Capítulo 22: Himavanta de Muitos Segredos
Passou-se pouco tempo, meros minutos quando a linha se encerrou. Ele havia vestido seu capacete e seus equipamentos de corrida. Não bastou que esse tempo fosse somente acelerado, mas também apreciado como se fosse uma grande corrida contra o tempo.
Na clínica, vinha atormentada a lembrança de que deveria cuidar das panelas do fogão, antes que ela fosse sucedida por um rugido alto, tomado por estampidos agudos, estalos explosivos a anunciar uma chegada brusca. Um motor barulhento descia a avenida a cortar qualquer ouvido fora. Rugiu três vezes antes que fosse seguida por um leve toque na campainha.
“Ele é maluco?”, perguntou-se, tropeçando ao chão para vir ao chamado da campainha. A voz, desesperada, vinha do segundo andar, na imitação da barulheira do motor que agora, que muito chamou a atenção perante a noite. Aquele longo silêncio ansiava findar-se, enfim, diante da vizinhança morta, similar a um vazio tão grotesco quanto o da escuridão, que sempre observava para imaginar uma mínima parcela sua. Logo, desceu as escadas, apanhando consigo um molho de chaves.
“Estou descendo!”
Durante seu aguardo para que seu amigo permitisse sua entrada, prestou atenção na rua no qual se encontrava, observou-se atônito pelo quanto um lugar podia ver-se silencioso em frente a um colossal estrondo. Não havia sequer uma alma viva disposta a reclamar do bramido insistente daquela motocicleta.
Por um lado, seu amigo havia ficado atento com os diversos cartazes, panfletos de diferentes tamanhos colados em postes, paredes e portas, referentes a chamada Clínica do Sol Nascente, lugar onde Masami trabalha. No que parecia ser uma eternidade diante ao silêncio, abriu a porta para alegremente cumprimentá-lo.
“Vamos entrar que a noite só está começando!” — Recebeu-o, ainda segurando na grade do portão. “Foram três minutos, cinquenta segundos e novecentos e trinta e quatro milésimos pelo que contou. Como que você bate recordes assim?!”
Itsuki retirou o capacete para ver melhor seu amigo em presença. Sem nenhuma lentidão, abraçou-o fortemente assim que chegou. Sabia que estava prestes a vivenciar um momento grande, mas não custava entregar uma parte a mais de seu esforço por ele.
“Que bom! Nada acontece à toa. Essas ruas são como pistas para treinar a minha direção e as linhas nas curvas. Sempre estou chegando cedo lendo enquanto espero meus alunos!”, disse, rindo bem alto.
“E será que o Yukimura voltou cedo para casa?”
“Ele sai assim que o expediente termina. A essa altura, já deve estar em casa”, esclareceu, já fechando a porta da clínica para que ambos subissem. “Pelo menos, amanhã a clínica vai abrir bem mais tarde. Sem pensar em acordar cedo, está bem?”
“Eu me arrancaria a pele se eu o quisesse.”
Ao subir as escadas, ele se manteve prostrado, como se pensasse sobre o que Masami perguntou, e caísse uma verdade duradoura que pedia para ser expelida longe de sua boca. Então, ele estalou os dedos, ciente de que havia encontrado uma solução para sua dúvida, e fez surgir em sua mão uma sala de aula em miniatura. Depois jogou algumas peças, como as de xadrez, demonstrando seu espaço de treinamento físico.
“Como as coisas funcionam por lá? É muito puxado assim mesmo?”
“Eu fui escolhido para ser professor auxiliar de Artes Marciais e História do Budismo por conta do tempinho que passei no Tibete. É muita responsabilidade”, reespondeu, realizando uma folha de papel em mãos, com algumas questões embaralhadas sobre uma matéria. Depois, retirou do nada, uma sala pequena, idêntica a como ditava sua memória da escola.
“Porém, eu tenho sido mais usado para dar aula sobre espadas e luta em geral, e esse espaço aqui tem sido o meu. Há tatame, algumas armas brancas na coleção, também as de treino, feitas de bambu, dardos, dois estandes com armaduras completas, e uma gaveta com as vestimentas de prática. Se não me falha a memória, são pelo menos mais de vinte alunos que se inscreveram nessa matéria! Foi um recorde. Já lhe adianto: uma coisa é fazer uma prova escrita. A outra é avaliar fisicamente, a partir de critérios mais subjetivos! Por essa razão, me ative às regras da escola para isso, e ler alguns manuais de mestres de Aikidô e Judô.”
