O jovem se posicionou de lado, escorando-se sobre a cama e então olhou para si, e viu as mãos cobertas por um véu escuro que descia sobre ele, de maneira que flutuasse e quase chegasse ao pescoço. Parecia que ele se sufocava, ao ponto de obrigar-se a fechar os olhos. 

    Quando a névoa parecia sufocá-lo até a boca, seu telefone estava logo abaixo em sua mão, esforçando-se para então vencer todo o peso carregado às mãos. Assim, quando ela foi derrubada por inteiro, outra vez desceu-lhe a lembrança de que era tarde, mas não podia deixar-se levar somente pela contemplação, pois aquela noite anterior ao amanhecer.

    Parecia que seus sentidos não detinham da mesma capacidade de serem controlados numa noite tão escura e cansativa, tão preocupada. Por vezes, não era incomum que seus pensamentos parecessem se guiar pelo acaso de sua consciência, que obedecia e imitava sem resistência alguma o entorpecente fluxo do mundo, que lhe causava tudo a partir do nada. Do telefone, então aguardava-se uma ligação. Uma jovem mulher de cabelos naturais como o sol vestia-se tradicionalmente enquanto virava-se agressivamente contra a câmera, marcando a foto com sutileza.

    “Alô. Está me ligando por quê, Itsuki?”, uma voz feminina surgiu de seu telefone, enquanto o garoto se apoiava com as costas para a parede, com a cabeça virada até o chão. “Não tenho dormido tão bem antes que me pergunte. Meu sono está tão terrível quanto o seu. Nem preciso me perguntar porque você me enche de ligações na madrugada.”

    “Senti a sua falta, Sora”, respondeu, com um semblante levemente cansado. “Fiquei até as 2 da manhã procurando sem nenhuma pista nova. A essa altura, estou começando a imaginar meus alunos a me encarar, como se me esperassem para dar aula. Ao menos, não vou dormir dolorido.” 

    Logo após, eles apareceram por meio de seus pensamentos para lembrar-lhe de que estavam assistindo, como fumaça. Eles estavam escondidos atrás da cama, fingindo não serem vistos por ele.

    “Não há como o fim do mundo cair assim de repente para você. Mas nunca: eu lhe confiei a pessoa mais preciosa da minha vida.” 

    Seu breve tormento se encontrou consolado pela comoção de lembrar que jamais poderia postergar seus feitos, as boas coisas que havia feito. Havia uma estatueta pequena de Buda sobre a sua escrivaninha. Ao subir para vê-la mais de perto, deu-lhe um leve toque e um mantra recitado em tibetano com uma voz grave soou. 

    “Não sei de onde consegui o milagre de fazê-lo me dar um presentinho. Ele tem um bom coração. Esse Buda que ele me mandou é tão dharma!”, sua voz teve uma lenta realização através de um suspiro, que não pôde demonstrar menos seu desencontro ao vê-lo ainda desconvencido. A névoa o lembrou amargamente de que havia muito que ele não poderia encontrar solução rapidamente, muito mais seus desafios. Quando abriu seu peito para perguntar, ela precisou ainda encarar a teimosa voz de seu parceiro.

    “O tempo corre contra nós. São muitas pessoas pelas quais me responsabilizo. Eu tenho que colocar os olhos em tudo, entende?”

    “Dê sossego para si mesmo, amor. Não é nada sábio agir assim quando você está precisando de companhia: não duvido que você esteja solitário agora porque seus alunos acham que você está ocupado demais para ser incomodado. Eles respeitam muito você, sabia?”, a névoa com a aparência dos alunos estourou, desaparecendo de uma vez, no mesmo ritmo que os olhos do jovem, que se fechavam de cansaço.

    “Há quanto tempo que você não conversa com alguém diferente? São dezessete anos nas costas, e age como se fosse um adulto.” 

