Capítulo 1: O chamado
O céu estava coberto por uma fumaça densa e alaranjada, escondendo o brilho das estrelas. Ao fundo, um arranha-céu em chamas começava a desmoronar, seus andares caindo como peças de dominó no inferno.
Explosões ecoavam. Sirenes ao longe. Gritos abafados.
Ali, parada no meio da rua, com a luz das chamas refletindo em seus olhos avermelhados,
ajoelhava-se uma mulher pálida com um sorriso encantador nos lábios rosados e um olhar calmo, quase sereno.
Ela cuidava de uma pequena menina que mexia, hipnotizada, nos seus longos cabelos ondulados — com mechas negras, vermelhas e brancas — brincando entre os pequenos dedos, como se tocasse fios mágicos.
A mulher mantinha os olhos atentos à criança, que vestia um casaco com uma caveira estampada nas costas. As mãozinhas curiosas deslizavam até o pequeno top branco que a mulher usava, com o rosto de um urso assustado estampado no centro.
Com um brilho inocente nos olhos, a criança também mexia nas pulseiras que tilintavam nos braços da mulher, tocando a cruz negra pendurada em seu colar. A garotinha ria ao passar os dedos pelas diversas tatuagens que contavam histórias no físico invejável à sua frente.
— Tia Ana, a senhora é muito linda. — Disse a pequena, com o rosto umedecido e os olhos levemente avermelhados.
Ana sorriu, passando levemente os dedos pelos fios loiros que caíam sobre os olhos da menina.
— Own, obrigada, meu bem. Qual é o seu nome? — Perguntou com a mesma calma que teria numa tarde ensolarada… apesar do inferno em volta.
A pequena menina, tinha cabelos curtos e lisos, com olhos azuis brilhantes e um sorriso gentil, tinha um corpo pequeno e frágil, seu olhar escondia uma dor imensa, sua pele era clara.
— No orfanato, as tias me chamavam de Mia. — Disse a pequena Mia, com uma voz chorosa.
As sirenes se aproximavam aos poucos, com luzes vermelhas cortando a névoa como facas no escuro… vários carros da polícia apareceram. Homens e mulheres armados desceram, algo incomum para a polícia alemã.
Do meio da fumaça, eles só viam uma mulher pálida brincando com uma criança… com o inferno inteiro queimando atrás dela.
— Você! Foi você quem fez isso?! — Um dos oficiais apontou a arma, perguntando, com os olhos voltados para o prédio em ruínas atrás dela.
Ana olhou devagar para trás… e voltou seu olhar ao policial com calma.
— Não — ela sorriu. — Foi a Baba Yaga.
De repente, o chão estremeceu.
Um vulto surgiu, emergindo dos escombros, caminhando.
Apenas uma silhueta.
Corpo largo. Ombros enormes.
Olhos verdes brilhando no escuro.
O policial engasgou, tremendo.
— É… ele? É ele mesmo?
O vulto se aproximava.
Era um homem negro, sem camisa, com as costas repletas de cicatrizes antigas que formavam a face do mal.
Calmo. Silencioso.
Caminhava em passos lentos, arrastando algo pesado pelo chão:
A coluna vertebral presa à cabeça do líder criminoso local,
ensanguentada, deixando um rastro para trás.
O homem parou, soltando um leve suspiro baixo, e largou o cadáver com um baque seco no chão.
— Perdón, mi amore. Esqueci seu chocolate.
Os policiais tremeram. Um deles deu voz de prisão:
— N-Noah… Baba Yaga! Você está…
— Abaixem as armas — A voz vinha de trás.
Um homem de corpo atlético e postura rígida surgiu. Seus olhos âmbar brilhavam frios, como os de alguém que já viu demais.
Vestia um uniforme tático preto com detalhes em grafite e um sobretudo sem mangas que balançava ao vento. Os braços eram cobertos por tatuagens finas e geométricas. No pulso, um dispositivo holográfico exibia seu distintivo — o símbolo de uma autoridade que poucos ousavam questionar.
Os policiais hesitaram.
— Esse homem tem permissão internacional de execução. Classe apocalíptica. Ordem assinada pelo Conselho dos Apóstolos — Disse o homem com uma voz calma e fria. Ele parou, suspirando.
Todos congelaram.
— Vocês podem tentar prendê-lo… — Ele olhou para trás e viu Ana sorrindo, com Mia em seu colo. — Mas eu não recomendo.
Silêncio.