“Alguns alunos reagem a esses treinamentos diferentemente, e portanto, possuem uma preparação didática extremamente exigente, ao ponto de frustrá-la demais se ela não for orientada mentalmente. Esse é meu grande desafio. Todo esse processo é uma sequência de aprendizagem bem maior que o comum. Para ser honesto, o que faço nem são avaliações, mas simulados do teste de aptidão física. A gente finge que eles são bons como provas escritas! Isso porque eles são também um outro preparativo, para uma espécie de avaliação que acontece entre todas as escolas em geral: é o Exame da Mandala.”
Chegando à sala da clínica, Masami ouvia e prestava atenção cuidadosamente ao que conseguia compreender. Logo em seguida, seu foco se divergiu para a lâmpada que piscava sutilmente no teto, como um vagalume moribundo, em seus instantes finais. Quando Itsuki citou o exame, Masami bateu as palmas duas vezes em direção à fraca luz, e o brilho que antes era sutil, ficou viva equivalente à luz de uma fogueira recém acesa, alimentada pelo desenho de suas palmas.
“Isso está acontecendo mais do que eu gostaria…”, disse, levemente transtornado pela langorosa iluminação com a qual se obrigou.
“Lanterneiros não estão ultrapassados!”, encarou-a de baixo, até que o brilho ajustar-se lentamente e o cegasse por alguns segundos. “Para essa clínica, eu diria que só falta vergonha na cara para o Tarô fazer melhor.”
“Olha, mas essa escola parece mais interessante cada vez mais que você fala, Suki! Treinos diários. Isso é muito melhor para mim, cara. Eu não sabia que havia tantas pessoas que pudessem fazer truques assim como eu. É um outro mundo.”
“Que exame é esse? Como ele é?”
“Você não vai fazê-lo, fique tranquilo”, respondeu, enquanto se aproximava daquela singela luz que ele havia feito, para sentir o calor dela que permanecia como resquício de seu singelo dharma. “É uma verdadeira provação física, uma marca de maturidade; um desafio que todo jovem discípulo disposto a expandir seu dharma, sua imposição espiritual que o forje para a batalha.”
“Eu tive essa honra. Era meu mais precioso capricho depois do treino chato que fiz. Dói, e muito.”
“Entendi!”, respondeu, quase ao impulso para lhe dizer um absurdo. Trouxe mais um questionamento que mais parecia camuflar a sua intenção, ingênua e indecisão. Uma consequência de não ser calejado com as provações da vida, enquanto cozinhava o lanche com muita estimação para servir-lhe bem.
“Então, para se dizer um feiticeiro de verdade, é preciso ao menos fazer um exame similar a este? A ansiedade do Yukimura me deixou bem receoso. Deve ser o que você falou.”
Ao se acomodar no sofá, Itsuki suspirou assim que pôs as mãos logo atrás do pescoço para relaxar. Em seguida, ele se viu pensativo, pois de certo modo, não havia apenas feiticeiros bem guiados, sábios a caminhar pelo mundo.
“Todo dom, de alguma maneira, pode ser usado até por aqueles que não o despertaram inteiramente. É uma predisposição individual, mal sabemos como ele crescerá. Um dos meus trabalhos como professor-auxiliar é lidar com isso em relação aos alunos novos. Meus superiores jamais gostariam de perder esses feiticeiros de vista. É muito perigoso. São poderes que eles não sabem controlar”, declarou Itsuki, cautelosamente.
”Um dia você viverá isso. Essa sensação de mudança, de querer ainda fazer parte daqui, enquanto, inevitavelmente, vai ter que assumir uma nova identidade. Não só no mundo dos feiticeiros, mas quando de repente olhar para o abismo que é esse mundo, vai precisar de um tempo para se redescobrir. O Tarô é tão protetivo com você porque quem foge, uma hora, vai parar!”
