Capítulo XXXVIII (38) - Torre Prisão
— Vigésima camada? — murmurou o jovem, sem acreditar nas palavras de Mei.
Hua Yuling Renyan também estava na vigésima camada do primeiro reino, assim como Wen Qishu Mei. Todavia, a pressão que Mei fazia no solo, a forma na qual ela olhava para o jovem, demonstrava um poder muito superior, no mínimo equivalente a um cultivador na décima camada do segundo reino.
— Não minta para mim, sua vadiazinha… — O insulto saiu sem confiança da boca dele.
Com uma leveza acima do comum, Mei levantou sua espada, sem se importar com o xingamento, e as chamas que incendiavam as plantações atrás dela, começaram a envolver o fio da Liuyedao.
Olhou uma última vez para o pequeno amuleto em sua mão esquerda. Era feito de madeira, com pequenas inscrições e ideogramas em relevo, assemelhava-se a uma pequena tabuleta, um pouco menor que uma mão.
Ela apertou o objeto, que se quebrou em dois pedaços e caiu no chão. Em último golpe de fúria, pisou e esmagou o amuleto, que se partiu ao meio.
— Eu cansei disso… — Mei falou em um suspiro longo. Sua espada levantou-se conforme seu olhar se tornou mais determinado. — Não estou lhe pedindo, saia da minha frente.
O jovem ficou paralisado, como uma estátua. Sabia que o mais prudente era recuar, mas sua honra não lhe permitia. O que seria dele se deixasse uma garota falar com ele daquela forma? Estava dividido, até decidir o seu destino.
— Não vou ceder um único pé para trás.
Ergueu a Guan Dao e a golpeou contra a terra com violência. O impacto abriu uma rachadura que avançou pelo solo até alcançar Mei.
A terra sob seus pés tremeu.
No instante seguinte, a força ascendente a lançou no ar. Seu corpo foi projetado para frente, diretamente na direção do oponente, que estava com a ponta da Guan Dao como um espeto mortal. Sem conseguir desviar no ar, Mei foi forçada a usar sua Liuyedao flamejante para bloquear o ataque.
Assim que conseguiu estabilizar seu corpo, se impulsionou para trás, para longe do oponente. Deslizou alguns metros para trás e, sem hesitar, contra-atacou, um arco de fogo lançado à frente.
O jovem arregalou os olhos.
Com pouco tempo para reagir, bateu a arma no chão mais uma vez, e canalizou seu Qi para a técnica defensiva. A terra ergueu-se diante dele, formando uma parede espessa para conter as chamas.
A labareda não atravessou de imediato, mas se espalhou pela superfície, queimando com intensidade crescente. Aos poucos, a barreira começou a ressecar e a se fragmentar devido ao calor das chamas.
O cultivador manteve-se firme, os dentes cerrados, e forçou sua força vital para manipular a terra e sustentar a técnica.
Então, as chamas acabaram de uma maneira abrupta.
“Ele havia vencido?”, esse foi o seu primeiro pensamento. Um olhar vacilante que logo foi contaminado por uma arrogância infundada.
A parede de terra desabou como se fosse feita de areia molhada. Ele olhou para os lados, mas não podia mais encontrar onde Mei estava.
— Onde… — murmurou, e sentiu a lâmina atravessar suas roupas e transpassar seu coração.
Olhou para baixo, a lâmina da espada cravada no seu peito. Caiu de joelhos, sem forças nas pernas, e depois desabou para frente. Mei estava atrás dele, com a respiração um tanto ofegante, a espada agora manchada de sangue.
— Você é boa com uma espada… — disse Lefkó, enrolada no pescoço de Mei. Havia uma sutileza em seu elogio, escondia segundas intenções.
— Obrigada — respondeu, um tanto tímida, ao voltar a correr, com foco na torre que se projetava na sua frente.
— Qual sua raíz espiritual? É realmente fogo? — perguntou Lefkó, em um tom quase que de ignorância.
— Já me fiz essa perguntas muitas vezes, nem eu sei a resposta… —- murmurou, em um tom melancólico.
Pouco depois, chegaram à entrada da torre-prisão.
A estrutura erguia-se em camadas simétricas, com múltiplos beirais projetando sombras rígidas umas sobre as outras. Seis andares ao todo, os inferiores mais largos, sustentando os superiores que se estreitavam gradualmente.
Em circunstâncias normais, a entrada estaria sob vigilância constante, protegida por um número considerável de guardas.
Mas não havia ninguém ali.
Ou melhor, não havia mais ninguém com vida.
