Uma lâmina vibratória cortou o regolito, espalhando poeira cinza em um arco baixo. Os fragmentos flutuaram por um segundo antes de serem sugados pelo coletor magnético acoplado ao braço da escavadeira.

    Victor ajustou o punho dentro da luva rígida. No visor, apareciam vários números da composição isotópica, densidade e porcentagem de hélio-3 aprisionado nos grãos. Não precisava ler, já havia tudo aquilo decorado.

    Outro corte.

    Duas vozes atravessaram o canal aberto do rádio.

    — Ei, pega leve aí, doutor. Vai cavar até o outro lado da Lua? Haha.

    — Deixa ele, haha.

    O braço mecânico avançou mais alguns centímetros, o laser de excitação térmica entrou em ação e o solo brilhou por um instante antes de se fragmentar. Ele observou o gráfico lateral oscilar.

    Temperatura de fusão… energia de confinamento… seção de choque da reação D–He³…

    Fechou os olhos por um segundo, mas a dúvida persistia. Não foi um simples erro de cálculo. Sabia que os números estavam certos, já havia os revisado à exaustão, mas o incômodo continuava lá e cutucava o fundo da sua mente.

    A reação aneutrônica exigia mais energia inicial do que qualquer sistema de confinamento que eles tinham conseguido estabilizar. Tudo falhava no mesmo ponto: mais energia entrava do que saía.

    Outro corte.

    No visor, a leitura subiu levemente. 12 ppm de hélio-3.

    Irrelevante.

    Ele moveu o braço da máquina e ajustou o ângulo de escavação para evitar perda de material.

    — Ei, Galera — uma voz diferente entrou no canal —, vocês viram que desmoronou, de novo, a cratera Gideon?

    — Porra, o que esses caras tão fazendo? — Outra pessoa, indignada. — Alguém morreu?

    — Não sei, mas acham que sim.

    — Esses filhos da puta ganham milhões de Dólares Espaciais as nossas custas e nem pra arrumar a porra das crateras.

    — Quero ver o que eles vão fazer no dia que eu derrubar as paredes deles com a minha escavadeira. — Um terceiro trabalhador, revoltado.

    Victor desligou o canal, ele não queria se meter com isso, sabia que greves e levantes contra mega corporações era perigoso.

    Continuou.

    Se o confinamento magnético não era suficiente… então o problema não era o campo. Era o tempo de estabilidade. Microinstabilidades. Turbulência de plasma. Perdas radiais.

    Talvez, o erro tenha sido tentar sustentar uma reação que nunca deveria ser contínua.

    Mas, e se eu os tratassem como pulsos? Não… Sequências de ignição controlada?”

    Ele travou o movimento por um instante.

    Também não… porra, Victor, física básica e você errando.

    Já havia tentado de tudo.

    Outro corte, agora mais fundo.

    O chão vibrou levemente sob as botas magnéticas. A escavadeira ajustou a posição automaticamente. Victor acompanhou o movimento sem esforço.

    Ele sabia exatamente onde estava cada camada do solo. Sabia como o vento solar havia implantado o hélio-3 ali ao longo de bilhões de anos. Sabia como extrair, separar e armazenar.

    BREEEEEEEEP… BREEEEP… BREEEEEEEEP…

    Victor parou.

    Era o sinal do almoço.

    Desligou o braço mecânico. O sistema entrou em repouso.

    Os outros já se afastavam.

    Victor caminhou atrás deles.

    O módulo pressurizado surgiu à frente, uma estrutura metálica cravada na superfície cinza. Ele entrou pela câmara de descompressão. A porta fechou com um CLANG pesado. O ar voltou com um sopro constante. FSSSSSSSHH.

    Ele destravou o capacete.

    CLACK.

    O ar seco bateu no rosto.

    Cabelo preto desalinhado e jogado para trás, grudado de suor. Barba irregular, com falhas visíveis no maxilar. Olheiras profundas cavavam sombras sob os olhos verdes. Ele não parecia alguém que um dia liderou um projeto.

    Sentou-se.

    A marmita abriu com um estalo plástico.

    Um cheiro fraco, artificial.

    Ele mexeu a comida com o garfo. Massa compacta, proteína reconstituída e molho espesso, quase rançoso.

    Levou à boca.

    Sem gosto.

    Ao fundo, vozes começaram a subir.

    — Isso aqui tá uma merda!

    — Sempre foi!

    — Não, piorou!

    Uma bandeja bateu na mesa.

    — A gente trabalha que nem animal!

    — E ganha o quê?

    — Migalhas!

    Victor mastigou devagar.

    — A gente devia parar!

    — Greve!

    — Greve!

    O som se espalhou pelo refeitório, as mesas vibraram conforme os trabalhadores batiam nelas.

    Victor não levantou os olhos.

    “Greve. Que perda de tempo. A Orbital não depende da gente e nunca vai. Sempre tem mais gente disponível pro ‘sonho Lunar’.”

    Ele terminou de comer. Empurrou a marmita vazia e levantou-se.

    As vozes continuaram atrás dele.

    Victor já caminhava.

    Saiu do refeitório. O ar rarefeito da câmara de transição envolveu o corpo outra vez. O capacete encaixou com um CLACK firme.

    Pressurização. FSSSHH.

    A porta externa abriu. O silêncio voltou e ele deu dois passos.

    — Victor.

    Parou.

    Um homem se aproximou, passos largos, postura relaxada mesmo dentro do traje.

