Índice de Capítulo

    O clamor da primeira disputa ficou para trás. O grupo avançou junto com o guia por mais uma rua de terra irregular, sendo seguido por parte dos silenos que assistiram à escalada de Magno. O fluxo de criaturas os levou de volta à estrutura de pedra circular onde ocorria o campeonato de bebedeira.

    Posicionado no centro, o sileno obeso repousava as costas contra um pedaço de parede quebrada. Seu ventre volumoso apoiava-se sobre as pernas grossas enquanto ele segurava uma ânfora vazia com as mãos largas e gritava ordens ininteligíveis para as ninfas que transitavam ao redor com recipientes novos.

    Sileno parou de frente para o círculo manchado de vinho escuro.

    — Vocês já mostraram que sabem usar os pés — esfregava as palmas das mãos. — Agora testaremos o estômago de vocês. Nosso campeão ali não é derrotado há três dias consecutivos.

    Magno cruzou os braços e olhou para Sêneca.

    — É a sua vez, falastrão.

    Sêneca deu um passo curto para trás e engoliu em seco, então coçou a têmpora com o dedo e fixou os olhos na sequência de cinco ânforas alinhadas na frente do sileno obeso. As vasilhas de barro tinham quase metade de sua altura.

    — Meu corpo possui uma tolerância extremamente baixa ao álcool, Magno — sussurrou ao tapar os lábios com a mão. — A ingestão de apenas uma daquelas medidas resultará em falência completa da minha cognição e dos meus reflexos.

    Hermes se aproximou dos dois, manteve os olhos direcionados para a arena e diminuiu o espaço entre ele e Magno.

    — Não precisará beber tudo — sussurrou de forma rápida e fria para os dois, antes de aproximar o rosto da orelha do ladrão. — fure todas. E seja discreto.

    Magno virou o rosto para Hermes. Um sorriso imperceptível surgiu no canto de sua boca. Ele olhou novamente para Sêneca e bateu a mão aberta no ombro do colega.

    — Não se preocupe com o conteúdo — o ladrão tentou encorajá-lo. — O seu único trabalho é manter o recipiente inclinado contra a sua boca pelo maior tempo possível. Deixe a natureza fazer o resto.

    O guia instruiu Sêneca a assumir sua posição no lado oposto do círculo. As ninfas com roupas de folhagens aproximaram-se de Sêneca carregando mais cinco ânforas idênticas às do sileno obeso e as alinharam no chão de pedra, demarcando o início da disputa.

    — As regras são simples. Beba o máximo que puder. Quem desmaiar, perde, quem derrubar a bebida, perde.

    Então, ele se virou para a multidão e com um dedo apontado para todos, gritou.

    — Qualquer tipo de ajuda está PROIBIDA!

    Todos gritaram em um coro comemorativo, não pareciam ter dado qualquer atenção às regras.

    Hermes se aproximou do centro e pigarreou.

    — Vocês não acham injusto que um homem com metade do tamanho beba a mesma quantidade que esta criatura?

    Os silenos se entreolharam por um instante, antes de virar de novo para Hermes com expressões ferozes e começarem a gritar.

    — Se não aguenta cai fora!

    — Ou bebe ou cai!

    Hermes disfarçou um sorriso e caminhou para a outra extremidade da ‘arena’. Os olhos e gritos o seguiam, reprovadores. O guia observava tudo em silêncio e interesse.

    Magno fingiu tropeçar em uma raiz exposta próxima ao círculo. Ele se abaixou com rapidez, posicionando-se atrás da linha de ânforas de Sêneca. A movimentação e os gritos da multidão focada no homem de cabelos brancos encobriram sua ação. 

    Puxou a adaga curta do cinto, deslizou a lâmina afiada sob a primeira ânfora e perfurou o fundo do barro cozido com torções firmes. Ele repetiu a perfuração na base dos três recipientes seguintes e guardou a arma antes que qualquer um notasse.

    Hermes parou na linha de frente dos espectadores, com as mãos nas costas, e viu de canto o afastamento silencioso do colega. A sabotagem fora concluída sem sofrer interrupções.

    — Quão honrados são os homens de hoje em dia… — Anaxímenes murmurou quando o ladrão reapareceu ao seu lado na multidão.

    Magno não pode evitar um sorriso.

    — Admiro o modo que você fala de homens atento ao fato de que não é um.

    Anaxímenes franziu o cenho.

