Índice de Capítulo

    Após alguns minutos preenchendo papéis e finalmente resolvendo os detalhes com Kiota, Arushi e eu decidimos dar uma pausa e passar pelo Mercado Central para pegar algo para refrescar. O calor estava forte e não havia nada melhor do que um bom sorvete para aliviar a pressão.

    — Ei, Yuki, você quer conhecer uma menina bem bonitinha? Vai que ela gosta de você e vocês começam a namorar, hein? Hein? — disse Arushi, com um sorriso travesso e os olhos brilhando de excitação, como se já tivesse tudo planejado.

    — Uff… de novo isso, Arushi? Eu não me interesso por isso. Tenho coisas melhores em que pensar. E outra: vamos logo pro mercado tomar sorvete!!! — exclamei, cruzando os braços e tentando esconder o desconforto com a proposta.

    Eu realmente não entendia o motivo de tanta insistência com essas coisas de namoro.

    — Ah, acredita em mim, amar uma garota é bem melhor do que tomar sorvete, viu? — disse ele, animado, dando tapinhas no meu ombro, como se fosse um grande conselheiro amoroso.

    — Como você sabe disso? Pelo que me disse, você nunca namorou! — questionei, arqueando uma sobrancelha e tentando não rir da situação.

    Eu sabia que Arushi era um bom amigo, mas parecia que ele estava mais interessado na minha vida amorosa do que na própria.

    — Ham… haha… deixa quieto, só vamos logo, vai! — respondeu, forçando uma risada, claramente desconcertado.

    Era óbvio que ele não sabia lidar com a minha provocação.

    Não pude evitar uma pequena gargalhada ao ver a expressão dele. Tentava parecer confiante, mas sabia que nunca havia vivido nada do que estava sugerindo.

    No fundo, ele era apenas um garoto normal.

    Depois dessa troca, seguimos em direção ao Mercado Central. A caminhada até lá foi tranquila, com o som das nossas conversas preenchendo o ambiente. Era uma sensação boa, sem preocupações iminentes.

    As estruturas da escola eram todas parecidas; não se preocuparam em diversificar.
    Ainda assim, havia locais com mais biodiversidade, integrando a natureza ao ambiente. Isso deixava o campus vivo e agradável.

    Mas, ao mesmo tempo, o clima e o habitat eram estranhos, como se esse lugar ficasse no meio de todas as estações.

    O livro da minha mãe sobre natureza e clima deixava claro que certos biomas e temperaturas mudam drasticamente conforme as estações. Por isso, era impossível ter neve no verão ou folhas de sakura espalhadas no chão no inverno.

    Essa mistura me dava uma sensação surreal, como se a qualquer momento pudesse nevar e chover ao mesmo tempo. E isso… me dava medo.

    lembrando bem, durante esse tempo que estou aqui, as mudanças no clima estão diferentes do normal. Sinto em minha pela essas diferenças mas não sei explicar com detalhes o que isso significa.

    Enquanto me perdia nesses pensamentos, nem percebi o quão rápido chegamos ao nosso destino.

    O mercado estava bastante agitado, com barracas e lojas vendendo todo tipo de coisa, mas nosso objetivo era simples: sorvete.

    Olhei ao redor: estava mais lotado do que o normal.
    O calor do dia havia feito várias crianças saírem de seus quartos para comprar algo gelado. O aroma de frutas frescas e doces no ar me fez relaxar.

    — Viu, Yuki? Esse é o verdadeiro prazer da vida! Não tem nada melhor do que um bom sorvete depois de um dia corrido! — disse Arushi, praticamente pulando em direção à barraca de sorvete, como uma criança animada.

    — Não sei… raramente eu tomava sorvete, era uma vez a cada três meses. Mas é muito bom mesmo! — comentei, seguindo-o.

    Não importava o quanto as coisas parecessem complicadas, um sorvete sempre tinha o poder de aliviar tudo, nem que fosse por alguns minutos.

    — Que triste… mas relaxa, Yuki, você vai poder tomar muito sorvete enquanto estiver aqui na escola…hehe!

    Dei um sorriso enorme em meu rosto.