    — Vai me ignorar mesmo?

    Victor o observou e continuou andando.

    O homem o acompanhou.

    — Tá todo mundo falando que, dessa vez, a greve vai ser de verdade.

    — Eu sei, Lance.

    — E?

    — Não vai mudar nada.

    Lance soltou um riso curto.

    — Tu continua o mesmo. Olha — O amigo ajustou o ritmo, ficando ao lado dele —, se tu não entrar nisso… vão te marcar.

    Victor parou e virou levemente o capacete.

    — Marcar como?

    — Traidor. Sabe, tu já era um corpe antes, se continuar se esquivando, eles vão…

    Silêncio.

    Victor olhou para o horizonte vazio.

    — Eles não sabem do que a Orbital é capaz.

    Lance ficou quieto por um segundo.

    — Já fazem dez anos.

    Victor não se mexeu.

    — Dez anos que tu tá assim, desde que te tiraram do Spacium.

    Victor desviou o olhar.

    Cálculos voltaram à mente.

    Temperatura de ignição… perdas por bremsstrahlung… confinamento inercial… Talvez… Talvez, se…

    Dois impactos secos no ombro.

    Victor voltou.

    Lance recuou um passo.

    — Pensa bem. — Virou e começou a se afastar.

    Victor retomou a caminhada.


    A sede da Orbital se erguia sobre a superfície lunar, formada por blocos curvos interligados por anéis estruturais e colunas grossas que sustentavam o núcleo administrativo no centro, tudo revestido por painéis brancos que refletiam a luz crua do Sol.

    No topo, girando lentamente em projeção luminosa, o símbolo da corporação dominava o horizonte: um foguete que orbitava um globo de contorno branco.

    Diante da base, dezenas de trabalhadores ocupavam o terreno irregular, todos vestindo trajes espaciais idênticos, marcados por arranhões e poeira acumulada.

    Placas improvisadas erguiam-se acima das cabeças, braços apontavam, corpos se empurravam em um fluxo desordenado enquanto as vozes ecoavam pelo canal aberto dos comunicadores.

    — Não trabalharemos mais oitenta horas!

    — Cinco dias de férias!

    — Queremos que vocês paguem nossas viagens para a Terra!

    — Aumento já!

    As botas batiam no solo em ritmo irregular e levantavam nuvens finas de poeira, que flutuavam antes que os sistemas de sucção da própria base as arrastassem. O som seco de plástico e metal das placas que se chocavam acompanhava o coro, era um ruído constante que não cessava.

    Victor estava mais atrás, afastado do núcleo da multidão. Segurava uma placa simples, letras mal traçadas pedindo um aumento de quinze por cento. Quando alguém passava perto, ele erguia o braço e imitava o movimento dos outros em um gesto atrasado, sem convicção.

    Assim que os olhares se afastavam, o braço descia novamente e o corpo relaxava, mas os olhos não paravam. Ele observava tudo, calculava distâncias, analisava os pontos de entrada e saída, media o posicionamento das escavadeiras alinhadas ao redor como parte do protesto.

    As máquinas não estavam ali por acaso.

    Victor desviou o olhar para elas por mais tempo do que devia. A disposição formava um arco quase perfeito ao redor da área administrativa. Ele soltou o ar devagar dentro do capacete e desviou a atenção, irritado consigo mesmo.

    Eu poderia estar usando esse tempo pra terminar minha teoria…

    Tentou reorganizar os números mentalmente, encaixar os parâmetros, mas a pressão do ambiente quebrava a linha de raciocínio.

    Um impacto leve no ombro o puxou de volta.

    Victor virou o capacete. Lance estava ali, acompanhado de mais dois homens que ele não fez esforço algum para reconhecer. Não importava quem eram e não importa há quanto tempo trabalhavam ali.

    — Que bom que tu tá aqui — disse Lance.

    Victor inclinou levemente a cabeça.

    — Eu não poderia perder isso por nada. — O tom saiu seco, carregado de uma ironia que não precisou ser explicada.

    Um dos homens riu.

    — Conhecendo ele, deve tá pensando em como queimar hélio ou algo do tipo.

    Victor manteve o olhar fixo.

    — Era um projeto promissor…

    — Galera, não vamos estragar o clima… — interrompeu Lance, ao erguer uma mão.

    VRRRRRRRRMMMMMMMM

    O som começou baixo, quase imperceptível, e cresceu tão rapidamente que atravessou o chão e vibrou na estrutura da base. Victor virou o corpo antes mesmo de entender completamente.

    As escavadeiras.

    Os braços mecânicos se ergueram ao mesmo tempo. Então avançaram.

    O impacto contra o muro de contenção arrancou placas inteiras da estrutura.

    O metal cedeu com um estrondo que sacudiu o solo e lançou fragmentos para todos os lados. A poeira subiu em uma nuvem espessa, obscurecendo parte da visão, enquanto os primeiros trabalhadores já corriam na direção da abertura recém-criada.

    — Vamos!

    — É agora!

    — Trabalhadores, uni-vos!

    O grito se espalhou, multiplicado, carregado por dezenas de vozes que se sobrepunham no canal aberto.

    Lance inclinou a cabeça em direção à brecha.

    — Começou. Vamos?

    Victor não se moveu.

    — Eu acho melhor não…

    Os dois homens ao lado estalaram a língua, o desprezo evidente mesmo sem ver os rostos.

