Capítulo 5: O monstro
Lentamente, Victor começou a se erguer, os músculos tremendo não de cansaço, mas de poder acumulado.
Uma aura intensa escapava de seu corpo, espessa e vibrante, como fumaça dourada sendo sugada para o além. Atrás dele, essa energia começou a tomar forma.
Aos poucos, a silhueta de um homem colossal se materializou — forte, imponente, com uma postura de rei. Suas costas estavam voltadas para todos, revelando uma gigantesca tatuagem de Gavião-real abrindo as asas, como se prestes a voar para a guerra.
Do outro lado, o rei agora estava de pé diante de Bart, rosnando, ainda cambaleando do impacto.
Victor deu um passo à frente. Sua voz soou grave, serena e fatal, como um decreto divino:
— Já que usou sua bênção… agora, eu usarei a minha.
Bart abriu um sorriso sádico, recuando um passo, enquanto se alongava como se estivesse se preparando para dançar no inferno.
Victor avançou com fúria, e seu cotovelo explodiu contra o queixo da pintura, de cima para baixo.
Bart não se abalou, apenas sorriu com mais gosto. Então uma sequência de cotoveladas veio de diferentes direções.
Cada golpe acertou com a violência de um touro enlouquecido.
O corpo de Bart era castigado, mas ele ria. Ria alto. Saboreava a dor como quem bebe vinho raro.
De repente, Bart desferiu um soco curto, de cima para baixo, com uma tranquilidade que beirava o deboche.
Victor se esquivou por pouco. O punho da pintura passou raspando, mas mesmo assim a cabeça do rei se moveu com brutalidade para o lado.
Ele cerrou os dentes, resistindo, e agarrou o braço de Bartolomeu.
Sem hesitar, encaixou uma joelhada feroz no abdômen do oponente, fazendo o corpo da pintura se curvar. Aproveitou a abertura, e puxou a cabeça do ruivo para frente e a esmagou contra o próprio joelho.
O impacto foi seco e brutal.
O som ecoou como um trovão seco — um estalo agudo que fez o chão parecer tremer.
Vic apoiou o pé no chão, firme, ofegante, encarando Bart. O corpo do monstro estava ereto, inabalável, enquanto ele levava a mão até a testa de onde escorria sangue.
— Esse muay thai… — Disse Bart, com um sorriso manchado de sangue. — Você realmente resolveu me matar, hein? Seus ataques estão mais rápidos. Se eu não prestasse atenção, não conseguiria nem vê-los. Pena que sua mão ainda é leve demais. — ele avançou um passo e continuou — Velocidade sem força é só barulho. Mas você se tornou um lutador melhor do que já era.
— Hum… A luta deles está sendo bem interessante. Ele está se saindo bem… Pelo que posso ver, a força dos dois é equiparável à da Sasha — Disse Noah, sentando-se de frente para um monitor, com um olhar calmo e atento enquanto analisava os movimentos do combate.
— Meu pretinho… o que você tá fazendo, hein? — Perguntou Ana, entrando no quarto com aquele ar travesso, vestindo uma camisa enorme dele e uma cueca também dele.
Ela se aproximou devagar, balançando os quadris de forma provocante, até girar a cadeira em que ele estava. Sem cerimônia, beijou seus lábios com suavidade e se acomodou em seu colo.
— Oii, minha capetinha linda… tô observando a luta do Bart e do Victor.
— Victor? Tá falando do irmão do…?
— Sim, ele mesmo.
— Mas por que a briga? Quem tá ganhando?
— O motivo da briga? Parece que o Victor tornou-se o rei da Bahia, e se aliou ao grupo que tomou o país.
— E quem tá ganhando? — Ela insistiu, com um brilho curioso nos olhos.
— Bem… o rei tá batendo bastante no Bart, que por sinal tá se divertindo como se fosse um passeio no parque… Mas ainda não atacou pra matar — Disse Noah, com um sorrisinho de canto. — Diferente do Victor, que tá indo com sangue nos olhos.
Ana ergueu uma sobrancelha, encostando a testa na dele, os corpos colados.
— Você acha que o Bart tá pegando leve de propósito?
Noah deu um sorrisinho torto, aquele que ela já conhecia muito bem.
— Bart? Não… quem tá pegando leve sou eu — Ele sussurrou, puxando a cintura dela mais pra perto. — Eu que gosto de brincar… até o jogo virar.
Ela mordeu o lábio, sentindo um arrepio subir pela espinha.
— E quando é que você vira o jogo, hein?
— Quando você acha que ganhou — Ele respondeu, antes de beijá-la de novo, agora com mais fome, mais intensidade, mais dele.
