro, não havia variantes.
Diferente de outras vezes, como no hospital, Derek não queria andar às cegas, tropeçando e esbarrando em tudo. Dessa vez, resolveu usar o som como guia.
Encostou-se na parede e começou a bater levemente com os dedos, tentando identificar o espaço. Caminhou devagar, desviando dos mortos-vivos, até ouvir o som oco da madeira. Era uma porta. Tentou empurrá-la, mas estava trancada. A segunda e a terceira também.
Ainda esperançoso, continuou andando. Foi então que tropeçou em destroços e caiu. A frustração o dominou, e ele socou a parede com força. No mesmo instante, ouviu um ranger seguido de uma batida: uma porta se abriu.
“Finalmente”, pensou, aliviado.
Apoiando-se na parede, aproximou-se da entrada. Usou sua habilidade por alguns segundos para verificar se havia variantes, mas não detectou nada. Apenas uma leve distorção vinda de cima, como uma aura, indicando que talvez houvesse perigo nos andares superiores. Isso, porém, poderia esperar.
Ao entrar, foi surpreendido: a luz do apartamento se acendeu, fraca, mas suficiente.
“Claro… um prédio desse nível teria sistemas de reserva ou painéis solares”, refletiu. E estava certo: no topo, painéis cobriam o teto, refletindo até mesmo a luz da lua.
Agora conseguia enxergar melhor. O espaço era amplo: uma sala de estar com sofás largos, mesa de vidro no meio com uma grande TV no canto, uma cozinha planejada com diversos eletrodomésticos. O apartamento lembrava os modelos futuristas, mas sem tecnologia avançada.
Na enorme janela, o mundo se revelava. Mesmo no segundo andar, a altura era de quase vinte metros. Lá fora, a horda se arrastava sob os últimos raios do sol. Mais distante, fumaça subia e luzes piscavam em dois prédios, rápidas e sincronizadas — códigos Morse. Humanos ainda resistiam, comunicando-se em silêncio na cidade dos mortos.
Derek tocou a vidraça.
“Códigos Morse… isso me lembra você”, pensou, recordando Stefany lhe ensinando sinais básicos com lanternas. A nostalgia o atingiu: “Me pergunto quando vou te encontrar de novo.”
Retomou a exploração. Ao passar diante de um espelho em mosaico, deteve-se. Mesmo na penumbra, viu sua própria imagem refletida: uma figura aterradora, roupas manchadas de sangue podre, rosto quase irreconhecível, marcado por um buraco na bochecha.
Com um gesto lento, puxou a blusa até o nariz e aspirou o odor impregnado. O cheiro era tão forte que seus olhos se arregalaram.
“É… talvez seja hora de um banho.”
Empurrou a porta do banheiro. Por alguns segundos, nada aconteceu. A escuridão parecia engolir o espaço. Então, quase teatralmente, a luz se acendeu, revelando um ambiente luxuoso: mármore claro, espelhos altos e, ao centro, uma banheira tão ampla que lembrava uma piscina particular.
Curioso, Derek girou a válvula. O som dos chuveiros ecoou, quebrando o silêncio. A água começou a cair em cascata, enchendo lentamente a banheira. O vapor subiu, denunciando o calor. Para ele, a temperatura pouco importava, mas a sensação do som era reconfortante.
Sem hesitar, despiu-se, jogando as roupas sujas para longe, como se quisesse se livrar não apenas da sujeira, mas também do peso dos dias passados. Entrou com cuidado, um pé de cada vez, observando a água se agitar ao redor. À medida que mergulhava, a sujeira impregnada em sua pele se dissolvia, tingindo o líquido de tons escuros.
O som constante da água, o vapor cobrindo os espelhos e a sensação de limpeza criaram um contraste surreal. Por alguns instantes, Derek deixou de ser apenas um sobrevivente marcado pelo apocalipse. Dentro daquela banheira, lembrou-se de como era ser humano.
Derek se concentrou em limpar-se, mesmo sabendo que o prédio ao redor permanecia tomado por horrores carnívoros.
Dentro do banheiro, porém, o mundo parecia suspenso.
A água que descia da banheira, antes cristalina, logo se tornou turva e pesada, misturada com sangue seco, poeira e a sujeira acumulada em seu corpo. O contraste era brutal: o luxo imaculado do espaço agora carregava a prova da decadência que ele trazia consigo. O mármore branco, antes reluzente, estava coberto por respingos escuros, enquanto o vapor quente formava uma cortina espessa que escondia os espelhos, distorcendo sua própria imagem refletida.
Com o tempo, a fumaça quente tomou conta do banheiro. Ao abrir a porta, ela escapou como uma onda silenciosa, espalhando-se pelo apartamento e se dissipando lentamente. O ar ganhou um cheiro diferente — menos de morte e mais de limpeza. No chão empoeirado, suas pegadas molhadas ficaram marcadas, criando um rastro.
Derek caminhou até o quarto e encontrou duas grandes portas. Ao abri-las, revelou-se um closet imenso, quase uma sala inteira dedicada às roupas. Espelhos cobriam parte das paredes, refletindo sua figura por inteiro. Ele se encarou em silêncio, observando cada detalhe de si mesmo. O corpo ainda carregava cicatrizes, mas agora estava limpo, vestido apenas pela sensação de frescor.
“Você não vai subir mesmo, não é, amiguinho?”, pensou com ironia amarga, olhando para baixo.
Ao redor, prateleiras exibiam roupas de todos os tipos, e uma sapateira guardava dezenas de pares de tênis e botas, tanto femininas quanto masculinas. Derek passou os olhos por tudo, esfregou as mãos e murmurou:
“Beleza… hora de ficar mais humano.”
Experimentou algumas peças até encontrar roupas reforçadas, resistentes, mas que não limitavam seus movimentos. Vestiu-se com calma, sentindo-se diferente, quase como se tivesse recuperado parte da vida.
A noite ainda estava longe de acabar, e Derek não queria se prender apenas àquele apartamento. O edifício Vulcan guardava muitos outros apartamentos, e ele precisava explorá-los.
Na cozinha, encontrou uma faca grande de carne e um cutelo. A qualidade não era das melhores, mas serviriam como improviso.
Na sala, algo chamou sua atenção: um celular esquecido sobre o sofá, ainda conectado a uma tomada embutida no móvel. Derek o pegou com cautela, surpreso não pelo achado em si, mas pelo fato de o aparelho não ter explodido após anos ligado sem interrupção. Era quase um milagre tecnológico em meio ao caos.
Guardou o celular e testou a lanterna. A luz fraca iluminou o caminho até a porta. Ao sair, ergueu o feixe e viu a inscrição gravada acima da entrada: Ap 2-D.
O corredor estava em completo silêncio — nem grilos cantavam. Os mortos-vivos permaneciam quase mudos, imóveis na penumbra. Derek, porém, não hesitou. Com a lanterna apontada para frente, seguiu em direção ao próximo apartamento.

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