    — Um corpe sempre vai ser um corpe.

    — Tu me dá nojo.

    Eles avançaram sem esperar resposta, desaparecendo na poeira.

    Victor acompanhou o movimento por um segundo e começou a virar o corpo, pronto para se afastar, mas a mão de Lance fechou no braço dele com firmeza.

    — Isso aqui pode mudar tua vida.

    Victor hesitou.

    — É hora de mostrar pra aqueles fodidos da Orbital que eles nunca deveriam ter demitido o Dr. Victor Alonso.

    O título de doutor ficou suspenso entre eles por um instante. Victor desviou o olhar, o visor refletindo a luz branca da base.

    Ele respirou fundo e assentiu.

    Os dois avançaram juntos, cruzando a distância até o muro destruído, quando chegaram aos destroços, Victor se inclinou e espiou para dentro antes de atravessar.

    O interior estava em colapso. Tanques de combustível rasgados liberavam jatos contínuos que se dissipavam no ar controlado do ambiente, robôs estavam caídos com membros arrancados, escavadeiras avançavam contra estruturas internas enquanto trabalhadores destruíam qualquer coisa que encontrassem pela frente.

    Alarmes já ecoavam pelas paredes, luzes vermelhas piscavam em sequência.

    Victor entrou.

    A atmosfera ficou mais pesada, a base tinha uma bolha translúcida que lembrava a superfície da terra, fixa no chão e respirável.

    Lance se abaixou, pegou uma pedra entre os destroços e arremessou contra um painel de vidro próximo. O impacto não deixou marca alguma.

    Ele riu.

    — É… acho que isso ia acontecer mesmo.

    Victor virou o rosto na direção dele, um sorriso curto surgindo no canto da boca.

    — Só você mesmo pra…

    PZZZRAAAK

    Um clarão atravessou o espaço e atingiu Lance na cabeça, o capacete explodiu em fragmentos que se espalharam junto com sangue e partes metálicas dos implantes. O corpo caiu sem resistência.

    Victor ficou imóvel, encarando atônito o corpo do falecido amigo.

    Os alarmes se intensificaram e o espaço se encheu de movimento. Pessoas corriam em todas as direções, algumas caíam antes de dar dois passos, atingidas por disparos precisos que rasgavam os trajes como se fossem nada.

    Um impacto lateral o derrubou. Outro trabalhador colidiu com ele em fuga e seguiu sem parar. Victor caiu sobre o que restava de Lance, as mãos afundando em algo quente e irregular. O corpo reagiu antes da mente, ele empurrou o chão e se afastou.

    — AAAAH, PORRA, QUE MERDA! — O grito saiu abafado de dentro do capacete.

    Levantou a cabeça e viu o massacre.

    Soldados da Orbital avançavam em formação, com as armas estabilizadas e disparando sem hesitação. Trabalhadores eram abatidos no meio da corrida.

    Victor levou a mão ao visor por instinto, tentando limpar a visão, mas só espalhou o sangue que já estava ali, transformando tudo em manchas vermelhas difusas.

    Uma escavadeira avançou contra a linha dos soldados e esmagou dois deles sob o peso do braço mecânico antes de ser atingida por uma sequência de disparos que inutilizou o sistema. Victor aproveitou o momento, ergueu-se e correu na direção da abertura no muro.

    A saída estava à frente.

    Um homem chegou antes.

    Deu dois passos.

    No terceiro, o corpo se partiu em múltiplos fragmentos, atravessado por uma rede invisível de lasers que cortava o ar na altura da brecha.

    Victor parou.

    A rota de fuga estava fechada.

    Ele girou o corpo, procurando outra saída, mas tudo ao redor apontava para o mesmo fim. Gritos, disparos, metal sendo destruído e corpos no chão.

    Errado.

    Ele forçou a respiração, ignorou o caos por um segundo e puxou a planta do prédio da memória. Ele já tinha trabalhado ali, conhecia a estrutura melhor do que qualquer um naquele lugar.

    Se a saída principal estava bloqueada, então restavam os acessos de manutenção.

    Ele abaixou o olhar, ignorou o movimento ao redor e focou no padrão das placas no chão, nos pontos de acesso escondidos sob a camada superficial. Identificou uma a poucos metros da estrutura principal.

    Calculou o tempo entre os disparos, o padrão de movimento dos soldados e o intervalo de cobertura.

    Esperou.

    Correu.

    Ele se lançou para frente, ajoelhou junto à placa e enfiou os dedos na borda, puxando com força. A escotilha resistiu por um segundo antes de ceder com um deslocamento brusco.

    Um disparo passou acima dele no mesmo instante.

    Victor não hesitou. Se jogou para dentro.

    Caiu em um corredor estreito, o impacto seco percorreu o corpo inteiro em uma dor lancinante, fazendo com que o ar escapasse dos pulmões por um instante. A escotilha se fechou acima dele e isolou o som do massacre que continuava do lado de fora.

    Ele ficou imóvel por alguns segundos, estava todo dolorido, mas, vivo. Lance não poderia dizer o mesmo.

    Merda, depois de tudo que eu disse pra ele…”, balançou a cabeça, não adianta pensar nisso agora, tenho que dar o fora daqui.

    Então se moveu.

    O corredor era apertado, cheio de tubulações e cabos, iluminado por luzes fracas embutidas nas paredes. Ele reconheceu o lugar imediatamente.

