O Duque os desarmou sem delonga, agarrou cada um dos rifles, retirou-lhes o pente, e puxou o ferrolho para retirar a bala na câmara. Assim o fez com as pistolas de cada um, e então as jogou sobre o chão, assim como chutou os cartuchos para bem longe. Porém, por um tempo encarou aquele homem que seria vítima de um homicídio, e ponderou sobre o que tanto aquele homem fez, se falou a verdade, ou se, no fim, desenhou suas palavras como um homem sagaz, mas pouco importa: o olhar cansado havia gritado mais alto.

    De repente, passado aqueles tensos minutos, o cavaleiro então foi até o elevador, desenergizado, temendo que a escada fosse perigosa demais para uma entrada veloz, ou furtiva se o escolhesse a considerar o número informado a ele. Então, abriu a porta do elevador, e viu toda aquela coluna vazia e enorme que descia indefinidamente, além das polias daquele sistema. Assim, transmitiu sua voz ao rádio, pronto para informar o que descobriu.

    “Doutor Yezi, tenho atualizações, câmbio”, embora tivesse o aviso de que devia esperar, Itsuki já tinha um hábito, um tanto quanto discutível, de antecipar as transmissões. Depois, uma outra voz transmitiu de volta, provocando surpresa misturada com alívio.

    “Essa mania de se adiantar é ruim, Senhor Itsuki. Agora é Guo Cai, estou na escuta. Pois bem, enquanto ele não volta, ficarei aqui. Yezi escondeu meus óculos de novo, deixa eu ver!”

    “Qual é o problema dele com seus óculos? Eu tenho vontade de dar um peteleco em cada um por causa dessa besteira.”

    “Você não resolve um homem que a mãe mimou até não dar mais, não é? Se você pudesse…”

    “Não vou resolver problemas familiares, cabeçudo”, o jovem retrucou, enquanto segurava suas palavras de apreensão. 

    “Poxa, ele já está vindo. Acho que ele não contou que seu tempo é previsível”, disse Guo Cai, puxando para si tudo o que podia, enquanto arrastava ao microfone um barulho bem estrondoso, antes de então lhe dizer mais.

    “Boa sorte, camarada. Se falhar, eu vou roubar suas armas e cobrar, ouviu?”, no entanto, mesmo que risse por um tempo, imediatamente a comunicação foi interrompida por uma outra voz mais desapontada.

    “Sai daqui, enxerido! Eu já estava para te devolvê-los”, assim que retrucou, ele se assentou para então suspirar de preocupação. Exclamava, risonho, porém preocupado. “Peço perdão, Itsuki. Sorte a sua que aqueles vinte minutos não contaram para valer. Espero que esse tempo tenha valido.” 

    Então, Yezi se aproximou com a cadeira, para que sua voz ficasse bem mais clara e audível no microfone. O jovem permanecia intacto, com as emoções petrificadas de esperança, embora estivesse muito preocupado com o que testemunhou há pouco.

    “Aconteceu um imprevisto durante a missão: tenho atualizações.”

    “Péssima é a paciência de ouvir, e pior é minha preocupação”, insistiu-lhe o Doutor.

    Observando os dois desmaiados próximos ao elevador, ele manteve seu celular sobre seu peito, fotografando-os por todos os ângulos. Por sua vez, ele considerou investigar suas identidades profundamente, mas o tempo não lhe deixava esperanças. Um terceiro suspeito havia ficado atrás, nocauteado para que tivesse tempo para agir com segurança, pois ele estava armado e preparado. 

    Ele então o checou, dando melhor aviso a Yezi. Retirou-lhe uma pistola semiautomática do coldre, além dos pentes. Nada naquele momento o fazia pensar que se tratava de um plano sorrateiro, muito mais pelo sigilo que ele teve.

    “Tenho três alvos neutralizados sem ferimentos no último andar. O primeiro manteve postura hostil, mas estava separado dos demais. Não vestia um uniforme regular, era um japonês de meia idade. Estava armado com uma Glock 18 na direção do corredor.”

