Capítulo 3 - Ressonância
Algo pulsava dentro de mim, meu corpo retraía com a rejeição do que estivesse ali.
Apertei minha garganta, mas de nada adiantou, era minha alma que estava engasgada.
Um som úmido, acarretado de uma espessa saliva e fios viscosos, escaparam de minha boca.
Então aquilo emergiu.
Um orbe, semi-enterrado na neve endurecida da cabana — a mesma neve ao redor não derretia — ela escureceu, como se estivesse sendo contaminada por aquilo.
Sua superfície tremia como carne tentando se lembrar quando ainda era viva.
Tons esverdeados com veias escuras serpenteavam ali dentro, como raízes apodrecidas buscando algo para consumir.
Não é possível. O que infernos estaria preso ali?
— Um orbe onírico? Mas como…?
Meu vômito foi o suficiente para eu me esquecer da mãe postiça. Preciso me livrar dela.
Entre tosses secas — gélidas — tentei catar o orbe.
Meus olhos seguiam a espiral que se formava — lenta, hipnótica.
Então eu o agarrei.
A pressão veio, fez eu apoiar o antebraço no joelho, o corpo curvou como se segurar aquilo exigisse mais do que força. Inspirei fundo — ou tentei.
O orbe reagiu, ele começou a girar. Então ficou mais rápido, mais denso. Rastros de prana esverdeada se desprenderam como fumaça pesada, escorrendo pelo ar ao redor.
Ergui o olhar.
— Theodore, tenha modos. Se for fazer isso, crie coragem — ela bateu em seu rosto, ao que parecia um convite.
Se brinca. Ela não…
Dane-se.
Eu avancei.
Meu punho encontrou o corpo dela — e, por um instante, tudo se acalmou.
O impacto não fez som.
Meu punho afundou — sem resistência — como se atravessasse carne morna demais para reagir.
Por um instante, nada aconteceu.
Então o corpo dela cedeu.
Não foi empurrado.
Foi puxado.
Como se algo atrás dela tivesse aberto a boca — invisível — e a tragasse inteira contra a parede, que fragilizada pelo frio, rachou.
Enquanto os troncos daquela floresta amargurada observavam — imóveis, secos, como testemunhas.
Só isso…?
Minha testa franziu.
— Que merda foi essa.
Nada. Nada além de um golpe.
Mas eu senti ele ressoando prana.
Por que infernos nada aconteceu?
O ar ao redor dela encolheu primeiro.
Como se o espaço respirasse para dentro.
Então veio a implosão.
A parede cedeu de uma vez, madeira estalando para dentro, sendo esmagada em direção ao corpo dela — como se tudo ali tivesse sido puxado por um único ponto cravado em seu peito.
E algo saiu dali. Não houve despejo de sangue, muito menos carne arrancada.
Foi luz.
Um brilho amarelado, pequeno — quase frágil, mas estranhamente suculento — foi arrancado do meio de seus seios.
Os fios ruivos velaram sua queda.
Meus olhos fixaram naquela esfera.
Talvez tenha funcionado.
Têm que ter funcionado.
Anh? Chuva?
Algumas gotas se formaram na neve, o céu permanecia mórbido e mesmo assim sem sinal de qualquer precipitação.
Claro que não era chuva.
Meus lábios salivavam, meu desejo de provar aquela suculência me castigava.
Gravetos se enroscaram no meu pulso, ásperos o suficiente para me dar um calafrio.
Sua bruxa…
— Eu estou orgulhosa, meu filho. Não crio homens benevolentes, somente sobreviventes que sabem lidar com este mundo belamente cruel.
O que é o Fio?
Se souber as horas, me avise.
Também quero saber porque estou aqui.
Doida, maluquinha, infernosa. Esse tipo de pessoa merece apodrecer.
Suas unhas capengas, de alguma forma, se fincaram em minha pele. Cedi meu braço contra minha vontade, mas nada aconteceu.
Isso foi preciso demais.
Que estranho. Estávamos com o mesmo olhar descrente.
Eu não entendia, já ela… vai saber.
— Eu não consigo drenar… — sua voz compassada, me alertou novamente do perigo.
— Drena esse soco aqui!
Com a mão livre, eu afundei meu punho em seu rosto ressecado. Foi como quebrar uma folha no outono.
Resgatei a esfera.
Não havia como resistir. A única coisa que passava em minha mente é que só passaria fome se eu parasse de mastigar.
Então levei ela à boca e engoli.
A neve intrometida derreteu em minha língua. Já aquele pequeno “doce”, deslizou pela minha garganta deixando rastros açucarados, como um pão amanteigado.
Era doce pra caralho.
Macia como algodão.
A doçura não foi embora.
Ficou grudada na língua, nos dentes… no fundo da garganta.
E então… desceu.
Não como comida.
Como prana.Meu estômago revirou — não de rejeição, mas de reconhecimento.
Meu corpo estava se ajustando, começando na base da coluna.
Um calor rastejou por ali.
Lento.
Deliberado.
Como dedos traçando minha pele por dentro.
Arqueei o corpo sem querer. Minha respiração falhou com a queimação.
Não. Não queimava.
Eu não pude ver, mas aquela garota havia me avisado. Era aquela espiral estranha nas minhas costas.
Girava como um turbilhão.
Uma das meias-luas… respondeu.
E então, ela se acendeu sobre as demais, gravando em mim a recordação de um nome;
Marco da Abundância:
Controle Crônico.
Um pulso percorreu meu corpo inteiro. ,Denso. Espesso. Vivo.
Eu ofeguei e senti um cheiro.
Não—
Não só cheiro.