    Um silêncio breve se irrompeu, até ser derrubado pela voz no telefone, suspirando profundamente. Ela estava carregada de preocupação e criticismo que não pareciam se encaixar naquele tempo, mas em outro, ainda mais remoto. Não eram poucas as vezes em que as palavras tinham o poder de talhar-se sozinhas na mente, e ecoar indefinidamente como uma corda à espera de desaguar no fim de toda a inércia sua de permanecer balançando quando não queria mais.

    “Eu sabia”, disse ela, “está se doendo por pouco, mesmo quando uma imensidão de pessoas genuinamente lhe respeitam como nunca. Qual é a de você não ficar satisfeito?”

    Quando fitou para o computador, ele expirou sem compromisso consigo. Dobrando os lábios para aliviar a falta, ele reuniu as forças para ao menos dizer o que ainda havia dentro de si, para sentir-se reiterado com a razão que tantas vezes se conduzia bem quando repetida. O guaxinim havia retornado para sua mão, eriçando-se por suas coxas, enquanto usava uma delas como uma mesa servida a seu almoço de frutas silvestres, e não poderia menos contar com a curiosidade e esmero de ver seu suserano imóvel e incapaz de lhe soar tão teimoso e criativo como há pouco fazia.

    “Eu queria ser mais presente para um amigo meu, mas não está dando”, respondeu, dolorido. “Tem faltado tempo para mim, e eu acho que ele é um cara legal. Ele merece tudo o que há de bom nesse mundo.”

    “As coisas merecem estar bem feitas, e eu acho que essa amizade é uma delas.”

    Seus braços fraquejaram, como se permanecessem pesados numa balança indiscreta sobre a qual não se mediria mais nada senão o quanto de verdade passaria pelos ouvidos. Quase estava aquém de seus dedos ao ponto de fazê-los deixar cair o telefone. O jovem segurou a si mesmo pelos olhos, pois não podia cobrir-se com qualquer colcha para aquecê-lo, senão pelo brilhante e translúcido espelho que fez suas pupilas crescerem em medo, em lágrimas.

    “Itsuki, isso já passou. Sopra essa névoa sua para longe. Uma hora todo mundo retorna, e você verá que está bem, e ele também deve estar. Só me escuta: você é um ótimo professor, além de dedicado. Deixe que as coisas voltem.”

    “Ela também deve voltar. Ninguém sumiria para sempre. Se não fosse minhas obrigações aqui, eu já a teria arrancado do cantinho dela!”

    Assim que esbanjou uma leve feição de felicidade, Itsuki ainda se continha nos pensamentos, como se procurasse por uma resposta. Por um momento, ele julgava para si se ela realmente voltaria, ou se havia alguma coisa que ela estivesse à procura. Embora sentisse que ela fosse uma responsabilidade de toda a escola, também cabia a todos o cuidado de não tornar tudo o que estava diante deles em uma turbilhão, quando na verdade havia apenas uma maré subindo devagar.

    “Até aquelas pirralhas de lacinho do primeiro ano precisam ter jeito com você. É difícil domar criaturas piores do que asuras falantes.”

    Sua alegria por muito tempo se resumiu a encarar-se solitário. Ao olhar para a janela, e depois para suas armas, a névoa lhe adornava, como se estivesse virado, incapaz de ver a si, como também abrir a boca para desvencilhar-se de seu pensamento sobre como entregar-se para a correção de viver conforme a razão de uma boa e esclarecedora companhia. Dessa maneira, seu olhar cruzou com o horizonte de sua cama. Com a memória encarnada e imaginada à frente, veio-lhe um sentimento de falta.

    “Quando você vai voltar?”, perguntou o jovem, ainda cabisbaixo.

    “Infelizmente, as exigências do templo são muitas. Mas não preciso ir aí toda vez, sempre para levantar a melhor pessoa que já tive o prazer de conhecer. Eu não deveria”, orgulhosamente, ela deu um suspiro certeiro e bem assentido.

