CONTO: Cleiton, o Mal de Guerra
As chamas do incêndio no celeiro em que o portal se abriu rugiram mais alto. Os vários demônios saíram em fila, apressados e atropelando uns aos outros, gritando coisas como “morte aos humanos!”.
Abriram as grandes portas do velho espaço próximo da fazenda e a luz do luar caiu sobre um soldado completamente perdido no meio do caos. Tinha chifres negros e tímidos, pele vermelha escura e olhos amarelos brilhantes. Podia sentir o calor do fogo e das pessoas prontas para matar, ouvia os gritos do seu general, mas não disse nada.
Cleiton, o pobre demônio deixado para trás enquanto todos os outros marchavam em direção às pradarias verdes, que logo estariam em chamas também, não queria nem um pouco estar ali.
“Onde foi que eu me meti…”
O dia amanheceu belíssimo. A cascata de lava sobre o rio de sangue fervente, onde os condenados gritavam de dor e agonia, emanava um cheiro que abria o apetite para o café da manhã. Cleiton comeu o de sempre, sanduíche natural de baratas gigantes desfiadas com rúcula do pântano de cadáveres. Estava uma delícia.
Rumou do refeitório à guarita, onde ficaria de guarda no seu posto o dia inteiro, o que significava o mesmo de não fazer nada o dia inteiro.
— Que maravilha!
Colocou os pés em cima da mesa, arrancou uma meleca enorme do nariz e a posicionou do lado das outras 25 que já manchavam a parede. A simples guarita não guardava nada de útil, só pertences de Cleiton como revistinhas em quadrinhos, latas vazias de energético monstruoso, pacotes de macarrão instantâneo e seu travesseiro, porque ele dormia ali mesmo no meio de seu turno.
Ao saber que teria de servir o exército demoníaco obrigatoriamente, surtou. Ainda mais depois das histórias que ouviu sobre o General da Alma Nebulosa, um homem terrível que torturava os pobres soldados do serviço militar obrigatório.
Se tremeu inteiro durante a avaliação. Foi encarado nos olhos pelo próprio tirano do quartel, mas tudo acabou bem. Na verdade, quando suas tarefas foram delegadas, se surpreendeu de um jeito positivo. Não tinha nenhuma guerra acontecendo, então não tinha de fazer nada demais.
Depois de algumas horas lendo revistinhas e tomando energético, Cleiton se levantou para cumprir uma de suas poucas tarefas, varrer o pátio que sempre ficava sujo das cinzas vulcânicas que a cascata de lava expelia.
“Quando eu voltar, lerei o último capítulo daquele quadrinho, o: Meu Demônio: Academia! Quero saber o que vai acontecer com Douku!”
Ao terminar de jogar todas as cinzas de volta no rio, rumou até o almoxarifado para guardar a vassoura e pá. E então, antes que pudesse voltar para sua guarita, ouviu gritos ao fundo, até o momento ininteligíveis.
Não era tão estranho assim, pois o General da Alma Nebulosa se estressava com muita facilidade. Da última vez ele quebrou sua própria mesa com um soco, mas estranhamente não agrediu nenhum soldado.
Cleiton pensou sobre isso dias atrás, pois ouviu rumores terríveis sobre o homem.
“Talvez ele esteja querendo preservar seus homens? Para quê, uma guerra? Ou talvez só tenha se tornado uma pessoa melhor.”
Ele riu consigo mesmo. Até parece que uma guerra aconteceria. Ninguém nunca ousaria entrar em guerra contra os demônios do Kynto d’uz Infernos.
Os gritos aumentaram conforme ele se aproximava da guarita, e ao virar mais uma das esquinas de pedras vulcânicas, avistou uma fileira de soldados em continência. O próprio General da Alma Nebulosa ordenou-os dessa maneira, e quando viu Cleiton, gritou com ele também.
— Em formação, soldado! Vai! Vai!
Obviamente obedeceu. O general, que normalmente tem a pele vermelha claro, agora estava quase roxo. Cleiton pensou que talvez se tratasse do seu estresse, mas ao ver um sorriso enorme no rosto do demônio, notou que era pura empolgação.
