Capítulo 94 — Vestígios do Nada
Leonard abriu os olhos lentamente, como se emergisse de águas profundas. A primeira coisa que percebeu foi o peso familiar de uma mão em seu ombro — firme, gelada, real. Seu corpo ainda tremia com os ecos daquela realidade distorcida, seus músculos tensos como se esperassem outro ataque a qualquer momento.
Seu olhar turvo focou gradualmente na figura diante dele. Katherine. Seus olhos castanhos escuros refletiam uma mistura de preocupação e alívio, seus cabelos escuros levemente desalinhados como se ela tivesse corrido até ele.
A luz suave da sala — uma luz normal, dourada, não aquele vermelho opressivo — iluminava seus traços familiares.
— O que…? — Leonard engoliu seco, sua voz saindo rouca e quebrada. Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente — as paredes sólidas da casa, o chão de madeira sob seus pés, a porta fechada atrás dele.
Tudo no lugar. Tudo normal.
Mas ele ainda podia sentir o frio fantasma daquela presença, como se o Wendigo tivesse deixado marcas em sua pele que o tempo ainda não apagou. Suas mãos tremeram levemente quando as levantou, virando-as para cima como para confirmar que ainda eram suas, que ainda eram reais.
Katherine apertou seu ombro com mais força, seu toque funcionando como uma âncora.
— Você estava… não sei, em transe — disse com os cantos de sua boca se contraindo em uma expressão tensa. — Fiquei te chamando, mas era como se você não estivesse aqui. E então você simplesmente… cedeu.
Leonard levou uma mão ao rosto, sentindo o suor frio em sua testa. Seus dedos exploraram sua bochecha instintivamente, procurando por algum vestígio do corte que o Wendigo lhe havia feito — mas a pele estava intacta. Apenas a marca em seu pulso ainda pulsava, um latejar fraco e distante, como um coração cansado.
Ele respirou fundo, tentando ordenar os pensamentos.
— Quanto tempo…? — começou a perguntar, mas a voz falhou novamente.
Katherine pareceu entender.
— Uns três minutos, talvez. Mas pareceram horas. — Ela hesitou, então acrescentou: — Você estava falando coisas… palavras que não faziam sentido. E seus olhos… — Ela não terminou a frase, mas Leonard viu o arrepio que percorreu seus braços.
Três minutos. Apenas três minutos no mundo, mas uma eternidade naquele outro lugar. Leonard fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da exaustão em seus ossos. Quando os abriu novamente, seu olhar foi atraído para a porta atrás de Katherine — a mesma porta que ele jurava ter atravessado.
— Eu preciso… — começou, mas a frase morreu em seus lábios. O que ele precisava? Explicar? Como poderia colocar em palavras algo que nem ele mesmo compreendia totalmente?
Katherine estudou seu rosto por um longo momento, então assentiu, como se tivesse decifrado algo em sua expressão.
— Vamos sentar — sugeriu, sua voz estava um pouco mais suave agora. — Você parece que vai desmaiar a qualquer momento.
Leonard permitiu que ela o guiasse até o sofá, suas pernas obedecendo com a rigidez de quem acabara de voltar de uma longa jornada. Enquanto se sentava, seu olhar foi atraído para a janela — a noite lá fora parecia normal, comum. Nenhum céu vermelho. Nenhum Wendigo.
— Deve ter sido um combate difícil. — Katherine manteve o olhar fixo nos olhos de Leonard, suas íris aos poucos foi trocada para um roxo caótico cintilante, como um reflexo de algo além do físico. — Tudo estava uma bagunça aqui fora.
Leonard sentiu um frio na nuca.
“Espera, o quê?”
Seus músculos traíram a calma que tentou manter, enquanto o rosto de Katherine se tensionava, os dentes cerrados sob a mandíbula firme.
— Uh… Acha mesmo que sairia do transe tão fácil? — Ela soltou um riso curto, quase um suspiro de alívio misturado com ironia. — Mas caraca, achei que você iria ceder mais cedo. Por isso fiquei de prontidão.
O silêncio que se seguiu carregava mais perguntas do que Leonard estava preparado para responder.
Leonard engoliu seco, a garganta apertada como se algo invisível ainda se enroscasse nela.
— Transe? — Ele forçou as palavras, tentando disfarçar a confusão que preenchia sua mente. — O que você está falando, Katherine?
