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    Olhei para a Itsuki; seus olhos estavam arregalados e, de longe, dava para ver que ela prendera a respiração. Provavelmente, seu coração estava acelerado. Ela olhou para os lados e viu todos olhando para ela.

    O desconforto, a vergonha, o medo, os olhares sombrios fixos nela… Será que ela vai conseguir?

    Estou longe e não posso segurar sua mão para transmitir tranquilidade.

    O que posso fazer para ajudá-la?

    — O que foi, Itsuki? Não escutou o que eu disse? Levanta e fale para nós.

    Ayumi não está ajudando, só piorando. O que deu na cabeça dela?

    O rosto da Itsuki está pálido; consigo sentir o medo dela. Meu corpo e coração não estão aguentando, droga.

    Voz da minha cabeça, o que posso fazer para ajudar a Itsuki? Me responda se você não for uma loucura minha.

    — Eu não sou sua loucura. Não entendeu isso? — disse a voz.

    Droga, eu entendi, só me ajuda, por favor.

    Itsuki levantou-se bem devagar, com o rosto abaixado; suas mãos tremiam e sua respiração estava acelerada.

    Mas o estranho agora é que meu corpo está quente, meu coração acelerado. Será que vai acontecer aquilo de novo, de eu ser outra pessoa?

    Espera, agora tudo faz sentido: essa voz na cabeça, eu trocar de personalidade depois de sentir um desconforto, significa que é realmente outra pessoa tomando posse do meu corpo.

    — Excepcional. — disse a voz.

    Mas não quero, não quero agir frio e sem coração; neste momento, preciso ser acolhedor e gentil.

    — O que ser gentil te traz?

    Não importa o que traz, eu quero ser assim para a Itsuki.

    É isso que ela precisa.

    Levantei rapidamente da minha cadeira e caminhei em velocidade acelerada. Alguns alunos me olharam torto, querendo saber o que eu estava fazendo.

    Não me importei, apenas continuei andando. Itsuki não percebeu minha ida; ela tentava ler o papel com as mãos tremendo, sua voz estava fraca e trêmula, como se não estivesse respirando direito.

    — Yuki, o que está fazendo? — indagou Ayumi, de longe.

    Não virei para dar satisfação; segui até Itsuki. Assim que me aproximei dela, peguei sua mão esquerda e, com minhas duas mãos, cobri sua mão pequena e frágil, gentil e lisa, fria e trêmula, ao calor das minhas mãos.

    Ela olhou para mim, com o rosto pálido, e com voz trêmula disse:

    — Yu-yuki?

    Acenei com a cabeça e dei um sorriso carinhoso para ela.

    — Eu disse, não disse? Que em momentos difíceis eu estaria com você. Independente de como estivéssemos, eu sempre farei o meu melhor para te deixar confortável e feliz.

    Assim que fiz isso, pude sentir nossa conexão; pude sentir seu coração se acalmando e sua respiração voltando ao normal.

    Seu rosto pálido ficou corado, seus olhos arregalados ficaram vibrantes.

    Sua mão fria e trêmula ficou normal e quente.

    Ela fez um sorriso leve e gentil para mim, quase chorando.

    — Calma, você consegue ler agora? — indaguei, segurando sua mão.

    — Si-sim… agora eu consigo.

    Ela, com a mão direita segurando o papel, conseguiu ler seu conteúdo perfeitamente, enquanto todos na sala olhavam para nós, alguns surpresos, outros com cara de tacho.

    Mas Ayumi, com um olhar sombrio e fechado, lançou um olhar negro para mim.

    Eu não me importei com os olhares, apenas continuei de mãos dadas com Itsuki.

    Assim que ela terminou, conseguiu explicar o motivo da troca de opinião com perfeição.

    Ela estava livre e tranquila.

    — Entendi, obrigado pela explicação, Itsuki. Pode sentar. E você, Yuki, volte para sua cadeira, agora! — disse Ayumi, com tom firme e grosseiro, apontando para minha mesa.

    Olhei para Itsuki para confirmar se estava tudo bem.

    Ela deu um sorriso carinhoso e assentiu com a cabeça. Me deu um abraço forte após soltar minha mão.