— O grande dia chegou! Aqueles que coletaram seus memorandos, já estavam sabendo!
“Memorando?”
Cleiton não se lembrava de nenhum memorando.
— O memorando que fica colado no quadro de avisos!
“Ah… o quadro de avisos…”
O soldado tímido geralmente evitava o quadro de avisos por dois motivos: ficava próximo do escritório do general e da recepção, onde trabalhava uma demônia muito linda, mas que intimidava Cleiton pela sua beleza.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo general, que continuou o discurso.
— INVADIREMOS O MUNDO HUMANO! — Sorriu de ponta à ponta do rosto de forma muito macabra. — E MATAREMOS TODOS ELES! TOMAREMOS AQUELE MUNDO!
O pobre soldado comedor de macarrão instantâneo arregalou tanto os olhos que eles quase saltaram para fora das órbitas.
“COMO É?! SEM NOTÍCIAS ALGUMAS? SEM AVISOS?”
— Se estão se perguntando se não teve nenhum aviso, estão enganados, pois já citei os memorandos de dois dias atrás.
“DOIS DIAS?” Cleiton quase caiu duro que nem um mamão. “ELE ACHA QUE DOIS DIAS SÃO SUFICIENTES PARA SE PREPARAR PARA UMA GUERRA?!”
— Tenho certeza de que estão muito preparados, senhores! — O General da Alma Nebulosa deu alguns passos para trás e revelou o que tinha debaixo de seus pés.
Um pentagrama enorme pintado em sangue no chão de pedras vulcânicas do pátio brilhou em vermelho. O demônio sorriu mais uma vez e o portal se abriu ao meio da estrela invertida.
— Sei que estão preparados!
Desesperado e hiperventilando, Cleiton até cogitou fugir, mas sabia que seria muito pior se fosse pego. Ele não estava nem um pouco preparado, tudo o que ele fez desde que chegou no quartel foi relaxar e trabalhar sem disposição alguma.
Ao se virar, deu de cara com a recepcionista super linda, com seus cabelos loiros cacheados, olhos roxos penetrantes e roupa de combate rosa neon colada no corpo. Ela sorriu de forma afável, o que afetou o pobre soldado, que não teve coragem de fugir de fininho.
“Deixa isso pra lá, eu fujo na hora que ninguém estiver olhando. O portal demora para fechar. Enquanto a fila estiver saindo, eu estarei voltando!”
Ainda assim parecia um plano arriscado, pois tinham muitos demônios no quartel. Havia uma grande possibilidade dele ser atropelado nessa tentativa.
“Não custa nada tentar…”
Encarou o luar com seus olhos amarelos e com várias marcas de pés diferentes no rosto graças ao brutal atropelamento que sofreu.
“Merda.”
Sobraram poucos soldados no velho celeiro da fazenda. Os demônios tinham conhecimentos básicos e desatualizados sobre o mundo humano que conseguiam ao torturar as almas ou simplesmente ouvindo-as lamentar. Celeiros eram estruturas antigas e bem conhecidas, só não sabiam exatamente em que época se encontravam. Para Cleiton, significava mais dificuldades para elaborar seu plano de fuga.
Pensou que seria extremamente suspeito tentar abrir um outro portal. Além de ser difícil, o General da Alma Nebulosa detectaria facilmente. Caso fosse pego, seria tratado como desertor e torturado.
Enquanto pensava, a moça da recepção passou por ele e prendeu seus cabelos num rabo de cavalo. Se encararam por um momento e ela deu uma piscadinha. Subitamente Cleiton se sentiu bem mais corajoso, mas não o suficiente para lutar numa guerra.
“Pense, homem!”
Esbofeteou o próprio rosto várias vezes.
Sua coragem foi embora novamente ao escutar disparos de armas de fogo. Os demônios tinham amplos conhecimentos sobre essas armas, apesar de usarem somente lâminas que causavam dores lancinantes e terríveis nos humanos. Afinal, foram as armas de fogo que mandaram vários dos humanos para o Kynto d’uz Infernos.