    Arrastou o corpo, cada movimento exigia força que ele já não tinha. Evitou olhar para trás, manteve o foco à frente.

    O vestiário fica depois dessa curva à esquerda”, pensou e ajustou o corpo para passar por uma junção mais apertada.

    A roupa pesava. Estava suja, endurecida e grudava na pele. Aquilo denunciaria ele em segundos. Se quisesse sair dali, precisava se camuflar. Vestir um uniforme limpo, se passar por um cargo administrativo de campo e conseguir acesso aos rovers.

    Tinha muito dinheiro economizado, nesses dez anos, quase não gastou o que recebeu. Poderia facilmente comprar uma viagem para longe da Lua.

    Marte? Saturno? Não… a Orbital alcança tudo que é dos EUG… Fiordes talvez…

    Fechou os olhos por um instante.

    Porra… não sei.

    A escotilha surgiu à frente. Aproximou o corpo, posicionou a perna e chutou.

    O impacto abriu a tampa para cima com força. Victor saiu do duto e caiu no chão do vestiário, rolando de lado antes de parar.

    Era seu dia de sorte, estava completamente vazio.

    Ficou deitado alguns segundos, o peito subia e descia com dificuldade. O corpo doía inteiro. Ombros, costas, pernas, tudo respondia com atraso.

    Dez anos atrás, aquilo não seria nada. Dez anos atrás, ele não sentiria nem metade.

    A Orbital desligou tudo quando o demitiu. Implantes, assistências neurais, reforços musculares. Tiraram cada vantagem que deram.

    Agora, com exceção de alguns implantes básicos, ele era só carne.

    Levantou-se devagar e caminhou até os armários. O número ainda estava lá, vinte e cinco, o mesmo armário que usava dez anos atrás.

    Mas o nome havia mudado.

    Dr. Gideon Neo, Chefe do programa Spacium.

    Victor ficou parado diante da placa por um instante.

    Eu ensinei tudo que ele sabe… e mesmo assim…

    Digitou a senha.

    1909.

    O sistema aceitou sem hesitar. A trava cedeu.

    Nem se deu ao trabalho de mudar.”

    O armário abriu.

    Lá dentro, apenas um traje.

    Pesado, branco, com placas cinzas encaixadas ao longo do corpo. O capacete, fechado e com o visor camuflado, apenas duas linhas azuis cruzavam a face. Uma unidade dorsal acoplada nas costas, larga e compacta. No braço esquerdo, o símbolo da Orbital, no direito, a águia dos EUG.

    Victor passou a mão pelo material.

    Vestiu.

    A estrutura se ajustou ao corpo com encaixes precisos. Travas selaram, conexões ativaram. Ele ficou imóvel, esperando.

    Nada.

    Vamos… liga… sou eu.

    Um segundo.

    Dois.

    Uma voz surgiu, limpa e artificial.

    — Você não é o doutor Gideon.

    Victor exalou, quase um riso curto.

    — Lucia… melhor que ele. Sou eu. O Vic.

    Pausa.

    — O-o que você está fazendo aqui? — a voz falhou por um instante. — Vão te matar.

    — Me escuta. Eu preciso sair daqui. Me leva até os rovers… depois me ajuda a sair da Lua.

    Silêncio.

    — A gente não tem tempo — insistiu Victor.

    A IA respondeu, agora estável.

    — Eu estava me atualizando. O que vocês estavam pensando? Invadir a Orbital com escavadeiras? Até os Primogênitos respeitam os planetas que eles mineram…

    Victor ajeitou o capacete.

    — Você me conhece, sabe que eu não tenho nada haver com isso. Eu passo a vida inteira pensando antes de fazer qualquer coisa.

    — Eu sei. — Pausa. — Vou te guiar. Só não fala com ninguém.

    Victor assentiu.

    — Obrigado.

    — E mais uma coisa. É bom saber que você está vivo.

    Victor ficou em silêncio por um segundo.

    — Bom te ver também… amiga.

    Ele saiu do vestiário.

    Os corredores da base estavam em alerta. Soldados passavam em grupos, com as armas prontas e passos rápidos. Victor manteve o ritmo constante e postura firme.

    — Direita. Mantém — disse Lúcia.

    Ele virou.

    Dois cientistas passaram por ele no sentido contrário. Ao cruzarem, reduziram o passo e inclinaram levemente a cabeça.

    — Doutor Gideon.

    Victor respondeu com um gesto mínimo, sem diminuir o ritmo.

    — Segue em frente. Evita o corredor central.

    Ele seguiu.

    Outro grupo de soldados cruzou o caminho. Um deles olhou diretamente para ele, avaliou o traje, os símbolos, e seguiu sem dizer nada.

    — Mais vinte metros. Depois a esquerda.

    Victor executou.

    O caminho abriu para uma área mais ampla, próxima à saída de serviço.

    Ele estava perto.

    — Porta dos fundos à frente. Depois disso, você está fora.

    Victor desacelerou.

    — Lucia…

    — Sim?

    — Obrigado por…

    Algo colidiu com ele.

    Um impacto leve, mas inesperado.

    Victor olhou para baixo.

    Uma criança.

    Cabelos prateados, desalinhados. Olhos azuis intensos, arregalados. A pele tão pálida que lembrava o brilho frio do Sol refletido no regolito. Um vestido branco contrastava com o ambiente metálico.

    Ela olhou para ele.

    — Aaah…— Estava horrorizada, mas, muito cansada para realmente gritar.

