Capítulo 45 - Mais profundo do que parece.
Na minha frente, a encarando por segundos, vejo os olhos azuis dela perderem o brilho por um instante, como se cada detalhe pesasse mais do que deveria…
— Olha, desculpa por isso, não precisa me contar, tá tudo bem!
— Não! Eu vou contar, eu quero contar, preciso desabafar isso pelo menos uma vez e quero que seja com você… se não se importar, é claro! — disse ela, me encarando com uma expressão triste, o tom de sua voz estava fraco, quase a ponto de falhar.
— Mas é claro que não me importo, quero ouvir tudo o que você quer dizer, mas não aqui, vamos para um lugar mais tranquilo, certo?
— Certo! Mas onde podemos ir?
— Hmmm… você já foi na cachoeira?
— Eu já, uma vez… mas não fui para me divertir, a Ayumi precisava passar por lá e eu acompanhei, nem paramos para observar e tal.
— Decidido então! Vamos para a cachoeira, hehe.
— Certo! — disse ela, com um sorriso discreto.
Mais uma vez a expressão de seu rosto muda e fica mais vibrante, pegando como referência a pouco minutos atrás, o de agora é o ideal e preciso manter assim. Um sorriso bonito e sincero, olhos brilhantes marcando uma expressão alegre.
Segurando minha mão esquerda, eu e a Itsuki fomos para a cachoeira.
Para chegar até lá, precisamos passar pela praça central e seguir o caminho noroeste que nos leva para o local mais baixo de toda a área, onde precisamos descer algumas escadas para chegar até a cachoeira.
Logo naquele lugar onde quase morri afogado se não fosse pelo Arushi, meu amigo, meu herói.
Talvez eu poderia ter ficado com trauma de lá? Eu confesso que meu corpo não gosta da ideia de voltar, tremulo um pouco, tento ser forte e mostrar para mim mesmo que aquele ocorrido não é o bastante para me amedrontar.
Em algum lugar na ilha escolar.
Uma moça de baixa estatura, vestida num jaleco cinza, abria a porta de um carro, parado em frente ao que parecia um laboratório.
Do carro, saiu um homem magro vestido em um terno vermelho, seus olhos de cor amarelo deixavam sua aparência diferente, já que seus cabelos eram vermelhos.
— Senhor Anki, que bom vê-lo novamente!
— Digo o mesmo, Toshiba! Onde está o Kobayashi?
— O Diretor Kobayashi está à sua espera no palácio, por favor, me acompanhe!
— Esse lugar passou por uma tremenda transformação, em, por qual motivo? — disse Anki, com sua voz fina.
Ele não havia nenhum resquício de que fosse um homem forte e grosseiro, sua voz fina e seu corpo magro demonstravam fragilidade, mas seu cargo é o oposto de fraqueza, sua posição na empresa é de enorme importância.
— Sim, de fato! Foi uma bela mudança no laboratório, foi se necessário devido ao alto financiamento das indústrias Cronwell, não concorda?
Toshiba, uma mulher firme, sua voz mais grossa que a do próprio Anki, mesmo com sua beleza enorme, estava apenas com seu rosto fechado, como se estivesse nadando em um mar de fúria.
— Concordo! As indústrias Cronwell se tornaram a melhor indústria no ramo tecnológico, é de fato necessário uma melhora na estrutura desse local para que possamos obter frutos do investimento!
— Sempre obtivemos frutos, sem ou com ajuda da Cronwell, então não se gabe!
— Ríspida como sempre, né Toshiba? Quando que você vai aceitar sair comigo, hein?
— Nunca! Nós cientistas não temos tempo para perder fora do laboratório!
— Mas não precisa ser fora do laboratório, pode ser no meu quarto, que tal? — disse Anki, segurando o ombro da Toshiba.
Ela parou de andar, olhou nos olhos do Anki, nervosa com a situação, deu um murro nas partes de baixo do Anki.
— Ai… que dor… forte como sempre, Toshiba! Por isso gosto de você…
— Chega de papinho, entra logo no elevador, o diretor Kobayashi te espera no palácio, sabe ir até lá, certo?
Ainda no chão, encarando a dor monstruosa de ter levado um murro, ele acena com a cabeça.
— Eu sei… mas seria interessante se você fosse comigo até lá… hehe. — disse Anki, levantando lentamente do chão.
— Quer levar outro murro? Você nunca aprende, incrível!
Toshiba deu as costas para Anki, saindo com pompa.
Após esse momento, Anki desceu o elevador principal, o levando até o andar do palácio, ao encontro do Diretor.