Um disparo delas não chegava a matar os demônios por conta de sua regeneração, mas uma saraivada de balas provavelmente mataria se fossem descuidados.
A mente de Cleiton se iluminou como uma lâmpada.
“É isso!”
Os humanos tinham armas e ferramentas para se defender e ferir os demônios. Cleiton poderia fingir que esteve numa batalha terrível até a morte para usar a desculpa de “retirada estratégica”, basicamente fugir só que com estilo. Teria de ser bem calculado, ou ele poderia realmente morrer se fosse pego.
Finalmente saiu do celeiro, mas percebeu que estava desarmado e completamente indefeso. Voltou rapidinho, pegou uma das espadas caídas no chão, que provavelmente foi perdida no meio do tumulto e seguiu até a fazenda.
Com seu plano em mente, acompanhou os vários soldados durante o ataque à fazenda. Na primeira tentativa, entrou de cara na casa do dono do terreno, o homem que atirou com uma espingarda em alguns dos demônios, mas morreu rapidamente por ser um senhor de idade.
“Pobre coitado… mas ainda assim, que merda!”
Na segunda tentativa acompanhou uma frota de demônios que invadiu a cidade próxima. O ar era mais poluído do que na guarita onde ficava, mesmo que essa fosse invadida todos os dias por cinzas e fumaça vulcânicas. Os humanos contra-atacaram com seus carros, máquinas mortíferas de quatro rodas — pelo menos foi isso o que Cleiton entendeu, já que vários dos mortos apareciam no inferno após uma dessas passar por cima dos coitados.
As máquinas tinham inscrições na traseira, uma delas, a que atropelou um demônio em alta velocidade bem ao lado de Cleiton se chamava “Opala”, um nome bem mais demoníaco do que “Cleiton”, diga-se de passagem.
A batalha foi perdida desse lado, poucos demônios saíram vivos e novamente o plano falhou.
Pelas próximas horas noturnas, acompanhou as várias fileiras de guerreiros infernais tentando colocar seu plano em ação e se viu diante das mais perigosas e bizarras situações.
Um dos grupos de humanos que foi massacrado em poucos segundos tinham os olhos vermelhos como alguns demônios. Ao investigarem, encontraram algo chamado “erva do Diabo”.
“Curioso…”
Mas como eles morreram rapidamente, nada de fingir e recuar.
Em um outro momento mais tarde da noite, rumaram à outra cidade próxima da fazenda, que por algum motivo tinha os humanos mais assustadores que Cleiton já viu. Todos tinham pouco cabelo na cabeça, eram barrigudos e gritavam coisas sem sentido. Seus bafos cheiravam a álcool.
“Por que alguém beberia álcool?”
Os demônios só usavam isso para fazer combustível e olhe lá.
Por algum motivo os velhos barrigudos foram os inimigos mais difíceis. Possuíam armas de fogo e garrafas de vidro altamente cortantes. O soldado se viu correndo de lá depois de poucos minutos na estrutura humana chamada “Bar de Eskina”. Que lugar amaldiçoado.
A invasão não tardou a ser percebida pelos humanos de fora desse território, ou seja, logo ficaria perigoso.
“Preciso arrumar um jeito”, ponderou Cleiton enquanto subia um dos montes verdejantes, acompanhando outros soldados.
Pode ver o General da Alma Nebulosa na distância, comandando seus homens e lutando bravamente com sua cimitarra. Novamente os seres infernais estavam vencendo, massacrando os humanos conhecidos como “hippies”, aqueles que usavam as ervas do Diabo.
Quando chegou na casa em questão, avistou a garota de roupas rosas experimentando essa tal iguaria dos humanos que tanto falaram. Ela mastigou o pequeno bastão de papel com plantas dentro e falou que o gosto era terrível.
“Os humanos têm mal gosto mesmo.”
O plano ia de mal a pior. Os humanos que antes tinham conseguido sobreviver à ofensiva, agora caíam diante da vantagem numérica do exército de demônios. Era madrugada e Cleiton nem chegou perto de começar seu plano.