    O corpo dela caiu e arrastou-se para trás no chão.

    Um soldado surgiu, segurou o braço dela com força.

    — Desculpa, doutor Gideon. O subject fugiu na confusão… mas já recuperamos.

    Outro soldado se aproximou. Os dois a puxaram sem cuidado.

    A criança resistiu, mas não tinha força.

    Victor ficou parado, observou sem reação

    — Vic… não faz isso.

    Os soldados começaram a se afastar, arrastando a menina pelo corredor.

    — Eu sei que ela te lembra dela… mas…

    Victor fechou os olhos por um instante. Respirou fundo e os abriu.

    — Eu preciso consertar uma coisa antes de ir embora. Você me ajuda?

    Silêncio curto.

    — O verdadeiro doutor Gideon acorda em uma hora. Esse é o tempo que você tem.

    Victor assentiu.

    — Obrigado.

    Ele virou o corpo.

    E começou a caminhar na direção em que levaram a criança.

    Victor avançou pelos corredores brancos e estéreis, iluminados por luzes embutidas que deixavam tudo limpo.

    — Eles estão mantendo ela no complexo subterrâneo. — Houve uma breve pausa. — Uau… grau de segurança máximo. Só o Gideon pode entrar na cela dela.

    Victor franziu o cenho e diminuiu o passo.

    — E tu descobre isso agora? O Gideon não te usa o dia inteiro?

    — Ele me veste só em ocasiões específicas. Eu passei dois dias desligada até você aparecer.

    Victor virou o rosto levemente.

    — Ele não precisa de você?

    — O Spacium não tem mais relação com geração infinita de energia baseada em hélio.

    Victor parou.

    — O quê…? — A voz saiu baixa, quase presa. — O Spacium… tudo que a gente construiu… foi abandonado?

    — Você falhou, Victor. Foram milhões gastos. Você não entregou nada que atendesse as expectativas.

    O maxilar dele travou.

    — O que eles pediam era impossível. Hélio como fonte pra atravessar grandes distâncias no espaço… aquilo exigia parâmetros que…

    — Mas você aceitou — cortou Lúcia. — Porque acreditou que era possível.

    Victor desviou o olhar.

    — Um dia vai ser.

    O silêncio caiu entre os dois. Quando perceberam, já estavam diante da porta da cela.

    Os dois guardas, os mesmos que prenderam a garotinha de antes, estavam posicionados de cada lado. Um deles endireitou a postura ao ver Victor.

    — Doutor Gideon. Já está aqui tão cedo? Algo te incomoda?

    Victor manteve a voz firme.

    — Tive uma epifania durante a noite. Resolvi dar uma olhada na… na…

    — Eu também não sei o nome dela — murmurou Lúcia.

    — Na Stella? — Completou o outro guarda.

    — Isso. Ela mesma.

    Um dos soldados passou o cartão. A porta deslizou para o lado com um som seco. Abriram espaço.

    Victor entrou.

    Poucos degraus à frente, a sala se revelou. Grande, com as paredes totalmente brancas. No centro, após as grades, uma cama de mesma cor.

    A garota se escondeu atrás dela assim que viu Victor.

    — Vai embora!

    Victor avançou com cuidado. Lúcia abriu a máscara do capacete.

    O rosto dele apareceu.

    A garota olhou. Os olhos arregalaram.

    — Você não é ele…

    Victor se aproximou das grades, apoiou as mãos nelas e tentou inclinar o rosto entre os espaços, sem sucesso.

    — Meu nome é Victor. E o seu?

    A menina levantou devagar, mas manteve distância.

    — Stella.

    — Você se comporta bem… quantos anos você tem?

    — Dez.

    Victor desviou o olhar por um instante.

    — Já que você chegou até aqui, nada de lembranças agora.

    Victor ignorou.

    — Você quer sair daqui?

    Stella segurou a barra do vestido e olhou para o chão.

    — É impossível. Eu já tentei.

    — Eu tenho uma amiga na minha cabeça. Ela vai ajudar a gente a sair daqui.

    A garota o encarou por alguns segundos.

    — Você tem a chave? — Apontou para o painel ao lado da porta.

    Victor virou levemente a cabeça.

    — Lúcia, consegue?

    — Se aproxima.

    Ele caminhou até a porta. Ficou parado.

    Alguns segundos.

    A trava foi liberada e a cela abriu.

    Stella deu um passo, depois parou. Olhou Victor de cima a baixo.

    — Por que você está vestido igual a ele?

    — Pra sair daqui. — Estendeu a mão. — Vamos?

    Ela hesitou. Olhou para os lados. Deu um passo pequeno e segurou a mão dele.

    — Lúcia, você ainda consegue fazer aquilo?

    — Aquilo o quê…? Ah, aquilo.

    Victor se abaixou e puxou a unidade dorsal.

    — Tá vendo essa mochila?

    Stella assentiu.

    A estrutura se abriu.

    — Entra.

    Stella subiu com cuidado. O sistema se ajustou ao peso dela. Metade do corpo ficou encaixada, metade para fora. Quando ele se ergueu, ela se assustou e passou os braços por trás da cabeça de Victor e se segurou.

    — Desculpa… pode continuar segurando assim, se quiser.

    — Tá…

    — Lúcia, emite um alarme que só aqueles dois consigam ouvir. Depois ativa o módulo de combate.

    — Feito.

    Segundos depois, vozes do lado de fora.

