Capítulo 3: O machado
Victor riu aquele riso lento, carregado de ironia e desprezo. E tirou o casaco com um movimento teatral, entregando-o a uma das duas sombras que o acompanhavam. Deu mais um passo à frente, ainda palitando os dentes como se estivesse em uma calçada qualquer, e não diante de uma ameaça.
— Verme, não… colecionador. — Disse, com um olhar preguiçoso. — Tô só querendo completar minha coleção de cidades. A sua é a última que falta na prateleira.
— Permita que eu cuide disso, senhor. — Disse uma das sombras, dando um passo à frente e passando por Victor com respeito cerimonial. — Já é uma honra pra esse fim de mundo ser agraciado com sua presença.
A outra sombra permanecia quieta, segurando o casaco do rei como se segurasse um artefato sagrado.
— Hmm… parece que vem um cara forte aí. — Comentou Bart com um sorriso provocador no canto dos lábios.
— E ele é forte, meu bem. — Disse Charlotte, com aquele sotaque americano sedutor e debochado, enquanto ajeitava os cabelos. — Um dos gêmeos… os chamam de Filhos do Fim. Eles tomaram o oeste da Bahia em trinta dias. Sozinhos. E olha que tinham cidades que nem sabia que tinha um rei deste estado nessa geração.. só descobriram quando eles apareceram arrastando corpos.
Ela apertou sem querer o botão de desligar da chamada. A tela ficou preta. Charlotte bufou e falou sozinha:
— Eita, desliguei sem querer… ele vai me matar.
A cena muda. A atmosfera é densa, úmida, pesada de tensão.
A chuva começou a cair. Não no presente — mas no passado.
Dois garotos caminhavam pelo centro da rua, lado a lado, como reflexos distorcidos um do outro. Arrastavam pelas axilas um homem desacordado, coberto de sangue — o chefe do tráfico local. Estava amordaçado, com as pernas quebradas em ângulos grotescos.
A boca tremia, implorando por misericórdia que não viria.
À esquerda, vinha Lucas, o mais alto dos dois. Corpo longilíneo, musculatura bem desenhada e definida, o rosto uma escultura entre o belo e o ameaçador — traços misturados, ambíguos, com um sorriso torto de escárnio constante.
Seus olhos tinham o brilho cruel de uma serpente: amarelos, com pupilas verticais.
Cabelos longos em tranças tribais caíam até os ombros, amarrados nas pontas com cordas douradas. Usava uma jaqueta de couro aberta, o peito coberto por tatuagens que pareciam se mover sob a pele.
À direita, o mais baixo — Guilherme. Magro, compacto, com músculos rijos como concreto, a pele em um tom caramelo queimado de sol.
Seu corpo era um mapa de cicatrizes finas, lembranças de batalhas vencidas. O cabelo era raspado nas laterais, com um moicano trançado no topo, preso para trás com uma corda vermelha.
Sem camisa, vestia apenas uma calça militar escura. Seus olhos — iguais aos do irmão — também eram de serpente, selvagens e inumanos.
Passaram pela delegacia. Um policial mais novo, visivelmente nervoso, levou a mão ao coldre.
— Ei! Ei, vocês dois! Soltem o homem agora! Isso é sequestro!
Antes que desse mais um passo, um veterano o segurou com força pelo braço, os olhos arregalados de puro terror.
— Não… não, cara. Aqueles dois são os psicopatas do rei. Filhos do Fim. Eles mandam mais aqui do que o prefeito. Fica na sua se quiser sair vivo.
O som das sandálias se afastou, e ninguém ousou segui-los. A cidade toda sabia: onde os gêmeos passavam, o rei já tinha vencido.
E então, sem aviso, o presente se sobrepôs ao passado como uma lâmina atravessando carne.
Lucas avançou.
Seus pés rasgavam a areia manchada de sangue espesso. Seu corpo se movia com agilidade feroz, aproximando-se como um disparo mortal.