    “Você também pode contar comigo, não diga assim! Não posso deixá-la por aí à toa sem motivo ou razão.”

    Quando retrucou, ela se encontrou indignada pela ousadia de lhe ser ofertada uma gentileza tão simples. Com uma risada, numa oposição leve e sonora, ela o enfrentou de volta, de maneira a fazê-lo repensar nas suas palavras, e quase certamente torná-las distantes da razão que ainda residia na cabeça do garoto.

    “Eu sei me cuidar, pateta. Os olhos que tenho não são de decoração!”, aumentou o tom. “Você não consegue parar de ser fofo?!” 

    “Não, é difícil”, ele ria, respirando fundo, com um ânimo mais revitalizado. 

    “Apenas cuide de meu irmão, porque eu vou cobrar se você não fizer direito”, retrucou, mais acalentada. “Lembre-se do que eu disse.”

    “Eu vou dar uma visita a ele. Não se esqueça de orar os mantras do templo de acordo e de prestar reverência aos monges”, pediu-lhe com muito afinco e preocupação, mas ela não esperaria menos de sua insistência.

    “É preciso menos, Itsuki. Esse templo não poderia estar mais bem rezado. Eles precisam de minha força na verdade!” 

    “Nunca é demais uma oração para afiar suas mãos e olhos principalmente”, retrucou insistentemente.

    “Então faça uma por mim. Minha atenção a esse templo já está de igual para igual com minha paciência. Praticamente já chegou a hora de eu desligar e eu nem descansei…”, mas sua resposta veio acompanhada de um tom bem recebido, gentilmente apressado.

    “Que a paz lhe acompanhe de volta e a liberte, Sora. E liberte mesmo.”

    Assim que a ligação se encerrou, ele se levantou, atrapalhado, enquanto fazia a névoa passar por seus pés, criando espinhos que ele precisava de evitar. Seus passos eram largos, e atrapalhados, mas o jovem se divertia com essa distração, enquanto se aproximava das gavetas próximas do mapa. Porém, toda essa brincadeira se desfez rapidamente, conforme ele fitava toda a organização que precisou ter depois de muita insistência.

    Daquele momento em diante, Itsuki virou-se para checar todos seus arquivos e as atualizações à distância que recebia num pequeno dispositivo de comunicação do tamanho de um watchman. Mas todas as mensagens estavam marcadas como lidas, sem nenhuma novidade. Mesmo assim, ele insistiu: digitou o nome ‘Akame’ nelas e mais uma vez, fez mais perguntas do que respondeu às próprias dúvidas, pois não havia qualquer reporte novo sobre seu paradeiro.

    “Quem me dera eu aprender a sumir com todo esse mistério”, disse, “se a máfia da Serpente parar de ser enxerida a tempo, vou tentar ver o caso dela no campo mesmo. Ainda hoje!”

    Logo em seguida, ele atirou uma pasta sobre a escrivaninha para que fosse lida mais tarde. Dali, ele partiu em direção ao altar. Posteriormente, quando o encarou, viu as flores do último ritual de purificação indicavam que haviam passado dois meses desde a última vez que ele o fez em sua espada. Foi então que ele ligou seu computador, ativando a fonte que estava abaixo da mesa, e o home theater que deixou debaixo de sua escrivaninha. Então, a BIOS do sistema apareceu, num processo mágico, acompanhando a regulagem de som dos alto-falantes. 

    De imediato, a imagem do desktop apareceu com várias pastas e alguns jogos, e de papel de parede estava uma foto nevada da Sibéria que baixou da internet. Um Winamp já estava ligado, e ele escolheu tocar um drum’n bass, um gênero que conheceu quando ele foi a uma loja de CDs de música e ouviu tocar na sala, sem que alguém desse atenção. Sua época de ouro foi nesse tempo, e alguns artistas japoneses fizeram sua trajetória pelo gênero. Mas não era sua única preferência. 