— Senhor Anki, chegamos no andar do Palácio, por favor, aproveite bem seu tempo aqui. — disse um mordomo que estava dentro do elevador.
A porta automática do elevador se abriu, deixando entrar um brilho enorme no rosto de Anki.
— Que belíssimo lugar! — disse Anki.
Ao caminhar dos homens, podia-se ver um rio passando por debaixo da ponte que conecta o palácio ao elevador.
Árvores Sakura faziam um enorme enfeite ao redor do palácio, com lindas flores rosas no chão, este chão esverdeado sendo iluminado pelo brilho intenso do sol, um céu limpo sem nuvens.
— Mas, não estávamos indo para o subterrâneo? — murmurou o segurança de Anki.
— Que magnífico este lugar, esta paisagem, estas árvores, olha este céu que maravilhoso!!!
— Que bom que gostou, Senhor Anki, o diretor está te esperando no terceiro andar do palácio, por favor, continue! — disse o mordomo.
Anki continuou andando enquanto se encantava com o lugar.
O som dos peixes saltando por cima d’água, os pássaros cantando, a grama sendo pisado lentamente, sons que tinha um efeito tranquilizador, uma sensação de paz.
O palácio não perde o destaque também, decorado com pinturas florais douradas nas paredes brancas encantava ainda mais os homens visitantes.
No interior do palácio, várias atrações com pinturas e objetos antigos, lembrando bem um museu antigo.
Mas uma pintura era estranha, um quadro com uma escola pegando fogo e crianças correndo de desespero, adultos pegando fogo atrás delas.
— Que bizarro! — disse Anki.
— O significado do quadro é desconhecido, o autor não disse detalhes, nem se quer deu um nome para a obra! Só se sabe que foi feito na época da primeira geração da ESA. — explicou o Mordomo.
— Primeira geração, é? Talvez previu a queda do projeto…
— Um artista Oni? Impossível, anão ser que foi pintado por uma criança!
— Pode ser! — disse Anki, subindo as escadas para o terceiro andar.
Chegando no terceiro andar do palácio, Anki encontra o diretor encarando uma enorme janela de altura e comprimento maiores do que o próprio diretor, esta janela é redonda e dava para ver a natureza belíssima de trás do palácio.
Anki se aproximou, sentando na cadeira à frente da mesa do diretor.
Os seguranças fecharam a porta da sala e ficaram de prontidão em frente dela.
— Como sempre vendo a natureza, né Kobayashi!
— Claro! Nada neste mundo é mais belo que a natureza, não acha?
— Acho! A natureza é bela, maravilhosa e importante, mas as mulheres se igualam à natureza, a beleza delas chega a matar o homem de desejo!
— Hahahaha… Como sempre, tarado por mulheres! Espero que não tenha cantado a Toshiba novamente!
— Infelizmente não é da minha índole negar a beleza da Toshiba, assim que a vejo meu corpo clama por ela, o que posso fazer?
— Eu te entendo, eu era assim há muito tempo atrás, até que descobri a verdadeira natureza da mulher, depois disso passei a amar mais a natureza do mundo do que delas!
— Grande sábio Kobayashi! Parece que a idade está batendo forte na sua mente!
— Não! Não deixo que a idade me limite, eu escolho o que deve acontecer com o meu corpo e alma!
— Entendi senhor especialista em corpus! Agora vamos ao que interessa.
— Sim! Finalmente!
O Diretor saiu da janela, sentando na cadeira enorme de aparência verde combinando com o terno do diretor.
— Diretor Kobayashi, diretor do laboratório Avançado e diretor da ESA, impressionante você, né?
— Não me gabe, eu faço o mínimo e só, meu objetivo é grandioso e não souber administrar dois lugares pequenos não me torna digno do meu objetivo.
— Entendo, tem razão! E falando nesses lugares pequenos, como está indo na ESA?
— Está indo tudo bem, estamos analisando cada interação das partículas oni com as células dos alunos despertados.
— E com isso estamos capturando as partículas dos corpos delas e colocando nos frascos modelo! — complementou Anki.
— Sim! Diferente da primeira geração vamos conseguir alcançar nossos objetivos! Juntos, Cronwell e ESA!
— Com certeza! Hahaha…
— O dinheiro que estamos ganhando com isso, é de outro mundo hehe. Mais ricos estão surgindo querendo sonhar com seu próprio futuro, já temos reserva para 56 pessoas, olha o quanto vamos ganhar! — disse Kobayashi, com seus olhos brilhando de alegria.
— 50% é meu, não se esqueça, graças a mim você pode estar fazendo isso sem que o governo saiba.