Em um piscar de olhos, desferiu uma sequência de socos poderosos, empurrando Bart para trás — cada golpe deixava marcas vivas de sangue fresco no corpo da pintura.
Num movimento rápido, Bart ergueu o machado e o desceu com brutalidade, mirando o rosto de Lucas.
Mas Lucas se esquivou com um giro fluido, contra-atacando de imediato com um soco circular que acertou em cheio o lado esquerdo do tronco de Bart.
O impacto fez seu punho colidir com as costelas do oponente com um estalo seco, horrível — como madeira quebrando por dentro.
Bart deu um passo para trás, o rosto retorcido por um instante. Antes que pudesse reagir, um chute violento atingiu sua boca do estômago, fazendo seu corpo se curvar e o ar escapar com um ronco rouco.
Mas Bart avançou.
Segurando o machado com firmeza, desferiu uma enxurrada de ataques — cortes de ângulos imprevisíveis, como se buscasse dilacerar o ar e o adversário ao mesmo tempo.
Lucas dançava entre os golpes. Esquivava-se com facilidade, devolvendo cada tentativa com socos frontais, circulares e chutes precisos.
A cada investida de Bart, Lucas respondia com golpes limpos, acertando as costelas, as juntas das pernas, os ombros e o rosto.
Bart tentava se aproximar, mas a envergadura de Lucas era monstruosa — e seus reflexos, absurdos.
Bart simplesmente não conseguia tocar nele.
E então — um soco.
O punho de Lucas acertou o abdômen de Bart com brutalidade. O corpo dele foi lançado como um boneco contra o carro onde Charlotte estava sentada.
Bart bateu com as costas no capô, amassando a lataria e rachando o farol. Caiu de bunda, apoiado no para-choque, respirando com dificuldade.
Lucas caminhou na direção dele, ofegante, com os olhos semicerrados.
— Caramba… esse é o nível de força das Pinturas? Pensei que fossem criadas para destruir reis… mas parece que era só boato. — Disse, decepcionado, sentindo o coração pulsar com força no peito, como se quisesse escapar dali.
Charlotte inclinou o corpo de cima do capô do carro, preocupada.
— Amor… tudo bem?
— Claro, meu bem. Ele é realmente forte. Confesso que o tamanho dos braços e das pernas dele são um problema… mas um problema bem divertido. — Respondeu Bart com um sorriso torto, se levantando com calma e caminhando em direção a Lucas, como se a dor fosse apenas uma ideia distante.
— Resolveu apanhar mais, foi? — Provocou Lucas.
— Como assim? Eu não estou machucado. — Disse Bart, como se fosse óbvio.
— Você é maluco? Será que te bati tão forte que bagunçou sua cabeça? Você tá coberto de sangue!
— Ah… esse sangue? Não é meu. É seu. — Respondeu Bart com um sorriso diabólico.
Lucas franziu a testa.
— Meu…? — Murmurou, e então olhou para os próprios punhos. Eles tremiam levemente, cobertos de sangue. Os nós dos dedos estavam machucados.
Ele abriu uma das mãos — um estalo ecoou. O dedo anelar havia voltado pro lugar sozinho.
Seu olhar subiu em direção a Bart, mas era tarde demais.
A mão de Bart agarrou seu rosto com violência.
Num único movimento brutal, Lucas foi erguido do chão e arremessado com força descomunal contra o solo, como se fosse feito de papel.
O chão estremeceu, a poeira explodiu ao redor, e um baque seco ecoou pela área.
Lucas cuspiu sangue, sentindo o mundo girar.
— Que força avassaladora… — Pensou ele, enquanto tentava respirar. — Me lembra o mestre… Eles se parecem. Mesmo sorriso… mesmo olhar…
Um vento cortante roçou seu rosto. O machado de Bart descia como a lâmina da morte.
Mas antes que pudesse atingir seu alvo —
Guilherme surgiu.
Rápido como um raio, segurou o antebraço de Bart no último segundo, torcendo-o com brutalidade.
Num movimento preciso, girou o corpo do oponente, o levantando do chão, fazendo-o girar no ar como um peão invertido.