“E se essa guerra se arrastar por dias? Semanas? Meses? Anos?! Eu não quero mais ficar aqui!”
O pobre amante de macarrão instantâneo, energético e quadrinhos só queria voltar para casa e relaxar. Pensou nisso enquanto seguia a fila de soldados, que agora saltavam sobre um muro protegido por arame farpado. Os demônios usavam essa ferramenta com bastante frequência no inferno para torturar as almas perdidas.
Uma vez Cleiton se feriu posicionando um desses e foram cortes feios, tanto que demoraram uma hora para regenerar.
Seus olhos arregalaram e seus chifres quase brilharam com a epifania que o jovem teve.
“Mais uma ideia! Dessa vez vai funcionar!”
Para não depender de ter um encontro direto com um dos humanos para concluir seu plano, uma armadilha seria perfeita. Ele mesmo poderia fazer a armadilha de arames farpados, se jogar nela de cara sem se ferir muito gravemente e alegar que precisaria retornar ao inferno. Daí seria só escapar do exército e viver a sua vida feliz com sua ótima alimentação e hobbies.
De fininho, se separou do resto do grupo, usou a espada para cortar os arames em cima do muro e foi correndo até uma distante casa carregando o metal afiado desajeitadamente e se cortando inteiro no caminho.
O plano era bem simples, exatamente como elaborado, cair de propósito tomando cuidado para não se ferir tão gravemente depois gritar ensandecidamente por ajuda até alguém realmente aparecer. Alegaria que foi atacado por humanos e que sua regeneração não funcionou como deveria e que tinham de voltar ao Kynto d’uz Infernos.
“Eu sou mesmo um gênio!”
Depois de cavar um buraco enorme no chão, com uma pá que encontrou, para plantar sua armadilha de arames farpados, cobriu tudo com um pano velho, como se fosse realmente para alguém pisar sem querer, cair no buraco e se furar todinho.
O estranho mesmo era o silêncio que fazia nesse lugar. Cleiton veio até o terreno de um casarão nessa cidade próxima da fazenda. Não tinha nenhum humano ou demônio, então se caísse agora, Cleiton ficaria muito tempo gritando até alguém chegar.
“Talvez eu devesse esperar alguma movimentação…”
Ao fundo, bem longe, pode ver seus companheiros realmente lutando, mas não se sentiu mal por ser um vagabundo. Existiam pessoas que nasciam para lutar e outras que não. Faz parte. Ele era do grupo que não lutava e nem se levantava para nada, o tipo vagabundo mesmo e se orgulhava disso.
Após alguns minutos de espera, em que aproveitou para comer algumas coisas do armário dos fundos da casa, ouviu o roncar daquelas máquinas mortíferas ao longe, mas o som estranhamente se aproximou de forma extremamente veloz.
Logo viu os chamados “faróis” da máquina, lanternas que iluminavam à frente do automóvel e seu roncar. Uma batida forte na frente da estrutura fez tudo tremer.
“O automóvel acabou de se chocar com a casa?”
Antes de pôr em prática seu plano, tinha de ter certeza de que os demônios estavam vencendo desse lado, ou simplesmente seria morto pelos humanos ao cair na própria armadilha.
Furtivamente andou pelas sombras do quintal povoado de mato alto e ervas daninhas para observar à frente do terreno. Viu uma cena catastrófica, para se dizer o mínimo.
O carro se chocou com à frente da casa, quebrou a parede e entrou no primeiro cômodo, a sala. Dentro do carro estavam alguns demônios e humanos brigando entre si, se mordendo, se batendo e se cortando.
— Morram seus humanos malditos!
Acima do capô da máquina estava o General da Alma Nebulosa combatendo um humano com sua cimitarra. O inimigo usava uma lâmina também, grande e afiada para os trabalhos no campo.
Ambos estavam muito machucados, mas por conta da regeneração, o general parecia bem melhor. O humano completamente ensanguentado, escorregou no capô e levou o general ao chão junto com ele.
