— Não podemos ajudar. Agora, saia daqui.

    Uma rejeição brutal destruiu a expectativa do garoto de rosto sujo.

    O olhar trêmulo do mesmo continuou fixo na figura armada à sua frente. Sua garganta secou enquanto ele tentava falar, mas nada saia.

    Sua aparência suja, com pedaços de terra entre os fios de seu cabelo negro, foi o motivo da recusa? Mas ele havia corrido tanto para chegar até esse lugar.

    Não havia nenhuma estrada desse lugar até sua aldeia, apenas um densa floresta. Era inevitável que ele ficasse sujo depois de percorrer ela.

    — Por favor… salve eles… — o garoto murmurou fracamente.

    No entanto, os guardas o olharam com desprezo, como se ele fosse um mendigo ou ladrão.

    — Saia daqui! — um dos guardas gritou, se aproximando dele.

    Então, o garoto sentiu uma dor em sua barriga quando o homem chutou-a.

    Argh!

    — Eu mandei você sair! Por que continua aqui!?

    Chutes cada vez mais pesados atingiram o corpo frágil do garoto. Mas dor não foi a única coisa que ele sentiu. Havia também um estranho vazio em seu peito.

    “Estou tão cansado… Por que isso continua acontecendo? Ó, minha Deusa, eu pequei tanto assim?”

    A pele do seu abdômen começou a rasgar conforme a violência continuou. Ele não entendia o porquê de apanhar quando não havia feito nada de errado.

    Ele não era a vítima ali?

    Em algum momento, tudo se tornou tão lento. Os pés continuaram a descer, claro, mas tão lentos. Sua barriga também já não doía tanto assim.

    “Eu estou morrendo? É assim que acabo?”

    A ideia o assustou profundamente. Ou ao menos deveria ter feito isso. Mas aquela sensação estranha continuou tomando seu corpo.

    Aos poucos, a cor também se perdeu, sobrado apenas um cinza doentio.

    O sangue que jorrou de sua boca já não era mais vermelho. A cor do céu sumiu, substituída por um branco infinito.

    Os olhos do garoto observaram a expressão daquele que o machucava. Seu lábios se moveram como se dissesse algo, antes de se afastar.

    Mas o garoto não ouviu nada.

    Ele tentou levantar do chão, mas suas pernas não seguiram seu desejo, permanecendo imóveis. Quando tentou se arrastar, seus braços também falharam.

    “Eu estou mesmo morrendo.”

    No entanto, mesmo a ideia da morte não parecia tão assustadora agora. Muito pelo contrário. Ele sentiu um alívio indescritível em seu coração.

    Afinal, ele não precisaria suportar a dor de ser o único que conseguiu fugir do Mosteiro de Deus.

    Os olhos do garoto começaram a se fechar à medida que suas pálpebras pareciam pesadas demais.

    Logo, tudo se acalmaria e ele poderia reencontrar sua família. Ele também poderia encontrar Celina e Greg.

    Mas uma voz o tirou de seu torpor.

    — Você não parece bem.

    “Eu posso ouvir ela?”

    Com a pouca força que o restava, o garoto olhou para a origem da voz. E então, encontrou um anjo.

    Era uma mulher, seu longo cabelo negro caindo como cascata até sua cintura. Infelizmente, ele não conseguiu discernir seu rosto devido ao sol escondido atrás dela.

    Mas ela deveria ser linda.

    O garoto tentou responder ela, mas sua voz não saiu. A mulher, no entanto, não perdeu tempo e se agachou ao seu lado.

    Um calor começou a surgir em seu corpo, substituindo o vazio que ameaçava devorar ele. Aos poucos, o som dos pássaros retornou ao seu ouvido.

    Depois, o azul dos céus foi devolvido. Então, tudo voltou a ser como era antes.

    O garoto, confuso com o que estava acontecendo, olhou para a mulher.

    — Qual… o seu nome?

    — Meu nome é Aurora. E o seu?

    — Arthur… Arthur Rayne.

