Capítulo XXXVII (37) - Do Outro Lado
As ondas geladas batiam nas pedras e nos rochedos, enquanto o pequeno bote avançava contra a forte correnteza que tentava arrastá-lo para longe da ilha. Grandes ondas balançavam a embarcação para todos os lados. Wen Qishu Mei esforçava-se para conter o enjoo do mar, respirava fundo para não vomitar.
Em seu pescoço havia um peso que só piorava a situação. Lefkó estava agarrada a ela, enrolada com firmeza para não ser lançada ao mar pelas ondas.
Por fim, o pequeno bote alcançou a praia, movido por uma força que, para Mei, parecia sobrenatural. Ela mal conseguia acreditar no que via. Ainda assim, manteve-se firme. Colocou o capuz sobre a cabeça e seguiu em direção à abertura na rocha, a entrada do sistema de túneis que levava até a torre onde Jiahao era mantido prisioneiro.
Temia encontrar as patrulhas de vigia, todavia, a praia estava vazia, nenhum dos costumeiros guardas estava de prontidão ali. Ela caminhou até a abertura, e colocou o olhar no corredor de pedra, apesar das tochas e lanternas nas paredes, as vigias não estavam ali.
Esgueirou-se para dentro, até sair do outro lado, onde havia um plantação de diferentes ervas medicinais.
Quatro corredores de plantio centrais estendiam-se paralelos, cada um com o cultivo de diferentes ervas, flores raras e plantas de aroma intenso. Atrás, um imenso paredão de pedra, com a entrada para a passagem para a praia, e na sua frente, uma pequena casa de ervas, com um pequeno caminho para uma estrutura maior, o cofre dos Hua Yuling.
O edíficio que guardava os tesouros da seita era parcialmente escavado na própria rocha, um prédio de quatro andares, e muitos mais subterrâneos que alguns poucos conheciam e tinham acesso. Deveriam haver sempre guardas nas escadarias, entretanto, eles não estavam lá. Se algum dos piratas quisesse invadir o cofre, encontraria nenhuma resistência.
Mei atravessou pelas plantações, cuidadosa para não chamar muita atenção. Avistou ao longe, duas cortesãs que corriam, para a cidade fortificada que existia no centro da ilha. As duas correram por ela, e nem a notaram. Mei soltou um suspiro contido, aliviada por não ter sido reconhecida ou questionada. Ajustou o capuz para cobrir melhor o rosto e manteve-se firme no caminho até a torre.
Os primeiros inimigos apareceram, dois cultivadores do pátio externo, e um do pátio interno. Todos eram jovens adolescentes, não mais do que vinte anos. Estavam ofegantes, os membros do pátio externo empunhavam lanças, um pouco maiores que uma espada longa, enquanto o membro do pátio interno empunhava um grande e bonito Guan Dao, quase do tamanho dele.
Eles estavam justamente no meio do caminho até a torre, guardavam uma estreita passagem entre os penhascos, na qual seria impossível para que Mei passasse por outro caminho.
Hesitante, Mei retirou sua Liuyedao, e a empunhou.
Apesar da escuridão da noite, e da névoa negra que cobria o céu, a lâmina da espada brilhou ao ser removida da bainha. Refletiu a luz das tochas e lanternas.
Os três cultivadores a encaram juntos, o olhar um tanto preocupado.
— Senhorita Wen Qishu Mei… — O cultivador do pátio interno soltou um sorriso um tanto satisfeito, e caminhou para frente. Sua gigantesca Guan Dao apoiada no ombro. — Veio se entregar? Assim como seu patético tio?
“Mantenha-se calma”, pensava Mei, em um respiração contida, para evitar que a raiva a cegasse.
— Ei, ele falou com você, vadia — falou o outro, ao dar um passo para frente, e levantar a ponta da lança.