A pesada queda foi só uma das coisas chocantes que aconteceram nessa batalha sangrenta. Dois dos demônios que estavam dentro do carro degolaram um dos humanos e o pescoço esguichou sangue como uma mangueira, pintando o interior do carro.
O outro conseguiu sair com sua arma de fogo e disparou para todas as direções. Cleiton teve de tomar cobertura para não ser atingido.
“Isso é justamente o que quero evitar, que horrível! Como as pessoas preferem isso a ler quadrinhos de boa? Belzebu me livre!”
Quando tomou cobertura na parte lateral da casa, pôde ver o horizonte mais distante e avistou também vários humanos se aproximando com suas armas, provavelmente daquele reforço, pessoas de fora da cidade.
Cleiton ficou nervoso, suou frio, pois não sabia o que fazer. Se avisasse a seus companheiros demoníacos, eles poderiam vencer de lavada, não dando chance dele fingir que caiu nessa armadilha óbvia. Mas se não avisasse, poderiam realmente perder essa guerra.
Talvez esse fosse o momento certo para cair?
A dúvida mortal, literalmente, lhe custou alguns anos de vida só pelo estresse. Cleiton coçou a cabeça, olhou várias vezes para a batalha sangrenta e para os reforços humanos se aproximando…
— General! — Se aproximou correndo do General da Alma Nebulosa, que nesse momento, terminava o serviço com o humano fazendeiro, decapitando-o.
— O que foi, soldado?! Não vê que estou ocupado aqui? — disse com um sorriso enorme no rosto. Não parecia estressado. — Diga o que quer!
— Ali!
Cleiton apontou para os reforços humanos já próximos da residência.
— Mas que merda! Soldados, de prontidão!
Os outros demônios, que também venceram seus respectivos combates, se viraram, estalaram os pescoços, e preparam suas lâminas. Um deles até lambeu o sangue na espada.
“Que nojo…”, Cleiton revirou os olhos.
O soldado tímido e fracote também foi obrigado a sacar sua arma, até porque tinha de fazer uma boa atuação de soldado que realmente guerrearia. Mexendo as pernas e batendo os pés, Cleiton sentiu mais uma gota de suor frio caindo de sua testa.
“Calma, calma… é só deixar que se aproximem, depois esperar por uma brecha. Daí vou até os fundos, me jogo na armadilha e espero o general lidar com todo mundo. Não deve ser tão difícil assim…”
Encarou os outros demônios, animados até demais para a matança. E enfim, os humanos chegaram. Foi horrível.
Nos primeiros segundos de combate, Cleiton nem sabia mais onde estava. Ouviu os tilintares das lâminas se batendo, os disparos das armas dos humanos e os gritos do general de dor e de animação. Viu sangue, que caiu sobre seus olhos e o entorpeceu por um longo momento.
Ao abrir novamente os olhos, já estava tudo diferente. Todos ensanguentados, todos sentindo a dor e euforia da batalha, mas ele não. Cleiton só queria sair dali, na verdade essa sua determinação foi o que deu o impulso que ele precisava.
Depois de poucos minutos, pode entrar naquela coisa desagradável que era a batalha. Brandiu sua espada de forma desajeitada, sofreu vários cortes e tomou alguns tiros de raspão, que demoraram a regenerar. Ainda não entendia porque os outros demônios gostavam tanto disso.
Depois de ficar aparentemente bem ferido, ensanguentado e com cara de cansado — porque realmente estava — colocou o plano em ação. O General da Alma Nebulosa, distraído com a matança, não percebeu quando seu soldado desapareceu para os fundos da casa.
“Certo, consegui fugir, mas como dói! Cacete!”
Pôs a mão sobre um ferimento ainda sangrando, rezando para que se curasse logo. Cambaleou com a visão turva até o buraco tapado de um jeito bem óbvio e encarou sua própria armadilha com medo.
Sua visão estreitou e ele sentiu ainda mais dor em seu corpo, na sua carne ferida. Ele não queria sentir mais dor do que agora. Como foi que ele cogitou esse plano terrível? Poderia ter outra oportunidade de fugir. Ele poderia muito bem esperar por outra brecha…
“Eu não quero mais essa merda.”