    — Que legal! Vou me entupir de sorvete, mas obviamente ter juízo em não gastar todos meus pontos haha! — comentei, rindo.

    Arushi riu junto, enquanto me abraçava.

    Bons momentos para colecionar… lembranças que quero guardar para o futuro.

    Com belas risadas, Arushi me levou até a sorveteria.
    Ela ficava perto da entrada, já no primeiro andar. Graças a isso, não precisávamos subir ao segundo ou terceiro.

    O interior era bonito e cheio de detalhes. Havia brinquedos como pula-pula, mesas com quebra-cabeça e xadrez.
    As paredes exibiam vários desenhos infantis, como um mural de arte.

    Arushi me mostrou a vitrine com vários sabores, como se fosse um artista mostrando suas obras, e me perguntou com sua voz suave:

    — Quais sabores você vai querer, Yuki?

    Observei tudo. Pareciam deliciosos, mas pensei também no preço. Eu havia gasto quase todos os meus pontos da última vez que fui ao mercado comprar comida. Não podia desperdiçar mais.

    — Ah, Arushi… acabei de lembrar que não posso gastar pontos hehe. Tenho poucos, sabe? — disse, abaixando a cabeça.

    — Deixa de ser bobo, Yuki! — disse, dando tapinhas nas minhas costas. — Eu vou pagar pra você!

    — O quê??? Sério? Tem certeza, Arushi? Olha, olha… você não vai me cobrar depois, né? — indaguei, apontando o dedo para ele.

    — Haha, deixa de ser bobo, Yuki. Você é muito divertido mesmo carinha! Vai logo, cabeça-balão. Quais sabores vai querer? — disse, passando a mão sobre minha cabeça.

    Arushi era um pouco mais alto que eu, o suficiente para me obrigar a olhar pra cima, fora sua aparência, seu cabelo amarelo enorme amarrado para cima lembrando um unicórnio, mas ao mesmo tempo liso e fino, ele realmente é um menino ou é uma menina?

    Sem escolha e com vontade de comer sorvete, aceitei a boa vontade dele.

    — Tá bom então! — respondi, fazendo uma careta de deboche.

    Com tantas opções, estava difícil escolher.
    Para não abusar da generosidade dele, peguei o combo infantil, que era barato e permitia até quatro sabores.

    — Eu quero de chocolate, baunilha, pistache e café. — disse, vibrando de alegria.

    — Que alegria é essa, Yuki? Tá até tremendo, haha!

    — Sim! Quer dizer, estou feliz. Isso é novidade pra mim… pistache e café, baunilha… esses nomes eu nem sei de onde vêm, mas estou ansioso pra experimentar!

    — Haha, que bom que tá sentindo isso, Yuki. É muito bom esse sentimento amigo! Consigo ver até o brilho em seus olhos! — disse Arushi, sorrindo.

    O homem que nos atendia parecia confuso com meu comportamento. Provavelmente pensou que eu fosse maluco.

    — Você tá bem, garoto? Parece que tá com Parkinson, todo tremendo aí! — comentou o sorveteiro.

    — Eu? Tô bem, moço, hehe. Tenho isso aí não, pode ficar tranquilo. — disse, acenando com minhas mãos.

    — Eu tô tranquilo… quem não tá tranquilo aqui é você pestinha!!

    — É animação mesmo, senhor. Esse cabeça-planeta tem muita energia, sabe? — disse Arushi, dando tapinhas na minha cabeça.

    — Entendo… pestinhas, né não? Se quiser gastar essa energia, vai pros brinquedos que você se esgota rapidinho moleque haha! — disse o sorveteiro, rindo com os braços cruzados.

    Ele tinha uma voz grossa e um corpo largo, bem acima do peso, barba enorme preta e sobrancelhas grossas. Uma aparência exótica.

    Olhei para os brinquedos, e vi muitas crianças brincando e se divertindo, fiquei com muita vontade de fazer o mesmo.

    — Que legal isso! Vou brincar lá depois com toda a certeza do mundo!! hehe! — comentei, sorrindo.

    — Mas tem que pagar! — disse o homem.