— Sim, eu sei, metade meu metade seu. Hahaha…
— E outra coisa, ouvir o Vain Cronwell comentar sobre um tal herdeiro de Hikaru que está na ESA, quem é esse?
— Ah meu amigo, uma longa história, talvez um dia eu te conte. Agora vamos comemorar! — disse Kobayashi, pegando uma garrafa de vinho.
Ele colocou em dois copos de vidro e ambos brindaram.
— Ao dinheiro!
— Ao dinheiro hahaha!
Na cachoeira, no lado noroeste da ilha escolar.
Chegamos na cachoeira, Itsuki está bem cansada depois de ter andado esse caminho todo.
— Tá cansada, hein? Parece que nunca andou tanto assim na vida como hoje, haha.
— É que… você anda rápido… falei o caminho todo e você continuou andando rápido…
— Haha, desculpa Itsuki, é que não consigo andar devagar, sabe? Vamos sentar aqui no banco.
Sentamos no mesmo banco onde Arushi havia me trazido quando estava apagado.
Itsuki sentou bem do meu lado, enquanto segurava minha mão.
— Então, pode contar agora? — indaguei.
— Sim, vou contar… deixa eu respirar um pouco. — disse ela, ofegante.
Ela respirava devagar e suspirava logo depois.
— Pronto, vou falar!
— Certo! Estou ouvindo.
Ela segurou forte minha mão esquerda.
— Bom, eu cheguei nesse lugar…ano passado, assim que cheguei, várias crianças ficavam me olhando torto e me chamando de filho de revoltantes.
— Sei bem como é isso…
— Então… a Ayumi me dava aula no seu quarto, o ano todo praticamente. Pensei que ia ser apenas aquele ano, mas esse ano também eu fiquei e o motivo disso é porque nenhuma das crianças queria eu por perto.
— Por pensarem que você é filha de revoltantes.
— Sim! Toda vez que eu ia do meu quarto até a Ayumi sempre tinha uma menina que me empurrava, sempre tinha meninos que zombavam de mim e do meu cabelo…
— Que terrível…e você se machucava fisicamente??
— Não, até esses momentos não, fisicamente não me machucava mas internamente, coração e alma machucava muito. Muito mesmo. — disse ela, com os olhos lacrimejando.
— Com certeza, ninguém merece ser tratada assim, mas não derrame essas lagrimas por essa gente, olha aqui para mim!
Ela virou seu rosto para mim, passei a manga da minha blusa por cima de seus olhos lentamente para secar as lagrimas que estavam prestes a descer de seu rosto.
— O-obrigada! Eu…vou…vou tentar não chorar! — disse ela, com as bochechas corada.
— Certo! Estou aqui com você, segurando sua mão! Agora pode continuar.
— Esta bem! As que mais me ameaçavam eram aquelas três, Emi, Kinoshita e a Abe! Elas me machucavam de verdade… fisicamente e mentalmente, diferente das outras crianças.
— Aquelas garotas idiotas!! E isso durou por muito tempo?
— Sim, até que a Ayumi percebeu uns arranhões no meu braço, eu nunca disse a ela o que ocorria e quem fazia isso, então ela não sabe quem faz, mas sabe o que ocorre, por isso me deixou trancada no quarto e eu só saía com ela.
— Entendi, mas por que você não contou a ela sobre as três?
— É porque elas são do conselho, e a Abe é a presidente. Não iria adiantar nada e eu poderia enfurecer elas ainda mais…
— Que ridículo! Isso não pode acontecer! Elas têm que pagar por fazerem isso com você.
— Tá tudo bem… tenho certeza que um dia elas vão pagar! No início eu desejava todo o mal, mas depois que eu te conheci, pude ver que tem pessoas boas, e isso me mostrou que eu não sou o tipo de pessoa que deseja o mal.
— Ah… Você tem… razão Itsuki! Você é muito doce, então não faz sentido mesmo… mas elas vão pagar!
— Pode até ser…
— Mas por que ela permitiu que você saísse todo dia uma hora então? Ela sabe que você pode sofrer de novo com isso!
— É que eu disse que… essa única hora seria só pra ficar com você, então eu estaria protegida…
Isso foi surpresa, não esperava que ela dissesse isso para mim.
