Victor começou a caminhar.

    Cada passo deixava o chão mais pesado.

    O ar parecia vibrar.

    Bart, pela primeira vez, ficou em silêncio.

    — Você já brincou com gente forte. — Continuou Victor, limpando o sangue do rosto com as costas da mão.

    — Mas comigo…

    Você só vai brincar se sair vivo.

    Então, o rei avançou como um raio, colidindo o joelho da perna direita no rosto de Bart com uma violência quase divina, obrigando a pintura a dar um passo para trás.

    Sem hesitar e com uma rapidez implacável, o rei desceu uma cotovelada de cima para baixo no pescoço de Bart, que despencou para frente.

    Mas Victor, num movimento tão frio quanto mortal, agarrou a trança de Bart e puxou sua cabeça para trás, acertando uma sequência brutal de golpes com o punho esquerdo.

    Por fim, com um soco devastador, Victor lançou a pintura contra a areia encharcada de sangue, levantando uma nuvem de poeira sufocante enquanto o alarme do carro do rei disparava, gritando como um prenúncio de caos.

    Bart riu, cuspindo sangue misturado com areia. Ele se levantou com aquele brilho maníaco nos olhos, o sorriso largo cortando o rosto enquanto ele balançava o pescoço de um lado pro outro, como se fosse apenas mais um aquecimento.

    — Isso… Isso vai ficar divertido, primo — Disse, a voz rouca de excitação.

    Mas antes que pudesse dar um passo sequer, Victor — o Rei da Bahia, de pernas e braços longos como foices — se aproximou com a frieza de quem carrega o destino nos punhos. 

    Ele girou o corpo, o quadril acompanhando o movimento, e a canela varreu o ar como um machado de aço, acertando Bart no quadril e empurrando o homem de volta para as ruínas de um carro amassado.

    Bart tentou avançar de novo, como uma besta faminta, mas Victor girou a cintura e cravou outro chute no estômago dele, afundando-o contra o pára-choque do carro que se partiu ao meio, rangendo como um animal ferido.

    A pintura arquejou, as costelas latejando, mas não recuou.

    Ele apenas riu, cuspindo mais sangue enquanto se endireitava — como se o som de metal retorcido fosse música para seus ouvidos.

    Victor deu um passo para frente, e então Bart tentou se mover de novo, mas o Rei, com um clinch perfeito, puxou Bart pela nuca, mantendo-o curvado, e desferiu joelhada atrás de joelhada contra o peito dele.

    O som seco de ossos encontrando carne ecoou como um tambor macabro, e cada golpe parecia enterrar Bart mais fundo na areia manchada.

    A lataria do carro rangeu de novo, os vidros estourando em cascatas de estilhaços.

    Victor só parou quando Bart pareceu vacilar, quase tombando de lado. Mas mesmo ali, a pintura soltou uma gargalhada rouca.

    — Sabe, Vic… — Bart disse, cuspindo sangue enquanto se equilibrava — isso aqui… é só o começo.

    A cidade parecia parada, exceto pelos alarmes disparando ao redor, como um coro de sirenes que saudava o caos.

    Victor girou o corpo com a frieza de um rei no trono, e então, num movimento limpo, desceu outra cotovelada — dessa vez mirando o ombro de Bart. 

    O estrondo ressoou, e a lataria do carro cedeu, amassada como papel alumínio.

    Bart ainda estava de pé, os olhos brilhando, o peito arfando.

    Ele ergueu a cabeça, a areia escorrendo de seus ombros.

    — Continue, Vic. — E um sorriso quase doce rasgou seu rosto, um sorriso que não combinava com o cenário de destruição ao redor.

    Victor não respondeu.

    Ele só avançou outra vez, as pernas longas cortando o espaço como lâminas, pronto para esmagar Bart de novo — e a destruição se ergueu como música, enquanto cada golpe transformava o mundo ao redor deles num palco de ruínas.

    Charlotte observava a luta com uma calma quase hipnotizante, enquanto girava a faca entre os dedos, como se fosse apenas mais um brinquedo em suas mãos.

    — Amor, odeio o jeito como você se parece com ele… — Murmurou ela, sua voz arrastada e cheia de veneno contido.

    — Também odeio o quanto ele se parece comigo, nesse maldito detalhe. — A voz grave e quase serena de Noah ecoava de um tablet preto.

    Que descansava sobre as mãos de uma jovem ruiva, com um sorriso preguiçoso e olhos meio pesados, ainda com um pouco de remela nos olhos. Seus longos cabelos ondulados estavam bagunçados e caídos sobre os ombros, como uma cascata vermelha.

    Seus olhos rosa choque emitiam um brilho fraco, como um felino cansado. O’Que destacava sua pele parda e o corpo pequeno e delicado. Vestindo um conjunto preto de dormir, blusa e calça com uma pantufa, uma venda de dormir repousava sobre a testa.

