Capítulo 21: O d20 sagrado
O dia, então, passou como nunca, mas parecia que faltava uma coisa na sua vida. Seu sono se estendia de ponta a ponta do horário, assim como a escuridão de seu quarto, pois, no fim das contas, seu espírito foi arrebentado pelo mundo. Ele havia dormido pouco, e seu corpo gritava por aquele descanso, merecido a quem precisasse de recuperação.
Sua própria imaginação se exauriu, mesmo que fosse forte para resistir a toda exaustão. Todo esse dom, de verdade, surgiu e foi intermediário para que no passado, ele já tivesse sentido a presença de sua técnica, que tinha também tanta vida quanto suas criações. Mas havia tempo para o que tinha de vir, da maneira que viesse, pois tinha a oferecer como amigo. Porém, o telefone começou a tocar. De pressa igual e também ânimo renovador, o jovem correu aos trancos e barrancos para atender, e teve suas esperanças realizadas, quase esboçando leves lágrimas de alegria.
“Alô? Suki?! É urgente! Meu mais novo dado d20 chegou, isso quer dizer que devemos testá-lo o quanto antes”, disse a voz, quase estourando os ouvidos de Itsuki.
Gloriosa era sua comoção de ser recebido com tanto ânimo imprimido em seu bom coração. Por um momento, ele se viu, todo estabanado para abaixar o volume de seu telefone, que não foi de grande ajuda para conter: somente para exaltar sua felicidade. O contato carregava a foto de um garoto de esguios e longos cabelos acompanhado de transparentes imagens aquáticas, editadas por cima de seu rosto, com golfinhos pulando sobre a mesma, e um plano de fundo de uma cidade ao céu azul sobre uma grama de vívida cor verde.
“Ah, então é uma hora sagrada, Pequeno Masami“, respondeu Itsuki. “Um tempo de júbilo para o Conselho rpgístico. Eis que chega a destruição do mundo demoníaco…”, no outro lado, Masami suava com aquela voz terrível.
“Não entendi absolutamente nada! Mas acho que é muito importante, então: que legal!”, dizia, num tom fraquejado e desconfiado, atônito à impressão que seu amigo criou, curiosa pelo seu princípio, embora não houvesse segredo que não se tenha repartido entre ambos.
Masami estava ansioso, nem que seja por um pouco, de apresentar um presente que raramente sonharia comprar por sua conta, ou por sua escolha pelo tanto que Tarô desdenhava gastar mais rápido do que seus boletos. Depois de ficar atônito com a impressão sombria de seu amigo, Itsuki continuou.
“Ei, nem brinque com isso, pois já lhe aviso: esse dado não vai demorar para ser amaldiçoado por demônios incompreensíveis do abismo. E eu acho que eu vou deixá-los fazerem isso mesmo!”
Antes de corresponder-se perante a amável determinação de seu amigo, Itsuki, ouviu-se do outro lado da chamada um som estridente de vários materiais chocando entre si, espremidos dentro de uma bolsa. Balançavam intermitentemente como se a terra tremesse perante a notícia, quando, no princípio, era somente o chacoalhar de dados de RPG de mesa.
“Finalmente, depois de muito tempo, eu tenho a coleção completa dos dados de edição limitada, Itsuki! Demorou e demorou, mas eu consegui arranjar o último. Agora, a ambientação de demônios no RPG vai ficar à altura! Será que você vai conseguir impedir a Segunda Cruzada dos Demônios de acontecer no Mundo dos Homens?!”
“Sozinho, eu não impediria nem a primeira!”, respondeu, rindo, como se segurasse todo o pensamento que derretia apenas de acompanhar aquela expressão de felicidade. “Mas é bom: os demônios do Ren vão jogar a vez de meu dado e vou critar cada um deles!”
“Aliás, fica ligado aí também: eu espero que nenhum desses dados tenha vindo com um pedido muito caridoso: não me roube, está bem?!”
“Ah, que isso, Suki! Você me conhece. Se eu quero alguma coisa, eu procuro por merecer aquilo: eu certifiquei de limpar duas vezes o banheiro, a sala de recepção e as janelas só essa semana. Mestre Tarô não brinca quando o assunto é a Clínica! Ao menos consegui comprar esses dados por menos de quinhentos ienes. Estava muito barato!”, respondeu, num tom que pareceu um tanto quanto cansado, porém contente com o fruto de seu esforço. Em seguida, aprumou-se para perguntar repleto de alarde, mas sem dar sinal algum de que ficaria em silêncio, ou mesmo derrotado perante sua magnífica e inigualável empolgação.