Ao se aproximar, Bart cravou o pé no chão com força, fazendo a terra estremecer.
Seu quadril girou com brutalidade, lançando um chute selvagem contra o rosto de Victor.
No último segundo, o rei ergueu o antebraço para bloquear — o impacto foi tão violento que o membro inteiro ficou roxo quase instantaneamente.
Victor foi empurrado para o lado, arrastando os pés pela areia ensanguentada enquanto a poeira subia ao redor deles.
Bart, com a fúria viva no olhar, apoiou as mãos no chão e girou o corpo, desferindo um chute de cima para baixo no queixo de Victor.
O golpe fez o rei dar um passo cambaleante para trás, cuspindo sangue.
Seu maxilar estalou — rachado.
— Ah, cara… Eu não queria matar você. Mas, infelizmente, primo… você escolheu o lado errado nesta guerra — Disse Bart, dando uma cambalhota ágil.
Ao ficar de pé, ele explodiu com um chute frontal no abdômen de Victor, que ainda tentava recuperar o fôlego.
O rei apenas conseguiu cruzar os braços em um X apressado, mas a força brutal do golpe quebrou seus ossos mesmo assim. Victor foi lançado como um boneco, rolando sobre a areia tingida de sangue.
A poeira ergueu-se, cobrindo tudo.
E então, um brilho dourado cortou o nevoeiro: Victor avançava como um raio, a selvageria no olhar.
Seu joelho colidiu com violência contra o rosto de Bart, que permaneceu firme — mas a cotovelada que veio em seguida, desceu com o peso de uma fera, abrindo um pequeno corte no couro cabeludo da pintura.
Bart riu.
Victor não deu trégua. Como um animal ensandecido, chutou a panturrilha de Bart, o fez vacilar, e encaixou uma cotovelada violenta no queixo.
O coração do rei pulsava como um tambor de guerra, seu corpo se movia com uma fúria treinada.
Bart recuou meio passo, com sangue escorrendo pelo queixo, mas ainda sorria.
Cerrou o punho com força, e mesmo sob a saraivada de golpes, seus olhos brilhavam como brasas.
Do outro lado da ligação, Ana observava com os olhos arregalados, se remexendo no colo de Noah.
— Bart não tá apanhando demais..? E que movimentos são esses? O Victor tá se mexendo como um bicho selvagem… — Perguntou ela, preocupada.
— Esses movimentos são do indomável, a fera da geração dos monstros. — Respondeu Noah, apertando suavemente a cintura dela, os olhos fixos na tela.
— O Indomável..? O Bart… ele não vai perder, né?
— Minha sapequinha do caos… Bart é a mais resiliente de todas as pinturas. Tem uma resistência que beira o absurdo. Ele já aguentou até os golpes sérios do Ycaro. — Disse Noah com um sorriso no canto da boca, e beijou o pescoço de Ana com calma, mesmo diante do caos na tela.
Bart sorriu, mesmo com o corpo sendo castigado.
Num surto brutal de força, ele acertou um soco devastador no rei, que foi arremessado violentamente contra uma árvore.
O tronco explodiu em estilhaços quando Victor colidiu com ele, a madeira desabou sobre seu corpo.
— Por que caralhos você se juntou a esse grupo de merda?! — Rosnou Bart, caminhando em direção ao primo, com os olhos ardendo em fúria.
— Do que você tá falando, seu merda? — Retrucou Victor, se levantando com dificuldade e cuspindo sangue no chão, o maxilar tenso e os olhos faiscando.
— Tá achando que eu sou palhaço?!
— Não sei de que merda você está falando, mas… se for sobre o conselho eclipse, o único que traiu a família e se ajoelhou para aqueles lixos foram vocês… vocês que viraram as costas pro Noah.
Bart congelou por um segundo. O sangue ferveu. O olhar se tornou assassino.
— Você tá sugerindo que eu traí meu pai…? — Murmurou ele, voz baixa, carregada de ódio. — Vou te matar, querido primo…
Ele se abaixou e pegou uma faca suja de sangue, caída ao lado de um cadáver. Num piscar de olhos, avançou como um raio em direção a Víctor, pronto para abrir sua garganta.
Mas antes que a lâmina pudesse tocar a pele do rei, uma explosão de impacto sacudiu o chão.
Poeira subiu como um manto sufocante.
Quando abaixou, duas silhuetas surgiram da névoa.
Bart estava de cara na areia, imóvel. Acima dele, sentada em suas costas com um ar de total domínio, estava Charlotte.
A faca girava com graça entre os dedos dela.
Com os pés, ela prendia os pulsos do amado, e o olhava com um misto de carinho e advertência, seu olhar afiado como a lâmina.