    — Obrigado, Yuki! — disse ela, com tremor na voz.

    Apertei um abraço firme nela e voltei para meu lugar.

    — Agora vou escolher o segundo aluno para falar. — disse Ayumi, olhando fixamente para mim, com um tom grosso, enviando lanças de intimidação na minha direção. — Levante e nos conte, Yuki Hikaru!

    Estava torcendo para que ela me chamasse, pois assim poderia dizer o que penso sobre Chiheisen.

    Levantei com calma e ergui meu papel para ler.

    Porém, não quis ler; já estava em minha mente, então lancei meu olhar diretamente para Ayumi, encarando-a como sempre fiz.

    Nossos olhares travavam uma briga, olho por olho.

    A sala inteira moveu seus olhares para mim, alguns por conta do que tinha feito agora pouco, e outros por conta de eu ser um novato, todos curiosos para saber o que eu tenho a dizer sem precisar olhar no papel.

    — Na minha opinião, professora Ayumi, nosso enigma tem relação com o Horizonte sim, mas tem duplo sentido. Ele envolve o Horizonte, mas também nosso passado, passado que deixamos para trás, envolve psicológico e trauma com pesadelos.

    — O que você quer dizer com isso? — indagou Ayumi, com um tom grosseiro.

    — Quero dizer que você fez esse enigma com duplo sentido. Além disso, pela sua reação quando Aikyo explicou, você estava desapontada por não termos descoberto isso, não estou certo?

    Ayumi arregalou os olhos e, por um segundo, desviou o olhar para sua mesa, voltando para mim.

    — Sim, você está certo. Mas quero que me explique como chegou a essa conclusão.

    — Foi difícil, mas consegui por conta da palavra “Kuma”, que me lembrou meu primeiro cachorro, e depois juntei com a descoberta da Aikyo sobre o lugar de liberdade que é o Horizonte.

    — Então, você só chegou a essa conclusão porque a palavra te lembrou do seu passado, e por isso conseguiu conectar o sentido do enigma com o passado e o sentimento de trauma com pesadelos, mas se não fosse por isso, você nunca teria chegado a essa conclusão?

    — Não exatamente. Consegui entender o duplo sentido porque a resposta era claramente sobre um lugar, mas percebi que no enigma diz que guia olhares, mas não passos, que todos seguem, mas nunca chegam, e que existe para todos, mas não é o mesmo para ninguém. Está falando de sonhos, pesadelos. Nós, rank cinza, não temos isso, mas um dia isso vai sumir, e vamos deixar para trás o que sempre esteve conosco.

    Ela cruzou os braços, mas sua face não tinha mais aquela expressão fechada, e seu olhar estava normal.

    — Compreendo, estou surpreso com seu poder de dedução; acertou em cheio o que havia preparado.

    Todos na sala começaram a cochichar, enquanto Aikyo me encarava com um olhar de fúria.

    — Mas por que você fez isso conosco? Deu um enigma diferente do restante?

    — Não importa, agora, por favor, arrumem as cadeiras; está na hora de eu dar umas aulas teóricas da linguagem horizontina. — disse Ayumi, pegando um apagador para apagar o que estava no quadro.

    — Mais uma coisa, professora: você também colocou mais uma coisa diferente nesse seu jogo. A palavra Chiheisen não significa liberdade. A tradução está errada; não sei o que ela significa, mas liberdade não é. O que significa realmente? — indaguei.

    Ela, que estava apagando o quadro, parou de fazer seus movimentos e ficou estática.

    Assim como todos da sala, ficaram olhando para mim e para a professora.

    Ela moveu seu corpo bem lentamente, de forma dramática, levando seu olhar de surpresa para mim.

    — O que… você disse? — disse ela, com um tom de voz trêmulo.

    Diferente de todas as vezes, dessa vez parecia que ela sentiu algo para ter mudado o tom de sua voz.

    Ela ficou estática, me olhando com seus olhos em constante movimento; sua expressão ficou perplexa, assustada, surpresa, curiosa. Ficou tudo, menos o normal dela.

