Victor riu aquele riso lento, carregado de ironia e desprezo. E tirou o casaco com um movimento teatral, entregando-o a uma das duas sombras que o acompanhavam. Deu mais um passo à frente, ainda palitando os dentes como se estivesse em uma calçada qualquer, e não diante de uma ameaça.

    — Verme, não… colecionador. — Disse, com um olhar preguiçoso. — Tô só querendo completar minha coleção de cidades. A sua é a última que falta na prateleira.

    — Permita que eu cuide disso, senhor. — Disse uma das sombras, dando um passo à frente e passando por Victor com respeito cerimonial. — Já é uma honra pra esse fim de mundo ser agraciado com sua presença.

    A outra sombra permanecia quieta, segurando o casaco do rei como se segurasse um artefato sagrado.

    — Hmm… parece que vem um cara forte aí. — Comentou Bart com um sorriso provocador no canto dos lábios.

    — E ele é forte, meu bem. — Disse Charlotte, com aquele sotaque americano sedutor e debochado, enquanto ajeitava os cabelos. — Um dos gêmeos… os chamam de Filhos do Fim. Eles tomaram o oeste da Bahia em trinta dias. Sozinhos. E olha que tinham cidades que nem sabia que tinha um rei deste estado nessa geração.. só descobriram quando eles apareceram arrastando corpos.

    Ela apertou sem querer o botão de desligar da chamada. A tela ficou preta. Charlotte bufou e falou sozinha:

    — Eita, desliguei sem querer… ele vai me matar.

    A cena muda. A atmosfera é densa, úmida, pesada de tensão.

    A chuva começou a cair. Não no presente — mas no passado.

    Dois garotos caminhavam pelo centro da rua, lado a lado, como reflexos distorcidos um do outro. Arrastavam pelas axilas um homem desacordado, coberto de sangue — o chefe do tráfico local. Estava amordaçado, com as pernas quebradas em ângulos grotescos. 

    A boca tremia, implorando por misericórdia que não viria.

    À esquerda, vinha Lucas, o mais alto dos dois. Corpo longilíneo, musculatura bem desenhada e definida, o rosto uma escultura entre o belo e o ameaçador — traços misturados, ambíguos, com um sorriso torto de escárnio constante. 

    Seus olhos tinham o brilho cruel de uma serpente: amarelos, com pupilas verticais.

    Cabelos longos em tranças tribais caíam até os ombros, amarrados nas pontas com cordas douradas. Usava uma jaqueta de couro aberta, o peito coberto por tatuagens que pareciam se mover sob a pele.

    À direita, o mais baixo — Guilherme. Magro, compacto, com músculos rijos como concreto, a pele em um tom caramelo queimado de sol. 

    Seu corpo era um mapa de cicatrizes finas, lembranças de batalhas vencidas. O cabelo era raspado nas laterais, com um moicano trançado no topo, preso para trás com uma corda vermelha. 

    Sem camisa, vestia apenas uma calça militar escura. Seus olhos — iguais aos do irmão — também eram de serpente, selvagens e inumanos.

    Passaram pela delegacia. Um policial mais novo, visivelmente nervoso, levou a mão ao coldre.

    — Ei! Ei, vocês dois! Soltem o homem agora! Isso é sequestro!

    Antes que desse mais um passo, um veterano o segurou com força pelo braço, os olhos arregalados de puro terror.

    — Não… não, cara. Aqueles dois são os psicopatas do rei. Filhos do Fim. Eles mandam mais aqui do que o prefeito. Fica na sua se quiser sair vivo.

    O som das sandálias se afastou, e ninguém ousou segui-los. A cidade toda sabia: onde os gêmeos passavam, o rei já tinha vencido.

    E então, sem aviso, o presente se sobrepôs ao passado como uma lâmina atravessando carne.

    Lucas avançou.

    Seus pés rasgavam a areia manchada de sangue espesso. Seu corpo se movia com agilidade feroz, aproximando-se como um disparo mortal.

    Em um piscar de olhos, desferiu uma sequência de socos poderosos, empurrando Bart para trás — cada golpe deixava marcas vivas de sangue fresco no corpo da pintura.