“Ei, ele sempre evita falar sobre qualquer coisa que envolva isso! Por mais que eu respeite muito o meu mestre, ele às vezes me dá nos nervos! Não posso fazer muita coisa, mas no fundo, eu acredito que uma hora vai dar! Eu posso conseguir, eu preciso disso”, retrucou Masami, juntando as mãos esperançosamente.
“Eu acho que é crucial que eu me torne feiticeiro como você. Eu me sinto deslocado de tudo o que é lugar, sem tempo para frequentar os estudos devido ao trabalho. Sem chance de conhecer novas pessoas além de você e o Yukimura. Era inevitável que eu quisesse trilhar esse mesmo caminho que você está percorrendo. Se o Tarô já vivenciou isso, por que eu não poderia?!”
Vindo da cozinha, podia-se somente ouvir o aprendiz cozinheiro conceber um prato que muito bem sabia: o seu grande preferido. O rapaz revirava o macarrão grelhado que fez da panela, e com um molho caseiro que já estava para acabar, o espalhou junto dos pedaços fatiados de cenoura, repolho e as tímidas carnes de barriga de porco. Masami cuidadosamente retirou a carne da porção oferecida a seu amigo, com a minúcia de que nenhum pedaço tinha caído.
“A senhorita Ayumi sempre me fazia essa receita quando o Tarô precisava sair à trabalho. Então, faço isso quando estou muito para baixo, ou estressado. Não é tão saudável, eu sei! Mas que deixa a alma contente? Deixa, sim!”, o cheiro o agradava, fazia luzes ao redor brilharem furiosas em determinação, instigadas pela satisfação de um trabalho bem feito.
“Não se deixe levar pela impaciência: eu vou te ajudar. Eu adoraria vê-lo lá na escola conhecendo pessoas novas! Conheceria pessoas muito especiais para fazer parte da sua vida. Se ao menos seu mestre lhe permitisse sair desse mundo e ter essa experiência, teríamos uma chance”, brevemente, encarou-se, até, de repente, arregalar os olhos, luzidos pelo esplendor de uma oportunidade. Espreitou-se em suspeita, inquiria o que estava por trás dos motivos de seu mestre comportar-se assim. Fechou o semblante, embora tivesse de desfazê-lo, temendo mais o sacrifício premeditado do implacável mundo afora.
“Você precisa de menos timidez, e mais proatividade, é seu momento de dizer a verdade. A cada dia que passa, você fica perto de ser adulto, não sabia? Uma hora temos que dar a cara à tapa. Se ficarmos somente dentro de nós, não saberíamos nem como cuidar dos outros, fazer amigos. E como você jamais gostaria de sentir esse mundo de outra forma? Desbravá-lo por inteiro?”
“Eu não sei dizer nem o que é mundo”, respondeu Masami, fitando diretamente ao chão. “Muitas coisas, nem mesmo posso dizer que sei. Outras, nem o Mestre Tarô me permite aprender.”
“Não se complique: o mundo é como não deixar que o tempo corra mais rápido do que você”, respondeu, enquanto se observava perante as dúvidas e tudo o que residia além da visão humana. “Ser como uma lasquinha de uma árvore apoiada fruto descendo o rio, pronta para crescer. Eu quero dizer que seríamos medíocres sem o mundo aí afora, talvez não teríamos toda essa força que nosso espírito conserva agora. Ou nunca nos tornaríamos amigos! Estamos sempre pelo outro, como eu estou por você, e você está por mim.”
“Mas essa ordem existe ao preço caro do sofrimento. Pois lá, presenciei coisas quase inomináveis, que nunca tiveram a chance de seguir o dharma ou de fugir da existência. O mundo ali queria terminar para sempre.”
Sua face tornou-se sombria como a voz, ao ritmo de uma névoa pequena sobre seus ouvidos, impenetrável para proibir que alguém a abanasse com suas mãos vazias para não mais vê-la. Itsuki olhava fixamente para seu amigo, interrompendo o piscar de suas pupilas, para lhe fazer certo da verdade em suas palavras.
“Caramba, foi tão bizarro assim? O que foi que você viu lá?!”, Masami o defrontava com curiosidade, enquanto se limitava dentro das regras de seu espanto. Era uma verdade cautelosa, emboscada por um esmero inspirado pela indiscrição da curiosidade.