“O que acha de uma jogatina esse fim de semana? Yukimura me disse mais cedo que estava intrigado para a próxima sessão, e queria jogar o quanto antes. Nunca o vi tão interessado com alguma coisa que eu disse nesses últimos meses. Não é legal?”
“Ah, então os demônios dos dados estão satisfeitos! Conte comigo, e já digo que eu não esperava que você fosse me chamar assim. Meu dia ficou muito melhor por causa de você!”, respondeu, levantando seus olhos até bem enquanto encarava os arredores de seu quarto. ”Fiquei preocupado de não ter retornado suas mensagens. Sabe, às vezes eu penso que existem asuras-do-sono pequenos no meu ouvido esperando me deixar com insônia à noite porque eu não o respondi. Pensando melhor, não durmo direito desde que nasci.”
Uma breve risada pelo outro lado do telefone interrompeu brevemente a conversa, antes que seu Itsuki o pusesse ao viva-voz para então observar atenciosamente seus pertences que ficaram à deriva. Havia cochilos que pareciam sagrados na primeira vez, e depois se revelavam inimigos, e causadores da discórdia a quem ousa ter costelas.
“Que bom. Vou fazer questão de aproveitar a gentileza do seu amigo: ele gostará da surpresa de me encontrar lá. Sabe por quê? Sim, pois é. Ele não responde aos meus vídeos: sério mesmo, ele tem a audácia. Dê um puxão de orelha nele! Eu mandei um vídeo de um mestre indiano muito bom que ensina a como controlar os demônios não-essenciais e esse cara não me deu satisfação! Ele controla asuras sem ao menos pronunciar um mantra sequer? Desse jeito, fica moleza para um deles consumir a alma dele viva…”
O garoto ouvia com mais atenção conforme as palavras começavam a chegar além de seus ouvidos. Rapidamente, ele sentiu uma necessidade para perguntar, fugindo brevemente de sua empolgação, para compreender melhor seu amigo, embora estivesse impedido pela distância da ligação.
“Ah, sim. Eu vou lembrar o Yukimura sobre esses vídeos que você mandou, mas me diga uma coisa”, pausava, administrando suas palavras. Nítida era a sua preocupação em razão de ter passado pelo menos algum tempo desde a última vez que conversaram ao telefone. “Aconteceu alguma coisa, Itsuki? Você parece cabisbaixo. Qual é a dos Asuras?! Eles tão coçando os seus pés durante a noite e não estão te deixando dormir? É por causa disso que está parecendo tão triste e incomodado?”
“Isso me pareceu algo que você falaria, então tentei imitar. Pensei que você iria achar legal.”
Masami se antecipava, explicando caso o seu amigo não tivesse achado graça, embora ele nem tenha dado tempo ou ouvidos para a sua reação. No entanto, mesmo que por um instante, ele ficou em silêncio, como se olhasse para si. Sua imaginação não estava limitada somente ao que ele via, mas também àqueles que poderiam operar a mente, de forma que ele era obcecado a entender os que faziam parte de si. O singelo ato de ser reconhecido, e reimaginado por seu amigo o fez sua mente dar um estalo. Sem precedentes, sua névoa escura desapareceu.
Mas, logo em seguida, ele riu alto, como se deparasse com uma verdade com a qual somente poderia desfrutar de sua simplicidade. Itsuki ensurdeceu seu amigo ao ponto de fazê-lo se assustar, quase caindo para trás pela altura de seu alto-falante.
“Eu estava cansado, isso é verdade”, disse-lhe, dobrando os lábios enquanto demorava a insistir na resposta. Mas sempre ao lembrar-se de que se tratava de seu amigo, os olhos caíam como suspiro para lhe dizer que não havia o que ocultar. “Tenho que fazer as coisas da escola, não é incomum que minha rotina goste de imprevistos. Desse jeito, é comum que demoniozinhos da noite, como exatamente esses que você me disse, sim, iguais, me façam ficar maluco e triste. Você não tem ideia do quanto eu preciso pensar, e às vezes os meus pensamentos me olham de volta, desde quando eu era pequeno”
“Estou ficando ocupado, um pouquinho mais do que eu aguento. Não é fácil fazer uma ficha de exame para Kenjutsu somente pensando: pois é, até mesmo para usar uma espada, é preciso uma prova. Ser professor é isso, afinal.”