    Sem mais sono, aquela hora tão tardia da madrugada não poderia ser outra, senão, a de trabalhar. Itsuki, então, encarou o mural e depois para o altar. Escolheu, assim, pegar sua katana favorita e erguê-la. Observou seu gume, viu algumas manchas impregnadas, saindo do metal, que brilhavam como resquícios de uma maldição.

    Como a limpeza não podia ser frequente, para não desgastar o gume com o escrúpulo, e demorada, para não se enfraquecer, Itsuki fazia o ritual coincidir com a limpeza da espada, para que o óleo sacro, esse que estava em cima do altar, não se misturasse com o de limpeza, mas que primeiro tirasse toda a impureza dela antes mesmo de uma ‘matéria’ comum, mundana, ungi-la de sua guarda até a ponta da lâmina. 

    Ele pegou uma caixa debaixo de sua estante, na qual estava uma espécie de martelo, pequeno, com sua cabeça do tamanho de seu dedo anelar, um pano em rolo feito a partir do arroz. Ao lado, também estava uma bola amarrada de seda toda enchida de pó, que se chama uchiko, e ao seu lado, um óleo de chōji num pote plástico, que é feito para o uso em limpeza.

    Antes, ele escolheu pegar uma caixa de rámen dentro da geladeira, já que não queria e muito menos gostava de preparar a sua própria comida. Foi então que ele usou a bola de seda para remover as ranhuras que ficaram após seu uso. Depois de deixar o pó sobre o gume e esfregá-lo, viu que o serviço havia sido feito. Derramou, em seguida, o óleo sobre a lâmina e então o esfregou lentamente nela para remover as impurezas e o pó deixado na última limpeza com segurança de que não haveria danos. Itsuki, assim satisfez-se com o resultado. 

    “Idaten1, guardião bom do firmamento altíssimo, seja meu protetor e abençoe essa lâmina para que tudo se advenha, em cor de prata, retamente, cadente como a água de uma cascata. Para que o trabalho de um Javali continue, é necessário abandonar tudo o que passou. Convenha, assim, purificá-la, pois hei de a ter comigo, como amiga e companheira de guerra. No seu princípio, jamais para a morte, mas para a execução de nosso exercício vital, proposto a cada um”, orou, inclinando-se perante a espada, erguendo-a para o altar. Rezou, então, um mantra de luz, pedindo para que saísse ‘do irreal, para o real, da escuridão para a luz e da morte para a imortalidade.’ 

    Depois, quando terminado, ele deixou seu almoço sobre a bancada, instigando a resistência sobre seu corpo, para que ele apenas coma na hora que ele queira, mesmo com a tentação estando a sua frente: um exercício clássico do monasticismo budista. Contou meia hora após o fim do ritual até que realmente pudesse começar a comer, assentado sobre uma mesma posição, sem mexer um músculo. 

    Então, ele se assentou sobre o tatame, ligou a televisão de seu quarto para então assistir o que tivesse de melhor lá: que na maioria dos casos o levava a desistir de ver. Já havia passado tanto tempo, que nem Itsuki sabia o que devia fazer, ou se estava à vontade com a vida de tédio que escolheu ter. Um disfarce cuidadoso, feito para causar a sensação de leveza. No entanto, ele caminhava muito além pelo ócio, na direção de suas verdadeiras sensações, de lhe lembrar do desconforto que poderia ser sua pessoa verdadeira.

    “Foi relatada a ocorrência de que três homens armados assaltaram um grupo de adolescentes que vinham em grupo de um café bar. As vítimas foram ameaçadas e impostas a uma situação de desconforto, deitando sobre a neve gelada, o que lhes gerou queimaduras sobre o rosto”, o tom de voz da mulher, transmitida ao vivo, não mudava diante daquela notícia. Uma das entrevistadas, comentando sobre o caso, remarcou suas palavras com um cuidado único: ‘era como se eles não tivessem alma, ou não estivessem mais vivos. O que tem na cabeça delas?’