    “Inicialmente notei que o ângulo de ataque dele era contrário à zona de operações da polícia, como se ele não esperasse por um assalto. Ou não desse a mínima para o ocorrido”, explicou, e depois voltou-se, e com uma pequena cápsula de madeira, inscrita com um encantamento dhármico, ele apertou um botão que provocou a sucção e a cópia do fluxo presente ali, “mas para minha surpresa, havia um asura de Nível 5, pequeno, inofensivo, que ele carregava consigo ao colo, notando o fato de que ele usava luvas mais grossas na mão esquerda. Ele foi abatido e teve uma amostra retirada para análise.” 

    Assim que expôs a situação, o jovem pôs as mãos sobre a luva, criando pulsos leves que acompanhavam seus dedos. Eles tremiam lentamente, enquanto ele contava silenciosamente a diferença de tempo de cada um.

    “Parte do tecido costurado nas luvas tinha a mesma assinatura dharmática do asura Kurozai. O poder dele foi repartido. Isso teria sido uma execução, Yezi.”

    “Cacete!”, com uma expressão travada, ele não mais se moveu, para que somente a boca o guiasse naquele instante. “Por quanto tempo deixamos isso passar? Estão arquitetando uma desgraça de um tamanho do caramba e não devemos nada senão o mínimo de nossa responsabilidade e alguma covardia que nos sirva de exemplo.”

    “Não pudemos controlar nossos arredores assíduos todo o tempo, sem as consequências de travar uma batalha contra uma correnteza bem forte”, ao se agachar, ele pegou seu celular e apontou a câmera para cada um deles, tirando as fotografias. “O portador do asura não era o único. Havia outro homem perto dos elevadores que se preparou para matar seu próprio companheiro. Japonês, de cabelo curto que, diferente dos outros, estava com uma pistola .45 ACP silenciada, sabe-se lá como ele obteve sendo um peão, ele quis fazer algo em silêncio. Mas, teve algo que me travou.”

    “Seu alvo era o colega à direita, um russo, cujo nome é Afanisy Alexandrov, veterano da Guerra da Chechênia, que tinha no uniforme o símbolo dos Voluntários do Dever. Assassinato planejado. Talvez seja uma traição: bate direito com a descrição dos Seiki. Foi premeditado. Olhe essa bagunça. O plano não era de resgate, nem a pau, era de extermínio. Eles iam usar as baterias na ventilação para asfixiar os policiais reféns. É uma queima total de arquivos.”

    “Fizeram como uma precaução”, Yezi respirou, para pôr em palavras o que havia ouvido. As dúvidas estouraram. “Por que trairiam seus próprios aliados em plena missão?”

    Itsuki então enviou as imagens para Yezi com um clique de um botão. Por aquele momento, se lembrava do que consistia em um momento tão terrível quanto uma provável traição, para encontrar o que fizesse questão de ressaltar uma escolha tão ousada.

    “A princípio, eles pareciam ser amigáveis entre si, antes que a situação toda se revirasse num piscar de olhos. O que não posso confirmar são os motivos. Alguma mudança de planos aqui esteve marcada no relógio, como se fosse escrito numa agenda de fogo.”

    “Logo, vão matar qualquer um que se intrometer aqui. Parece que não importa mais a queima de arquivos para eles, ficaram loucos. Estão jogando contra si.”

    Então, Itsuki olhou mais a fundo para a extensão daquele elevador, e se perguntou sobre as melhores decisões a serem tomadas a essa altura da missão. Poucas eram salubres, algumas muito difíceis, a menos que lhes conviesse uma oportunidade. Soube muito bem que entrar pela escada seria um risco absoluto, também a solução mais óbvia para um esquadrão preparado que queira fazer uma entrada veloz ao prédio, coisa que está longe de ser verdade.

    “O provável era que os policiais foram encarcerados com a ajuda dos Kadirovitas para um simples sequestro, não que mantivessem uma amizade furada e falsa. Eles sabem de alguma coisa”, perguntou-lhe à rádio o adulto, a subir lentamente o ruído transmitido, conforme o jovem corrigia seu volume. Logo então, virou a cabeça, mais pensativo. Suas pupilas explodiram.

    “Eles não estão trabalhando mais juntos desde o incidente de Sendai. Foi uma armação dupla”, respondeu Itsuki, assentindo-lhe com o que mais pesava em seu coração: o engenho usado para o mal. 

    “Os reféns estão se tornando uma carta nesse baralho dos dois.”  

