Quando cheguei ao campo de treinamento, um vento gélido tocou meu rosto mansamente. As folhas chacoalharam como dançarinas conforme as árvores tremiam.

    E no centro de tudo isso, estava uma mulher.

    Ela brandiu sua espada em um mesmo movimento repetidamente. No entanto, a cada vez que fazia isso, sua aparência se tornava ainda mais impressionante.

    O suor era arremessado de seu corpo sempre que a espada caia em uma linha vertical perfeita. Não houve o menor indício de falha.

    O longo cabelo negro azeviche dela, preso em um rabo de cavalo, dançava junto do seu corpo.

    Por um breve momento, esqueci do aperto em meu peito.

    — Mestra! — a chamei enquanto me aproximava.

    Sua espada parou no ar quando ela se virou para mim.

    — Não há necessidade de me chamar assim quando estivermos sozinhos, Arthur.

    Semelhante a neve que nos cercava, sua voz soaria fria para qualquer um, como se ela fosse uma boneca. No entanto, eu já havia me acostumado com isso.

    — Sinto muito, senhorita Aurora.

    Me aproximei, pegando uma espada de madeira jogada no chão. Ela me olhou em silêncio, talvez frustrada pela formalidade.

    Infelizmente, eu tinha vergonha demais para a chamar informalmente.

    — Não importa… — Ela balançou a cabeça decepcionada. — Hoje, praticaremos através de um Sparring.

    — Sério? Faz tempo que não fazemos isso.

    — Sim, Arthur, você está correto. No entanto, temos que nos preparar.

    Com suas palavras, uma onda de confusão me atingiu. Eu não fazia ideia do que ela estava fazendo. No entanto, um sentimento estranho me tomou.

    Embriagado pela confusão, perguntei à ela, em busca de respostas.

    — Senhorita Aurora, o que você quer dizer com isso?

    Talvez eu tenha perguntado algo estúpido. Se não, não consigo explicar a expressão que ela fez com as minhas palavras.

    Aurora olhou diretamente para mim, nos fundos dos meus olhos, como se buscasse algum traço de piada. Mas quando não encontrou nada, ela suspirou.

    — Você não soube da notícia sobre o Mosteiro de Deus?

    A menção do culto por parte de Aurora me causou arrepios. Dizer o nome deles agora só poderia significar uma única coisa…

    — Devemos nos preparar para partir, Arthur. Temos que exterminá-los de uma vez por todas.

    Olhei para ela em silêncio, ainda absorvendo a verdade por trás de suas palavras. Como eu esperava, era sobre isso que ela estava falando.

    Era o caminho óbvio, na verdade. Desde nos conhecermos até mesmo o dia de hoje, tudo foi graças a nossa promessa de eliminar o Mosteiro de Deus.

    Então, por quê? Por que suas palavras pareciam assustadoras demais?

    Senti meu corpo tremer conforme pensava em mim, apenas com uma espada, enfrentando diversos inimigos prontos para me matar.

    “Será que ainda tenho medo de morrer?”, senti-me enojado com essa ideia.

    Observei as ações anteriores de Aurora. A forma como ela brandiu sua espada, sua fala e feição ainda relaxadas. Ela não tinha medo.

    Mas eu tinha.

    — Podemos ficar em Veldoren por mais tempo? — perguntei, envergonhado de minhas palavras.

    Como aquilo soaria para ela, que depositou tanto de si nessa ideia de vingança? Felizmente, ela pareceu alheia aos meus pensamentos.

    — Claro, temos duas semanas até nossa partida.

    — Como assim, senhorita Aurora?

    Fiquei confuso sobre sua afirmação. Duas semanas? Pela forma como ela agia, parecia que queria partir ainda hoje, então por que esperar?

    Logo, ela me revelou seu plano de partida.

    — Daqui duas semanas, uma caravana passará por Veldoren, assim como nos anos anteriores. Um festival ocorrerá, e quando tivermos a chance, nos infiltramos em alguma carga.

    Fiquei chocado com suas palavras.

    Claro, eu sabia da existência da caravana. A famosa Caravana Comercial de Trown. Todos os anos, sem exceção, ela passava por Veldoren.

    Apesar de ser uma pequena cidade, Veldoren era dona de uma parte da rota comercial mais importante do Norte. Assim, como forma de aliviar o pedágio, a caravana sempre vinha para cá.

    No entanto, foi a clareza no plano de Aurora que me atordoou.