    — Eu disse que Chiheisen está errado, não é liberdade. Por quê?

    Ela desviou o olhar, olhou para sua mesa, alisou seu cabelo e colocou o apagador de volta na mesa.

    — Você nunca aprendeu linguagem horizontina, garoto, então por isso não sabe. Mas todos da turma sabem o que significa liberdade, então só sente em sua mesa. Só isso.

    Ayumi voltou à sua postura e jeito normais, mas foi estranho o comportamento dela.

    Isso deixa claro que eu acertei, mas ela está escondendo algo sobre isso.

    — É óbvio que acertou, fui eu que lhe contei. — disse a voz.

    Sentei na minha cadeira enquanto alguns alunos riam de mim.

    De uma coisa eu sei: isso está bem suspeito.

    Mas o que significa Chiheisen afinal?

    A professora escreveu umas coisas importantes no quadro em relação à aula. Explicou algumas coisas, e todos os alunos acompanhavam com bastante atenção.

    Ninguém conversando, nem cochichando ou rindo. Todos focados na aula.

    A linguagem horizontina é bem estranha e diferente; não sei por que querem que aprendemos ela se, desde o início na CDA, as crianças aprendem japonês.

    Fora que não faz muito sentido certos verbos e conectores.

    O sinal tocou e fomos direto para o intervalo lanchar, para depois voltar para a aula novamente.

    O modelo de ensino daqui é igual ao que o Okawara fazia comigo: uma aula específica o dia inteiro, para fixar melhor na nossa mente a matéria do mês em apenas um dia.

    O refeitório ficava no primeiro andar, um pouco depois da entrada principal e antes da saída, é um lugar grande e com mesas enormes cheias de cadeiras de madeira. Lembrando um pouco o refeitório da CDA.

    Nas paredes brancas com traços cinzas em formas de folhas, havia estranhamente quadros com pinturas de comida.

    E o ar daqui é fresco e agradável.

    — Yuki… posso te perguntar uma coisa?

    Itsuki estava comigo passando o intervalo, no refeitório. Depois daquele momento complicado dela na sala, onde eu consegui ajudá-la, ela não ficou mais com aquela cara fechada que tinha no início da aula.

    — Pode sim, o que foi?

    Ela começou a girar uma mecha de seu cabelo, bem lentamente, uma mecha grossa; suas bochechas estavam coradas e seus olhos virados para o prato de comida.

    — Bem, é que tipo… o motivo de eu… estar… sabe? É porque…

    Antes dela terminar de falar, Aikyo chegou bem do meu lado, juntamente com Katsu de mãos dadas.

    As irmãs Yagame.

    — Revoltante, o que foi aquilo? O que tem na sua cabeça de falar que a professora está errada?

    Aikyo, nada educada, grosseira e com seu olhar frio, assim como sua expressão.

    Katsu olhou para Aikyo e tocou em seu ombro, como se estivesse tentando dizer algo a ela.

    — Desculpa, minha irmã Yuki-chan. Ela é grosseira assim mesmo, hehe.

    Katsu, por outro lado, é mais educada que sua irmã, mas quase igual a Itsuki; quando fala comigo, as bochechas ficam coradas, mas, diferente da Itsuki, seu olhar não se distancia de mim, ela continua me observando enquanto fala.

    — Ah, hehe, dá para ver que ela é grossa mesmo. Mas Aikyo, como ela disse, eu não sei linguagem horizontina, por isso digo aquilo.

    — Hmf… Era de se esperar de alguém fraco como você. Enfim, eu e minha irmazinha precisamos falar com você a sós. Venha agora conosco!

    Aikyo estava alternando seu olhar para mim e para Itsuki, indicando que não era para Itsuki ouvir nossa conversa.

    Entendo os motivos da Aikyo; provavelmente é sobre a investigação, mas esse era o pior momento para isso.

    — Mas agora? Pode ser outra hora, não?

    — Hmf… sabia, gente como você não tem compromisso… estou indo agora. — disse Aikyo, virando o rosto.

    — Calma, irmazona, já falamos dessa sua falta de paciência, calma e respira. Yuki-chan, tenta entender… minha irmã é que…

    Katsu mal consegue olhar para mim agora; que menina estranha.