    — Você ouviu isso?

    — Foi daqui!

    A porta abriu. Os dois guardas entraram com as armas erguidas.

    Não havia ninguém.

    A porta se fechou.

    Victor apareceu atrás deles.

    O traje guiou o movimento. O braço dele atingiu o ponto exato no pescoço do primeiro, o corpo apagou no mesmo instante. O segundo girou, tentou reagir, mas Victor desviou, tomou a arma e acertou um golpe direto no rosto. O homem caiu desacordado.

    Stella apertou mais forte.

    — Você luta bem.

    — Não sou eu. É a Lúcia.

    — Quem é Lúcia?

    — A IA da roupa.

    — Ela não está com o doutor malvado?

    — Diz pra ela que eu sou quem mais odeia o doutor malvado.

    Victor soltou um riso curto.

    — Fica tranquila. Ela está do nosso lado.

    A porta abriu novamente.

    — Lúcia, tranca tudo e traça uma linha direta. Força máxima nas pernas. A gente vai usar a confusão lá fora e correr até os rovers.

    Alarmes começaram a soar pela estrutura e portas se fecharam em sequência pelos corredores.

    Victor ajustou a postura.

    — Stella, segura firme.

    Os braços dela apertaram mais.

    Victor puxou o ar.

    — Agora ou nunca.

    Disparou pelo corredor, o corpo projetado para frente enquanto o traje assumia o controle fino dos movimentos. Stella segurava-se firmemente, os braços travados ao redor da cabeça dele. As luzes vermelhas piscavam sem parar e refletiam no visor.

    — Três metros à frente. Curva à direita — disse Lúcia, a voz estável, mas com um ruído baixo ao fundo.

    O primeiro droide de defesa surgiu de um compartimento na parede. Estrutura compacta, quatro braços articulados, sensores se abrindo como olhos mecânicos.

    — Ameaça detectada…

    Antes que completasse a frase, o sistema travou. Os membros perderam força, a unidade caiu de lado com um estalo seco.

    — Interferência aplicada — disse Lúcia.

    Victor não desacelerou.

    Mais dois drones desceram do teto, emitindo um som agudo enquanto carregavam as armas.

    — Alvo em…

    As luzes deles piscaram. Ambos caíram no chão, inertes.

    — Continue.

    Um grupo de soldados apareceu no corredor seguinte. Três, com armas erguidas.

    Victor não parou. O traje ajustou o eixo do corpo, reduziu o impacto do primeiro passo e projetou ele para dentro da formação. O primeiro soldado mal teve tempo de reagir antes de receber um golpe direto na articulação do pescoço.

    O segundo tentou disparar, Victor desviou, girou o corpo e acertou o pulso armado, a arma caiu, o soco seguinte apagou o homem. O terceiro recuou, mas ele já estava em cima, o cotovelo atingiu o peito, o impacto tirou o ar e ele caiu.

    — Siga em frente.

    Victor avançou.

    Mais drones surgiram, mais sistemas falharam antes de agir. Portas se fecharam atrás dele, corredores travaram, rotas secundárias desapareceram.

    A escotilha, pesada e reforçada apareceu no fim do corredor. Era o único acesso deles para o exterior.

    Os rovers estavam do outro lado.

    Victor se lançou até ela, apoiou as mãos no metal.

    — Destrava ela, Lúcia.

    Silêncio.

    Um segundo.

    Dois.

    — Me… dê… um… segundo…

    A voz falhou.

    Victor franziu o cenho.

    Algo estava errado.

    Antes de completar o pensamento, uma força brutal agarrou o traje e arremessou ele contra a parede. O corpo bateu com violência, o som seco reverberou no corredor.

    AAH.

    A dor era lancinante, mas um pensamento veio antes.

    Stella.

    Ele virou a cabeça.

    Ela estava no chão. O corpo pequeno imóvel, mas intacto. Tinha se jogado antes do impacto. Ele estava aliviado.

    Victor tentou se arrastar até ela.

    Uma mão fechou no tornozelo.

    O corpo foi puxado com violência e lançado contra a parede oposta. Ele caiu sentado, com a visão turva. O som de Lúcia se distorceu no sistema, um chiado irregular, como se algo estivesse atacando a IA.

    Quando a visão estabilizou, ele viu o homem que estava no centro do corredor.

    Alto. Mais de dois metros, corpo sólido, pele roxa acinzentada. Cabelos brancos, perfeitamente alinhados, olhos amarelos fixos nele. Vestia um jaleco branco sobre roupas sociais impecáveis, linhas discretas nas costuras, sapatos polidos. Um anel no dedo indicador direito com o símbolo da Orbital gravado nele.

    Victor reconheceu na hora.

    — Gideon… você parece… abatido.

    Gideon ergueu o dedo e balançou em negação, com um sorriso leve no rosto.

    — Velho amigo… fico feliz que se lembrou de mim… dez anos podem mudar muito uma pessoa.

    — Como eu poderia te esquecer.

    — Que prazer ver você aqui… e com seus antigos trajes. Sabe… é bem rude pegar algo sem permissão. — O olhar dele desviou para Stella. — Ah… Vic… você acha mesmo que vai mudar alguma coisa salvando ela? Agora que você é só uma sombra do que já foi… vai tentar mesmo consertar as coisas?

    Victor rangeu os dentes.

    — Vai se foder. O que você fez com a Lúcia?

    Gideon deu de ombros.