“E isso lhe deixa menos contente? Tipo, fazer todas essas coisas não provam justamente você? Só pelo o que você me conta da sua rotina, dá para ver que é muito dedicado e ama o que faz. Você viaja, pratica e estuda um monte de conteúdos diferentes! Você ficaria desanimado com o quê?”, Masami se estendia através do que achava justo comentar de sua perspectiva, dizendo-lhe de maneira que Itsuki o ouça a qualquer custo, visto que sabe muito bem do desfoque de sua névoa. “Eu mesmo, estou literalmente começando a minha vida! Eu entendo bem o que é ter demoniozinhos me perturbando, mas esses demônios são somente quem eu sou: a minha mente, falando comigo mesmo. Não é fácil.”
“Ei, aquela piadinha foi tão engraçada assim pra você rir tanto daquele jeito? Nem foi tão engraçado assim, vai.”
Itsuki reconhecia que aquelas palavras eram honestas, e se dava conta do que sentia. Mas não parecia ser por mal, ou mesmo por tristeza. Sua desconfiança às vezes não acompanhava o quanto ele fazia por aqueles ao seu redor.
“Uma noite ruim todos nós temos! É que às vezes você dá um jeito em mim que você não tem ideia”, sorriu, “não fique mal por isso. Foi engraçado sim! Muito dharma, inclusive. Achei condizente. Você sabe que pode contar comigo também, eu dou um jeito para resolver tudo o que você precisar.”
“Muito…muito dharma, claro! Eu tenho que ver o que isso significa depois. Você sempre fala isso”, riu, descontraído.
Sua língua estava retida, como se estivesse na espera de fazer um pedido. Masami se ergueu mais perto para ouvir melhor, porém não interrompeu. Encarando na direção do armário, observou algumas de suas armas sem uso, juntamente de algumas roupas com as quais ele perambulou uma cidade inteira, como se esperassem ser limpas outra vez pelo tanto que se encontram com a batalha. Logo, agarrou seu capacete, enquanto punha o telefone sobre uma bancada.
“Sei que está meio tarde, mas eu queria saber se você se importaria caso eu passasse a noite aí”, disse, receoso. “Quem sabe dormir vendo algum filme.”
“Você está afim de dormir aqui?! Poxa vida, se eu soubesse disso mais cedo, teria falado com o Mestre Tarô!”, exclamou Masami, quase a tropeçar diante da proposta de seu amigo, por conta da alegria daquela surpresa. Seu entusiasmo tornou-se contagiante. “Mas eu tenho uma boa notícia! Você pode dormir aqui, sim! Meu mestre saiu e só volta amanhã à tarde. Ele foi pro cinema com a senhorita Ayumi e avisou que vai dormir fora. O bom da clínica é que eu tenho ela só pra mim quando vou dormir!”
Ouviram-se alguns passos além do alto-falante, uma correria acompanhada de desespero veio à tona conforme se entremeava numa estante, no anseio de checar se tudo estava nos conformes. Arregaçou a geladeira, enquanto murmurava listas e preocupações para si. Dessa forma, agarrou o telefone de volta, até voltar-se a enxergar a vidraça do prédio, na qual se viu próximo desde o começo de sua lembrança, quando foi levado como pupilo.
“A rotina do senhor Tarô sempre foi um grande mistério”, disse, enquanto corria para arrumar suas roupas de passeio, até dobrar o pijama num pequeno rolo que colocou sobre sua mochila.
“Não tem muita coisa aqui na geladeira, mas eu posso preparar um lanche para a gente”, avisou de antemão, “dá para assistirmos um documentário sobre leões marinhos também, por mais que eu ache que você não é muito chegado à vida marinha!”
“Se quisermos jogar alguma coisa, tenho alguns tabuleiros guardados aqui no meu guarda-roupa. Temos bastantes opções.”
“Está fechado, então! Não se incomode também com a comida, mas sou muito agradecido pela sua gentileza!”, empolgou-se, restringindo-se aos confins do código da humildade. Mas Itsuki às vezes escolhia a insistência ao lugar da criatividade quando se via capaz de fazer sugestões nem um pouco diferentes entre si. “Para hoje, eu estava interessado em assistir um filme do diretor Kurosawa, um de história, que realmente fosse incrível! Já queria há muito tempo vê-lo com alguém.”
“Cara, você me lembrou de um negócio!”, do outro lado da linha, notava-se uma correria desenfreada acompanhada de sons de zíperes e objetos caindo sobre o chão, a terminar com uma conclusão alegre. Logo, fez-lhe uma pergunta, embora não esperasse que imediatamente ela se desfizesse na lerdeza de uma ideia brilhante atirada ao escuro. “Você está falando do Kiyoshi Kurosawa, né? Aqueles filmes de terror que ele faz.”
