Plim… Plim… Plim…

    O som do sino da meia-noite ecoava ao longe, se misturando com o vento gelado da noite. O ar carregava o cheiro úmido da floresta e o barulho incessante de insetos, mas tudo era abafado pelos rugidos do monstro que me caçava.

    Já fazia mais de dez horas que eu lutava sem descanso — sozinha, exausta e desamparada — contra um Orc do Reino dos Demônios. Minhas pernas ardiam, meu corpo tremia, e a respiração saía em suspiros dolorosos. Passei esse tempo fugindo, me escondendo entre rochas e arbustos, tentando pensar em alguma tática que pudesse virar o jogo. Mas, no fundo, eu sabia: sozinha, não tinha chance alguma contra aquele colosso.

    Levantei a mão na direção dele, mesmo ofegante, e lancei uma magia:

    — Feitiço Infernal: Três Cordas Flamejantes!

    Três listras de fogo voaram de minha palma. O ar crepitou, iluminando o rosto monstruoso do Orc. Mas minha falta de controle me traiu. As chamas apenas o atingiram de raspão, queimando-lhe o ombro sem causar ferimento sério.

    — Droga… eu… acho que vou desistir… — murmurei, com os olhos marejando.

    Mas desistir não era uma opção. Eu não podia morrer ali, esquecida no meio da noite.

    O Orc avançou, o chão tremendo a cada passo. Seu machado gigante arrastava-se contra as pedras, soltando faíscas. Senti um arrepio subir pela espinha. Meus pés me levaram até uma cachoeira próxima, onde a água despencava com força. O barulho da correnteza abafava minha respiração acelerada. A água respingava em meu rosto, fria como gelo. Eu me virei para encará-lo.

    Ele rosnou, mostrando os dentes amarelados.

    — Sua danadinha… — disse, sua voz rouca ecoando como trovão. — Acha que pode escapar de mim depois desse ataque patético? Está na hora de arrancar seus órgãos e me banquetear com eles.

    Meu corpo tremia, mas forcei um sorriso confiante.

    — Vai tentar isso comigo? Logo comigo, que estou no auge do meu poder?

    Era apenas um blefe. Se fosse pela força bruta, eu já teria perdido. Minhas mãos suadas tremiam, mas alcancei o bolso e peguei uma pílula. Parti-a ao meio com os dentes, engolindo rapidamente. O gosto amargo queimou minha garganta.

    A droga era como pura adrenalina. Em segundos, senti meu corpo se aquecer, minhas veias pulsarem e minha mente clarear. Era viciante. Com ela, meu corpo ganhava energia, minha espada ficava mais leve e a magia fluía como nunca. Mas havia riscos: quando o efeito passasse, meu corpo pagaria caro. E se eu tomasse uma inteira, talvez ganhasse força suficiente para derrotar o Orc… mas certamente não sobreviveria para contar a história.

    A espada guardada em minha bainha começou a vibrar e emitir uma luz intensa, tão forte que fez o Orc proteger os olhos com a mão. Aproveitei o instante. Saquei a lâmina com rapidez e desferi um corte horizontal em sua barriga.

    Por um segundo, pensei ter conseguido. Mas logo a carne se fechou diante dos meus olhos, regenerando como se nada tivesse acontecido.

    — Arf… arf… Você vai dar trabalho, hein? Orc 775… Quer uma luta séria? É isso que terá!

    A regeneração dele era impecável, algo que eu jamais havia visto. Se quisesse vencer, teria de atacar sem parar. Felizmente, ainda restavam cerca de quinze minutos do efeito da pílula.

    Segurei a espada com firmeza e gritei:

    — Espada de Osmanthus: Ativação de Flores Infernais!

    A lâmina em minhas mãos não era comum. Fora forjada a partir de fragmentos da lendária Árvore de Osmanthus, que crescia no coração do Reino de Lux. Essa árvore alimentava todo o reino, purificando a água, curando doenças e dando vida. Mas o Rei dos Demônios a descobriu e invadiu Lux, arrancando-a de seu solo sagrado. Mesmo assim, alguns galhos ficaram para trás, e com eles meu ferreiro favorito forjou esta espada. Eu a chamei de Osmanthina. Nome feio, talvez… mas era o que pensei no momento.

    Nada aconteceu de imediato. Mas logo o chão sob os pés do Orc começou a tremer. Espinhos brotaram violentamente da terra, enroscando-se em suas pernas e braços, prendendo-o completamente.

    — Heh… ainda falta o toque final.

    As chamas surgiram ao redor dos espinhos, queimando sua carne. O cheiro de carne chamuscada encheu o ar, sufocante. Os gritos dele ecoaram como trovões, mas não me deixei abalar. Corri em sua direção e, em um frenesi, desferi onze cortes seguidos em sua barriga.