    Não havia um pingo de fúria em Yezi que explicasse seus sentimentos. Quanto era mais perigoso do que uma situação de resgate, somente se punha palavras de espanto na resposta. Um desafio exigente demais, uma missão muito arriscada: era como entrar em guerra, na qual mortalidade é o objetivo maior. Temor lhe desceu a imaginação: ver um pupilo seu perante esse fado. Tal era a dor de ter de lidar com as consequências por entre espinhos e espadas. Ao imaginar tais coisas, coube-lhe apenas pressionar-lhe a testa em agonia, e suspirar em companhia a uma dor asfixiante nas costelas.

    “Não deveríamos estar aqui, Itsuki! Pare de ser teimoso! O salto que estamos dando é alto demais para nossas capacidades”, insistiu Yezi. “Nós veríamos um cadáver irreconhecível todo desfigurado como uma sopa de sangue depois de ter sido amaldiçoado pelos desejos de ver o além-mundo. Coisas que só os professores poderiam ver sem vomitar. Eu nem deveria relembrar isso. Não só cheira tão podre beira ao ridículo. Nós deixamos uma aluna desaparecer de nossa vista, não é?” 

    “Não são a mesma coisa, Doutor, isso não tem nada a ver, assim como, por nossa parte, nem terminamos nossa missão”, respondeu confiantemente. “Nossas pistas estão aqui. Tudo está aqui, faltando somente entrar na frente. Minha palavra também foi jurada a Mikami! Ela é um exemplo.”

    “Nós iremos.”

    “Estamos misturando coisas, e elas estão fora de seu lugar. Somos burros de não vermos o quão alto é a queda? Farão o que quiserem com esse turbilhão: a confusão que você causa é o ingrediente perfeito, quando nunca a polícia ficou mais animada para lhe prender do que fazer qualquer outra coisa: você deu a eles uma loucura. Como eles o teriam feito normalmente, ainda?!”

    “A máscara me cegou, então! Que surpresa isso, ver uma covardia tão repentina! O que mais impediria essa missão? O medo de haver mais corpos?” respondeu sarcasticamente.

    “Você não entende o jogo, Itsuki! A isca é o Mikami”, disse-lhe, cerrando os punhos. “Todos aí embaixo foram privados do direito de conhecerem os males que estão dentro de si: apenas os de outrem. “Eles não estão atrás só de nós, ouviu? Eles sabem o que estão fazendo, e a balança não está nem um pouco pendendo a nosso favor.”

    “O quê? E por que infernos estamos aqui, porra?! Se aceitar o preço fosse tão fácil assim, Yezi! Eles buscaram sentido a vida toda. É agora então que vamos abandoná-los? Guarde seu sermão para o Monastério. Aqui, agora, eu vou agir.”

    “Eu vou até eles, eu vou salvá-los sem faltar ninguém. Vou encontrá-lo custe o que custar!”, respondeu Itsuki, cerrando-lhe os dentes. 

    “E você sabe quem é quem, afinal? E por acaso por aí seus inimigos vão seguir seu código de honra e de repente vão pensar sobre suas ações? Isso não existe, Itsuki. Você é responsável por todo mundo, inclusive por aqueles que não sabem cuidar do próprio umbigo, que não merecem nada do que têm!”, indagou, segurando-se atrás de trepidadas emoções. “É desleal e ridículo expôr os professores pela confiança que nos dão depois de uma tragédia, porque, depois disso, não haveria mais motivo para estarmos aqui, pelo simples fato de que nós deixamos isso acontecer. Se um mistério do dharma se revelar facilmente fora dos meios tradicionais, é fim da linha! A única coisa que nos dá sorte é a astúcia deles em usar o coitado do cadete para o atrair e pôr fim no teatro.”

    “Não, porra! Cada um de seus poréns não mudam o fato de que não dá para voltar atrás! Nosso sigilo não vale merda nenhuma se sacrificarmos nossa humanidade”, enfureceu-se. “Ser modesto depois de passar uma vida ponderando o que eles querem? Isso é insultante. Justificar o que nós fazemos com verdades prazerosas, que parecem conciliar nosso medo não são nada além de besteira. Não podemos intervir, precisamos pensar por eles!

    “E quem mais iria, então? Quem mais iria, eu lhe pergunto?! Se os nossos ‘mestres’ estão ocupados demais meditando sobre o tempo para salvar vidas, pois hei de fazer o trabalho sujo. Eu pago esse preço.”