    Minha alegria sumiu na hora.

    — Ah… — murmurei, cabisbaixo.

    — Hahaha! Tô brincando, garoto! Você devia ver sua cara! Ficou todo sério ai, murchou completamente igual folha seca hahaha. Agora sim esgotei sua energia. Toma aqui seu sorvete pra recuperar — disse ele, me entregando o pote.

    — Gênio do marketing. Esse é o maior sorveteiro da ESA, hehe — comentou Arushi, rindo e me dando tapas nas costas.

    Esse gosta de dar tapas.

    — Obrigado, moço — respondi, sério, mas fingindo para provocar ainda mais risadas em Arushi.

    Caminhei lentamente até uma mesa do lado de fora da sorveteria, enquanto Arushi ficou para pagar e pegar o dele.

    Sentei e saboreei cada colherada do sorvete.
    Olhando ao redor, vendo toda aquela felicidade e sorrisos, senti-me seguro ali.

    — O sorvete tá bom, Yuki? — perguntou Arushi, sentando ao meu lado com seu pote.

    — Sim, muito bom mesmo, muito muito. Agradeço de coração, Arushi! — disse, enquanto colocava minha mão em por cima do meu coração.

    — Relaxa, fiz o que amigos fazem, hehe. Mas então… vamos conversar?

    — Vamos. Sobre o quê?

    — Sobre qualquer coisa. Vamos falar sobre garotas de novo!! Hehe — disse ele, sorrindo.

    De novo isso? Ele só pensa nisso…

    — De novo, Arushi? Se você quer falar tanto de menina, é porque quer virar uma, né? Sabia que tem como? — falei, olhando sério encarando a franja amarelo do seu cabelo.

    Mas ele manteve o sorriso.

    — Hahaha, claro que não, cabeça de bagre. É porque somos meninos, e temos que falar disso. Entendeu?

    — Então… tá. O que você tem a dizer, ó grande sábio dos assuntos? — provoquei.

    Arushi começou a falar sobre as garotas da sala.
    Eu, claro, não estava prestando atenção.

    O que realmente passava na minha mente era como ele poderia ser alguém tão importante pra mim.
    Assim como Sasori e Fuutaro. Aliás, queria que eles tivessem vindo também.

    Na próxima, vou chamá-los.

    Enquanto Arushi falava sobre o “futuro romântico” que imaginava para ele, eu me perdi no simples prazer de tomar meu sorvete.

    Até que, uma garota passou correndo à minha frente. Seu rosto estava tenso, seus passos rápidos, mas sem muita direção. Três outras garotas a seguiam logo atrás. Algo nos rostos delas me fez perceber que não era algo simples.

    Minha intuição me impulsionou a agir.

    — Arushi, fica aqui. Vou no banheiro rapidinho — disse, tentando esconder minha verdadeira intenção.

    — Tá bom… mas assim, de repente? — perguntou, surpreso.

    Deixei o sorvete com ele e, sem olhar para trás, caminhei lentamente para não parecer suspeito.

    Não podia deixar aquilo passar. Eram três contra uma… o que fariam com ela?

    Isso me lembrou de quando fugi dos irmãos.

    Elas seguiram na direção por onde Arushi e eu tínhamos vindo: a entrada do mercado.

    Mantive a distância enquanto corria atrás. A menina correu até um ponto onde não havia mais saída — um muro atrás do mercado, separando a escola do lado de fora.

    As perseguidoras pararam abruptamente. A fugitiva, ofegante, parecia exausta. Aproveitei para me esconder atrás de uma árvore próxima, sem que me vissem.

    Meu coração estava acelerado, nervoso, ansioso e com medo. A menina não parecia estar diferente, conseguia ver em seus olhos o desespero imenso, tomando conta de seu corpo.

    O ar em minha volta e a felicidade que estava sentindo com o sorvete, sumiu completamente. Agora sinto um peso enorme me esmagando aos poucos.

    Eu estava discreto, mesmo estando longe eu conseguia ouvir claramente as vozes delas.

    Pela minha sorte, elas não sabiam ser discretas, então suas vozes ecoavam ao redor.

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