    — IAs têm um único propósito. Servir seus mestres. No momento em que ela se voltou contra mim… ela já sabia o que ia acontecer.

    Victor apoiou a mão na parede e tentou se levantar. O corpo tremia.

    — Pensei que você estivesse satisfeito com sua vida de peão — continuou Gideon, com um riso curto. — Mas uma greve… você costumava ser mais esperto que isso.

    Victor ficou de pé, ainda instável, e deu um passo à frente.

    — Se você tivesse aprendido direito o que eu te ensinei… saberia que mudar a metodologia amplia a visão.

    O sorriso de Gideon sumiu.

    Ele avançou em um instante.

    A mão fechou no pescoço de Victor, levantou o corpo e o prensou contra a parede.

    — VOCÊ NÃO TEM NADA PARA ME ENSINAR! — A voz saiu carregada, depois voltou ao tom calmo. — Desde aquela época, até hoje… eu sou superior.

    Victor tentou puxar ar.

    — Você… é só mais… uma aberração…

    — Eu tenho pena de você.

    A pressão aumentou e o ar sumiu, a visão escureceu nas bordas.

    — Sempre imaginei o som que o seu pescoço faria quando eu quebrasse ele… — Sorriu.

    De repente, a força sumiu.

    Victor caiu no chão, puxando ar com desespero, os pulmões queimavam.

    Gideon estava parado, a mão ainda erguida. Então levou as duas mãos à cabeça, em seguida, caiu de joelhos.

    — Sua puta… sai da minha cabeça…  — Ele virou na direção de Stella.

    A garota estava sentada, com o braço estendido. Os olhos brilhavam com falhas visuais, pequenas distorções atravessavam a íris.

    Gideon tentou se levantar. O corpo falhou, ele tropeçou e caiu.

    Victor se arrastou até Stella, cada movimento vinha acompanhado de dor.

    Quando chegou perto, Gideon se ergueu de novo.

    Por um instante, o corpo dele distorceu. Como um erro.

    A mão ainda pressionava a própria cabeça. Os olhos amarelos começaram a mudar para vermelho.

    Victor sentiu o estômago gelar.

    — Esse filho da puta… agora é um super?

    O braço de Stella caiu. O corpo cedeu contra Victor, fraco.

    Gideon endireitou a postura.

    — Outra falha. — O olhar voltou para seu antigo mestre. — Agora… me faça um favor e morra.

    Os olhos dele brilharam.

    Um feixe de energia disparou direto.

    Victor puxou Stella contra o corpo e ela o abraçou, entregue. No instante em que uma luz verde envolveu os dois, o disparo atravessou o espaço onde antes estavam.

    Nada. Sumiram.

    Gideon ficou imóvel por um segundo.

    A mão fechou em um soco que atingiu a escotilha, o impacto deformou o metal e lançou fragmentos.

    Soldados se aproximaram.

    Gideon apontou, com a voz carregada de ódio.

    — ACHEM ELES. MATEM ELE. TORTUREM. QUEBREM E CORTEM AS PERNAS DELA. EU NÃO QUERO ELA FUGINDO DE NOVO.


    O impacto da luz cessou de uma vez.

    Victor desabou de joelhos no chão metálico do hangar. Ele apertou Stella contra o peito, os braços firmes ao redor dela. O ar entrava com dificuldade, num ritmo quebrado, seu corpo ainda tremia. Por alguns segundos, ele não se moveu. Apenas observou o vazio ao redor.

    Rovers alinhados. Estrutura intacta. Nenhum sinal de combate.

    Era seguro.

    …o que aconteceu aqui?

    Ele baixou o olhar.

    Stella dormia, abraçada nele, o rosto encostado no peito do traje. Victor passou a mão pelo cabelo dela com cuidado.

    Pensamentos vieram de uma vez, desorganizados.

    O Lance morreu… a Lúcia foi apagada… o Gideon virou um psicopata… e essa garota…”, ele travou, “…o que ela é?

    Uma Super? Synapser? Droide? Não sabia.

    Tocou a bochecha dela com a ponta de seus dedos, era macia demais para ser feita de metal. Stella soltou um som baixo, um resmungo quase infantil, e se aninhou mais contra ele.

    Victor deixou escapar um riso curto, cansado.

    “Não importa.”, levantou-se com esforço, “Eu vou tirar ela daqui.

    Caminhou até um dos rovers. Abriu a porta traseira e a deitou no banco com cuidado, ajustou o cinto de segurança e conferiu se estava firme. Fechou a porta, contornou o veículo e entrou no banco da frente.

    O sistema respondeu na hora.

    Motores ativos.

    Victor acelerou.

    O rover saiu do hangar em alta velocidade e levantou poeira lunar atrás de si. A estrutura da Orbital ficou para trás e diminuiu no horizonte.

    Pelo que eu me lembro, tem uma base de lançamento abandonada no lado escuro.

    Ele apertou mais o acelerador.

    Se tiver qualquer coisa utilizável… em dois, três meses… dá pra voltar pra Terra…

    O terreno irregular sacudia o veículo. Ele desviou de formações rochosas, e seguiu trilhas antigas deixadas por mineradores.

    Tenho dinheiro pra manter a gente até lá…

    Uma cratera surgiu.

    Ele não reduziu.

    O rover saltou e caiu com um baque pesado no outro lado. No banco de trás, Stella se mexeu. O corpo girou levemente. Victor virou o rosto por um instante.