    — Mestre? Como? Eu juro que tinha desligado sem querer… Ah, não me diga que foi você quem ligou pra ele, Estelar — Disse Charlotte, virando a cabeça com uma graça felina, os lábios curvados em um sorriso de quem já sabia a resposta.

    — O papai me pediu para deixar ele ver a luta — Respondeu Estelar com a voz doce e suave, como se o que ela acabara de dizer não fosse nada demais.

    — Entendi… — Sussurrou Charlotte, mas seus olhos escuros cintilavam como brasas, cada palavra carregada de um calor latente, quase selvagem.

    O rei desferiu uma enxurrada de socos em Bart, cada impacto afundando na carne da pintura como marteladas, enquanto ele mantinha a guarda baixa, aceitando cada golpe como se estivesse esperando saboreando a dor.

    A poeira dançava em volta deles, levantada pela movimentação explosiva dos dois corpos.

    Bart deu um passo para trás, os pés afundando levemente na areia manchada de sangue.

    O punho de Victor veio voando em sua direção — rápido, preciso, letal. Mas Bart apenas virou o rosto num leve movimento, quase preguiçoso, quase debochado.

    E então explodiu.

    Um soco circular, pesado como um cometa, acertou o maxilar de Victor com força o bastante para estourar os tímpanos de um civil a três metros. 

    O rei da Bahia cambaleou, desnorteado, o mundo girando ao seu redor, a visão escurecendo nas bordas.

    Sem hesitar, Bart avançou.

    O chute frontal veio com violência crua, os dois pés fincados no chão, o tronco torcendo com perfeição cirúrgica. 

    O impacto atingiu o abdômen de Victor como um aríete.

    Um som surdo e profundo escapou do rei, junto com um jorro de sangue.

    O corpo de Victor foi arremessado como uma boneca de pano, colidindo novamente contra seu carro — que já estava destruído, com o para-brisa estilhaçado.

    Ele atravessou o capô amassado, fazendo o metal gemer e ceder ainda mais. Uma das portas se soltou, voando metros longe, e o chassi dobrou com o baque, o motor rugindo e explodindo numa nuvem de fogo, fumaça e faíscas.

    O alarme do carro morreu de vez, engolido pelas chamas.

    E antes que a fumaça tomasse o ar por completo, Bart já estava lá. 

    Ele surgiu no ar como um predador alado, a poucos metros do chão, olhos brilhando com raiva e prazer.

    Descendo como um trovão, ele esmagou o abdômen de Victor com um soco brutal, de cima para baixo.

    O chão tremeu. 

    O carro afundou. 

    A lataria cedeu de vez. 

    Um jato de sangue escapou dos lábios do rei, enquanto sua consciência oscilava no limite.

    A pintura posou com leveza, recuando com um salto elegante e assassino. 

    Suas mãos estavam vermelhas. 

    Seu peito arfava. Mas seu olhar.. aquele olhar estava mais pesado que tudo.

    — Se você morreu só com essa explosão… então nunca mereceu ser rei… — Murmurou Bart, como se falasse consigo mesmo, os olhos tristes e fechados por um breve segundo.

    — Por que você se desviou dos seus ideais, Vic…?

    Sentado em cima de um carro sem rodas, Bart devorava um salgadinho enquanto observava uma versão mais jovem de Victor puxando aquele mesmo carro com esforço, correndo feito um condenado.

    — Ei, primo… me responde uma coisa.

    — Pergunte, Bart — Disse Vic, parando por um instante para recuperar o fôlego, as mãos ainda firmes na corda presa ao pára-choque.

    — Por que você quer ficar tão forte tão rápido? Tá tentando superar a força do seu irmão quando ele tinha sua idade? Não importa se vocês compartilham a mesma genética… ele viveu outra realidade. Por isso ele virou uma calamidade, igual ao meu pai. E, convenhamos, você já é mais forte que uma cidade inteira.

    Ao ouvir a menção do irmão, os punhos de Victor se fecharam com tanta força que o sangue começou a escorrer entre os dedos.

    Seu maxilar travou. O olhar queimava.

    — Você está certo em partes — Respondeu com a voz tensa. — Quero superá-lo, sim. Mas não o ele do passado… eu vou superar o auge dele. E vou matá-lo com as minhas próprias mãos. Vou fazer ele sentir o que eu senti.

    Seus olhos exalavam ódio puro. 

    Era como se fogo real saísse de sua boca de tão inflamado que estava. 

    Respirou fundo. 

    Seus ombros relaxaram um pouco. 

    O olhar, ainda furioso, suavizou por um momento.

    — Mas… se eu conseguir superá-lo, então poderei salvar nossa nação com minhas próprias mãos. Acabar com essa corrupção maldita, com essa criminalidade que engole tudo. Afinal… se eu estiver no nível de uma calamidade — ou mais forte — nada vai me impedir.

    — Não tá sonhando alto demais, primo? — Disse Bart, arqueando a sobrancelha. — Mais forte ou igual a uma calamidade? Você sabe quem eles são, né? Um grupo de elite de monstros que não só podem esmagar um país com as mãos nuas, como também ameaçar continentes inteiros.