Sem se importar com os insultos, Mei removeu o capuz, para melhorar sua visão em combate. Depois, jogou o corpo para frente, a espada para trás, e preparou-se para atacar. Aquela postura confiante de Mei, deixava eles desconfortáveis, era eles que deviam ter o controle da situação, não ela. Embora um pouco hesitantes, eles iniciaram suas movimentações para atacar.
Os dois cultivadores do pátio externo avançaram primeiro, suas lanças lhe permitiam um maior alcance quando comparados com a Liuyedao de Mei. As estocadas vinham alternadas, rápidas e coordenadas, Mei tinha que se manter alerta e ágil para se defender de dois golpes ao mesmo tempo.
Até que um deles cometeu um deslize, avançou mais do que deveria.
Com a ponta da Liuyedao, Mei pressionou a haste da lança para baixo, e usou a própria arma do oponente como apoio. Impulsionou-se como se pisasse num galho firme e saltou por cima dele.
Com a ponta da sua Liuyedao, Mei desviou a lança para baixo, e a usou como trampolim para saltar por cima dele. O segundo adversário reagiu por instinto. Levantou a lança numa tentativa desesperada de atravessá-la no ar. Um movimento imprudente, que permitiu a Mei contra-atacar ainda no ar, ao descer sua espada em um arco vertical que cortou o cabo da lança em dois pedaços.
Ela aterrissou leve, quase sem barulho, atrás dos dois cultivadores, antes que eles pudessem se reorganizar. Num único movimento fluido, girou o corpo e traçou um círculo perfeito com a espada no ar.
A lâmina incendiou-se sozinha, entrou em autocombustão.
O fogo surgiu primeiro na base, depois se alongou, alimentado por uma rajada invisível que expandiu as chamas em espiral.
Uma lufada de calor explodiu para frente.
Os dois cultivadores foram lançados no ar com a força do impacto, suas roupas em chamas. Eles caíram sobre as plantações de ervas medicinais, as folhas, sensíveis, inflamaram-se com facilidade, e em poucos segundos, toda a plantação começava a ser consumida pelas chamas.
Mei desviou o olhar dos dois que se contorciam no chão para tentar apagar o fogo. Ela concentrou-se no que restava.
O jovem da Guan Dao soltou um suspiro pesado, antes confiante, agora hesitava em dar o primeiro ataque. Os dedos dele apertaram o cabo da arma, não em uma postura ofensiva, e sim defensiva.
— Qual… qual sua camada? — gaguejou, tentava encontrar dentro de si toda a força para enfrentar Mei.
“Qual minha camada?”, Mei refletiu naquela pergunta, e as memórias inundaram sua mente.
Colocou a mão no pescoço, logo abaixo de Lefkó. Sentiu o peso do pequeno amuleto, o mesmo objeto que, por tantos anos, a restringia. Um selo de Qi, destinado a impedir a livre circulação pelos meridianos. Tinha a aparência de um simples pingente: uma pequena jade na parte da frente e, na face posterior, diversas inscrições e símbolos gravados com precisão. Permanecia o tempo todo oculto sob suas vestes.
Mei fechou os olhos, colocou a mão esquerda sobre o selo, e o arrancou em um único movimento.
Imagine uma torneira mal fechada, da qual caem apenas algumas gotas de tempos em tempos. De repente, alguém a gira de uma vez.
— Minha camada? — Mei sentiu pela primeira vez em muito tempo, o seu corpo vivo, liberado em seu potencial máximo. — Vigésima camada…da frente e, na face posterior, diversas inscrições e símbolos gravados com precisão. Permanecia o tempo todo oculto sob suas vestes.
Mei fechou os olhos, colocou a mão esquerda sobre o selo, e o arrancou em um único movimento.
Imagine uma torneira mal fechada, da qual caem apenas algumas gotas de tempos em tempos. De repente, alguém a gira de uma vez.
— Minha camada? — Mei sentiu pela primeira vez em muito tempo, o seu corpo vivo. — Vigésima camada…

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