    — Tschi. Que droga, vou te dar mais uma chance.

    Olhei para Itsuki; ela estava com uma face triste, com os olhos direcionados para baixo, mordendo o beiço.

    Consigo sentir essa tristeza dela; dessa vez ela não está me ignorando, só está impactada com esse momento.

    O que eu faço? Não posso conversar sobre essa investigação com Itsuki ouvindo, mas também não posso fazer isso com ela.

    Que pressão, estou até suando, apertando a palma da minha mão com meus dedos.

    — Itsuki, vem aqui!

    Uma voz surgiu distante; era Ayumi, parada com os braços cruzados.

    Itsuki ergueu a cabeça, mas com um semblante negativo; calmamente, levantou-se da cadeira sem falar nada.

    — Itsuki… você está bem? — indaguei, segurando sua mão.

    Ela parou; senti na nossa conexão uma tristeza grande, seu coração apertado, sua mão fraca e suada.

    Ela virou delicadamente para mim e disse:

    — Tudo bem, Yuki.

    E saiu andando até Ayumi; fiquei apenas acompanhando os passos dela, enquanto Ayumi me encarava com um olhar demoníaco.

    Que droga, estava dando certo, mas agora estraguei tudo. Ayumi agora deve ficar mais feroz ainda comigo.

    — Enfim, finalmente ela saiu, agora podemos sentar aqui.

    Aikyo sentou na minha frente, enquanto Katsu ia sentando do meu lado, mas ficou com vergonha e sentou do lado de sua irmã.

    — Vamos falar da investigação. Eu fui diretamente ao diretor conversar a respeito disso; eu absolutamente não quero você conosco, além de ser novo, é fraco mentalmente e fisicamente. Você não agrega em nada.

    — Irmã! Parou.

    — Ai ai, irmãzinha. Por que isso??

    Katsu puxou a bochecha da Aikyo; nesse momento vi uma face diferente dela.

    Seus olhos frios ficaram normais, sua expressão corporal mudou para alguém mais emocional. Até sua maneira grossa de falar ficou diferente.

    — Você sabe o porquê. Hmf. — disse Katsu, fechando os olhos enquanto cruzava os braços.

    — Desculpa, irmãzinha, vou pegar leve, tá bom? Desculpa, desculpa.

    Aikyo parece outra pessoa; o que é isso que estou vendo?

    — Hmf… hehe… tá bom, irmãzinha, eu desculpo.

    Katsu abraçou Aikyo, beijando a bochecha dela.

    Após esse momento familiar e estranho vindo da parte da Aikyo, ela percebeu minha surpresa com isso e rapidamente se recompôs.

    — Por que está me olhando assim?

    — Ah… bem… nada não. Continua o que estava falando aí.

    — Óbvio! Enfim, depois de eu ter me aberto e dado minha opinião, ele deu a dele também e explicou o motivo de querer você na investigação, e, no meu ver, não faz sentido; é uma opinião e motivo fútil. Mas não posso negar, já que ele me obrigou a isso.

    — Nossa, então quer dizer que ele disse o motivo? E o que ele falou?

    — Não posso falar. Enfim, só saiba que depois dessa aula iremos para a cena da investigação; se você demorar para chegar, vamos começar sem você, entendeu?

    — Hamm. Tá bom!? Não vou demorar. Estou tão ansioso quanto vocês para ir naquele lugar…

    Estou muito nervoso para ir, se eu for no lugar onde vi aquele objeto caindo no meu sonho e se ele estiver lá…

    — Ok! É só isso que queria te falar; na verdade, queria falar mais, porém minha irmazinha está aqui, logo não quero você perto dela nem conversando com ela.

    — Irmã!!

    — Hmf… — murmurou Aikyo, cruzando os braços.

    — Então tá bom… — disse, com um tom fraco em minha voz, sem entender esse comportamento delas.

    Que malucas.

    Elas levantaram e seguiram seu caminho com os braços cruzados.

    Katsu acenou para mim se despedindo com as bochechas coradas enquanto Aikyo fechou a cara.

    Arco: Investigação

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