Ficou de frente para o buraco por mais tempo do que devia e ouviu passos rápidos se aproximando. Um dos humanos, já com o rosto desfigurado pela batalha, bradou e ergueu revólver para disparar.
Cleiton não estava preparado, nunca esteve e nunca estaria para esse tipo de coisa. Não queria mais sentir dor. Só queria voltar para casa. Seus olhos se fecharam.
Quando voltou à realidade, já estava fincando sua espada no pescoço do humano, encarando seus olhos vidrados.
A última visão do humano foi um demônio vil e terrível de olhos amarelos o matando a sangue frio.
O soldado viu um humano apavorado, morrendo numa guerra sem sentido.
Quando o corpo caiu, Cleiton caiu junto de joelhos.
“Puta merda, puta merda!”
Vomitou sangue do ferimento que nem sabia que tinha. No calor do momento o humano disparou, mas ele não sentiu, só reparou quando viu o sangue jorrando de seu estômago. Caiu de barriga para cima, encarando o céu noturno acima do quintal da casa.
“Acho que dá para pedir socorro já, né?”
Seu corpo fraquejou, não conseguia sequer se mover direito.
Antes que pudesse tentar gritar por ajuda, mais passos surgiram. Ele se alertou, levantou a cabeça para ver se não era outro inimigo e viu o general terminando o serviço em mais um dos humanos, tirando a lâmina de sua garganta e deixando cair o corpo frio.
“Graças aos demônios…”
Cleiton se esforçou para fazer uma continência, ainda muito ferido, mas o general fez um gesto o impedindo.
— Não precisa, soldado. Vi que fez um ótimo trabalho por aqui! — disse enquanto chutava de leve o corpo frio do humano que Cleiton matou. — Foi um revólver que te feriu, hã? Não se preocupe, já já vai curar. Poderemos voltar ao campo de batalha logo, logo!
“O que?! Voltar?”
Cleiton tentou protestar, mas tudo o que saiu de sua boca foi sangue.
— Não force, garoto! Deixe que a regeneração faça seu trabalho. Eu também não estou no meu melhor estado.
O fraco soldado reparou somente nesse momento que o General da Alma Nebulosa, um dos demônios mais temíveis, estava um caco. Todas as partes do seu corpo pareciam feridas, de algum jeito. Sangue cobria toda a sua pele e o sorriso desapareceu por conta da dor, mas ele ainda parecia estar gostando, só se cansou um pouco.
— Bom… podemos descansar juntos, soldado. Vou buscar um lugar para me sentar.
Por um breve momento encarou o quintal da casa enquanto Cleiton desistia de tudo.
“O plano deu errado… vamos voltar para o campo de batalha! Para esse inferno! Isso sim é o inferno, não minha guarita com quadrinhos e macarrão!”
Desistiu de seu plano. Não sabia se bolaria outro, se tinha forças para isso… Talvez lutasse na guerra… Não seria nada bom, mas talvez fosse só o destino.
— Ah! Achei um bom lugar para me sentar! Esse canto do quintal tá até forrado por um pano!
“Como é que é?”
O General da Alma Nebulosa se abaixou e apoiou as mãos no pano que cobria o sólido chão de terra do quintal da casa…. ou pelo menos era para ser assim.
“Puta merda.”
Cleiton não falou nada ou se moveu. Não conseguia. Mas também não sabia se faria alguma diferença se pudesse. Viu como se o mundo estivesse em câmera lenta, o general do exército demoníaco cair na armadilha que ele fez.
Os gritos foram terríveis. O pobre homem, já completamente ferido, agonizou por alguns segundos antes do quintal ficar em completo silêncio.
O soldado só continuou admirando o céu noturno em completo choque. Não sentiu nada. Não poderia, e não queria.
“Que tipo de situação de merda é essa, porra?!”
Cuspiu mais sangue e continuou deitado.
