Meus ouvidos captaram muitas vozes em meu caminho. Elas eram vezes baixas, outras altas. Mas, independente de seu tom, uma coisa permaneceu presente.

    Alegria.

    Veldoren era uma cidade pequena, isolada no extremo norte do continente. Muitos poderiam apontar o dedo e afirmar, sem sombras de dúvida, que a vida seria terrível ali.

    E eles não estariam tão errados. De fato, em um lugar onde a comida não pode ser cultivada pelas baixíssimas temperaturas e as brincadeiras viviam sendo interrompidas por nevascas. A vida era tediosa.

    Mas não todos os dias.

    Brilhos intensos, laranjas ou azuis, tomaram as ruas daquela cidade sem graça. Nas ruas geralmente congeladas, os cidadãos passeavam livremente com suas famílias.

    Entre eles, eu também fazia meu caminho. Ao meu lado, uma pessoa me fez companhia.

    — Arthur, olha alí! — Lya me chamou, apontando com entusiasmo para uma barraca de doces.

    Chocolates em formatos distintos, alguns estranhos e outros simples, se estenderam no balcão. O cheiro doce era uma armadilha.

    Uma a qual Lya mordeu sem hesitar.

    — Hm, isso é tão bom!

    A fala engraçada dela devido ao chocolate em sua boca fez meus lábios se curvarem em um sorriso. Seu jeito infantil era muito divertido de se assistir.

    — É mesmo tão gostoso assim? Deixe-me dar uma mordida.

    — N-não, esse é meu!

    Eu já suspeitava que aquela seria sua resposta. Mesmo assim não pude deixar de rir. Ri tanto que minha barriga chegou a doer.

    Os olhos verdes como esmeraldas de Lya me encararam ferozmente. Mas não me senti tão acuado quanto na guilda. Seu rosto manchado de doce impediu isso.

    Quando notou minha expressão ainda relaxada, um bufo audível escapou de Lya. Suas bochechas estranhamente coradas inflaram como um esquilo.

    — Haha, sinto muito, Lya. Não queria rir de você.

    Mas ela não pareceu aceitar minhas desculpas. Não, ela seguiu alguns passos em frente, me deixando sozinho com minhas palavras.

    Mesmo brava, Lya constantemente me lançava olhares, garantindo que eu ainda estaria alí quando se virasse da próxima vez.

    Claro, seus olhos também exploraram as barracas pelo qual passávamos.

    Naquele momento, decidi explorar um pouco as comidas do festival. Muitas iguarias estavam reunidas ali, certo? Eu não poderia perder essa chance.

    — Será que Aurora gostaria de alguma dessas coisas?

    Aurora. Ela era minha mestra e a pessoa que me resgatou anos atrás. Eu não seria quem sou hoje se não fosse por ela.

    Durante meu caminho até o dia de hoje, cercado por pessoas que me orgulho de chamar de família, enfrentei muitos problemas. Problemas que superei graças ao apoio de Aurora.

    Enquanto observava Lya caminhar à minha frente, apenas tive certeza desse fato. Com a ajuda da minha mestra, pude aproveitar bem esses últimos cinco anos.

    Mas o mesmo não poderia ser dito dela.

    Se eu perguntasse a algum cidadão de Veldoren se eles conhecem Aurora, eles estalarariam os dedos na frente do meu rosto dizendo algo como: “Quem era mesmo?”

    E eu não os culparia por isso.

    Aurora dedicou muito do seu tempo para me oferecer conforto e um abrigo. Mesmo que isso custasse sua própria felicidade.

    “Preciso criar algo com ela antes de irmos. Algum motivo para que ela queira voltar depois que tudo isso acabar.”

    No entanto isso teria que esperar. Afinal, havia muitos olhos novos sobre mim.

    Ainda fingindo observar algumas comidas e objetos nas barracas, expeli parte da minha mana. E em pouco tempo, algumas pessoas curiosas foram identificadas.

    Não precisei pensar muito para chegar a uma conclusão.

    “Cavaleiros, hein? Eles estão me observando ou observando qualquer um que passe por aqui?”

    Como não sabia a resposta correta, fingi não notar a presença deles. Pelo contrário, continuei a aproveitar meu passeio com Lya.

    — Olha alí, Arthur! — Ela me puxou para outra barraca.

    Diferente das demais, aquela não oferecia qualquer tipo de comida. Na verdade, parecia ser uma espécie de jogo com argolas.

    — Você quer jogar isso?

    — Hã? Claro que sim! Você não está vendo ali os prêmios pendurados!?

    Como ela disse, muitos prêmios estavam pendurados ao lado da barraca. Mas a maior parte deles parecia bastante… infantil?

    Observei silenciosamente o grande urso de pelúcia que Lya olhava descaradamente. Em tempos normais, ela fingiria não notar algo como aquilo. Mas seu ânimo falou mais alto.

    — Haha, tudo bem. Você começa então.

    Mal pude terminar minha frase quando Lya rapidamente entregou algumas moedas para o comerciante. Tenho certeza que ela faria isso de qualquer forma…

    — Muito obrigado, senhorita. Bom jogo! — o senhor que cuidava da barraca falou.