    — Eu sei bem quem eles são. Mas não tenho interesse nos outros. Só naquele desgraçado… eu vou matá-lo. Pode ter certeza.

    — Não tô duvidando, fica tranquilo. Só acho difícil. Mas talvez você consiga, afinal… meu pai uma vez disse que você e seu irmão têm potências parecidos. E com esse contrato com um deus… vai saber, né? No pior dos casos, você pode alcançar o nível de uma pintura.

    Bart estalou a língua e levou mais um salgadinho à boca, com a casualidade de quem fala sobre o clima.

    — Acho que não seria tão ruim — Murmurou Vic. — Noah disse que o projeto das Pinturas é pra que vocês sejam mais fortes que os reis estaduais… e algumas até comparáveis aos regionais e outros aos nacionais. Mas mesmo que eu não fique mais forte que meu irmão… eu vou salvar nosso povo. Tirar eles das garras desses reis malditos. Criar um país onde as pessoas não precisam fechar as portas cedo com medo de bandidos, ou pagar taxas de “proteção” pros próprios criminosos… onde ninguém precise temer político corrupto.

    — Que nobre, hein…

    A lembrança se dissipou subitamente. A realidade voltou com violência: um chute certeiro nas costelas empurrou Bart para o lado, arrancando-o daquele devaneio.

    Ele se virou, encarando Victor, agora de pé entre os destroços, usando apenas o que restou de sua calça queimada — reduzida a um short improvisado. O corpo dele à mostra, marcado pelas chamas, mas ainda imponente.

    A Pintura avançou, desferindo um soco violento. 

    Vic o segurou, sorrindo com confiança. 

    Mas o sorriso morreu no mesmo instante em que sentiu o impacto brutal na bochecha esquerda — o mesmo lado que Bart havia mirado.

    — Estou segurando o punho dele… mas por que senti o impacto? — pensou, zonzo. — A explosão me deixou mais atordoado do que eu imaginei

    Antes que pudesse reagir, com o braço esquerdo livre, Vic acertou uma cotovelada rápida e precisa de cima para baixo, atingindo o queixo de Bart.

    O impacto fez o outro dar um passo para trás.

     Vic então girou o corpo e acertou outro golpe de cotovelo contra o rosto de Bart, que começou a cair para trás.

    Mas não teve tempo de cair: Vic entrelaçou as mãos e aplicou uma joelhada devastadora no abdômen do primo. 

    O golpe foi seco, certeiro, e arrancou sangue da boca de Bart, que sorriu mesmo assim.

    Bart cambaleou com um sorriso largo, como se estivesse adorando a dor.

    Vic avançou de novo, encurtando a distância com a base ajustada.

    A Pintura lançou o punho, mirando o rosto do rei. 

    Vic esquivou por pouco e devolveu uma cotovelada de baixo para cima.

    Mas antes que o golpe pudesse conectar, Victor sentiu o impacto repentino, esmagador — como se tivesse sido atingido por um trator no lado direito do rosto, justamente onde Bart iria acertar com seu punho.

    Cambaleou. Bart, sempre rápido, aproveitou.

    Um chute circular veio girando em alta velocidade. 

    Vic deu um passo para trás, desviando por instinto.

    Mesmo assim, não saiu ileso — um chicote de ar comprimido, gerado pela pressão do golpe, atingiu sua costela com força brutal.

    A dor foi tanta que seus joelhos cederam.

    Bart acertou um chute de meta tão potente que o rei foi lançado para trás, como se tivesse sido atropelado por um cometa. O impacto ecoou como um trovão abafado pela noite.

    Victor, imóvel no campo de batalha, mantinha os olhos fixos no céu estrelado. Seu peito subia e descia com força, o coração disparado como um tambor de guerra.

    — TUM DUM. TUM DUM…

    Seus olhos se fecharam por um breve segundo. E, quando abriram novamente, um brilho dourado intenso explodiu em suas íris — agora substituídas pelo desenho vivo de um falcão em voo. O ar ao seu redor mudou. Ficou pesado. Elétrico. Sagrado.

    Lentamente, Victor começou a se erguer, os músculos tremendo não de cansaço, mas de poder acumulado. 

    Uma aura intensa escapava de seu corpo, espessa e vibrante, como fumaça dourada sendo sugada para o além. Atrás dele, essa energia começou a tomar forma.

    Aos poucos, a silhueta de um homem colossal se materializou — forte, imponente, com uma postura de rei. Suas costas estavam voltadas para todos, revelando uma gigantesca tatuagem de Gavião-real abrindo as asas, como se prestes a voar para a guerra.

    Do outro lado, o rei agora estava de pé diante de Bart, rosnando, ainda cambaleando do impacto.

    Victor deu um passo à frente. Sua voz soou grave, serena e fatal, como um decreto divino:

    — Já que usou sua bênção… agora, eu usarei a minha.

    Continua.

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