    Num movimento rápido, Bart ergueu o machado e o desceu com brutalidade, mirando o rosto de Lucas.

    Mas Lucas se esquivou com um giro fluido, contra-atacando de imediato com um soco circular que acertou em cheio o lado esquerdo do tronco de Bart.

    O impacto fez seu punho colidir com as costelas do oponente com um estalo seco, horrível — como madeira quebrando por dentro.

    Bart deu um passo para trás, o rosto retorcido por um instante. Antes que pudesse reagir, um chute violento atingiu sua boca do estômago, fazendo seu corpo se curvar e o ar escapar com um ronco rouco.

    Mas Bart avançou.

    Segurando o machado com firmeza, desferiu uma enxurrada de ataques — cortes de ângulos imprevisíveis, como se buscasse dilacerar o ar e o adversário ao mesmo tempo.

    Lucas dançava entre os golpes. Esquivava-se com facilidade, devolvendo cada tentativa com socos frontais, circulares e chutes precisos.

    A cada investida de Bart, Lucas respondia com golpes limpos, acertando as costelas, as juntas das pernas, os ombros e o rosto.

    Bart tentava se aproximar, mas a envergadura de Lucas era monstruosa — e seus reflexos, absurdos.

    Bart simplesmente não conseguia tocar nele.

    E então — um soco.

    O punho de Lucas acertou o abdômen de Bart com brutalidade. O corpo dele foi lançado como um boneco contra o carro onde Charlotte estava sentada.

    Bart bateu com as costas no capô, amassando a lataria e rachando o farol. Caiu de bunda, apoiado no para-choque, respirando com dificuldade.

    Lucas caminhou na direção dele, ofegante, com os olhos semicerrados.

    — Caramba… esse é o nível de força das Pinturas? Pensei que fossem criadas para destruir reis… mas parece que era só boato. — Disse, decepcionado, sentindo o coração pulsar com força no peito, como se quisesse escapar dali.

    Charlotte inclinou o corpo de cima do capô do carro, preocupada.

    — Amor… tudo bem?

    — Claro, meu bem. Ele é realmente forte. Confesso que o tamanho dos braços e das pernas dele são um problema… mas um problema bem divertido. — Respondeu Bart com um sorriso torto, se levantando com calma e caminhando em direção a Lucas, como se a dor fosse apenas uma ideia distante.

    — Resolveu apanhar mais, foi? — Provocou Lucas.

    — Como assim? Eu não estou machucado. — Disse Bart, como se fosse óbvio.

    — Você é maluco? Será que te bati tão forte que bagunçou sua cabeça? Você tá coberto de sangue!

    — Ah… esse sangue? Não é meu. É seu. — Respondeu Bart com um sorriso diabólico.

    Lucas franziu a testa.

    — Meu…? — Murmurou, e então olhou para os próprios punhos. Eles tremiam levemente, cobertos de sangue. Os nós dos dedos estavam machucados.

    Ele abriu uma das mãos — um estalo ecoou. O dedo anelar havia voltado pro lugar sozinho.

    Seu olhar subiu em direção a Bart, mas era tarde demais.

    A mão de Bart agarrou seu rosto com violência.

    Num único movimento brutal, Lucas foi erguido do chão e arremessado com força descomunal contra o solo, como se fosse feito de papel.

    O chão estremeceu, a poeira explodiu ao redor, e um baque seco ecoou pela área.

    Lucas cuspiu sangue, sentindo o mundo girar.

    — Que força avassaladora… — Pensou ele, enquanto tentava respirar. — Me lembra o mestre… Eles se parecem. Mesmo sorriso… mesmo olhar…

    Um vento cortante roçou seu rosto. O machado de Bart descia como a lâmina da morte.

    Mas antes que pudesse atingir seu alvo —

    Guilherme surgiu.

    Rápido como um raio, segurou o antebraço de Bart no último segundo, torcendo-o com brutalidade.

    Num movimento preciso, girou o corpo do oponente, o levantando do chão, fazendo-o girar no ar como um peão invertido.

    Antes que Bart tocasse o solo, uma joelhada monstruosa colidiu com seu abdômen, lançando-o contra uma árvore próxima.

