Derek passou o restante da noite explorando o edifício Vulcan de forma metódica. Não havia pressa. Cada apartamento era vasculhado na mesma ordem: entrada, sala, quartos, cozinha e, por último, o banheiro. Mochilas esquecidas em armários, roupas ainda dobradas, cordas improvisadas, facas de cozinha, um casaco grosso cheio de bolsos internos. Pegava apenas o que julgava útil e deixava o resto para trás, sem apego.

    Em alguns quartos, corpos permaneciam estendidos no chão, em diferentes estágios de decomposição. Outros ainda “viviam”, imóveis, presos à própria inércia, olhos vazios encarando nada. A cena já não causava impacto imediato. Tornou-se parte do cenário.

    Em um dos apartamentos, algo destoava do abandono. Uma televisão ligada lançava cores artificiais sobre a sala vazia. 

    Um videogame antigo ainda funcionava.

    Derek aproximou-se e pegou o controle. Não sentiu o plástico sob os dedos, nem a textura dos botões. Apenas observou o objeto em suas mãos e se sentou no sofá, guiando-se pela visão e pelo equilíbrio.

    Tentou jogar.

    Os comandos saíam atrasados. Seus movimentos na tela eram imprecisos, descoordenados. Não era só falta de prática — seu corpo ainda não obedecia como deveria. Após perder algumas vezes seguidas, largou o controle sobre o sofá.

    “Talvez minha coordenação esteja presa no século passado”, pensou, encarando a tela por mais alguns segundos antes de desligá-la.

    Seguiu adiante com aquela frustração silenciosa. Não era o jogo. Era ele.

    Os corredores do prédio eram iluminados por luzes quadradas no teto. Algumas estavam queimadas; outras piscavam de forma irregular, presas por fios expostos. 

    As sombras projetadas se esticavam pelas paredes, deformando corpos imóveis espalhados pelo chão. O silêncio era quebrado apenas por gemidos distantes.

    Ao tentar subir pelas escadas, Derek encontrou o caminho bloqueado. Móveis empilhados formavam uma barricada improvisada: armários, mesas viradas, sofás encaixados de qualquer jeito. 

    Alguém havia tentado conter algo ali.

    Entre as frestas, sombras se moviam lentamente. Mortos-vivos gemiam do outro lado, reclamando baixo, como se estivessem conscientes da própria prisão.

    Derek não forçou a passagem. Ainda não.

    Quando o dia clareou, retomou a exploração com mais calma. O edifício, pouco a pouco, deixava de ser apenas um abrigo improvisado. Tornava-se uma base. 

    Com esforço e paciência, começou a remover os móveis da escada, um por um, observando cada ruído, cada deslocamento. Após algum tempo, abriu uma passagem estreita, suficiente para passar.

    No andar seguinte, encontrou equipamentos em melhor estado. Trocar o que carregava tornou-se quase automático. Em um dos apartamentos, achou um capacete de moto, ainda intacto. Colocou-o por alguns instantes, avaliando apenas pelo campo de visão, som de seus gemidos e a redução do alcance do seu olfato.

    Usar o capacete trazia muita segurança física ao corpo, disso ele tinha certeza. Mas também o deixava vulnerável a ataques surpresas. Usá-lo o tempo todo tiraria a pouca emoção que ainda restava em viver.

    Guardou o capacete. Não descartou. Apenas reservou para quando fosse realmente necessário.

    Subiu mais um andar.

    Ao alcançar o quarto andar, parou. Encostou-se na parede e ativou sua habilidade por poucos segundos. O mundo ao redor pareceu se distorcer, e então ele sentiu.

    Estava perto. Talvez apenas um andar acima.

    O cheiro não era como os outros. Não era apenas podre ou estagnado. Era mais denso, mais pesado, como se o ar estivesse contaminado por algo errado. Um tipo diferente. Algo que ele nunca havia enfrentado antes.

    E o pior: ele nunca o tinha visto.

    Não sabia como se movia, como atacava, nem quais seriam seus limites. Não conseguia sequer imaginar ele. Sentia apenas uma massa concentrada de odor sem forma fixa acima.

    A ideia de lutar naquele ambiente fechado, cheio de escadas e corredores estreitos, parecia uma sentença de erro.

    Derek permaneceu ali por alguns instantes, apenas observando à distância, sem se expor. Tentava imaginar a forma da criatura, seu tamanho, sua postura. Tudo era especulação.

    O nervosismo crescia, mas ele não perdeu a cabeça. Sabia que viver naquele mundo exigia riscos — e também saber quando não assumi-los.