    Ela sabia, com certeza, o que deveria fazer para sair de Veldoren. Talvez fosse um plano simples, mas decretou um prazo fixo para mim.

    Em duas semanas, eu deveria superar qualquer que fosse meu medo.

    — Certo, por mim tudo bem.

    Não havia força em minha fala, aqueles pensamentos realmente se mostraram persistentes demais. No entanto, decidi seguir em frente.

    Os ignorei, focando apenas na mulher à minha frente.

    Aurora estava parada a muitos metros de distância, empunhando sua espada em um aperto firme. Não havia nenhum indício de desconforto em seu rosto apesar da postura intensa.

    Seguindo seu exemplo, também me preparei para o confronto inevitável contra ela.

    Posicionei meus pés um à frente do outro, girando o quadril para poder atacar com maior força. Estranhamente, a espada em minhas mãos parecia mais pesada que o normal…

    Meu olhar inevitavelmente caiu sobre o cabo da minha espada. Pensei que houvesse algo preso a ela para essa diferença de peso, mas não encontrei nada.

    Antes que eu pudesse pensar mais sobre isso, no entanto, vi uma sombra se aproximando de mim em alta velocidade.

    Tomado pela surpresa do ataque repentino, pensei em desviar do golpe de Aurora, mas ela era rápida demais. Então, optei por outra alternativa.

    Desferi um ataque horizontal, na linha dos olhos de minha mestra.

    Se eu não pudesse desviar, era melhor contra-atacar.

    Um brilho de surpresa pairou sobre os olhos de Aurora com o meu plano, mas ela rapidamente se recompôs. Desistindo de seu ataque anterior, ela bloqueou o meu.

    Pah—

    O barulho das espadas se chocando reverberou pelo campo.

    Senti meus braços tremerem, até mesmo fraquejarem um pouco, graças a força poderosa de minha mestra.

    Mais uma vez, percebi a diferença gritante entre nossas habilidades. Afinal, a mulher à minha frente era uma Mestra Espadachim, no ápice do caminho da espada.

    Recuei alguns passos para ajustar minha postura, ainda me mantendo atento aos movimentos dela.

    — Por que está tão distraído? — ela perguntou.

    — Sinto muito, senhorita Aurora, mas… — No entanto, ela avançou no meio da minha fala.

    “Droga, era uma distração!”

    Mesmo com sua tática, eu estava mais preparado que antes. Assim, consegui desviar de sua estocada mortal.

    Fuuh— 

    A massa de ar gerada pelo seu ataque atingiu uma árvore próxima, rachando o tronco. Se aquilo pegasse em mim, eu definitivamente teria perdido.

    Não era uma boa ideia bloquear os ataques dela…

    Mas graças a isso, o flanco da senhorita Aurora estava exposto para mim. Aproveitando essa chance rara, eu ataquei sem pensar.

    Senti o tempo desacelerar graças ao foco. Talvez eu quisesse ver a reação dela ao ser superado pelo seu próprio aluno, então olhei para a expressão da senhorita Aurora.

    Nesse momento, seus olhos cinzas me fitaram. Não havia nenhuma reação em sua expressão, quase como se…

    “Isso é uma armadilha!?”, compreendi rapidamente, mas era tarde demais.

    Com um giro rápido, a senhorita Aurora se agachou, desviando do meu ataque. E em contraponto, uma cotovelada atingiu meu estômago.

    — Argh! — Senti o ar escapar dos meus pulmões, a dor tomando meu estômago.

    O aperto sobre minha espada desapareceu, deixando-a cair no chão com um baque surdo. Não conseguindo me sustentar de pé, também cai.

    — Por que está tão distraído, Arthur?

    Segurei minha barriga sem responder a pergunta dela. Ainda caído, tentei pegar minha espada, esperando que aquilo fosse outra tentativa de me distrair.

    No entanto, a senhorita Aurora deixou minhas dúvidas evaporarem para longe.

    — Não se preocupe, não pretendo continuar. Mas me responda: por que está tão distraído?

    — Sinto muito, mestra…

    — Cair em um truque tão óbvio. Você imaginou que eu deixaria uma brecha para me atacar, mesmo após todos esses anos?

    A cada vez que ela falava, pude sentir um pouco de raiva crescendo dentro dela. Aquilo era algo raro de se ver, mas nunca bom.