    A árvore quebrou ao meio com o impacto.

    O tronco se partiu com um estalo grotesco, e caiu sobre Bart com um estrondo ensurdecedor.

    Lucas, de joelhos, tossia no chão, os olhos arregalados, ofegando.

    — Ele é forte demais…

    Guilherme estalou os dedos, ainda em posição de combate.

    — Então, venceremos ele juntos.

    Bart se levantou devagar, o corpo emergindo do tronco estilhaçado como se nada o tivesse atingido.

    Os músculos tremiam de empolgação. Os olhos, semicerrados, cintilavam com a promessa de mais violência.

    E o machado… estava de volta às mãos dele.

    Ele caminhou. Depois correu.

    Um avanço brutal, selvagem. O machado cortava o ar em ziguezagues velozes, visando decapitar os dois irmãos de uma vez.

    Guilherme e Lucas recuaram em sincronia, desviando da primeira lâmina e contra-atacando com uma sequência de socos e chutes bem encaixados.

    O punho de Lucas encontrou a mandíbula de Bart. O cotovelo de Guilherme rasgou o ar até acertar a base do crânio do brutamonte.

    Mas Bart era uma parede.
    Uma parede que ria.

    — Tão sérios…

    Ele girou, e o cabo do machado acertou o estômago de Guilherme, lançando-o como um míssil alguns metros para trás.
    Lucas mal teve tempo de reagir.

    O machado cortou o ar novamente, mais rápido, mais fluido.

    Um fio de sangue escorreu do supercílio de Lucas.

    — Tsc… — Lucas deu um passo cambaleante. — Essa merda quase me cegou

    Mas não hesitou. Com um rugido, lançou um soco monstruoso direto no rosto de Bart.

    CRACK!

    O som ecoou pela estrada.

    A cabeça de Bart virou com o impacto. Ele se moveu. Não caiu. Não gritou. Só… virou.

    O machado subiu.

    Um golpe vindo de baixo pra cima, mirando direto o pescoço de Lucas.

    — LUCAS! — Gritou Guilherme, surgindo no último segundo.

    Seu braço interceptou o de Bart com um estrondo, os músculos tremendo sob a pressão.

    Ele torceu o pulso de Bart, o machado caiu.

    Desarmado.

    Lucas e Guilherme empurraram Bart com um grito uníssono, jogando o brutamonte alguns metros para trás.

    — Você depende demais desse brinquedinho — Disse Guilherme, ofegante, cuspindo sangue.

    Bart olhou para os dois. O sorriso dele… nunca mudou.
    Ele inclinou o pescoço para o lado.

    Crack.
    — Não dependo de nada — murmurou. — Só acho… divertido.

    Então veio a tempestade.

    Sem armas. Só os punhos.

    Ele se lançou aos irmãos com uma explosão de brutalidade. Cada movimento era seco, preciso e implacável.

    Lucas tentou bloquear — sentiu o impacto nos ossos.

    Guilherme tentou desviar — e voou de novo, rolando pela estrada.

    Bart estava se divertindo. Completamente.

    — Vamos, continuem! — Gritou ele, os olhos brilhando de empolgação. — Me mostrem mais! Me façam RIR!

    Os gêmeos se levantaram, ofegantes.

    Os olhos semicerrados, os punhos cerrados.

    A aura ao redor deles começou a mudar.

    Pesada.

    Sufocante.

    O chão tremeu suavemente, e o ar ficou denso como névoa grossa.

    Atrás dos irmãos, uma figura começou a se formar.

    Sombria.

    Um homem gigantesco, sentado em uma pilha de corpos, comendo uma barra de chocolate, um palito branco balançando entre os lábios.

    Mesmo imóvel, transmitia poder absoluto.

    — Nunca pensei que usaríamos isso com alguém da nossa geração além do nosso soberano. — Murmurou Lucas, a voz rouca.

    — Nosso adversário é forte. Não podemos decepcionar nosso rei. — Completou Guilherme, os olhos cravados em Bart.

    Os dois avançaram juntos.