— Meu pretinho… você é tão calmo. Não precisa deixar palavras vazias tirarem você do sério… — disse ela com uma voz doce, mas firme, como o fio de uma navalha. — Apesar de eu entender sua raiva…
— Mas… ele disse que a gente traiu o Noah… o nosso lar…
— Eu sei, meu moreno… — Ela sussurrou, inclinando-se e beijando suas costas suadas. — Mas você ouviu o que foi dito antes? Ele não está com o eclipse. Ele não é nosso inimigo. Apesar de eu querer arrancar a língua dele pela acusação, o mestre pediu para salvá-lo.
Charlotte se levantou lentamente de cima de Bart, como uma leoa deixando claro quem estava no controle.
Parou em frente ao rei, a faca apontada direto para a jugular dele.
Seu olhar era gelo puro.
— Agradeça. Porque hoje você foi salvo. Mas se repetir aquelas palavras mais uma vez… eu mesma arranco sua garganta com essa lâmina. — Ela girou nos calcanhares e ofereceu a mão para Bart, ajudando-o a se levantar.
De mãos dadas, seguiram até Estela, deixando Victor em silêncio.
— Julgando pela tentativa real de me matar.. vocês ainda são leais a ele, não é? — Murmurou o rei, sentindo o peso das palavras e da verdade estampada no ar.
Victor deu um passo à frente, seus olhos ainda fixos nas pinturas à distância.
Mas seu foco mudou rapidamente.
Ele se abaixou ao lado de dois corpos conhecidos — seus próprios generais caídos, ainda inconscientes. O olhar firme e desconfiado não deixava seu rosto por um segundo sequer.
— Lucas, Guilherme… acordem. — Disse ele, tocando com cuidado o ombro dos dois, mantendo a guarda alta, atento a qualquer ameaça.
Lucas foi o primeiro a reagir. Um gemido escapou por entre os dentes cerrados, enquanto uma dor aguda tomava conta de seu queixo. Ele cuspiu sangue no chão, tentando focar a visão embaçada.
— Já… já matou aquele maluco? Desculpa… nós não conseguimos vencê-lo.
— Não se preocupe com isso. — Respondeu Victor, sério. — Ele é mais forte do que vários reis da nossa geração. E sobre a luta… paramos no meio. Pelo que tudo indica, ele está do nosso lado.
— Sério…? Então por que ele nos atacou?
— Achou que fôssemos inimigos também.
Lucas respirou fundo, tentando se levantar.
Seu olhar foi direto para Bart, que, ao longe, segurava Charlotte nos braços, beijando-a com ternura.
Mesmo naquele momento íntimo, a aura que emanava dos dois era opressora… como um vendaval silencioso. Lucas sentiu um arrepio na espinha.
E então, por trás do casal, viu algo. Ou melhor, alguém. A silhueta de um homem de terno, imóvel… como uma sombra ameaçadora que só ele conseguia enxergar.
— Ele… ele me lembra alguém…
Sua frase foi cortada por um som seco e agudo.
Guilherme soltou um grito abafado de dor ao empurrar o próprio braço deslocado de volta ao lugar com força bruta. O estalo ecoou como um tiro.
— Droga… — Resmungou ele, cuspindo sangue e ofegante. — Aquele maldito de machado é um monstro…
— Com licença, primo. Meu pai gostaria de falar com você. — Disse Estela, parada bem à frente dos três
Eles se entreolharam, surpresos com a presença repentina da jovem diante deles.
— Como ela conseguiu se aproximar sem que notássemos? — pensaram, quase em uníssono, os gêmeos do Fim.
— Olá, Estela… O que ele quer falar comigo? — Perguntou Victor, mantendo o olhar firme sobre ela.
— Eu gostaria de conversar com você… e com os outros, sobre a situação miserável e decadente deste país. — A voz de Noah soou pelo outro lado da chamada, profunda e pesada, carregada de uma autoridade quase sufocante.
Estela segurava o tablet com as duas mãos, apoiado sobre a barriga, erguendo a tela de forma que o pai pudesse enxergar todos eles.
— Essa voz… — balbuciaram os gêmeos, os olhos arregalados, como se um raio tivesse atravessado suas espinhas. — Não pode ser…
— Lucas. Guilherme. — Disse Noah, a imagem dele agora perfeitamente visível, seus olhos brilhando com uma serenidade perigosa. — Que surpresa ver vocês ao lado do meu sobrinho. Vocês cresceram… bastante. Estou orgulhoso, meus filhos, mas eu esperava que usassem sua força pra algo melhor ao invés de seguir ordens.
Continua.

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