Depois de alguns minutos de entorpecimento, voltou a ouvir o mundo como ele era. Os dois demônios vitoriosos e contentes caminharam até o quintal, conversando entre si animadamente sobre o último combate ao lado do general.
O baque foi grande quando se depararam com a situação. Paralisaram. Primeiro viram os cadáveres dos humanos, depois Cleiton quase morto e então…
— Puta merda! General!
Eles até tentaram salvar seu superior, mas obviamente já tinha se passado muito tempo. Nem mesmo a regeneração demoníaca era tão poderosa assim.
— Meu Belzebu! Como isso foi acontecer?! Esses humanos! — disse o soldado que analisou o corpo do general.
— Realmente, mas… — O outro encarou Cleiton no chão. — E esse carinha aqui? Ele sobreviveu a isso tudo? Algo que nem mesmo o general pode?
Cleiton não pode responder, ainda não tinha forças para tal, mas pensou no pior.
“Merda, serei acusado de traição! Parece muito que eu matei ele! Bem… eu matei, mas não foi de propósito! A minha vida acabou de piorar ainda mais! Talvez eu prefira o campo de batalha do que isso!”
Os dois outros demônios se aproximaram enquanto encaravam duramente o soldado Cleiton. Fizeram silêncio, o analisaram, depois se entreolharam…
— Esse cara fez um puta feito, né não?
— Pois é… Dá até para considerar ele como o próximo general!
“Hein?!”
— E aí, senhor! — O primeiro demônio fez uma continência. — Quais as próximas ordens?
O outro o acompanhou, fazendo uma continência bem respeitosa.
Cleiton sabia muito bem que os demônios apreciavam a meritocracia mais do que qualquer coisa, o mais poderoso, mais cruel e mais resistente governaria. Mas essa situação era incomum, talvez causada pelos sentidos à flor da pele graças a batalha.
Ainda não tinha conseguido internalizar tudo, mas como não era bobo, se aproveitou. Cuspiu ainda mais sangue, mas com muito esforço, Cleiton conseguiu dizer apenas uma palavra:
— Recuar…
Depois de alguns dias no Kynto d’uz Infernos, Cleiton foi nomeado como o General da Alma Nebulosa. Não esperava por isso, e então a todo momento forçou muito expressões falsas para não parecer chocado ou nervoso.
Como queria a sua vida de paz, não tardou até dar a primeira ordem oficial àquele quartel: “Sem mais guerras!”. Disse no seu discurso que os humanos eram muito perigosos e mortíferos e que tinham de treinar muito mais antes de voltarem ao mundo humano.
Depois de pouco tempo estabeleceu a sua rotina padrão no quartel: entrar no seu escritório e não fazer nada.
“Que vida boa!”
Colocou os pés em cima da mesa de madeira polida, arrancou uma meleca enorme do nariz e a posicionou do lado das outras 25 que já manchavam a parte debaixo do tampo de madeira. O escritório guardava várias coisas, dentre elas os pertences de Cleiton como revistinhas em quadrinhos das mais caras e de alta qualidade, latas e mais latas de energético monstruoso, pacotes de macarrão instantâneo e seu travesseiro, porque ele cochilava ali na hora que queria.
Tudo aconteceu exatamente como o destino queria. Não foi o que Cleiton planejou, foi ainda melhor. Agora faria isso de novo e de novo até se aposentar.
Foi isso o que pensou.
Um de seus soldados entrou apressado no escritório depois de algumas batidas. Esbaforido, suado e claramente nervoso, colocou alguns papéis sobre a mesa de Cleiton.
— O que foi soldado? — O general terminava uma cumbuca de macarrão instantâneo sabor almas perdidas. — Alguma coisa urgente aconteceu?
— Sim senhor! Uma guerra!
— O que? Como assim guerra? O que quer dizer com isso?
— Os humanos descobriram como chegar até aqui! Querem vingança pelo que aconteceu anos atrás!
O general encarou seus pertences, sua vida de paz, seu escritório bonito e cheiroso…
— Chame todos os soldados para o pátio! Vamos guerrear!

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