“Não era esse! Eu me referia a Akira Kurosawa! É tanta gente de sobrenome parecido”, riu, esticando a palma da mão até a testa, desacreditado pela diferença de nomes. “Será que ele é um dos bons?”
“Calma, não foi isso: é que eu estava procurando na gaveta e sem querer vi um DVD que tinha esse nome”, respondeu, arredondando a boca de forma que essas surpresas não fossem as primeiras, nem as últimas a estar na ponta da língua. “Eu não o conhecia, mas aí ele apareceu e caiu na palma da minha mão. É muito doido: o filme que eu achei é Caminho da Serpente. É de uns sete anos atrás, todo diferentezão. É impossível você não gostar.”
“Aqui diz que é de investigação criminal. É um filme bem maduro, não tem como falhar. O que você acha?”
“Incrível”, seus olhos brilharam ao ouvir aquela descrição. “Um verdadeiro kult nunca falha, você sabe bem. Esse Kiyoshi está com potencial, gostei.”
“Assim, eu não sei o quanto que esse filme é bom, está bem? Mas eu estava afim de vê-lo hoje. Sem o Tarô, é meio entediante ficar por aqui. Parece que me caiu como uma luva ligar para você, também. Muito obrigado”, respondeu, fechando os olhos em alívio.
“Apareça por aqui que a gente assiste, com certeza. Beleza?”
“Beleza, então! Mas também vou dizer: as coisas não caem como luva só, elas acontecem porque precisam também”, acenou, repleto de boa vontade. “Enfim, não preciso explicar: não há mistério em saber como eu vou chegar. Inclusive, nem vai precisar de campainha, caso um dia o Tarô fique nos vigiando. Tenho meus métodos.”
Quando notou que se havia marcado com hora precisa a missão do dia, Itsuki deparou-se com sua genuína felicidade, mesmo após tanto ser relatado por ele de sua estranha vida. Delongar-se com a verdade não lhe seria bom, embora esta fosse uma barreira a qual ele impelia sem sucesso, até trazer-lhe à tona um velho assunto.
“A propósito, você está conseguindo se desenrolar bem no mundo aí fora?”, perguntou-lhe, reflexivo.
“Ah! Sim, estou conseguindo conversar com outras pessoas sem que o Mestre Tarô precise me ajudar, ele me ensinou a maioria das coisas que eu sei. Bom, pelo menos estou conseguindo o básico”, retrucou, permitindo-se um breve intervalo para pensar, mas nenhuma paz a sua curiosidade quanto a Itsuki. Vacilou antes que pressionasse os lábios, embora não temesse cair no mistério.
“E aí, é normal trabalhar assim tão cedo nessa idade?”
Olhou torto para suas armas suspensas, papéis arrojados e gavetas desmontadas. Caiu-lhe um breve desconforto, como se arrepiasse seus sentimentos perante si, em prevenção de que se perdessem pelo caminho. Voltou-se ao retrato sobre a parede, para o qual ofereceu-lhe nada senão um silêncio fragilizado pelo seu anseio de se descobrir através de uma outra voz.
“Algumas pessoas nascem trabalhando: como acabou que eu nasci com isso no sangue. Todos precisam: minha família, que é pequena, os nossos serviçais, que vão a nós em gratidão e necessidade”, explicou, até brevemente cerrar os olhos, e importunar-se pelo quão oleosa sua pele aparentava ao observar-se à janela.
“Não é saudável ficar a sós com meus pensamentos! Quando me distraio com algum objetivo, eu descanso! Isso me faz um grande bem.”
“Eu acho que entendo o que quer dizer! Tinha perguntado sobre, porque eu meio que tenho essas dúvidas sobre minha rotina mesmo”, segurou a risada, desaguando em compreensão até ver-se incrédulo. “Mas para você é literalmente o legado da sua família! Não seria? Isso é o que vale! Mas trabalhar tão cedo, soa errado para mim…”
“Toda vez que pergunto sobre você, dificilmente você não conta algo sobre seu avô. Sempre uma história mais curiosa que a outra. Isso eu posso dizer: mas eu duvido que você não ame isso!”
“É terrível ser legado de família, sabe? Cara, eu não queria que tudo estivesse só nas minhas mãos. Sozinho”, arrumava-se. Além da linha, ouvia-se o som de um chaveiro balançando ao fundo do áudio. “Meu sobrenome estava próximo de sumir. Era injusto, um crime que ele não fosse sequer uma vez recordado.”
“Mas o que é correto não pode ter nome, Masami. Mesmo se fosse a melhor coisa de todas, o esquecimento atravessa quando ele não merecia. É difícil separar-se do mundo espiritual, e um trabalhão escondê-la.”
