Capítulo 38 -Puts! Esqueci Meu Celular
Depois de ver a criatura no quinto andar, Derek não voltou imediatamente para enfrentá-la.
Passou algum tempo vagando pela cidade, atravessando ruas desertas e prédios abandonados. Mas, por mais que tentasse se distrair, seus pensamentos retornavam sempre àquela coisa, como se a imagem estivesse gravada em sua mente.
“Fraco.”
A palavra surgiu em sua mente sem aviso. Ele havia recuado antes mesmo de tentar lutar.
Por alguns instantes, o pensamento o corroeu, espelhando-se como veneno.
“Não… eu morreria.”
A resposta veio logo em seguida. Derek lembrava bem do tamanho da criatura, da forma deformada e da força que parecia carregar naquele corpo pesado. Enfrentá-la naquele momento não seria coragem — seria apenas suicídio.
Mesmo assim, a sensação de fraqueza não desaparecia. Ela se agarrava a ele como uma sombra persistente, acompanhando cada passo. Continuou andando, atento aos cheiros ao redor, em busca de variantes que pudessem fortalecer seu corpo antes de tentar subir novamente. Foi então que percebeu um aroma diferente no ar.
Parou. Inspirou mais uma vez.
Era fraco, mas inconfundível: uma variante.
Seguiu o rastro até um shopping próximo.
Chegando lá, viu que o interior estava mergulhado em escuridão, tão densa que parecia engolir qualquer resquício de luz. Derek havia deixado para trás os celulares que usava como lanterna, acreditando que não precisaria deles durante o dia. Agora, se arrependia dessa decisão.
Pensou em recorrer à sua habilidade, mas já a havia usado várias vezes naquele mesmo dia. Temia que o pior acontecesse justamente durante uma luta. Decidiu, então, confiar apenas no olfato — algo que nunca havia treinado de verdade.
Imaginou que não seria uma variante tão difícil. Estava enganado.
A luta já durava mais de três horas. Na verdade, não era uma luta. Era uma fuga desesperada.
Sem experiência, tropeçava a cada poucos passos. Quando a criatura sentiu seu cheiro, a situação piorou. Derek mal conseguia atacar; a variante parecia muito mais acostumada à escuridão.
Esquecendo seus próprios princípios, correu. Correu com medo.
Não sabia para onde ia — escadas, corredores, não importava. Apenas corria para salvar a própria vida. Não havia espaço para pensar em covardia, apenas na morte que o perseguia na escuridão.
Até que entrou em um cômodo e tropeçou logo na entrada. O impacto o fez cair pesadamente no chão frio. Era um banheiro espaçoso, mas, no breu, parecia apenas mais um lugar qualquer. O cheiro de mofo e ferrugem misturava-se ao odor da criatura.
Antes que pudesse se levantar, ela chegou à porta. O cheiro forte, os gemidos graves, a sensação de estar encurralado como um rato diante de um gato.
Mas aquele rato ainda queria viver.
Mesmo em pânico, Derek recuperou um pouco da razão. Pegou uma faca, apontou-a e se levantou.
A variante avançou. Derek ativou sua habilidade.
Agachou-se no instante certo: a criatura tropeçou nele e caiu. O som do corpo pesado batendo contra o chão ecoou pelo banheiro. Sem hesitar, Derek cravou a faca em sua cabeça. Uma vez. Duas. Dezenas de vezes. O sangue espesso escorria, mas ele não parava. Mesmo quando ela já não se movia, continuava golpeando, como se cada facada fosse uma forma de expulsar o medo.
Sabia o que viria a seguir.
Apressou-se. Com o cérebro da criatura vazando, caiu sobre o corpo e começou a comer.
Logo não ouvia mais o som da própria mastigação. Também não conseguia mover o corpo. Apenas sentia o calor se espalhar por dentro, enquanto a regeneração começava.
“Que merda.”
E assim permaneceu no breu, imóvel, por três longos dias.
Após muito tempo, Derek finalmente encontrou a saída, com grande esforço.
O shopping já parecia imenso por fora, mas por dentro era ainda pior — quase como uma “Tardis”. E a escuridão não ajudava em nada.
Quando saiu para a claridade, percebeu mudanças significativas em seu corpo.
Suas pernas e braços estavam mais firmes, as feridas haviam desaparecido e até seus dedos respondiam com rapidez incomum aos pensamentos.
Derek sentiu satisfação e determinação.
“Com isso… tenho certeza que consigo. Vou jogar videogame, porra.”
Logo se corrigiu:
“Não… não é isso. Vou derrotar aquela criatura.”
No Vulcan, preparou-se. Colocou o capacete, improvisou uma lança amarrando uma faca na ponta de um taco de sinuca e vestiu mais roupas, cobrindo quase todo o corpo.
Então começou a subir.
A cada passo, ouvia o próprio coração bater. A tensão era esmagadora.
De repente, parou, confuso.
“Ué? Desde quando você voltou a funcionar?”, pensou, estranhando o coração. Mesmo assim, ficou feliz.
Enfim, chegou ao quinto andar. E lá estava a criatura, no mesmo lugar da última vez.
Por um instante, pensou em recuar novamente, fortalecer-se mais. Mas até quando adiaria aquilo? Quantas vezes fugiria?
Mesmo com medo, decidiu avançar.
Movia-se em silêncio. A mutação não parecia sentir seu cheiro de longe, como outros mortos-vivos. Além disso, pelo tamanho e pelas deformidades, não parecia ser rápida — uma vantagem para Derek.
Abaixado, com a lança apontada para frente, aproximou-se cautelosamente.
Quando estava a três metros de distância, a cabeça traseira da criatura tremeu em um tique.
Derek congelou.
A cabeça parecia inquieta. Tentou recuar devagar, imaginando que talvez ela tivesse sentido seu cheiro.
Olhou rapidamente para trás, certificando-se de que não tropeçaria em nada.
Ao voltar o olhar, a cabeça traseira da criatura o encarava fixamente.
“Fudeu.”
A criatura começou a se mover. Virou o corpo pesado na direção de Derek e grunhiu com a cabeça da frente. O som reverberou pelo corredor, como aviso da luta que estava por vir.

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