“Bestas, formas irreconhecíveis, ideias inacabadas, sonhos destruídos e existências perpétuas”, citou cada um dos nomes com relutância. “Imagine viver todas as eras de uma vez e não ter noção de que há dia e noite, ou existe tempo. Se você não dormisse, um dia seria eterno. Aquele mundo estava querendo se matar, juntamente de quem o habita.”
Tornou-se obscuro seu arredor. O teto se afundou, como se tornasse um céu absoluto, que abraçava, finalmente, uma forma visível, na símile de uma criatura abissal, apanhada pela sombra. Desfez-se, depois, por inteiro, dando origem a um mundo de padrões ilimitados de formas geométricas infinitamente infinitamente. fragmentar. Tamanho era o escuro, semelhante a amarelo, complemento de sua grandeza, porém somente uma adição ao peculiar abismo das coisas que não são e não podem.
Este era um vislumbre: proibido pela razão, desmedido pelo sentimento, impiedoso a quem demanda misteriosas andanças pela terra, bem além do Monte Meru, a fronteira da sabedoria. Essa era a borda do mundo, tão longe do Japão, sem estadia longa, a menos aquelas alimentadas pelo espanto, na qual se exprime a urgência de estender o dedo para trazer-lhes, pelo menos, uma realização de sua existência que levasse, para si, aqueles que sobem a escada do ciclo do mundo.
Maravilhar-se desafiava os mais corajosos. Masami, nada distante, era seduzido pela sagrada narração das coisas somente meditáveis. Aquelas formas pendiam a abraçar o escuro, mas diversas vezes, seus sussurros faziam brilhar e completar as sombras para que se acendessem de cima a baixo sobre Itsuki.
“É isso que habita aquela floresta”, disse, enquanto se espantava com as pequenas fagulhas que iluminavam a sua imaginação. “Muitas vezes, não podemos enxergá-los, mas podemos senti-los. Tudo é uma lição: um sutra de que a realidade é a única coisa que nos prende a um sentido, à normalidade.”
“Fora dela, seríamos monstros.”
Aquele espetáculo de formas, ideias e visuais dançavam perdidamente entre si, como participantes de um grande banquete, uma ensejada festa de criaturas, vasta demais para uma mente solitária entender por completo. O garoto escrutinava em silêncio, o espanto de vê-lo crescer exponencial e infinitamente o fez descrente dessa realidade. Mas tornou-o repleto de esperança, cuja dádiva era o que mais queria Masami presenciar de perto.
“Cara, isso é foda para caralho!”, exclamou, maravilhado, a abrir o sorriso como se recebesse a mais grande notícia de uma pavorosa com a qual ele sonhava percebê-la melhor. “São essas as coisas que você viu lá, desse jeito?!”

“É apenas um pouco do que eu senti. É nojento. Pois, não é como se todas essas coisas fossem necessariamente boas: não queira vê-las por si sem saber a verdade sobre elas. Elas querem tudo, menos o bem”, respondeu, balançando os ombros.
Ele olhava ao redor continuando sua própria imaginação, e percebendo de detalhe para detalhe o quão a luz de seu amigo o contrastava sem haver fim. As criaturas fugiam da ofuscância, até fazer-lhe certo de sua própria suspeita, do pensamento que tinha quanto às coisas como eram, e mais sobre as experiências perdidas na longínqua memória.
“Nem lhe comento como foi para entender aquele processo. O exame mudou muito ao longo dos séculos. Nosso passado sempre foi uma incógnita, mas lá? É um mistério maior! Não nos ajudamos quando estudamos através dos pergaminhos: o exame era muito mais rigoroso, um verdadeiro inferno físico”, continuou, refreando intensamente seus inventos a não escaparem da própria mente. “Não acreditaram em mim; disseram que isto é decorrente de minha imaginação fértil. Mas não gosto de interpretá-lo literalmente assim! Apenas prestei um pouco mais de atenção do que os outros, talvez mais do que eu deveria.”
Um espasmo lhe atacou a visão. A névoa tremeu à espera de uma horrenda ventania, mas ressentiu seu criador, transtornado pelo limiar inexistente das regras físicas, a impedir a razão de prenunciar qualquer lógica que aquecesse seu corpo em meio ao invernal juízo do cosmo do coração da terra.