Noah olhou para Ana, sorrindo sutilmente, e voltou seu olhar aos policiais. Então olhou para o policial-chefe:
— Elyas. É muito bom vê-lo novamente, garoto.
— Digo o mesmo, senhor.
Noah era um homem de expressão fechada e, ao mesmo tempo, gentil. Tinha tranças brancas adornadas por miçangas pretas, com uma cicatriz marcante sob o olho direito. Vestia apenas uma calça, com os pés descalços tocando o chão gelado, o corpo coberto de sangue e poeira.
Noah se aproximou de Ana, que se levantou com Mia nos braços, dizendo:
— Vamos ficar com ela.
— Sabe que não é bem assim, né? Ela pertencia a um orfanato. Para adotá-la vai ter mó burocracia…
— Desde quando a Baba Yaga se importa com pedaços de papel? — Provocou ela com um sorriso travesso, passando os dedos pelo peito dele.
— Eu não me importo. Qual o nome dela?
— Meu nome é Mia. Tenho 6 aninhos.
— Coisa boa… com esse nome eu ainda não tinha. Bem-vinda à família — Disse ele, assobiando.
Do som do assobio, surgiu uma enorme silhueta de quatro metros, correndo na direção deles e passando bem diante dos dois.
Era um enorme lobo negro de olhos verdes.
— Hola, Storm. Sentiu saudade? — Perguntou Ana, passando a mão pelo lobo.
Noah colocou Mia e Ana em cima do animal e subiu também.
— Tenente, devemos deixar eles levarem a criança? — Perguntou um dos oficiais.
— Fique tranquilo. Eles cuidarão bem dela — Respondeu Elyas com um olhar repleto de convicção.
— Como tem tanta certeza, senhor?
— Porque ele me criou.
Quatro casas luxuosas cercavam um lago de águas límpidas no coração de um imenso terreno isolado.
A primeira, inteiramente preta, era como uma sombra viva, elegante e silenciosa, com janelas espelhadas e contornos modernos.
A segunda, branca com detalhes dourados, exalava leveza e acolhimento, com trepadeiras floridas subindo pelas colunas.
A terceira, azul escuro, tinha uma arquitetura ousada, quase futurista, com varandas amplas e luzes embutidas.
Já a quarta, vermelha vibrante, parecia gritar estilo com suas formas assimétricas e decoração excêntrica.
Ao redor delas, a fazenda se espalhava: plantações organizadas, trilhas de cascalho, galpões reforçados e campos abertos. Um pequeno império escondido à vista de todos — onde o luxo encontrava a sobrevivência.
No meio do terreno, uma mulher avançava com passos pesados, arrastando nada menos que uma peça de navio inteiro — um contêiner blindado, soldado com placas de metal grosso, provavelmente de algum cargueiro antigo, agora sendo repaginado como parte de um novo treino.
As correntes gemiam, o chão afundava sob seus pés, e, mesmo assim, ela andava como se estivesse arrastando um saco de farinha. Seus enormes músculos pareciam esculpidos por raiva e disciplina. A pele negra reluzia com o suor e o esforço, e o cabelo castanho curto se agitava levemente com a brisa.
Do outro lado, um homem com sardas e um sorriso simpático, uma mecha cobrindo a testa, estava deitado numa espreguiçadeira com um notebook aberto no colo. Seus longos cabelos ondulados, cor de vinho escuro, balançavam ao vento. Nos ouvidos, fones bluetooth e uma expressão serena — como se estivesse ouvindo jazz ou, talvez, analisando o mercado de ações em tempo real enquanto mandava um e-mail para o Japão em mandarim fluente.
De qualquer modo, seus olhos esmeralda estavam fixos na tela que realçava o tom pardo de seu corpo. Seu corpo magro e sem músculos aparentes estava jogado confortavelmente, vestindo uma camisa social aberta até o peito, calça jeans e óculos arredondados de lentes pequenas.
E, ao lado dele, uma pasta com documentos importantes da empresa de Noah — contratos, aquisições e dados sobre os membros.
A mulher jogou o contêiner no chão, que tremeu como se um meteoro tivesse caído.
— Pronto. Mais leve que o último tanque que você me fez arrastar. Tá pegando leve comigo, é? Querido Oliver.
— Tô testando sua paciência, não sua força. Ainda não descobri qual quebra primeiro, Samantha — Disse Oliver, sem tirar os olhos da tela.
Ela sorriu, estalando os ombros e andando até ele.
— Se quiser descobrir, é só falar. Eu te quebro com carinho.