    “Isso é muito pior. Virar o mundo de cabeça para baixo é bater a cabeça na parede até sangrar. A gente não vive por causa disso. Imagine só deixar que o princípio de ordem se desfizesse justamente por causa de uma ansiedade medíocre. Sim, vamos ser como idiotas, chamando a atenção do plano desse mundo, como se fosse só um joguinho e nada mais!

    “Itsuki, Somos apenas a mão da montanha, não podemos tirar nenhum dogma dela para nos fazer esquecer de que esse mundo passa. Sem lei, não há compromisso, portanto, não há sacrifício. Algumas pessoas não podem ser salvas. Você não está nessa capacidade”, ofegou Yezi, preocupado. Sentiu medo. Embora não fosse uma situação de grandeza absoluta, a morte ainda assustava.

    “Eu jurei na frente de um templo inteiro que completaria a minha missão! Eu jurei! Você não pode me fazer sair daqui depois de tudo o que fizemos! Ninguém sabe disso, menos saberia lidar com os demônios que estão na mão deles”, exclamou-lhe, como se lhe descesse uma poderosa percepção. Ele vacilou, perdendo o fôlego antes de tropeçar-se em receio.

    “Essas coisas não acontecem ao mesmo tempo sem motivo. É uma emboscada. Quando pegaram aquela luva, sua trama estava consumada: com toda nossa boa vontade o que os fez manter-se de pé. De nada adiantaria ajuda, em meio a uma guerra entre espíritos travada por homens que não sabem nada sobre dharma,  quando tudo se vira para todo o mundo ver e pôr ridículo nisso, apenas para não dizer que é absurdo.”

    “É você”, disse, retendo-se em repugnância. “Você é a melhor artimanha deles. Seu teatro é o fantoche. É a sua vida que deveria valer mais: se ao menos você amasse mais a paciência. Fizesse mais que seu avô. Não há motivo para isso aqui a menos for para nós desbravarmos contra o egoísmo, fazê-los pensar que ao menos podem acreditar numa outra coisa, foi por isso que eu vim. Não há como inventarmos, nem aqui muito menos em lugar algum, que temos o direito de dizer-lhes alguma coisa sobre como eles devem pensar com a consciência deles.”

    “Aquelas ilusões existem só por escolha mútua. Esse é o propósito do mistério. Você não pode desobedecê-lo.”

    Arrancado do poder das palavras que lhes foram concedidas como fogo infernal, ele segurou seu peito para deter o ardente forno de desterro em sua garganta e olhos, a cambalear como mãos trêmulas à procura de abrigo. Limpou os olhos de prontidão a pôr-lhes perante ao anúncio da trombeta.

    “Todo dia nós fazemos isso: desobedecemos e desobedecemos”, retrucou Itsuki, voltando-se à máscara enquanto olhava para o homem desmaiado. “Parece que desobedecer, no fim, acabou ficando com a opção de ser a mais bela conquista, embora ela tenha a queda do tamanho do coração de um homem arrependido.”

    “Itsuki, escute-me dessa vez: nossa missão acabará se sairmos adivinhando mundo afora”, seu tom esmaeceu-se desastrosamente. “Não se escrevem todas as vezes em que mentimos para tornar ainda vivo todo esse propósito.”

    “Eu pago meu preço, não há nada mais barato para mim do que isso”, respondeu-lhe. “Muita coisa nos ficou para trás, sem valer nada, como uma sobra de um prato bem servido, cheio de desejos e sentimentos malignos, iguais aos vestígios da chacina de Nanquim. Isto, contudo, não é nada igual àquilo. Não cabe a mim este sofrimento enquanto ainda me houver uma chance.” 

    “Ele sofreu muito: você não merece isso, tal como ninguém!”, exclamou-lhe Yezi. “Sua piedade não servirá aqui.  E será mesmo que existe alguma mente sã o suficiente para resistir a essa tentação lá embaixo? Nakamura, sua amiga, ela mesma cedeu.” 

    “Faça isso por minha palavra, que é a dele também. O que o espírito não termina, a incerteza destrói. Se não agirmos, a roda parará de girar, logo em seguida, ele assentou-se sobre a beirada do elevador, embainhou sua adaga e seguiu abaixo, para num salto apoiar a perna sobre a borda do outro andar.


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