Tinha… sabor.
Meus olhos caíram sobre a criança.
Pequena.
Pálida.
Quase imóvel sob a neve que insistia em tocá-la.
Seus lábios estavam azulados. A respiração — falha e irregular.
Ela estava morrendo. Ainda. Mesmo depois de tudo…
Droga!
Eu sei que ela é inútil. Então por que?
Por que eu ainda quero salvar ela?
Me arrastei até ela, relutante com meu próprio ato.
Minhas mãos tremeram quando a puxei para mais perto. Fria. Leve demais.
Viva… por pouco.
Meu pulso latejava. Quente, e ansioso.
Eu sabia o que precisava fazer para salvá-la.
Ou… achava que sabia.
— Aguenta… — minha voz saiu baixa, áspera — Só… aguenta.
Mordi o interior da boca. O gosto de ferrugem veio imediato.
Cuspi na mão. Não. Não seria o suficiente.
Franzi o rosto.
E então, sem pensar mais.
Afundei os dentes no próprio pulso.
A dor veio rápida e límpida. Depois a sujeira, o sangue escorreu pelo meu antebraço
Quente demais.
Espesso demais.
Vivo demais.
Segurei o rosto dela com a outra mão, forçando sua boca a abrir.
— Engole… — sussurrei, quase um rosnado — Anda… engole isso.
Ela não reagiu. Claro que não.
Aproximei o pulso de seus lábios.
Uma gota tocou, e então outra.
Por um instante… nenhum resultado. Então um tremor quase imperceptível, veio de sua garganta que contraiu. E assim ela engoliu.
Segurei mais firme, assegurando que tomasse o suficiente.
— Isso… isso…
A respiração dela não melhorou. Mas… parou de piorar.
Sua tremedeira cessou. Seu corpo estabilizou.
Frio, ainda frio. Mas não decaía mais nenhum grau.
Controle Crônico, certo?
Parece que seu Marco é bem útil. Uma pena que permaneceu por tanto tempo em mãos erradas…
Meu peito subiu e desceu, pesado.
Mas então—
Meus sentidos estavam se aguçando.
Minha saliva se acumulou como uma cascata em meus lábios.
Passei as costas de minha mãe limpando meu beiço.
Meus olhos… não saíam dela.
Das sua pele albina. Do pescoço exposto.
Do ponto onde meu sangue ainda manchava.
Aquilo parecia…
Bom.
Minha mandíbula travou.
Não.
Errado.
Muito errado.
Minha mandíbula tensionou.
Um impulso subiu — rápido, bruto — direto do fundo do corpo.
Não veio como ideia.
Não veio como escolha.
Veio pronto.
Fome.
Daquela carne proibida.
Mas quem a proibiu?
Do calor que não era meu.
Mas quem o impediria?
Da vida de um inocente.
Quem determina o que não é sua presa?
Sim. Quem determina….
Recuei,
Forcei minha mão contra meu próprio rosto.
— Não…
O gosto doce voltou. Mais forte.
Pior.
Como se tivesse sido ativado.
Como se ela tivesse ficado mais… atrativa.
Minha respiração ficou apressada, o ar saiu mais denso.
Eu sabia o que aquilo queria.
E pela primeira vez—
Eu não tinha certeza se conseguiria dizer não.
Um som baixo escapou do lado.
Seco.
Raspado.
— …hehe…
Ergui o olhar.
Aquela mulher no chão.
Era para ela estar quebrada.
Mas, ela apenas me observava.
Não com dor.
Não com ódio.
Como se me entendesse.
Seus lábios, agora tortos, se moveram lentamente.
— Eu sabia…
Minha testa franziu.
— Você… — ela tossiu, fraquejando — você também…
Ela segurou sua fala, tentando ganhar mais forças para fazer aquele sorriso mórbido em seu rosto.
— Um lisiado…
A palavra bateu errado.
Como se meu corpo, reconhecesse por outros meios.
Meu estômago revirou.
Não de nojo.
De memória.
Ela continuou.
— O mundo odeia falhas… — ela murmurou — então ele aperta… força… até tudo parecer caber.
Os olhos dela se fixaram em mim.
— Mas alguns… não quebram do jeito certo.
Respirei fundo. Olhando ela por dentre meus dedos.
— Cala a boca.
— Defeituoso… mas funcional… — ela me ignorou.
Minha mão tremia, cravei minhas unhas quebradas e irregulares em meu rosto.
Ela viu.
Claro que viu.
— Eu procurei tanto… alguém que não fosse… descartável.
Sua voz estava fraca, mesmo assim, ela parecia mais viva do que antes.
Meu estômago revirou.
— Você… — ela murmurou — sobreviveu ao que não devia…
Aquela cruz, a vila destruída, a minha falta de memória, seria isso?
O que essa mulher sabe?
— Por isso… — um suspiro fraco — por isso eu te escolhi…
Meu olhar endureceu.
— Escolheu…?
— Meu filho… — os olhos dela vacilaram por um instante — precisava de um substituto…
Algo frio percorreu minha espinha.
— E você… — ela sorriu, quebrado — é perfeito…
Minha mandíbula travou.
— Eu não sou nada seu.
— Agora é… — ela sussurrou — olha pra você…
Abaixei minha mão, meu olhar caiu para vê-las sujas de… sangue.
Do meu. Dela. Da criança em meus braços.
E o pior.
O desejo ainda ali, vivo e pulsante.
— Você sente… não sente…? — a voz dela quase sumiu — A abundância…
Fechei os olhos por um instante.
E odiei o fato de que…
Sim. Eu sentia.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.