    Ele iria enfrentá-lo. Mas não agora.

    Desativou a habilidade e desceu com cuidado. No segundo andar, voltou a bloquear a passagem por onde havia passado, empurrando uma cadeira pesada contra a abertura. Não era perfeito, mas servia para bloquear os mortos-vivos. 

    Entrou em um dos apartamentos, trancou a porta e ficou parado por alguns minutos, apenas organizando os pensamentos.

    Se quisesse subir novamente e enfrentar aquela coisa, precisava estar melhor. Mais rápido. Mais preciso.

    Sentou-se no chão e começou a pensar no que fazer.

    Os dias se seguiram, e Derek estabeleceu um padrão.

    Durante o dia, deixava o edifício Vulcan. Não se afastava demais no início. Movia-se com cautela entre prédios silenciosos, procurando as variantes.

    As variantes não apareciam com frequência.

    Quando surgiam, eram do tipo mais comum. Nenhuma força descomunal. Nenhuma velocidade absurda. Nenhum traço claro de inteligência, ainda assim, Derek não subestimava nenhuma delas. Enfrentava-as com cuidado, usando o espaço aberto a seu favor, errando golpes, corrigindo no movimento seguinte.

    Ao longo de vários dias, encontrou apenas duas.

    Foram lutas diretas, rápidas. Não exigiram tática elaborada, nem uso prolongado da habilidade. Ainda assim, ao consumir os cérebros, percebeu mudanças graduais.

    O corpo obedecia com menos atraso. Os movimentos começaram a se alinhar melhor com a intenção.

    Já conseguia correr.

    Não rápido — nem quando era humano se destacava nisso. Mas o suficiente para se igualar à maioria dos mortos-vivos comuns. Fugir deixava de ser desespero e passava a ser opção. A força também aumentou um pouco. Seus ossos paravam de fazer barulhos por qualquer movimento.

    À noite, sempre retornava ao Vulcan. Na maioria das vezes, subia até o quarto andar e usava sua habilidade por poucos segundos, sempre olhando para cima. O cheiro continuava lá. Constante. Imutável.

    A variante não parecia se mover muito. Quando se movia, era lenta. Isso ajudava Derek a imaginar possibilidades. Lentidão significava peso. Peso significava rigidez. 

    Talvez pontos cegos.

    Mas isso ainda não bastava.

    Precisava ver com os próprios olhos. 

    Em uma das noites, decidiu se arriscar. Subiu em direção ao quinto andar contando degraus, analisando o espaço, calculando mentalmente quanto tempo levaria para recuar se algo desse errado.

    Ao chegar, manteve o corpo colado à parede e espiou o corredor.

    Ela estava lá.

    Parada no fundo, com o rosto próximo à parede, encarando-a com os olhos vazios.

    O que Derek viu quase fez seus dedos cederem, as facas escorregando por reflexo.

    A criatura era grande. Robusta. Seu corpo ultrapassava facilmente dois metros de altura, com ombros largos e uma estrutura pesada. Como os outros mortos-vivos, seu corpo estava necrosado, como se estivesse sozinho naquele lugar havia muito tempo.

    Mas isso era só o começo.

    Ela havia sofrido uma mutação horrenda. Possuía duas cabeças — uma voltada para frente e outra para trás. Do lado direito, um braço alongado terminava em uma mão colossal, quase cinco vezes maior que a de Derek, contendo seis dedos. Do lado esquerdo, não havia uma mão gigante, mas dois braços e uma perna inchada, deformada.

    Todo o corpo era um amontoado de assimetrias. Feridas abertas escorriam sangue preto gosmento.

    Apesar do estado necrosado, a mão colossal parecia resistente. Pesada. Assim como a perna esquerda.

    Provavelmente o motivo de sua lentidão.

    Derek ficou horrorizado.

    Seu corpo reagiu antes da mente, recuando lentamente sem tirar os olhos da criatura. Era como se todas as suas células gritassem para ele se afastar.

    Ao sair do campo de visão, começou a descer as escadas de costas, degrau por degrau.

    O vento soprou pelas escadas, carregando o odor de Derek até a mutação.

    Uma das cabeças — a que encarava a parede — se moveu. Um tique curto e seco. O rosto se virou exatamente para o ponto onde Derek estava escondido.

    No quarto andar, ele parou.

    Estava em choque.

    Em uma luta direta contra aquilo, Derek não conseguia imaginar vitória.

    Ele sabia que teria que enfrentá-la.

    Mas também sabia, com absoluta certeza, que aquela ainda não era a hora.

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