O colchão afundou quando me sentei nele. O leve cheiro de perfume estava impregnado no quarto, vindo da cama de Aurora. No entanto, ela ainda não havia voltado.

    Através da janela lateral, era possível ver a luz brilhando alto no céu, alheia a tudo o que acontecia abaixo dela. Me preocupei que Aurora pudesse estar com problemas, mas logo me lembrei de que ela era.

    Minha mestra e a pessoa mais forte que eu já conheci.

    Neste lugar isolado no extremo norte do continente, não deveria haver perigo suficiente para algo acontecer com ela. Assim, deixei isso de lado.

    “O Mosteiro de Deus Retorna!”

    A manchete, mesmo horas após eu ter lido, ainda aparecia ocasionalmente na minha cabeça. 

    O Mosteiro de Deus. Um culto que provocou o caos por todos os lugares — reino dos elfos, anões e, se tivessem a oportunidade, provavelmente também atacariam os demônios.

    Por um bom tempo, eles foram ativos, principalmente no império humano. Não se sabe ao certo o que buscavam, mas o Mosteiro de Deus sempre atacava aldeia afastadas da capital.

    No entanto, pela última década, eles haviam desaparecido completamente. A falta de rastros era tamanha que alguns até chegaram a os considerar lendas urbanas.

    Mas eles não eram…

    — Por que eles voltaram? — me perguntei, afundando a cabeça no travesseiro.

    Olhei ao redor, como se em busca de respostas. Mas a única coisa que encontrei foi o mesmo quarto em que vivi nos últimos anos.

    Uma lâmpada a óleo queimada fracamente, iluminando o cômodo quase vazio. Sem nada extravagante, o lugar possuía duas camas em lados opostos, um espelho de corpo interno e um armário.

    Nem Aurora, nem eu ficávamos muito em casa. Geralmente, ela está em alguma missão fora da cidade, e eu apenas volto para casa para descansar.

    Mas Aurora está na cidade agora, e já deveria estar em casa. Assim, sem ninguém para dividir minhas dúvidas, voltei a olhar para o teto.

    De vez em quando, eu me lembrava do meu passado — uma época onde as coisas pareciam um sonho.

    Os gritos e berros que eu e meus amigos dávamos enquanto corríamos pela casa. No fim, sempre levávamos sermão da minha mãe.

    Infelizmente, minha mãe não era uma cozinheira muito habilidosa. Por conta disso, eu comia regularmente na casa de Greg ou na de Celina, meus dois melhores amigos.

    — Celina…

    Na parede das minhas lembranças, seu sorriso provavelmente era o quadro que mais doía.

    Seus olhos e cabelo castanho eram tão lindos. No entanto, eu sentia apenas tormento quando me lembrava deles.

    Se eu não fosse fraco… talvez ela ainda estivesse aqui.

    Fechei os olhos com força, querendo negar essa verdade. Mas não pude. Fui eu quem falhou em proteger a todos.

    A imagem de Greg com metade de seu rosto arrancado me tirava o ar sempre. Seus gritos abafados pelo sangue que afogava sua garganta…

    Eu observei tudo, mas não pude fazer nada. Não… eu não quis fazer nada.

    Abri os olhos repentinamente, me sentando na beirada da cama. Em meio a respirações pesadas, olhei para minha cama coberta de suor frio.

    — Eu dormi? — me perguntei. Então, busquei confirmação na janela do quarto.

    De fato, quando vi o céu cinzento da manhã, percebi que havia caído no sono.

    Qual era o estado do meu ser para, apenas de deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos, eu dormisse imediatamente?

    Meu olhar caiu sobre a cama de Aurora, arrumada com perfeição. Ela parecia intocada desde a noite passada. Era até como se ela não tivesse voltado para casa.

    Mas provavelmente era o oposto. Com seus treinos rigoroso, ela provavelmente havia acordado antes de mim. Mas eu não tinha certeza se isso era algo bom.

    — Espero que ela não pegue tão pesado no treino de hoje pela minha indisciplina… — Suspirei com a ideia.

    Sim, hoje era um novo dia. Eu posso deixar o Mosteiro de Deus para outra hora. Agora, devo focar apenas no presente.

    Dessa forma, comecei meu dia.

    ×××

    Hoje era um dia mais quente que os dias anteriores. Claro, aqui em Veldoren isso ainda significava que estava frio, mas ao menos não como antes.

    Assim, as pessoas saíram de suas casas mais frequentemente, deixando as ruas bastante movimentadas.

    Não havia muitas casas em Veldoren, mas sim muitas famílias. E apesar de ser difícil viver em um lugar assim, principalmente para os mais velhos, ainda encontrávamos uma forma de continuar.