    Finalmente, ele pôde ver o rosto da mulher que salvou sua vida. E ele estava certo.

    ×××

    Toquei minha barriga dolorida, me lembrando de uma época agora distante. No entanto, não foram os guardas quem haviam me ferido agora, mas aquela mulher que enxerguei como luz.

    Minha carne latejada, mas decidi ignorar aquela sensação. Em silêncio, fiquei sentado na minha cama enquanto repensava sobre o passado.

    Quando tudo era uma cinza vazio, quando nem mesmo as sensações chegavam até mim, Aurora iluminou meu coração que se afogava na escuridão.

    No momento em que encontrei seu olhar, quando ela me revelou seu nome, percebi que ela era a pessoa que eu deveria seguir. Quando ela me pediu para ser seu discípulo, aceitei imediatamente.

    Jamais me arrependi dessa decisão.

    Por cinco longos anos, acordei todos os dias animado. Mesmo quando os treinos eram intensos, e nas vezes em que eu dormia no campo de treino, ainda estava animado.

    Afinal, estar do lado da pessoa que me ofereceu uma oportunidade quando minhas preces foram ignoradas era algo que desejei.

    No entanto, agora tudo pareceu se esvaziar por entre meus dedos. Tudo por conta de um erro meu.

    O vento frio da tarde entrou pela janela e enviou arrepios para o meu corpo desprotegido. Minha atenção foi roubada pela paisagem cinzenta do horizonte.

    Lá no alto, acima das nuvens densas que cobriam o céu completamente, o sol continuou tentando iluminar o mundo. Sua luta era inspiradora.

    “Talvez eu devesse ser como ele…” pensei ironicamente.

    Me levantei até a janela, pronto para a fechar. Mas antes de fazer isso, observei a rua movimentada em frente à minha casa.

    O tempo estava desagradável, assim como em todos os outros dias, mas as pessoas continuaram a sorrir e conversar sem preocupações.

    De alguma forma, o ar de tensão da cidade pareceu ter diminuído em poucas horas. Me perguntei o que poderia ter acontecido para isso, mas decidi ignorar esse pensamento.

    As brincadeiras entre os mais jovens se tornaram mais altas, com gritos e risos. De longe, os mais velhos observavam suas crianças com apreço.

    Mesmo em Veldoren poderia haver felicidade, não?

    Cansado do vento que me atingia repetidamente na barriga, fechei a janela, antes de pegar uma muda de roupas no armário ao lado.

    “Não posso continuar sem camisa nesse clima.”

    Ficar sem proteção nesse frio era um atestado para burrice. No entanto, não tive escolhas quando a dor no abdômen se tornou muito forte.

    Ao menos, o frio aliviou parte da ardência persistente no meu corpo.

    Enquanto ia até o espelho do quarto, continuei pensando sobre mais cedo, a expressão de Aurora uma imagem perturbadora em meu consciente.

    Tomado pelo medo irracional, proferi palavras duras para ela, que apenas tentou me ajudar. E ainda deixei com que ela partisse sem nem ao menos me desculpar.

    Nos momentos finais do nosso fatídico encontro, seu rosto se mostrou ainda mais frio do que geralmente era. De fato, ela deve ter se sentido péssima com a forma que foi tratada.

    “Por que agi assim? Desde quando sou tão imaturo a ponto de magoar alguém que só quer o meu melhor?”

    Infelizmente, eu já sabia a resposta.

    Desde de mais jovem, nunca foi bom em respeitar os mais velhos, com apenas algumas excessões.

    Mas Aurora era diferente. Ela não era uma pessoa aleatória em minha vida, que apenas cumpre o seu papel e vai embora. Por que agi daquela forma então?

    Quando finalmente cheguei em frente ao espelho para me trocar, me observei por um instante.

    Muitos anos atrás, eu possuía um corpo magro e pequeno, traços infantis e olhos mais claros. No entanto, eu já não podia mais me reconhecer.

    A imagem refletida era tão diferente do meu eu daquela época.