    — Eu… estava pensando sobre lutar contra o Mosteiro de Deus…

    Mesmo que eu não pudesse ver sua expressão direito, visto que eu ainda me contorcia no chão em dor, o silêncio dela me pareceu um bom sinal.

    — Desde que eu ouvi a notícia sobre o retorno deles, me sinto estranho. Ainda agora encontrei com Dolores, e senti meu peito apertar.

    Fui sincero em minha fala. Deixei os sentimentos que acumulei saírem através de minhas palavras.

    Aurora continuou quieta. Assumi seu silêncio como um pedido para continuar, e assim o fiz.

    — Pensamentos recorrentes sobre meu passado continuaram a vir à tona, como se eu não tivesse superado. Mas se não o fiz, pelo que me esforcei nos últimos anos?

    Se fechasse os olhos, eu ainda veria o sorriso de Celina. Se tapasse os ouvidos, ainda escutaria os gritos de Greg…

    E mesmo se eu segurar uma espada, ela será pesada demais para mim. Eu voltaria a ser o mesmo garoto fraco… 

    Mas mesmo com meus pedidos de ajuda, Aurora permaneceu quieta.

    Talvez aquilo fosse tão estúpido que ela não dava importância? Não seria a primeira vez que ela me ignoraria. No entanto, não gostei desse pensamento.

    Olhei diretamente para ela, pressionando meus olhos com força. Mas tudo estava tão embaçado.

    Mesmo que fosse dia, mesmo que Aurora estivesse bem à minha frente, eu não conseguia vê-la.

    Minhas mãos sujas tocaram meu rosto em busca de resposta. Nas pontas dos meu dedos, senti umidade.

    “Eu… estou chorando?”

    Apenas pensar sobre o passado me tornou tão fraco assim? Que patético eu sou.

    Mesmo agora, depois de tanta luta, tantas amizades formadas e pessoas que acreditaram em mim, eu continuo o mesmo garoto de cinco anos atrás.

    O mesmo garoto de quando…

    Mas Aurora não me deixou terminar meu pensamento.

    — Você está com medo de perder sua vida atual.

    Minha expressão congelou com sua afirmação.

    Eu estava como medo de… perder minha vida atual? Isso sequer fazia sentido?

    Vim até esse lugar isolado do resto do mundo justamente para me fortalecer. Então como eu poderia ter medo de sair daqui?

    — Não faz sentido… — murmurei, ainda buscando significado no que minha mestra disse. Mas não encontrei nada. — O que você diz não faz o menor sentido.

    — E se você perdesse Lya?

    — O quê?

    — E se, em uma noite mais escura que as demais, o Mosteiro de Deus matasse todos em Veldoren, como você se sentiria?

    Era tão absurda sua fala. Se eles morressem, essas pessoas inocentes com suas vidas pacatas, é claro que eu…

    — Eu ficaria devastado…

    — Isso prova que você se importa. Você está, no fim das contas, frustrado com a ideia de abandonar seu lar outra vez.

    Suas palavras me atingiram tão profundamente quanto uma espada poderia. Ela estaria certa sobre isso? Essa pessoa que não expressa seus sentimentos poderia saber mais que eu?

    Por algum motivo, pela primeira vez desde que a conheci, senti um calor diferente tomar meu peito. Pude sentir todo o meu corpo aquecendo conforme a encarava.

    — E o que você poderia saber sobre isso!? Você, que nunca está por perto, que nunca bebe ou come com eles… o que você sabe sobre o que eu estou sentindo!?

    Aquelas palavras escaparam de mim. Eu não pude conter aquela ânsia que sentia em dizer aquilo.

    Senti minha garganta apertar com minha própria fala, ardendo como se eu devorasse um carvão fumegante.

    No entanto, Aurora me encarou em silêncio.

    Em nenhum momento, mesmo em meio as minhas acusações, ela se defendeu ou foi embora. Pelo menos até agora.

    — Sim, isso está certo — ela concordou, mas com o quê? — Não passei muito tempo com eles. Por isso, estou disposta a partir.

    Então, ela se virou.

    Aurora nunca tentou contornar o que eu disse, apenas aceitando o que eu tinha para falar. E agora, ela estava partindo para algum lugar.

    Senti arrependimento conforme ela se afastava. Mas mesmo que eu quisesse me desculpar, nada saiu da minha boca.

    “O que tem de errado comigo?”, foi a última coisa que pensei antes de cair no chão. “Droga, eu estou cansado de tudo isso…”

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