    Como trovões gêmeos colidindo contra uma tempestade viva.

    Bart recuava, agora recebendo os golpes de verdade — joelhadas, socos, cotoveladas. O corpo dele começou a avisar.

    Um corte no canto da boca. Um pequeno hematoma no ombro. Mas ainda assim…

    Ele sorria.

    E então, Guilherme viu a abertura.

    Girou Bart com precisão, colocando-o de cabeça pra baixo, com as costas viradas pro chão.

    A mão de Guilherme desceu como um raio, aberta, mirando o queixo de Bart.

    Mas não chegou a tocar.

    Num estalo monstruoso, Bart se mexeu — rápido demais.

    Mesmo de cabeça pra baixo, ele envolveu o braço de Guilherme com as duas mãos, travando a articulação com brutalidade.

    CRAC!

    O som seco ecoou na clareira.

    O braço foi deslocado num piscar de olhos.

    Antes que Guilherme reagisse à dor, Bart girou o corpo e desferiu um chute brutal no queixo do garoto.

    PAF!

    O impacto foi tão forte que o pescoço dele estalou, os olhos viraram, e o corpo tombou cambaleando para trás, desabando com violência.

    Bart soltou o braço e caiu com as mãos no chão.

    Com elegância animalesca, deu uma cambalhota e se pôs de pé novamente.

    Lucas gritou e veio pelas costas, enfurecido.

    Mas Bart o ouviu.

    Sentiu os passos arrastando areia.

    Girou os quadris.

    Cotovelada.

    No maxilar esquerdo.

    THUMP!

     O golpe foi seco, brutal e certeiro.

    Lucas caiu apagado antes mesmo de entender o que aconteceu, o corpo mole tombando de lado, boca entreaberta, sangue escorrendo do canto.

    Bart respirou fundo, depois estalou o pescoço.

    — Tsc…
    Vocês acham que eu dependo do machado?

    Ele olhou para as próprias mãos.

    — Ele só é um bom brinquedo.

    E então, sorriu.

    Bart ajeitava os ombros, os olhos atentos.

    A luta tinha deixado marcas, mas nada que ele realmente se importasse. Até notar algo estranho no ombro de Lucas.

    — Hm?

    Uma marca feita de sangue seco.

    No abdômen de Guilherme, algo semelhante.

    — Isso é…? — Murmurou Bart, se abaixando levemente, encarando os dois corpos.

    Mas então…

    — Você fala demais. 

    A voz veio suave, debochada, quase entediada.

    Bart se virou.

    Ali estava ele, sentado no capô do próprio carro, com a elegância de quem assiste a um show particular:

    Victor. O rei.

    Pernas cruzadas, camisa aberta no peito, um saco de pipoca numa mão, e os olhos semi cerrados como quem mal piscava.

    — Bonita a coreografia… mas tá começando a me dar sono.

    Bart estreitou os olhos.
    — Ah é? Então acorda, seu merda.

    Pegou o machado do chão com força, girou nos dedos, e o lançou com tudo.

    O ar cortou seco.

    O machado foi como um míssil prateado, rodopiando direto na direção de Victor.

    Victor apenas virou o rosto pro lado.

    CLANG!

    O machado passou raspando, abrindo um corte fino na bochecha dele, que nem piscou.

    O vidro do carro explodiu com o impacto.

    O rei se levantou devagar.

    Sem dizer nada, andou até o machado fincado no capô.

    Pegou-o com uma mão.

    Apertou.

    O cabo estalou.

    Quebrou-se.

    A lâmina foi dobrada como papel alumínio.

    — Isso é brinquedo de criança.
    Quer brincar comigo agora, primo. — Disse, jogando os pedaços retorcidos no chão.

    O olhar dele mudou.

    Não havia mais humor.

    Só realeza e ameaça.

    Victor começou a caminhar.

    Cada passo deixava o chão mais pesado.

    O ar parecia vibrar.

    Bart, pela primeira vez, ficou em silêncio.

    — Você já brincou com gente forte. — Continuou Victor, limpando o sangue do rosto com as costas da mão.

    — Mas comigo…

    Você só vai brincar se sair vivo.

    Continua.

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