— Hm… só se for depois de eu fechar esse acordo com os russos. A não ser que você esteja a fim de pagar cem milhões de multa por mim.
Ela parou em frente à espreguiçadeira, com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada.
— Só se eu puder te arrastar como arrastei aquele navio.
— Promessas assim me fazem pensar besteira, Sam — Disse Oliver, encarando-a por cima dos óculos.
Samantha, uma mulher repleta de tatuagens, com o cabelo raspado na lateral em degradê, olhos castanhos vibrantes e mechas vermelhas, vestia um top preto e um short branco curto.
— Besteira é tu ficar aí com cara de nerd gostoso, mas não levantar essa bunda da cadeira — Samantha sorriu de canto.
Antes que Oliver responda, um berro distante ecoa no terreno:
— ÉÉÉÉ HOJEEEE! SAMANTHA, ME SEGURA QUE EU TÔ FELIZ SEM MOTIVO! — O grito vinha de um vulto ruivo saltando por cima de um arbusto, com a jaqueta voando, tênis vermelho sujo de terra, rindo como um lunático enquanto corria em direção à casa com os braços abertos.
O vulto era um homem pálido, de olhar tranquilo e sorriso maluco. Cabelos meio longos e volumosos, fios lisos num penteado wolf cut, com olhos azul-claro brilhantes. Tinha um físico forte e definido, e usava um colar em forma de coração no pescoço. Tinha um brinco na orelha direita.
— Adivinha quem esqueceu o remédio de novo. — Oliver ajustava os óculos.
— Se o Lipe me abraçar suado, eu juro que jogo ele dentro do lago. — Resmungou Samantha.
— Vocês sabiam que… EU TÔ VIVÃO?! Isso merece comemoração. Cadê a comida? — Disse Lipe, parando de frente para eles, ofegante.
Antes que alguém respondesse, uma voz arrastada e melódica surgiu logo atrás, com ares de quem está sempre num clipe de R&B sensual:
— Ai, Lipe, sério que tu saiu correndo no escuro? E se tivesse uma cobra? Aliás… Samantha… meu bem… se quiser, eu deixo você me arrastar também.
O grupo soltou um suspiro coletivo.
— Ai, lá vem o Ycaro… — Murmurou Oliver, com a alma já pedindo paz.
A voz vinha de um homem que andava devagar, como se o mundo andasse no ritmo dele. Mãos nos bolsos, usando um gorro branco com o símbolo de uma águia. Seus cabelos longos e negros, cacheados nas pontas loiras, balançavam ao vento. Olhos castanhos-claros, quase dourados, combinavam com a pele bronzeada e um físico robusto, coberto por tatuagens. Vestia uma camisa longa preta, moletom cinza e um par de Jordans impecáveis, como se tivesse saído de um editorial de moda só pra jogar charme no caos.
— Querido… tu não aguenta nem meu “bom dia”. — Disse Samantha, arqueando a sobrancelha.
— Ai, Sam, meu bem, não duvide da minha capacidade. Essa diva aqui te foderia com força, neném. — Ele disse sorrindo.
— Ycaro, você atira pra todas as direções, né? Pro meu pai, pra minha… — Oliver ia dizendo, mas parou, pigarreou e corrigiu — pra Samantha e pro Lipe. Só não sei como ainda não deu em cima de uma pintura.
— É que vocês não têm o que é preciso pra me satisfazer.
— Mas e aí, cadê o velho? Cadê o Noah? Quero ver se ele voltou com sangue até nos cílios ou só até a cintura hoje. — Perguntou Lipe, se jogando na grama com os braços abertos.
— Às vezes eu me pergunto se isso é efeito dos antidepressivos ou da quantidade de doces que ele come. — Dizia Oliver, olhando pro Lipe de relance.
— Deve ser os dois… e o efeito do meu leite. — Disse Ycaro, sorrindo enquanto sentava no colo de Lipe.
— Lá ele, tomei leite não. Sou intolerante.
— Por isso mesmo, meu ruivinho. Meu leite não tem lactose, só proteínas. — Disse Ycaro, enroscando os braços no pescoço de Lipe.
— Rapaz, você que dá se fala, porque eu como logo.
— Ai, eu quero o ruivinho.
Oliver e Samantha observam quietos, até que Oliver comenta:
— Sobre meu pai, ele ainda não apareceu. Talvez tenha parado pra salvar alguém de novo.
— Ou foi sequestrado por alguma viúva carente, né? Até porque, que delícia de corpinho ele tem. — Disse Ycaro, dando um selinho na bochecha de Lipe.