“Aquilo me assombrou desde que saí de lá”, disse-lhe, retido em espírito, enquanto se deslocava por entre a névoa. “Eu não podia somente ignorar com minha sombra.”
“Assombrou?! O que é mais tenebroso que esses espíritos que você deixou fugir por aqui na sala? Vai, me conta!”, retornou ao seu entusiasmo, zelado pelo anseio de conhecer a jornada do além-mundo.
“Você quer mesmo saber?”, indagou-lhe, agarrando-o pelo ombro, enquanto se deleitava a apreciar as pontas de sua criação. Pôs a mão sobre a testa, balançando tensamente seus cabelos.
Olhou-o de lado, vendo passar em frente a seu cenho uma entropia, tal como é o princípio do samsara, uma tormenta de sensos e dissensos que doíam a cabeça. Masami havia-se tornado o centro das atenções para o jovem, uma estaca para onde a desordem haveria de terminar num futuro incerto.
Logo, ele colocou a mão no peito, para entregar-lhe o que ele mesmo havia levado consigo por muito tempo como impossível, e abri-lo permanentemente. Era-lhe menos que bizarro: jazia descomunal perante o abismo que separava o presente e sua improvável infância, e mesmo assim, ao dar-se conta de todo aquele peso, não pestanejou, e retornou suas mãos sobre Itsuki.
“Quero!”, exclamou Masami, inocentemente. “Saiba que você não está sozinho: o que você ver eu vejo também, não importa o que for!”
Masami aproximou-se mais dele e então o segurou nos ombros, olhando para o chão para que sua memória não se alinhasse mal com as sensações e as imagens criadas na mente. Logo em seguida, Itsuki respirou fundo, e voltou-se ao seu amigo, para não lhe reter o que ansiava dizer por descuido em sua voz. De relance, murmurou levemente, e avante estendeu os dedos, para controlar a sombra.
“Ela também via o que eu via”, a névoa se concentrou na janela, como se saísse dos dois e deixasse o ambiente pacífico. A transparência retornou a reinar sobre ambos. “Mais do que eu mesmo via.”
“Quem é ela?”, a primeira pergunta foi atirada, fixando-se sobre as pupilas de avelã de seu amigo.
“A floresta tinha vida, Masami. É nenhuma surpresa”, retrucou-lhe atenciosamente.
“Mas isso aí há em tudo o que se sabe como floresta, Itsuki. Você não está dando detalhes o suficiente!”
“Sim, ela tinha tanta vida que teve uma filha”, disse-lhe. “Uma fruta que falava, tinha pernas e olhos, como uma humana. Nunca aquilo poderia ser somente um passeio pela floresta, uma ida simples em meio ao desconhecido apenas para divertir-se e deixar seu nome para qualquer corajoso que ouse adentrar novamente.”
“Ela poderia ter-me matado se fosse esse seu desejo.”
“Uma fruta-humana que é tipo uma pessoa? Que bizarro! E você casualmente a viu por lá, como foi isso?”, inquiriu-lhe, tornando-se invasivo pela sequência de dúvidas a surgir uma atrás da outra.
“Eu vou lhe mostrar.”
Com um estalar de dedos, ele refaz o ambiente à frente, como se o quarto de Masami não existisse mais, e se tornasse a lembrança vívida de Itsuki. Era impossível se esquecer do apartamento, mas o interesse de seu amigo o fazia ser capaz de algo que nem mesmo ele podia perceber.
Na verdade, sua imaginação poderia se desdobrar além de seu controle, para a luz, ou não. Entre ser o servo da criação, ou da realidade, em ambos se via uma condição em disposição a encontrar um fim às coisas, faltando-lhe apenas transpor-se entre o ciclo e o além-ciclo, real e irreal.
“Sinta-se em casa, pois fará muito frio a todo aquele que adentrar sem precedentes à senhora de glórias inominadas. Himavanta, a de neve eterna”, anunciou-lhe, estalando-lhe os dedos para que sua atenção virasse a eles, e os transformasse num renome irreconhecível àqueles de mais longe. O tecido lhes havia de ser costurado como um todo, até cobri-los que não percam o mais humano do calor restante em seus corpos.

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