    O guia ergueu o braço direito e baixou-o num corte rápido no ar. Era o sinal de início. Não tardou a buscar seu aulos e voltar a ilustrar a competição com outra de suas cantigas, esta, mais tensa que a primeira, mas ainda um tanto humorada.

    No mesmo instante, Linestes, o sileno obeso, agarrou a primeira ânfora pelas alças laterais. A criatura engoliu os litros de vinho escuro em poucos segundos, sem pausas para respirar e sem demonstrar qualquer desconforto ou alteração física.

    Sêneca levantou a sua primeira ânfora e inclinou a borda contra os lábios. O vinho encontrou os furos na lateral feitos por Magno. Escorreu em jorros finos e contínuos para baixo, encharcando o tecido da túnica e formando uma poça no calçamento de pedra. Ele fingia beber o volume total mas engolia apenas a quantidade exata de vinho que alcançava a sua boca antes de vazar.

    O sileno obeso atirou a vasilha vazia para o lado, soltou um arroto ruidoso e puxou a segunda ânfora. Alguns segundos depois, Sêneca imitou o movimento e iniciou o segundo recipiente.

    A tática de Magno drenava a maior parte do conteúdo para o chão de terra e pedra. Ainda assim, a pequena fração de álcool ingerida a cada gole era suficiente para perturbar o desacostumado organismo do colega.

    O rosto do homem começou a empalidecer. Suas pernas começaram a tremer.

    Linestes bateu a ânfora contra a mesa e dirigiu às ninfas que o rodeavam um murmuro bêbado enquanto balançava os braços. A terceira estava fora de seu alcance e ele não conseguia se mexer.

    Sêneca esticou as mãos instáveis e levantou a terceira ânfora. Mal encostou a borda de barro na boca e sentiu uma dor pontuda na boca do estômago. 

    Sob o olhar pesado do obeso, as ninfas se moveram em direção à outra ânfora para entregá-lo.

    Hermes deu um passo à frente com a mão repousada no cabo da espada em sua cintura.

    — Pensei que todo tipo de ajuda fosse proibida. — Seus olhos semicerrados continham uma promessa clara.

    As moças engoliram em seco e recuaram.

    Silestes começou a balançar como uma bacia, jogava com o próprio peso para tentar agarrar mais uma das ânforas por conta própria. Então, perdendo o controle do próprio eixo, foi ao chão.

    O impacto foi estrondoso, mas a estratégia havia funcionado. Ele estava agora mais perto dos recipientes. Agarrou o terceiro e voltou a beber.

    Sêneca lutava contra a própria turbidez. O peso da ânfora parecia crescer em seus braços, esmagar os seus ombros, à medida em que a esvaziava.

    Quando chegou à metade, foi como se algo se rasgasse em sua barriga. Seus olhos reviraram nas órbitas. Os músculos dos seus braços cederam por completo.

    A ânfora escorregou de suas mãos, atingiu o calçamento e estilhaçou-se, espalhando cacos de barro e vinho para todos os lados. Sêneca desabou de bruços sobre a poça escura, perdendo a consciência antes mesmo de o seu rosto tocar o chão molhado.

    O sileno obeso soltou uma gargalhada rouca. Ele bateu com as mãos no próprio ventre volumoso, terminou a terceira ânfora e gritou exigindo mais bebida para as ninfas ao redor, totalmente indiferente à queda do seu adversário.

    Magno praguejou em voz alta e bateu a mão na própria testa. Percebeu o seu erro de cálculo imediato ao subestimar a ausência absoluta de tolerância etílica do colega.

    Anaxímenes balançou a cabeça em negação, observando o corpo estirado no meio da arena.

    — Patético — o rapaz de Mileto comentou, cruzando os braços com uma expressão de desdém.

    Hermes caminhou até o centro do círculo. O deus agachou-se ao lado de Sêneca, segurou o ombro do estudioso e atestou a respiração pesada e o estado de inconsciência profunda, confirmando a derrota.

    Passou o braço por baixo da axila do colega, levantou-se com ele e encarou Sileno.

    Ele abriu o seu sorriso de dentes pontiagudos, bateu palmas e levantou as mãos na direção da multidão ruidosa.

    — O grande pensador encontrou o seu limite rápido demais! — elevou a voz acima dos tambores. — Temos uma vitória para cada lado da disputa. O placar geral das nossas festividades encontra-se empatado!

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