— Se sequestrarem ele, a viúva vira cadáver. — Samantha riu baixo.
O som ambiente era só o farfalhar das árvores e o Lipe tentando convencer Ycaro a parar de acariciar seu cabelo.
Mas então… o chão pareceu ficar mais pesado.
Um silêncio instintivo se espalhou pelo grupo. Até os grilos se demitiram.
Samantha foi a primeira a notar.
— Ele chegou. — Disse, como se tivesse sentido a gravidade mudar.
Os olhos de todos se voltaram pra estrada de terra atrás da casa.
Entre a névoa que subia do mato alto, a silhueta de algo enorme emergia. Com passos pesados e velozes, se aproximava.
Um uivo vinha da silhueta que logo surgiu: Storm parou diante deles, se abaixando.
Em suas costas, Noah abraçava Ana, que por sua vez abraçava a pequena Mia. Ele desceu com as duas no colo.
— Noah, meu divo! — Ycaro se levantou rapidamente do colo de Lipe e avançou na direção de Noah, que havia acabado de colocar as duas no chão. Ycaro o abraçou com força.
As mãos de Ycaro subiram em direção ao pescoço de Noah, que sentiu um arrepio e sua respiração ficou pesada.
O ambiente ao redor parecia ter ficado denso. Samantha encarou Ycaro, deu um passo para trás, tensa, e colocou a mão no peito de Oliver.
Lipe se levantou com uma expressão séria, também dando um passo para trás.
Aquele simples gesto — que nem havia sido finalizado — passava uma sensação de morte.
Mas antes que as mãos de Ycaro tocassem o pescoço de Noah, Ana as segurou e disse, irritada:
— Você é maluco? Quer pôr em perigo a vida de todo mundo, idiota? No caso, a vida de vocês… porque eu sou a âncora dele.
— Ela finalizou a frase com um sorriso convencido e afastou Ycaro, dizendo:
— E tire as mãos do meu homem.
— Quem disse que ele é seu, querida? — Retrucou Ycaro, com a mão na cintura.
— Parem vocês dois. — Disse Noah com a voz grossa e autoritária.
Mia se escondia atrás de Noah, segurando com força sua perna.
Noah a retirou com cuidado de trás dele e disse, sorrindo gentilmente — algo raro:
— Essa é sua nova família. Sei que são bem malucos, mas são boas pessoas, pequena.
Aquele ali é seu tio Felipe, mas chamamos ele de Lipe. — Disse Noah, acariciando a cabeça da menina e dando um empurrãozinho de leve. — Dá um oi pra ele.
A pequena Mia caminhou na direção do Lipe com um sorriso gentil e um olhar doce.
— Oi, tio, tudo bom?
— Tudo, fofurinha. E com você? — Perguntou Lipe, fazendo cócegas nela.
Mia riu com uma risada gostosa e abraçou o tio. Seus olhos encontraram Samantha, e ela desceu do colo de Lipe e foi até a grandalhona.
— Quem é essa? — Perguntou a pequena, olhando para Noah e Ana, que sorriam para ela.
— Essa é sua tia Samantha, mas chamamos ela de Sam.
Na verdade, só seu irmão Oliver, que tá do lado dela… Mas acho que é porque ele gosta dela. — Disse Ana com um sorriso travesso, provocando.
Oliver, que estava bebendo água, cuspiu no chão, pego de surpresa, e desconversou.
Mia se aproximou da tia, a abraçou e disse:
— A senhora é muito linda e forte, tia.
— Own, obrigada, fofinha. Você é muito linda também.
Mia olhou curiosa para a nova figura e se aproximou devagar, apontando com o dedinho:
— Quem é esse?
— Esse é seu tio Ycaro, mas eu chamo ele de viado. — Disse Noah, rindo descarado.
— Viado é seu pai. — Retrucou Ycaro, já irritado.
— Ele é. Enfim… cadê a Carolina?
De repente, um BOOM! ecoou dentro da casa, e todos olharam em choque.
Uma coluna de fumaça subia da cozinha como se um dragão tivesse espirrado fogo lá dentro.
Todo mundo saiu correndo pra dentro da casa, uns preocupados, outros só por reflexo.
Do meio da fumaça surgiu uma menina sorridente, com aquele ar de “ops, explodi o mundo sem querer de novo”.
Ela tinha cabelos longos e brancos, com fios ondulados e mechas negras e vermelhas, olhos verdes vivos, um corpo pequeno e magro, vestindo uma camisa larga que mais parecia um vestido de tão grande.