    Ele entregou três argolas para ela. No centro do jogo, havia uma pequena estaca de madeira. Aparentemente, Lya deveria acertar a argola para ganhar seus prêmios.

    No entanto…

    — O quê!? Por que isso é tão difícil!?

    Suas três tentativas falharam miseravelmente. Seus arremessos foram tão ruins, que senti vontade de me esconder dentro das minhas roupas.

    Quero dizer, era aceitável você acertar o comerciante em uma das tentativas?

    — Ei, você está rindo! — ela me acusou.

    “Rindo? Eu só não quero ser visto com você depois disso!”

    Senti vontade de ser sincero com meus pensamentos. Mas ver o rosto vermelho de Lya destruiu meu plano.

    Sua bochecha… Na verdade, todo o seu rosto estava brilhando em um vermelho intenso. Ela parecia um tomate naquele momento.

    — Sinto muito, eu não estava rindo…

    — Isso é claramente mentira! Você se acha melhor que eu, né, Arthur? Então tenta fazer esse desafio!

    — Você quer que eu vença isso? Mas isso é para crianças, Lya. Como eu seria visto se pegasse todos os prêmios?

    — Seu…!

    Lya rangeu os dentes em um acesso de raiva. Mas apesar das minhas palavras, eu não tinha intenção alguma de deixar aquele desafio passar batido. 

    Então, dei um passo à frente, me aproximando do comerciante.

    Ele, que observou nossa interação do início ao fim, estendeu a mão no momento em que cheguei. Ele era tão experiente.

    — Não é bom tratar sua namorada dessa maneira, garoto. As mulheres são as criaturas mais perigosas que um homem pode encontrar.

    Sua fala me fez rir baixo. Sim, as pessoas continuavam a ter essa ideia sobre mim e Lya.

    — Ela é minha irmã, mas obrigado pelo conselho.

    Os olhos do senhor se arregalaram com minhas palavras, seu olhar desviando de mim para ela. Pude entender seu choque, afinal não compartilhamos nenhuma característica física.

    Mas nem todos os irmãos são de sangue, não é?

    Pegando as argolas, fiquei em posição, pronto para acertar a estaca no centro da barraca. Mesmo sem me virar, ainda pude sentir o olhar penetrante de Lya.

    Perder ali não era uma opção.

    Firmando meu pé de apoio no chão, lancei a argola. Seu corpo flutuou no ar como uma abelha, atraindo o olhar de nós três.

    O tempo pareceu desacelerar conforme a argola se afastava da minha mão. Todo o som foi roubado dos meus arredores, afogando meu mundo em silêncio.

    Logo, ela começou a cair. A cada instante, a argola se aproximou mais da estaca.

    Tlim!

    Um som agudo reverberou pelo ambiente quando a argola caiu perfeitamente na estaca.

    — Isso foi incrível — Lya falou em voz baixa.

    Mas eu não havia terminado. Em minhas mãos, ainda tinham duas argolas esperando pelo momento certo.

    Meu objetivo não era apenas me sair melhor que Lya, provando que eu era melhor que ela. O ponto final em minhas ações seria…!

    Tlim!

    Tlim!

    — Minha nossa, faz quantos anos desde que alguém acertou todas as argolas na primeira tentativa? — o velho questionou embasbacado.

    Ele balançou a cabeça, aparentemente decepcionado por seu jogo ter sido derrotado tão facilmente. Sem mais opções, o senhor foi até a área de prêmios.

    — Então, o que você deseja levar, caro vencedor? Temos todos os tipos de espadas de brinquedo…

    — Não, eu quero aquilo — eu o cortei, apontando para o prêmio.

    — Isso? Bom… acho que cada um pode escolher o que quiser, não?

    O senhor se esticou para agarrar o prêmio, atraindo o olhar das pessoas próximas.

    — Arthur, o que você está fazendo!? — Lya perguntou, surpresa. Mas a ignorei por um momento.

    Quando o senhor finalmente me entregou meu prêmio, me virei para ela. Sem esperar por uma resposta sua, movi a enorme pelúcia que ganhei para seus braços.

    Afinal, meu objetivo não era apenas vencer o desafio.

    — Muito obrigado, Arthur! Você é o melhor.

    Lya se jogou contra mim, me apertando em seus braços finos. Apesar da força surpreendente por trás deles, não me afastei do seu abraço.

    Ela esfregou seu rosto no meu peito, como um gato marcando território. Talvez tenha funcionado, já que as pessoas que nos olhavam se afastaram silenciosamente.

    Quando ela finalmente me liberou do seu abraço apertado, respirei fundo o ar que nem tinha percebido que me faltava. Ela, por outro lado, olhava fixamente para o urso em seus braços.

    Por um breve momento, ela voltou a se parecer com aquela velha adolescente que eu encontrei quando cheguei até essa cidade.

    — Ei, Arthur… — Lya me chamou, sua voz baixa como um sussurro. — Muito obrigada, de verdade.

    — Não precisa dizer isso, Lya. É um pouco vergonhoso na verdade.

    — É sério mesmo, muito obrigada. Acho que… foi por isso que me apaixonei por você quando mais nova.

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