    “Justiça”, respondeu para si, apontando para seu peito. Por um lado, ele apenas se virou, desinteressado. O jovem então se enrolou assentado no edredom e fechou os olhos, apenas para ouvir a notícia.

    “Os três homens, no entanto, foram amarrados por um suspeito que os prendeu sobre um poste, com marcas de hematomas e feridas sobre o peito. As vítimas não estavam presentes, mas disseram que um quarto homem veio para conversar com eles, dando a oportunidade para que fugissem.

    Depois, após a polícia averiguar, viu que os três homens estavam desesperados, em estado de pânico, que os especialistas afirmam ser sintomas comuns de um estresse pós-traumático. No entanto, na ficha médica dos três indivíduos, não constava nenhuma desordem mental diagnosticada, levando a se crer numa reação aguda ao estresse.”

    “Ao lado deles, apareceu também um caderno, com os nomes registrados em pincel de membros que mais tarde seriam confirmados como membros de quadrilhas e grupos criminosos em atuação no Japão. Os réus foram levados até a delegacia, em desespero, pediram por socorro, e disseram que um demônio os atacou, e cada um deles afirmava que seus outros dois colegas foram torturados e mortos, mesmo quando lhes foi mostrado que estavam vivos. 

    “Apesar disso, a recuperação deles tem sido lenta, mas constante. Dentro de duas semanas, poderão receber alta após os tratamentos. O verdadeiro mistério, por um lado, estava por causa desse estresse psicológico tão repentino. Os psiquiatras forenses também afirmam sobre a recuperação rápida dos pacientes, incomum para um choque psíquico dessa natureza, provocando dúvidas sobre sua causa.”

    O jovem continuou sereno, respirando fundo. Sua preocupação se aliviou mesmo que um gosto amargo pairasse sobre sua boca. Sabia que um bom trabalho foi feito. No entanto, as reflexões de sua mente perambulavam pelo mundo imaginário, transformadas pela dor em seus braços e nas suas costas, e pela revolta de sentir uma grande sombra sobre a humanidade que a tornava mais apática.

    O aparelho se encontrava com poucas conexões, e um espaço aberto na estante no qual se encontravam em confusão as capas de jogos eletrônicos. Logo em seguida, ele estendeu suas mãos sobre os olhos, fazendo-se presente numa derradeira que pesava seu peito. Seu esforço de conservar não entrava em acordo com seu anseio de mudar.

    “Por quê?”, abaixou-se entre o semblante triste e a coragem que lhe restava. Cerrou os punhos, desestimulados por sua brutalidade.

    Assim que se virou da televisão, uma presença nem um pouco inesperada lhe atingiu o pensamento. Sem aviso prévio, Itsuki foi imediatamente recebido por uma benigna e furiosa aparência de uma criatura inominável, a domar uma infinita cobra adornando seu pescoço, e três olhos que o encaravam indefinidamente. Seus sussurros aumentavam, como se estivesse chamando por ele, mesmo que o jovem pudesse apenas estender o braço e virar seu rosto para o céu brilhante porém obscuro daquela borda translúcida para o Templo Neve Invertida. Um suíno de nove cabeças estava logo abaixo, e cada um deles se curvava, antes que um deles tivesse sua cabeça arrancada. 

    “Não mediteis se não há sobre o que se meditar”, dizia a voz, recusada de ser ouvida pelo jovem. “Não torneis a raiva como fúria, e vos façais menos perplexo. Não vos denomineis imerecedor de glória para encontrardes, na falta, uma orgulhosa essência.” 

    Mas logo pela ordem de um simples gesto, aquela figura se desfez na mesma fumaça que o domava à noite, embora se misturasse a ela como se ainda permanecesse oculta na sua memória. Ele controlava a si pelos olhos daquele que mais o inspirava pelo terror, e tornou-se a enfrentá-la às custas de sua atenção.