    Fosse através de trabalhos, ações em prol da comunidade ou qualquer outra coisa, os moradores viviam saindo de seus lares.

    Por conta disso, mesmo com as dificuldades de se viver aqui e com as poucas pessoas de Veldoren, as ruas aparentavam estar movimentadas.

    Enquanto andava até o linear da cidade e a floresta, alguém me chamou.

    — Arthur, bom dia.

    Quando me virei, encontrei um gato me encarando com olhos azuis esbugalhados.

    — Hick! — Recuei com o susto.

    Uma risada suave saiu de trás do gato, que se afastou de mim. Então, percebi que ele estava sendo segurado por uma mulher de meia-idade.

    — Dolores? — chamei pelo seu nome, surpreso com a presença da mulher alí.

    — Sinto muito, Arthur, haha.

    Geralmente, isso teria ofendido alguém, mas a sensação calma que emanava de Dolores simplesmente reprimia qualquer tipo de raiva.

    — Eu procurei você pela cidade para agradecer por ter cuidado desse pequenino aqui. — Ela acariciou a cabeça do Júlio. — Então, me disseram que você vinha para cá todos os dias.

    “As pessoas realmente prestam bastante atenção em mim, não é?”

    — Não precisa me agradecer, Dolores. Qualquer um teria feito aquilo no meu lugar.

    Um sorriso sútil tomou a boca de Dolores quando ouviu minha resposta. No entanto, ela balançou a cabeça em discordância.

    — Não, acho que apenas alguns poucos faria aquilo.

    — Como assim?

    Afinal, era um gato à beira da morte. Não consigo pensar em alguém, além do Mosteiro de Deus, que o deixaria sem cuidados. Mas Dolores prosseguiu.

    — Meu filho me contou que você estava de frente para um monstro e, mesmo assim, priorizou a vida do Júlio. Muitos teriam se recusado a gastar mana desnecessariamente em meio a um confronto.

    Conforme ela começou a explicar, sua expressão escureceu.

    — Infelizmente, não existem muitas pessoas como você, Arthur.

    Em contraste com sua testa franzida, senti meu rosto esquentar com as palavras de Dolores.

    — N-não, não. Acho que existem vários como eu — tentei negar, em busca de aliviar a vergonha de suas palavras, mas ela continuou.

    — Desde que você chegou, nunca mais sofremos com ataques de monstros ou saques de bandidos. Você, Arthur, nos salvou inúmeras vezes.

    Por algum motivo, um que apertou meu peito, aquelas palavras se prenderam na minha mente.

    De fato, ao decorrer dos anos, Veldoren sofreu com muitos monstros e pessoas más. Mesmo o Lince das Neves era apenas uma pequena ocorrência.

    Eu lutei contra todos esses problemas de frente. Afinal, eu possuía a força para isso. Mas, apesar disso, eu nunca perguntei como eles se sentiam com minhas ações.

    — Enquanto houver pessoas como você, Arthur, acho que o mundo ainda terá chance de melhorar.

    Assustado com suas palavras encorajadoras, me afastei aos poucos de Dolores. Eu nem tinha notado, mas em algum momento, o sorriso havia voltado para seu rosto.

    — Eh… muito obrigado pelas palavras, Dolores… mas eu tenho que ir.

    — Tudo bem, Arthur. Ouvi dizer que Aurora é muito rigorosa com o treino, então pode ir, haha.

    Agradecendo sua despedida rápida, parti para o interior da floresta. Meu destino? O campo de treinamento da minha mestra.

    No entanto, as palavras de Dolores continuaram a voltar.

    Enquanto eu caminhava entre arbustos e árvores, meus pensamentos também se emaranhavam. Eu nunca havia notado a forma como os cidadãos me viam.

    Nem mesmo percebi o que minhas ações refletiam para eles. Dessa forma, não consegui controlar o desconforto que tomou meu peito.

    Ao longo dos cinco anos em que vivi em Veldoren, conheci muitas pessoas. Fiz amizades, comi comidas caseiras, brinquei com as crianças de Dolores, e muito mais.

    Em algum momento, eu também comecei a fazer parte dessa comunidade.

    Muitas pessoas influenciavam minha vida, como Lya e minha mestra, e aparentemente, eu também influenciei a vida de muitos.

    “Então por que me sinto assim?”, me questionei sobre o aperto crescente no meu coração.

    Talvez Aurora soubesse a resposta, mas eu não perguntaria para ela. Assim como eu, ela também possui um passado sombrio com o Mosteiro de Deus.

    Afinal, nossa relação de mestre-discípulo se deu início através da promessa de me tornar mais forte e me vingar do culto.

    “Não posso atrapalhar a Aurora com minhas dúvidas.”

    Continuei a andar pela floresta até o campo de treinamento.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota