Capítulo 60 - Mentes pensantes.
Todos os alunos estavam conversando entre si; alguns riam, outros estavam sérios.
Meu grupo estava sério, cada um olhando para um lugar diferente. Apenas o Yur, com seu sorriso estranho, encarava a Aikyo.
Eu estava pensativo a respeito daquele enigma. Tenho certeza de que algo não está certo.
Ayumi ficou no meio da sala e bateu palmas.
— Pronto, turma! Espero que todos vocês tenham terminado e encontrado a resposta completa. Agora quero que façam mais uma coisa.
Ayumi pegou um pote contendo vários pedaços de papel.
— Vou entregar um papel para cada um de vocês, e quero que escrevam nele a palavra que pessoalmente escolheriam, sem serem influenciados pelos colegas de grupo.
— Professora, devemos escrever no papel uma palavra que está no quadro? Essas palavras horizontinas? — indagou uma menina de outro grupo.
— Exato! Quero que escrevam a palavra e me expliquem o motivo da escolha, caso a palavra não seja a que o grupo como um todo escolheu.
Entendi. Isso estava começando a fazer sentido para mim.
Se ela quer saber se todos no grupo realmente chegaram à mesma conclusão ou se alguém conseguiu descobrir o duplo sentido, mas não conseguiu convencer o resto do grupo.
Assim como aconteceu comigo.
— Você entendeu o que eu disse, Yuki? — indagou Ayumi, olhando para mim.
Acenei com a cabeça e peguei o papel da mão dela.
O olhar dela para mim continuava assustador.
Ela se afastou depois de entregar os papéis.
— Vou dar mais dois minutos para vocês terminarem isso. — disse Ayumi, sentando-se em sua cadeira.
Ela cruzou as pernas, ajeitou o cabelo e olhou para mim novamente. Fiquei encarando-a por alguns segundos, sem piscar, sem mexer um músculo sequer; ela continuava a me encarar.
Melhor parar com isso.
Abaixei a cabeça e comecei a escrever.
Um dia antes, na casa do Okawara.
— Você está passando muito tempo lendo esses documentos. O que quer com o histórico do Yuki? — perguntou Okawara.
Ayumi estava com o histórico do Yuki em mãos, e Okawara, com sua xícara de café; ambos sentados.
Já estava escuro do lado de fora; dava até para ouvir o som dos grilos cantando.
O brilho da lua iluminava a sala do Okawara, e o cheiro das árvores do lado de fora do prédio dos professores estava presente.
— O que eu quero? Bem, já te expliquei o que desejo com o histórico do Yuki!
— Sim, explicou. Mas quero entender melhor isso. — disse Okawara, dando um gole no café.
— Hmf… Estou pensando em fazer um joguinho amanhã na aula, e preciso saber algo do passado do Yuki para ver se, dessa forma, ele muda sua forma de pensar e se isso interferirá nas escolhas dele.
— Espera aí… você está dizendo que vai mexer com a mente do pirralho?
— Sim. Você por acaso se incomoda com isso, Okawara?
Okawara tomou mais um gole de café, enquanto negava com a cabeça lentamente.
— Mas você só tem esse propósito em mente? Saber se algo do passado interfere na maneira dele pensar e escolher?
— Sim! E tem mais uma coisa específica também, mas isso você não precisa saber. — disse Ayumi, virando uma página do documento.
Okawara colocou a xícara na mesa, levantou-se e sentou-se ao lado de Ayumi no sofá.
— Por que não preciso saber?
Ayumi virou-se lentamente para Okawara, com um olhar assustador, diferente dos momentos em que se sentia tímida com ele.
Okawara engoliu seco, mas manteve o olhar fixo.
Até que Ayumi fechou um pouco as pálpebras e voltou a ler o documento.
— Está bem. Vou te contar. Meu outro objetivo é saber se esse garoto tem o ponto de foco em manipulação.
— Manipulação? Por quê?
— Porque acho que ele está tentando manipular a Itsuki. E, se isso for verdade, Okawara, ele está ferrado comigo! — disse Ayumi, apertando o documento.
— Calma! De uma coisa eu sei: esse pirralho nunca seria capaz disso. Pode ter certeza.
Ayumi encarou Okawara, parando de amassar o documento.
— Assim espero. Caso contrário, na próxima vez não vai ser na piscina que ele vai cair…
Ela respirou fundo e voltou a ler o documento.
De volta à sala de aula.
O clima nos outros grupos era bom; pareciam estar se divertindo com o enigma.
Faz sentido, já que eles se conhecem há bastante tempo.
Pensei que talvez a Itsuki estivesse ao menos se comunicando com alguém, mas não era o caso.
Ela estava de braços cruzados, com uma expressão triste no rosto e os olhos caídos, como se estivesse sem vontade alguma.
Estou preocupado com isso desde que entrei na sala, quando vi que ela estava séria comigo.
Mas agora está diferente; ela está triste.
Consigo sentir isso, mesmo sem estar diretamente ao lado dela; de longe, percebo sua tristeza.
Mas por qual motivo, Itsuki?
— Você é o motivo! — disse a voz na minha cabeça.
Se eu fosse o motivo, eu saberia.
Não fiz nada de errado com ela.
— Pronto, turma, o tempo acabou. Todos prestem atenção aqui. Vou explicar algo importante para vocês.
Todos que conversavam pararam e olharam para a professora Ayumi.
Até o Yur, que encarava a Aikyo, parou com essa estranheza e olhou para a professora.
— Bem, como eu disse antes, essa atividade não valerá pontos de nota nem de compra. Mas vocês ganharam algo mais importante: o conhecimento. Isso é algo precioso, e vocês que estão aqui precisam buscar e aprimorar seus conhecimentos com todo zelo.
— Por que necessariamente precisamos disso? — indagou Yur, com seu jeito arrogante.
— Porque vocês são especiais, têm um raciocínio melhor e mais rápido do que todas as crianças do mundo, até mesmo adultos! Mas, como todo ser humano, não nascem sabendo tudo; precisam aprimorar, buscar e exercitar a mente para serem a potência do Horizonte!
Alguns alunos bateram palmas, gritaram, estampando sorrisos e esperanças nos olhos.
Eles acreditam em um futuro melhor para si, acreditam que um dia poderão ser livres daqui.
— Mas professora, desculpe atrapalhar esse momento de discurso inspirador, mas queria perguntar uma coisa. Não vamos ser ridicularizados, rebaixados e até ameaçados por sermos diferentes das pessoas comuns? Somos seres mais avançados do que eles, o que gera medo e inveja.
As crianças concordaram com o que o menino sem cabelo disse.
— É verdade, somos melhores que eles, então faz sentido sentirem inveja. — disse um menino no fundão.
— Entendo esse ponto de vista e faz todo sentido. Vocês são avançados, inteligentes e têm maior capacidade de crescimento. Mas, como vocês são Horizontinos, serão tratados como heróis, famosos e importantes pelo povo do Horizonte. Não se preocupem com isso.
— E o restante do mundo? — indagou Katsu.
— O restante do mundo não importa; eles não estão prontos para isso agora. Mas, quando vocês forem líderes no Horizonte, marcharão para um novo mundo, um mundo onde todos os países farão parte do território Horizontino, e todos terão que venerar vocês.
Todas as crianças novamente gritaram e sorriram, mostrando felicidade e fé.
Acredito que todos aqui desejam o que a professora está dizendo; eles querem essa atenção do mundo.
— E você? Também deseja ser venerado como um deus? Ter atenção e respeito de todos? — indagou a voz na minha cabeça.
Não seria ruim ser tratado assim; seria bem legal, e assim eu poderia fazer aqueles policiais pagarem pelo que fizeram com minha mãe, com minha vida.
Ser tratado como alguém importante é muito favorável para mim.
— Que bom que vocês estão animados com isso. Espero que isso mantenha vocês focados em todas as atividades, que mantenham seriedade nos testes e exames. Estão de acordo? — perguntou Ayumi, no meio da sala.
— Sim! Blue Zenith! Blue Zenith! — gritou toda a sala.
Blue Zenith é o nome da nossa sala, mas por que gritar esse nome? Um tipo de rito ou grito de guerra da sala.
— Muito bem! Agora, vamos à resposta das atividades. Começando pelo grupo 1: qual foi a resposta de vocês para o enigma, qual palavra horizontina escolheram para o nome e a explicação do motivo da escolha?
Do grupo 1, apenas uma criança levantou-se com o papel em mãos.
— Professora, em relação ao nosso enigma, a resposta é “cruzada”. A palavra horizontina que escolhemos foi “Parvre”, que, traduzida para o japonês, significa “Religião”. O motivo da escolha é porque o enigma tem relação com as antigas cruzadas das igrejas católicas, feitas entre os séculos XI e XIII, e como “Parvre” significa religião, tem relação.
Ayumi olhou profundamente para a criança que falou, balançou a cabeça e disse:
— Parabéns, ótima resposta. Não à toa você é uma das melhores alunas de História.
Os alunos bateram palmas, e Ayumi caminhou até o segundo grupo.
— E você? O que tem a dizer?
Novamente, uma criança levantou-se sozinha, o menino sem cabelo de antes.
— Professora, nosso enigma não foi um desafio; na realidade, acabamos em cerca de um minuto e quinze segundos, de acordo com minha contagem.
— Entendi, desculpe por isso. Na próxima darei um desafio mais difícil para vocês. Agora, prossiga. — disse Ayumi, com os braços cruzados.
— Enfim, a resposta do enigma é “mar”, pois o enigma se trata dos oceanos espalhados pelo mundo, deixando a Terra um lugar mais azul, limpo e bonito. A palavra horizontina que escolhemos é “Juvia”, que, em japonês, significa “Chuva”. A explicação é óbvia: a chuva alimenta os mares, oceanos, rios e poços, por isso escolhemos essa palavra.
— Entendi, a resposta está certa. Realmente, esse enigma foi fácil; vou rever o nível na próxima vez.
Yur deu uma risada enquanto Aikyo murmurou algo.
— Parece que só para nós o enigma foi difícil. — disse Lucy.
— Hmf… preguiçosos. — murmurou Aikyo.
— O que você disse? — indagou Lucy, tirando o cachecol da boca.
— Vocês, preguiçosos! Achando que isso é difícil. É por isso que não conseguem ser bons em dedução; acham qualquer coisa difícil. Me poupe.
— Língua solta. Só não vou discutir porque será nossa vez agora.
— Hmf…
— E vocês, o que têm para me dizer? — perguntou Ayumi, ao meu lado.
Olhei para os três; Yur olhou para Aikyo, assim como Lucy também.
Aikyo descruzou os braços e levantou-se da cadeira.
— Professora, a resposta que chegamos para o nosso enigma é “lugar de liberdade”, o Horizonte, lugar que se apresenta como verdade, mas nunca foi tocado por nós, onde nos guia olhares, mas não passos, onde possamos levar conosco as partículas dentro de nós, mas deixando nossa juventude para trás. A palavra que escolhemos foi “Chiheisen”, que significa “Liberdade”.
Ayumi cruzou os braços, respirou fundo e acenou com a cabeça.
Ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto Aikyo, com sua expressão fechada, a encarava.
Lucy e Yur ficaram olhando para a professora enquanto ela permanecia em silêncio.
— Entendi, muito bem então. Parabéns. — disse Ayumi, com um tom de voz firme.
Ela saiu andando, deixando o clima pesado; não sei o porquê.
Nenhum aluno aplaudiu; todos ficaram em silêncio, enquanto alguns cochichavam entre si.
— Só eu ou vocês acham que não acertamos? Ela disse parabéns, mas soou como uma gratificação pelo esforço, e não por assertividade. — disse Lucy.
— Ufa… Culpa da Aikyo. Não pensou direito.
— Hmf… não creio nisso, foi realmente estranho o comportamento dela, mas não é possível que eu tenha errado; pensei corretamente e profundamente, tenho certeza que acertei no raciocínio.
— Com certeza, até porque você é a segunda no ranking de dedução, né? — disse Lucy, num tom irônico.
Aikyo ignorou Lucy, ficando com um olhar fixo na mesa.
— Agora, turma, vou escolher duas pessoas para ler em voz alta o que escreveram no papel individual que lhes dei; o restante lerá para cada um em seu próprio grupo, para discutirem o motivo de terem escolhido diferente, caso tenham escolhido diferente. Entenderam?
— Sim! — gritou toda a sala.
— Então, o primeiro aluno que vou escolher para ler em voz alta é Itsuki. Leia para nós o que você escreveu.
Todos na sala se voltaram para Itsuki.
Ela escolheu logo a Itsuki? Logo ela, que é tímida? O que você está tramando, Ayumi?
Arco: Investigação.

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