— Carolina, o que você aprontou dessa vez?! — Perguntou Noah, com aquele tom bravo de pai que já perdeu a conta de quantas vezes teve que fazer essa pergunta.
— Eu estava tentando fazer panqueca. Oliver não quis fazer pra mim! — Disse ela, cruzando os braços e bufando, ofendida com a injustiça culinária.
— Desculpa, pai. — Disse Oliver do fundo, limpando a garganta, já prevendo que ia sobrar pra ele também.
— Tudo bem, Oliver. De qualquer forma, eu limpo. Bem, Carolina, essa é sua irmã, a Mia.
Carolina arregalou os olhos, se aproximou da pequena e se abaixou até a altura dela, analisando com aquele olhar travesso de quem já tava planejando enfiar a nova irmã num plano secreto nível missão impossível.
— Oi, Mia! Você gosta de explodir coisas?
— Hã… às vezes? — Respondeu Mia, com o olho arregalado e um sorrisinho tímido.
— Amei você. — Respondeu Carolina, já puxando a mão dela. — Vem, vou te mostrar a casa e o lugar secreto onde escondo as coisas que o papai confisca.
— Não escondo nada, você que é ladra. — Gritou Noah lá de trás, mas elas já tinham corrido, gargalhando como se fossem duas detonadoras mirins.
Noah passou a mão no rosto, exausto, e suspirou.
Oliver tossiu e chamou a atenção do pai:
— Pai… é… tenho uma coisa pra mostrar.
— Se for outra explosão, vai dormir sem janta. — Disse Noah sem nem olhar.
— Não. É sério dessa vez. Nina, abaixa o telão e transmite o vídeo.
Um clique soou no teto, e as luzes diminuíram.
Um telão começou a descer lentamente enquanto a inteligência artificial da casa — Nina — projetava a imagem.
O ambiente ficou em silêncio. Até Carolina e Mia, que já estavam subindo numa estante, pararam e olharam.
A tela acendeu
A imagem começa tremida.
Uma criança, de uns 8 anos, aparece em um quarto escuro, com olheiras fundas e feridas no rosto. Os olhos estão cheios de lágrimas, e o ambiente tem marcas de sangue nas paredes e sons abafados de choro e gritos vindos de algum lugar distante.
A menina segura o celular com as mãos tremendo.
— Por favor… por favor… Baba Yaga… se você existe ainda… me ajuda.
Ela tenta limpar as lágrimas, mas elas continuam caindo, misturadas com a sujeira do rosto.
— Eles mataram minha mãe… disseram que meu pai era bandido, mas ele só queria comida… por favor, você mata gente ruim, né? Por favor… me leva… ou… mata eles…
Um barulho forte do lado de fora interrompe a gravação.
BAM! BAM! BAM! — batidas violentas na porta.
A menina arregala os olhos, assustada.
— Eles chegaram… por favor, se você existe… se você existe mesmo…
A porta explode com um tiro de espingarda.
Gritos de homens armados invadem o quarto.
— ABAIXA ESSA PORRA DE CÂMERA! — Gritou um policial.
A menina mal tem tempo de se mexer.
TIROS.
TRÊS.
Secos, rápidos.
O celular cai no chão, ainda gravando. A imagem fica virada para o teto, com um canto do rosto da menina visível, imóvel.
Silêncio.
Então, Vozes Dos Policiais, sem saber que o áudio ainda grava:
— Porra, atirou mesmo? Era só uma pirralha.
— Foda-se. A gente já matou os pais. Manda a imprensa dizer que foi confronto com traficante.
— É. Mesma história de sempre. Diz que tavam armados. Joga uma arma aí perto dela.
— Baba Yaga, hein? Se esse desgraçado ainda tiver vivo… melhor ele nem saber disso.
A gravação corta.
A imagem no telão escurece. O silêncio domina o cômodo.
Samantha fecha a mão com força, estalando os dedos.
Ycaro cerra os dentes, visivelmente abalado.
Lipe abaixa a cabeça, segurando a respiração.
Ana olha para Noah com um misto de raiva e dor.
E as crianças… nem piscam.
Noah encara a tela ainda escura. O reflexo da própria sombra se mistura àquela escuridão.
Ele respira fundo. A voz que sai é baixa, rouca… antiga.
— Eles mataram uma criança… e chamaram o nome errado. Agora vão conhecer o verdadeiro significado do medo.
Continua.

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