Antes que Bart tocasse o solo, uma joelhada monstruosa colidiu com seu abdômen, lançando-o contra uma árvore próxima.
A árvore quebrou ao meio com o impacto.
O tronco se partiu com um estalo grotesco, e caiu sobre Bart com um estrondo ensurdecedor.
Lucas, de joelhos, tossia no chão, os olhos arregalados, ofegando.
— Ele é forte demais…
Guilherme estalou os dedos, ainda em posição de combate.
— Então, venceremos ele juntos.
Bart se levantou devagar, o corpo emergindo do tronco estilhaçado como se nada o tivesse atingido.
Os músculos tremiam de empolgação. Os olhos, semicerrados, cintilavam com a promessa de mais violência.
E o machado… estava de volta às mãos dele.
Ele caminhou. Depois correu.
Um avanço brutal, selvagem. O machado cortava o ar em ziguezagues velozes, visando decapitar os dois irmãos de uma vez.
Guilherme e Lucas recuaram em sincronia, desviando da primeira lâmina e contra-atacando com uma sequência de socos e chutes bem encaixados.
O punho de Lucas encontrou a mandíbula de Bart. O cotovelo de Guilherme rasgou o ar até acertar a base do crânio do brutamonte.
Mas Bart era uma parede.
Uma parede que ria.
— Tão sérios…
Ele girou, e o cabo do machado acertou o estômago de Guilherme, lançando-o como um míssil alguns metros para trás.
Lucas mal teve tempo de reagir.
O machado cortou o ar novamente, mais rápido, mais fluido.
Um fio de sangue escorreu do supercílio de Lucas.
— Tsc… — Lucas deu um passo cambaleante. — Essa merda quase me cegou…
Mas não hesitou. Com um rugido, lançou um soco monstruoso direto no rosto de Bart.
CRACK!
O som ecoou pela estrada.
A cabeça de Bart virou com o impacto. Ele se moveu. Não caiu. Não gritou. Só… virou.
O machado subiu.
Um golpe vindo de baixo pra cima, mirando direto o pescoço de Lucas.
— LUCAS! — Gritou Guilherme, surgindo no último segundo.
Seu braço interceptou o de Bart com um estrondo, os músculos tremendo sob a pressão.
Ele torceu o pulso de Bart, o machado caiu.
Desarmado.
Lucas e Guilherme empurraram Bart com um grito uníssono, jogando o brutamonte alguns metros para trás.
— Você depende demais desse brinquedinho — Disse Guilherme, ofegante, cuspindo sangue.
Bart olhou para os dois. O sorriso dele… nunca mudou.
Ele inclinou o pescoço para o lado.
— Crack.
— Não dependo de nada — murmurou. — Só acho… divertido.
Então veio a tempestade.
Sem armas. Só os punhos.
Ele se lançou aos irmãos com uma explosão de brutalidade. Cada movimento era seco, preciso e implacável.
Lucas tentou bloquear — sentiu o impacto nos ossos.
Guilherme tentou desviar — e voou de novo, rolando pela estrada.
Bart estava se divertindo. Completamente.
— Vamos, continuem! — Gritou ele, os olhos brilhando de empolgação. — Me mostrem mais! Me façam RIR!
Os gêmeos se levantaram, ofegantes.
Os olhos semicerrados, os punhos cerrados.
A aura ao redor deles começou a mudar.
Pesada.
Sufocante.
O chão tremeu suavemente, e o ar ficou denso como névoa grossa.
Atrás dos irmãos, uma figura começou a se formar.
Sombria.
Um homem gigantesco, sentado em uma pilha de corpos, comendo uma barra de chocolate, um palito branco balançando entre os lábios.
Mesmo imóvel, transmitia poder absoluto.
— Nunca pensei que usaríamos isso com alguém da nossa geração além do nosso soberano. — Murmurou Lucas, a voz rouca.
— Nosso adversário é forte. Não podemos decepcionar nosso rei. — Completou Guilherme, os olhos cravados em Bart.