    Minha pele branca mostrava sinais de irritação, manchada por inúmeras cicatrizes. Cortes, mordidas, perfurações… havia todo tipo de marca em meu corpo.

    E no peito esquerdo, havia aquela cicatriz.

    A visão repulsiva do meu corpo fez minha testa franzir.

    Ergui minha atenção até meu rosto, mas ele também não era muito melhor. Mesmo com a face limpa de marcas, as olheiras de guaxinim que eu carregava definitivamente não eram agradáveis.

    Mesmo meu cabelo negro e olhos azuis, características do qual eu me orgulhei a vida inteira, eram apenas resquícios do que já foram um dia.

    Um suspiro escapou da minha boca com o reflexo. Sem conseguir olhar por mais tempo, desviei minha atenção do espelho.

    “Quando fiquei assim? Quando foi que meu corpo se tornou um quadro para emoldurar marcas tão horríveis?”

    Muitas memórias começaram a surgir. Vezes em que enfrentei monstros gigantes, quando encontrei grupos de mercenário. Até mesmo uma vez em que tentei barrar um enchente com meu corpo.

    Cada ferimento cicatrizado contava uma história, uma motivação para meus atos. Apesar das boas ações, a visão ainda era desagradável.

    E se eu nunca tivesse encontrado Aurora, teria esse corpo irreconhecível?

    Não, eu não estaria vivo.

    Mas e se… eu nunca tivesse saído da minha cidade natal, eu seria o que sou hoje?

    Não, eu também estaria morto.

    Então, se essas coisas não poderiam ser diferentes, meu destino era inevitável? Eu sempre acabaria morto ou manchado como sou hoje?

    De alguma forma, eu discordo. Afinal, o Mosteiro de Deus foi quem me transformou nisso.

    Se eles não existissem, eu poderia ter vivido uma vida melhor.

    Quantas pessoas foram mortas, raptadas ou sabe-se mais o quê? Esse culto repugnante destruiu tantas vidas felizes, mergulhando destinos em sofrimento.

    O sorriso de Celina que eu nunca pude esquecer, que me atormentava sempre, não seria desagradável se não fossem eles.

    Os gritos de dor e a voz chorosa de Greg não soariam como um pesadelo interminável sempre que eu dormisse.

    E se não fosse pelo Mosteiro de Deus… eu ainda teria a minha mãe.

    “Não existem tantas pessoas como você, Arthur”, a fala de Dolores chegou até mim mais uma vez.

    Nesse mundo cheio de caos e tristeza, era realmente verdade que não existiam pessoas que prezam pelo bem dos outros? Essa era uma ideia tão inconcebível para mim antes.

    Mas agora eu percebo que, talvez, Dolores não estivesse tão errada.

    No entanto, se essas pessoas não existem, quem irá lidar com o Mosteiro de Deus e encerrar sua tirania de sofrimento?

    Cinco anos atrás, quando eles estavam no auge de sua atividade pelo continente, nenhum império, humano ou não, pôde exterminar eles.

    Se eles voltassem à ativa, assim como antes, muitas vidas seriam perdidas. Vidas de homens, mulheres, crianças e de muitos outros tipos.

    Eu conheci em primeira mão o quão assustador o culto poderia ser, então por que estou parado aqui?

    Cerrei meu punho com a ideia, uma forte sensação quente tomando meu peito. Suor frio escorreu pelas minhas costas conforme eu pensava sobre.

    Encarei meu corpo no espelho outra vez, absorvendo aquela imagem. Meu corpo não era apenas o de um espadachim. Ele também era o de um sobrevivente.

    “Não posso deixar que mais alguém fique com um corpo como esse…”

    Rapidamente vesti minha roupa enquanto meus pensamentos corriam livre pela minha cabeça.

    “Aurora também deve pensar o mesmo que eu. Como não vi isso antes? Não é sobre se vingar…”

    Abotoei a camiseta branca, ainda sentindo o leve desconforto em minha barriga. No entanto, ignorei isso. Sem olhar para trás, abri a porta do meu quarto e sai.

    “É sobre criar um cenário onde não existem motivos para vingança.”

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