Os olhos dela estreitaram, e por um instante, o roxo em suas íris pareceu pulsar, como se reagisse à dúvida dele.
— Você não lembra de quase nada, não é? — Ela cruzou os braços, estudando-o com uma mistura de curiosidade e cautela. — Dos golpes, da névoa, da voz… Nada?
Leonard sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Fragmentos distorcidos surgiram em sua memória — sombras se contorcendo, sussurros roucos que não formavam palavras, apenas ecoavam. Mas era como tentar segurar água com as mãos; quanto mais ele se concentrava, mais os pedaços escapavam.
— Eu… — Ele interrompeu-se, os dedos contraindo involuntariamente, como se buscassem algo que não estava mais lá. — Por que eu não consigo lembrar?
Katherine soltou um suspiro prolongado, e pela primeira vez, Leonard percebeu o cansaço nos cantos de seus olhos.
— Porque você quase perdeu. — Ela inclinou-se para frente, a voz baixa, mas carregada de uma urgência que fez seu coração acelerar. — E se eu não tivesse puxado você de volta, você ainda estaria lá, preso naquele nada.
Leonard sentiu o peso das palavras de Katherine como um soco no estômago. Seus olhos percorreram o ambiente ao redor, como se buscassem pistas no ar, nas paredes, em qualquer lugar que confirmasse o que ela estava dizendo. Mas tudo parecia… normal. Demais.
— Naquele nada… — Ele repetiu em um sussurro, os dedos tremendo levemente. — Você quer dizer que eu estava… fora de mim? Literalmente?
Katherine não respondeu de imediato. Em vez disso, ergueu a mão lentamente, como se temesse assustá-lo, e apontou para o chão a seus pés. Leonard olhou para baixo.
No início, não viu nada. Só o piso gasto, as sombras comuns do ambiente. Mas então, como se seus olhos estivessem se ajustando a uma frequência diferente, ele percebeu.
Marcas.
Arranhões finos e profundos, como se garras invisíveis tivessem raspado o chão em frenesi. E mais — manchas escuras, quase imperceptíveis, que se espalhavam em padrões irregulares. Sangue? Sua mente recuou diante da possibilidade, mas seu corpo já sabia a resposta antes mesmo de ele formar a pergunta.
— Isso… isso foi eu? — Sua voz soou rouca, estranha até para seus próprios ouvidos.
Katherine finalmente assentiu, devagar.
— Você lutou contra algo que não dá para ver, Leonard. Algo que tenta se alimentar de quem escuta. — Ela fechou os olhos por um instante, como se relembrasse algo doloroso. — E você ouviu, não foi? A voz dele.
Leonard sentiu as pernas amolecerem. Porque agora ele se lembrava.
Não de tudo — mas do suficiente.
Do sussurro.
Daquele chamado que parecia vir de dentro dos seus próprios pensamentos, prometendo respostas, poder, alívio… se ele apenas cedesse.
E o pior?
Por um momento — só um breve, terrível momento — ele quase tinha aceitado.
Leonard respirou fundo, tentando ordenar os fragmentos de memória que insistiam em escapar como areia entre os dedos. Havia algo mais lá — além daquela presença que o consumira, além dos sussurros que ecoavam nas bordas de sua consciência. Como um vazio que ele não conseguia nomear, um ponto cego em sua própria mente.
Os sussurros estavam lá. A voz estava lá.
Mas ele não as alcançou — ou talvez não devesse alcançá-las.
— Isso… é tão estranho… — murmurou, mais para si mesmo do que para Katherine.
Seus olhos encontraram os dela, e, por um instante, o roxo caótico em seu olhar pareceu vibrar em resposta, antes de retornar ao castanho comum, como se reconhecesse algo que ele mesmo não compreendia. Ele engoliu seco, reunindo as palavras com cuidado, como se temesse quebrá-las ao pronunciá-las.
— O que você fez para me trazer de volta? — Sua voz soou mais firme do que esperava, mas ainda carregada de uma tensão subterrânea. — E essas memórias… essas partes “cegas”… como elas estão voltando agora?
Katherine hesitou. Seus dedos se apertaram em torno do próprio braço, como se segurando para não revelar algo além do que deveria.
— Eu não revelei nada — respondeu, devagar. — Só puxei você de volta antes que fosse tarde demais. O resto… — Ela fez uma pausa, e Leonard percebeu um brilho diferente em seus olhos, quase como um aviso. — O resto já estava aí. Só estava escondido de você.
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