As escadas de acesso ao portão principal do edifício estavam encharcadas de sangue, que pingava lentamente. Um contraste com os corpos espalhados pelos degraus, muitos já em avançado estado de decomposição. Ferimentos profundos marcavam a maioria deles, cortes limpos de lâminas, membros arrancados, carne exposta em padrões de violência precisa e brutal.
Mei prendeu a respiração, ao subir as escadas e tentar não se sujar com toda aquela bagunça.
— O que aconteceu aqui? — murmurou ela, logo após entrar e empurrar as portas pesadas até fechá-las completamente.
Suas mãos tremiam, não era a primeira vez dela vendo um cadáver, todavia, toda aquela brutalidade deixava um gosto amargo na boca dela. Tentou esquecer o que havia visto, e focar na missão de resgatar o seu tio.
O interior da torre era dominado pela penumbra. A maioria das lanternas havia sido apagada, restando apenas uma tocha solitária ao lado da entrada. Uma sensação aterrorizante fez Mei arrepiar os pelos do corpo, ela podia sentir algo na espreita, no canto da sala.
Dois olhos brancos saíram da escuridão, e começaram a se aproximar, até desaparecerem em uma fumaça negra.
— Mestre das Marionetes, não se preocupe, estamos seguras agora — disse Lefkó para uma paralizada Wen Qishu Mei.
— O que foi isso? — questionou ela, ao balançar a cabeça e tentar afastar a sensação estranha que percorria seu corpo.
Mei fechou os olhos, e controlou a respiração, até se sentir preparada para enfrentar o perigo.
Levantou sua espada, a lâmina voltou a ficar em chamas, e iluminou toda a sala.
Subiu as escadas com uma certa apreensão, em silêncio quase absoluto, enquanto sua própria mente pensava em um milhão de possibilidades.
— Afinal? Thomas tem acesso a Qi? Ele é como eu? Por que eu já ouvi falar dessa técnica demoníaca, de infundir seu próprio Qi em bonecos de madeira e usá-los para batalhar, ou até mesmo carne de bestas espirituais.
— Não, ele não tem acesso a Qi. — Lefkó negou a afirmação imediatamente.
— Então, como aquele punhado de talismãs de papel funciona? — Mei sussurrava, e temia encontrar qualquer coisa ao virar as esquinas dos corredores.
— O Baralho Imperial? — Lefkó pensou por um instante em uma resposta convincente. — É um artefato, Thomas fala o nome da carta e utiliza os poderes embutidos nela.
Mei se calou, apenas absorveu as informações de Lefkó, para então, perguntar como uma criança:
— Então… você é o espírito de artefato dele?
— O quê?!
O grito de protesto de Lefkó foi tão alto, que fez Mei se assustar imediatamente.
— Olha aqui, sua garotinha. Eu não sou mascote, nem bicho de estimação, muito menos algo que pertença a alguém. Cuidado com o que diz.
— Perdão… — murmurou Mei, ao lançar um olhar rápido ao redor, com medo de ter sido vista. — Eu não vou repetir.
— Acho bom mesmo! — Lefkó sibilou, e encarou os olhos castanhos de Mei com seus olhos vermelhos. — Agora me diga você, por que um supressor de Qi? Por que você estava usando aquilo?
A pergunta atingiu Mei de forma inesperada.
— Foram ordens do meu tio, ele achava melhor, para chamar menos atenção, principalmente dos Hua Yuling, ou qualquer outra seita.
A voz dela falhou no final. O rosto se encheu de lágrimas. Ela abaixou a cabeça, encostou-se à parede fria de pedra e deslizou até se sentar no chão.
— Meu tio estava certo… — sussurrou, com amargura. — Sempre esteve.
Os dedos apertaram o tecido da roupa.
— Eu devia ter escutado… devia ter fugido com Lingxin…
A respiração ficou irregular.
— Eu estraguei tudo…
As lágrimas vieram, silenciosas no início, depois mais difíceis de conter.
— Eu não sou digna de estar viva…
A realidade voltou à tona quando a cauda de Lefkó bateu contra a bochecha de Mei.
— Pare com isso! Agora não é tempo de lamentar, não podemos perder tempo. Lembre-se do que viemos fazer aqui: resgatar o seu tio. Acha que ele gostaria de te ver chorando assim? Foco, garota, foco.
Mei soluçou por um momento e limpou as lágrimas.
Memórias vieram à sua mente, momentos em família, encontros com Lingxin. Cada lembrança carregada de nostalgia e dor, como os espinhos de uma bela rosa.
A tristeza deu lugar à raiva.
O medo que sentia de encontrar um dos guardas desapareceu. Em vez disso, foi tomado por uma vontade de matar, um ódio profundo, guardado há muito tempo, e que Mei nunca quis evidenciar.

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