Eu não gostei da ideia, queria que ela fosse livre e não dependente de mim, se eu não fizer nada a respeito dessas três meninas a Itsuki nunca se sentirá livre nesse lugar…
— Entendi… mas é seguinte Itsuki, eu vou fazer com que você se sinta mais segura nesse lugar mesmo sem eu por perto, dessa forma mesmo se eu não estiver aqui, você vai poder aproveitar tudo em volta! — disse erguendo a mão para cima enquanto levantava o tom da minha voz. — Vai poder brincar de montão, vai poder sair correndo e pulando e ir no mercado com sorriso no rosto, você vai ser feliz e sem se preocupar com nada, certo? Confia em mim?
Ela segurou minha mão bem forte, enquanto me olhava com olhos cheios de lágrimas.
— Tá bom… você é um ótimo amigo… Yuki! — disse ela, com um tom de voz melancólico.
— Novamente querendo chorar? Você não é mais bebê oras! é minha amiga forte e corajosa!
Abracei ela bem forte, mostrando que estou aqui para ajudá-la com o que for preciso.
Meu corpo do nada sente um pequeno choque, foi algo bem estranho e assustador.
— Ai, que estranho, o que foi isso? — perguntou ela.
— O que? Você sentiu esse choque também, Itsuki?
— Uhum…
— Que estranho, é melhor a gente sair desse banco então hehe.
Isso foi bem diferente mesmo, nosso abraço fez com que levássemos um pequeno choque, coisa de livro.
Saímos dali de perto e fomos direto para a cachoeira, para vislumbrar a beleza da natureza.
Vendo essa agua caindo no lago, me fez lembrar do enorme buraco que tem, fiquei assustado e curioso para saber o que tem debaixo.
— Você sabe nadar, Yuki?
— Hmmm…bem, por experiencia própria, não sei nadar hehe!
— Também não sei, eu nunca entrei num lago ou rio, mas já…nada! Parece que tem alguém vindo ali!
Olhei para a direção que a Itsuki apontou, as escadas de pedra que levam para cima.
De longe pude ver quem era, um rosto familiar.
— É ele, meu amigo hehe.
— Ele me dá medo isso sim… mas preciso agradecê-lo também!
— Ora ora, encontrei você, Yuki!
— Oi professor Okawara!
— Olá! — disse Itsuki, tímida.
— Desculpa atrapalhar o momento dos amiguinho, mas já atrapalhando pois estou nem ai para vocês, vim aqui te entregar esse envelope, já sabe o que fazer moleque! Vou levar essa menina de volta para a Ayumi, já que você não vai poder ficar o restante do tempo com ela.
Havia me esquecido de entregar esse envelope para o Okawara em troca da ajuda dele com a Itsuki.
— Mas, não era de noite? — indaguei.
— Mudou! Agora! Vai! — curto e grosso.
— Certo! Obrigado pela ajuda professor Okawara, com a Itsuki!
Corri para abraçá-lo, mas ele me afastou com sua mão direita.
— Sem abraço! Foi um acordo e cumpri minha parte, agora você cumpra a sua.
— Tá bom…seu cara de pedra.
Olhei para a Itsuki, que me olhava com uma expressão de dúvida e curiosidade, com uma pitada de medo.
— Desculpa Itsuki… mas eu preciso cumprir minha parte agora por ele ter ajudado você.
— Mas… Yuki! Por que… você fez isso? Que acordo é esse? Por minha causa você fez isso? — disse ela, melancólica.
— Não se preocupe, como eu falei, farei de tudo para te deixar feliz e livre, tá bom? Agora vai com ele, amanhã a gente conversa mais, tá bom?
— Tá bom… conversar sobre isso aí vou querer… Mas estou com medo de ir com ele!
— Não tenha medo! Confie em mim, tá bom? Ele até te ajudou, poxa, mesmo que foi acordo, ele deu o melhor dele para te ajudar!
— Foi por causa de você e do acordo, se não fosse isso ele não estaria nem um pouco preocupado comigo!
— Não diga isso, para de pensar nisso! Você precisa ser forte, encare esse medo, eu estou com você agora, certo? Confie em mim e vai com ele.
Pude ver em seus olhos que ela não gostou de saber desse acordo, mas ela me abraçou bem forte, em vez de sentir um choque igual antes, senti um calor forte e um conforto que só sentia quando abraçava minha mãe.
— Certo! Eu confio em você! Até amanhã Yuki, se cuida. — disse ela sorrindo para mim, mas andando devagar até o Okawara.
Ela ainda tem esse medo, sinto que tem bastante tristeza dentro dela que preciso erradicar, fora o medo que ela precisa encarar. Uma longa jornada a gente tem pela frente.
Okawara me encarou e logo depois olhou para o envelope, entendi esse recado corporal dele, que é para eu ir entregar o envelope rápido e com cautela.

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