    O sangue jorrou, tingindo o chão. Mas, diante dos meus olhos, as feridas se fechavam novamente, uma após a outra.

    — Chamas Infernais: Desativar!

    As chamas sumiram, restando apenas os espinhos. Aproximei-me e agarrei o rosto do Orc com brutalidade.

    — Diga-me… o que você quer comigo? Uma criatura como você não poderia estar atrás de alguém como eu.

    Nunca fui de insultar os outros. Mas, naquele instante, a sensação de dominar alguém mais fraco me deu prazer. Eu podia esmagá-lo. Eu podia humilhá-lo. E confesso: parte de mim adorou essa sensação.

    Mas a ilusão se quebrou em segundos. O Orc soltou uma das mãos, agarrou meu pescoço e me ergueu no ar. O aperto foi brutal. O mundo girou. O ar me faltou. Nem a pílula conseguiu me salvar daquela força.

    Senti minhas energias vacilarem. Os espinhos se desintegraram e, com um movimento violento, ele me jogou contra o chão. O impacto arrancou-me o ar. Antes que pudesse reagir, fui arremessada de novo. Cuspi sangue, minha visão escureceu.

    Quase inconsciente, ouvi sua voz em meu ouvido:

    — Não tenho nada contra você. Só estou cumprindo ordens. Se ainda está viva, é porque respeito sua determinação. Mas não se engane: mais virão atrás de você… e não serão apenas orcs.

    Um arrepio de puro terror me percorreu. Pela primeira vez em anos, temi verdadeiramente a morte.

    Então, ele pegou minha própria espada e a cravou em meu abdômen. A dor me fez gritar. O sangue escorreu pelo chão, quente, viscoso. Em seguida, cortou minha bochecha, deixando um talho profundo. Para completar sua crueldade, quebrou um a um os dedos da minha mão direita. Cada estalo era acompanhado de um grito desesperado.

    E então, sem mais uma palavra, desapareceu na escuridão.

    Assim terminou minha batalha contra o Orc 775 do Reino dos Demônios.

    Reino de Lux – Acadêmicos em Ascensão – 04:34 PM

    Três dias se passaram desde aquela noite infernal.

    Ainda estava em recuperação. As dores eram constantes, os pesadelos frequentes. Quando me olhava no espelho, via as cicatrizes horrendas no abdômen, as bandagens no rosto. Lágrimas escorriam sem controle.

    Eu me desprezava. Além de falhar em derrotar o Orc, ainda carregava as marcas da derrota. Sequelas que me acompanhariam para sempre.

    Enquanto tentava sair da cama, ouvi passos apressados pelo corredor. Vários. Mas um deles me era familiar. Um calor estranho tomou meu peito e, por um instante, esbocei um sorriso.

    — Namjuro! Graças a Deus você está viva! Pensei que tivesse morrido!

    Era Roger Rers, meu namorado de dezessete anos. Ele correu até mim e me envolveu em um abraço apertado. O calor de seu corpo me confortou, mas as dores me fizeram estremecer. Dei leves tapinhas em suas costas, pedindo que se afastasse. Não porque não queria seu carinho. Eu o amava. Mas meu corpo ainda estava em frangalhos.

    — Meu bem… ainda dói… só um pouquinho… — sussurrei.

    Ele entendeu imediatamente e recuou, com os olhos marejados.

    Pouco depois, um dos médicos entrou. Trazia uma prancheta e se aproximou da cama. Seu olhar era sério, mas percebi um lampejo de cansaço — provavelmente passara noites cuidando de mim.

    — Namjuro Nakamura, vinte anos. Está em repouso após batalha contra um Orc. Sofreu ferimentos internos graves e lesões no rosto. A regeneração está em andamento, mas… como bem sabe, a Osmanthina retarda o processo de cura. Vai demorar para que se recupere por completo.

    Ouvir o nome da espada me fez estremecer. Era cruel saber que a arma que deveria me proteger foi usada contra mim.

    — Senhor… quando poderei treinar novamente? — perguntei, quase implorando. — Não quero ficar deitada enquanto os outros evoluem.

    Ele suspirou.

    — Amanhã poderá treinar levemente com espadas de madeira. Magia, nem pensar. E alguém supervisionará seus treinos, para garantir que não desobedeça.

    — Sim… — respondi. — Está bem.

    Depois de algum tempo, deixei que Roger deitasse ao meu lado. Apoiei minha cabeça em seu peito, ouvindo as batidas de seu coração. Abraçá-lo me trouxe uma sensação de paz que eu não sentia há dias.

    Passei a mão em seus cabelos, depois em seu rosto. Dei-lhe um beijo profundo e, com voz fraca, sussurrei:

    — Daqui a duas semanas vou te dar um presente de aniversário, meu bem… eu não esqueci… agora preciso descansar.

    Aos poucos, fechei os olhos, permitindo que o sono me levasse.

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