Os dois avançaram juntos.
Como trovões gêmeos colidindo contra uma tempestade viva.
Bart recuava, agora recebendo os golpes de verdade — joelhadas, socos, cotoveladas. O corpo dele começou a avisar.
Um corte no canto da boca. Um pequeno hematoma no ombro. Mas ainda assim…
Ele sorria.
E então, Guilherme viu a abertura.
Girou Bart com precisão, colocando-o de cabeça pra baixo, com as costas viradas pro chão.
A mão de Guilherme desceu como um raio, aberta, mirando o queixo de Bart.
Mas não chegou a tocar.
Num estalo monstruoso, Bart se mexeu — rápido demais.
Mesmo de cabeça pra baixo, ele envolveu o braço de Guilherme com as duas mãos, travando a articulação com brutalidade.
CRAC!
O som seco ecoou na clareira.
O braço foi deslocado num piscar de olhos.
Antes que Guilherme reagisse à dor, Bart girou o corpo e desferiu um chute brutal no queixo do garoto.
PAF!
O impacto foi tão forte que o pescoço dele estalou, os olhos viraram, e o corpo tombou cambaleando para trás, desabando com violência.
Bart soltou o braço e caiu com as mãos no chão.
Com elegância animalesca, deu uma cambalhota e se pôs de pé novamente.
Lucas gritou e veio pelas costas, enfurecido.
Mas Bart o ouviu.
Sentiu os passos arrastando areia.
Girou os quadris.
Cotovelada.
No maxilar esquerdo.
THUMP!
O golpe foi seco, brutal e certeiro.
Lucas caiu apagado antes mesmo de entender o que aconteceu, o corpo mole tombando de lado, boca entreaberta, sangue escorrendo do canto.
Bart respirou fundo, depois estalou o pescoço.
— Tsc…
Vocês acham que eu dependo do machado?
Ele olhou para as próprias mãos.
— Ele só é um bom brinquedo.
E então, sorriu.
Bart ajeitava os ombros, os olhos atentos.
A luta tinha deixado marcas, mas nada que ele realmente se importasse. Até notar algo estranho no ombro de Lucas.
— Hm?
Uma marca feita de sangue seco.
No abdômen de Guilherme, algo semelhante.
— Isso é…? — Murmurou Bart, se abaixando levemente, encarando os dois corpos.
Mas então…
— Você fala demais.
A voz veio suave, debochada, quase entediada.
Bart se virou.
Ali estava ele, sentado no capô do próprio carro, com a elegância de quem assiste a um show particular:
Victor. O rei.
Pernas cruzadas, camisa aberta no peito, um saco de pipoca numa mão, e os olhos semi cerrados como quem mal piscava.
— Bonita a coreografia… mas tá começando a me dar sono.
Bart estreitou os olhos.
— Ah é? Então acorda, seu merda.
Pegou o machado do chão com força, girou nos dedos, e o lançou com tudo.
O ar cortou seco.
O machado foi como um míssil prateado, rodopiando direto na direção de Victor.
Victor apenas virou o rosto pro lado.
CLANG!
O machado passou raspando, abrindo um corte fino na bochecha dele, que nem piscou.
O vidro do carro explodiu com o impacto.
O rei se levantou devagar.
Sem dizer nada, andou até o machado fincado no capô.
Pegou-o com uma mão.
Apertou.
O cabo estalou.
Quebrou-se.
A lâmina foi dobrada como papel alumínio.
— Isso é brinquedo de criança.
Quer brincar comigo agora, primo. — Disse, jogando os pedaços retorcidos no chão.
O olhar dele mudou.
Não havia mais humor.
Só realeza e ameaça.
Victor começou a caminhar.
Cada passo deixava o chão mais pesado.
O ar parecia vibrar.
Bart, pela primeira vez, ficou em silêncio.
— Você já brincou com gente forte. — Continuou Victor, limpando o sangue do rosto com as costas da mão.
— Mas comigo…
Você só vai brincar se sair vivo.
Continua.

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