“O mundo lá fora parece bem perigoso e insensível. Seria tudo mais simples se as pessoas acreditassem mais no que há de bom! Eu nunca tive esse sentimento de que as coisas parecem que vão desaparecer, porque o que eu tinha já se foi embora muito antes de eu sequer saber sobre elas. Sabe o que eu acho, Itsuki?”, respondia, enquanto ao fundo ouvia-se sutis estalos de um fogão aceso, ao ranger de panelas de aço.
“Apesar de tudo, é melhor que isso seja preservado por quem realmente se importa, porque nem todos que conhecem o legado vão respeitá-lo. O seu avô fez de tudo e mais um pouco pelo o que acreditou, isso não o faz alguém errado, ou que ele não fez um bom trabalho.”
Carregou-se de boa fé ao dizê-lo. A clínica, em certa medida, fazia-o pensar sobre as coisas a rodeá-lo, transpassando a tranquilidade de estar sozinho num lugar conturbado. Era sempre visitado por figuras estranhas, às vezes amistosas, outras somente insólitas, que poucas vezes cruzavam o olhar do jovem, norteado pelos seus tabuleiros e os mistérios de mídias perdidas além da visão.
“Fiquei pensando sobre isso há um tempo. Mas acredito que o karma, aquele bom de verdade, pode ser passado não só além de si mesmo após a morte, mas também para a família. É garantido que seja lá o que você for fazer daqui em diante, seja um professor sabichão ou um líder rabugento de clã, vai ser algo bom. Eu sinto isso em você, pois sei que já teve alguém lá atrás que quis garantir um lugar melhor.”
“Só importa no fim as coisas que fazemos: quem é alinhado em boas virtudes vai saber disso, não?”
Assim que parou de falar, um silêncio perdurou para então uma realização pessoal chegar. Seu ensurdecedor silêncio foi acompanhado por um som muito baixo de lamúria, como se uma voz chorosa viesse do outro lado. Itsuki apoiou-se sobre a parede para limpar os olhos, enquanto não era capaz de resistir às emoções que vinham à flor da pele.
Pareceu-lhe por um momento que a realidade lhe fazia sentido e podia ser alegre, mas nem tudo que permanecia nela seria sempre feliz: a tristeza que o tomou foi mais forte. Recompôs-se após a lembrança, até ser brevemente interrompido outra vez, havendo consumada à dupla uma realização.
“Cara, eu tenho que falar isso pro Mestre Tarô!”, exclamou empolgantemente.
“Não duvide: essa foi a coisa mais bonita que já ouvi você dizer. Obrigado”, respondeu, enrugando as bochechas para conter a sensação, permanecendo aberto de peito e desejo pelo dito. “Pode não parecer, mas foi bastante significante ouvir isso de você.”
“Ah, que isso, cara! Não precisa chorar! Eu não sei lidar bem com pessoas chorando. Ainda mais com você desse jeito: se anime, por favor!”, afligiu-se, agarrando o telefone com as duas mãos apressadamente.
“Não, fique tranquilo”, aos prantos, Itsuki recuperou a postura para responder, aliviando-se de seu peso. “Não tenho vergonha disso. Eu precisava muito disso: nós daqui ficamos muito ocupados aqui na escola. Aconteceram algumas coisas ruins, tudo isso me desassossegou.”
“Eu imagino que seja bem desgastante! Mas deve ser muito legal, não é? A Escola de Assuntos Espirituais de Tóquio. Queria muito poder vê-la pessoalmente, e poder manifestar meus dons num lugar que me acolheria!”, comentou, sob a luz de um sonho romântico em estar na instituição, embora nada soubesse e tivesse ciência do mundo que a rodeava por todo.
“Mestre Tarô não gosta quando comento sobre isso, mas quando se faz brilhos de luz com as mãos, e depois descobre por acaso que esse tipo de coisa existe. Dá uma vontade de saber mais, entende?”
“Eu não diminuiria uma promessa por nada”, retrucou. “Você saberá melhor quando chegar aí! Há muito em que não se encontra princípio, mesmo meio, ou fim. Isso vale para a minha sorte no dado.”
“Vem com essa, não! Vou contar o tempo direitinho e nós vamos ver o quão rápido você vir”, anunciou-lhe o desafio. “Fique bem! Sabe que pode contar comigo.”
“Você acha que vai demorar para entrar na escola?”
“É uma questão de tempo”, sorriu, chacoalhando as chaves sobre o telefone, desaparecendo de vista, de pronta vontade para o reencontro com a estrada.

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