    “Há coisas que estão fora do nosso alcance. Nem tudo poderá ser resolvido com as próprias mãos. Não cabe a mim encontrar solução a esse mundo, somente refrear o que lhe origina por natureza. Vade dentro, para meu espírito!” — Pensou para si, pondo sua tigela a seu lado, e então colapsando sobre o tatame de seu quarto. Lentamente, ele soprava para longe uma sombra que o parecia encostar sobre seu rosto, como se não quisesse vê-la mais. 

    Sua compostura oscilava do mesmo modo que seu peito, que batia insistentemente apenas de imaginar-se de volta àquela montanhosa imensidão que por muito tempo murchou seus pulmões. Os dias que sucederam, cada um deles, tiravam-lhe o pouco de honra que permanecia ainda em seu coração. Muito mais pelas marcas de sacrifício que adornam suas mãos e braços para cima e baixo, que se sujaram após exaurido de pressentir o retorno de seus atos. Ao arrancar a manga de seu braço direito, presenciou sua própria cicatriz, do tamanho de um antebraço, com a qual preferiu conviver por muito tempo ao seu lado para lê-la por ela os pensamentos e as vontades dos mantras que escolheram alojar-se em seu sangue.

    “Se este sacrifício não bastar, eu poderia fazer o dobro, o quádruplo…” 

    A fineza de seu braço lhe lembrava um cristal translúcido, que somente poderia ver pelas cores que o atravessam. Era como se nele lhe aparecesse nuvens, que se emaranhavam quase por uma eternidade aos braços de Itsuki, a adorná-lo por uma sombra que pulsava mais vívida quando lhe recebia toda sua atenção, e verdadeira imaginação.

    Nem tudo que lhe constituía a mente era consciente, como as próprias ilusões que seu coração sozinho produziu além do sombrio nevoeiro para se defender da desesperança e do cansaço. Com as mãos unidas sobre seu peito, sua garganta entoou um mantra suave, admirável até certa medida, de maneira que seu dharma não se perca tão facilmente quanto seu sono e seus sentidos. Era um som grave e repetido que se aproximava de ser incompreensível. Um universo de serpes e bestas rodeou suas mãos voando incansavelmente 

    “Rogo pela ordem do mundo: sua vida é memorável. Rogo pela ordem do mundo: a todo aquele que retamente testemunhou o sopé do Monte Meru. Rogo pela ordem do mundo: pela minha sabedoria, pelas boas causas às quais me dou a honra, como bodhisattva, de preservá-las”, disse, com uma voz sonolenta após se incrustar com a rija proteção de um jade a puro verde. Assim que percebeu sua própria fraqueza e o pouco que tinha a oferecer, não havia melhor benção que suas mãos poderiam receber como aquela que somente lhe permite suá-las na batalha, para que não encontrassem sangue em sua jornada.

    “Você vai voltar, Akame, mesmo que eu a ache antes.” 

    Logo, terminou encarando o pequeno rolo de pergaminho, que pairava longe de sua vista ao lado de sua coleção de armas. Sua ponta havia sido queimada, como se lhe fosse retirado de uma última lembrança a ser escondida nessa escuridão, que às vezes parecia real a Itsuki.

    Então, fechou os olhos, para dormir em paz, ainda que não fosse seu desejo, de forma alguma; seria uma breve recuperação, desde que ele não tropeçasse no seu planejamento meticuloso. Assim, depois de tanto pensar, finalmente adormeceu. A névoa então desapareceu, descansando sobre o estranho e pequeno porta-retrato que regia o cômodo vindo do teto, a observar o mundo, bem atrás de uma inescalável montanha, com seus profundos e marcantes olhos marrons.


    1. É o nome japonês de Skanda, lendário bodhisattva da tradição Mahayana do Budismo. É reconhecido como protetor dos templos e dos ensinamentos budistas, sendo representado possuindo armadura e armas, tal qual ocorre na iconografia chinesa. As fontes históricas ainda são debatíveis, contudo.[]

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