    — Ela tá bem…

    Quando voltou a atenção pra frente, o corpo travou.

    — Puta merda…

    Uma mulher estava parada no meio do caminho.

    Alta, coreana de cabelos prateados, seu rosto era marcado por linhas de implantes e possuía olhos azuis. Ela vestia um traje técnico preto, com placas rígidas e fivelas metálicas. Sobre a roupa, um casaco de gola.

    Ao redor dela, o ar parecia falhar.

    Linhas vermelhas tremiam, como interferência visual. Pequenos rasgos de imagem surgiam e desapareciam no corpo dela.

    Victor girou o volante com força, a roda prendeu em uma pedra, o rover perdeu o controle e voou por cima dela.

    O veículo virou e deslizou antes de cair de volta sobre as rodas.

    Silêncio.

    Stella acordou com um susto. Soltou o cinto e se lançou pra frente, agarrando Victor com força.

    Ele respirou fundo, abriu a porta e saiu do rover. A mão já puxava a arma do porta-luvas.

    Apontou.

    A mulher ainda estava ali, intacta.

    Victor deu um passo.

    — P-parada aí… quem é você?

    Ela apareceu na frente dele, em questão de segundos.

    — Solstice. Mas meus amigos me chamam de Sol.

    Victor manteve a arma firme.

    — O que você quer, Solstice?

    Ela levantou o queixo na direção do rover.

    — Ela.

    Victor não hesitou. Disparou.

    O feixe de plasma atravessou o corpo dela, mas não surtiu efeito.

    Solstice ergueu as mãos, tranquila.

    — Calma aí. Eu sou só uma projeção nas ópticas de vocês. Não tô aí de verdade.

    Victor abaixou a arma devagar, ainda desconfiado.

    — Projeção… óptica… — Ele estreitou os olhos. — Você tá na Lua?

    Solstice virou levemente o rosto e apontou para o horizonte, em direção a enorme bola azul pendida no espaço.

    — Eu tô lá.


    Estavam em um acampamento de mineração abandonado.

    O rover estava parado ao lado de um gerador morto, ainda quente da viagem e parcialmente detonado. Victor montou um pequeno abrigo improvisado com placas soltas e cabos arrancados.

    Stella sentou perto de uma caixa virada, os pés balançando devagar, o olhar baixo, suas mãos seguravam a barra do vestido, timidamente.

    Victor virou o rosto para a projeção.

    — Uma projeção óptica de um planeta pra outro não é algo que um Synapser comum consegue fazer.

    Solstice manteve os braços cruzados.

    — Eu não sou comum.

    Victor estreitou os olhos.

    — O que você quer?

    — Eu já disse. — Apontou para Stella.

    A garota se encolheu no mesmo instante, deu um passo para trás e se escondeu parcialmente atrás de Victor.

    Ele avançou meio passo, ficando entre as duas.

    — Isso você já falou. O que você quer com ela?

    Solstice inclinou levemente a cabeça.

    — Olha… eu não posso te falar…

    — Então some daqui.

    Solstice não se mexeu.

    — Você não vai conseguir fugir sem a minha ajuda.

    Victor soltou um riso curto.

    — Você não me conhece. Eu vou tirar ela daqui.

    — Você não tem dois ou três meses. Eles vão te achar em uma semana.

    — C-como você sabe dos meus planos?

    — Eu baixei o seu chip de memória.

    Victor riu, sem humor.

    — Isso é impossível.

    — Victor Alonso. Nascido na Nova Espanha. Cinquenta e dois anos. Viúvo e…

    — Tá. — Ele ergueu a mão. — Tá, você conseguiu. Eu acredito.

    Respirou fundo.

    — Mas como isso é possível?

    Solstice mudou o peso do corpo, ainda com aquela calma irritante.

    — Eu rastreio ela há meses. Os bloqueadores da base impediam qualquer leitura. No momento em que você tirou ela de lá, o sinal abriu. Eu achei vocês. Depois, eu só peguei seus dados pra saber se você era… confiável.

    Victor soltou um riso baixo.

    — E eu sou?

    — O homem mais confiável da Lua inteira.

    Stella deu um passo tímido, saiu de trás dele e abraçou a perna de Victor, o rosto colado no traje.

    — Você é parecida comigo…

    Solstice abaixou até a altura dela, o movimento suave apesar dos glitches que cortavam a imagem em linhas vermelhas.

    — Você é tão bonitinha…

    Victor observou as duas por um segundo, depois voltou ao ponto.

    — Se você sabe tanto sobre ela… o que foi aquilo?

    Solstice ergueu o olhar.

    — Aquilo o quê?

    — Ela mexeu na cabeça do Gideon… e depois teletransportou a gente de lá.

    Solstice ficou em silêncio por um instante. Olhou para Stella, depois se levantou e se afastou alguns passos. Virou de costas, encarou a Terra suspensa no céu, enorme e distante.

    — Sobre mexer na cabeça do Gideon… são os implantes. Eles enfiaram tanta coisa nela que provavelmente tem mais metal do que carne.

    Victor puxou Stella mais para perto, um gesto instintivo.

    — Sobre o teletransporte… isso eu não posso te falar ainda. — Solstice continuou.

    Victor assentiu devagar.

    — Eu já esperava alguns segredos… então vamos direto ao ponto. Qual é a sua ideia?

    Solstice virou o corpo de volta para ele.

    — Neste exato momento, estou controlando robôs construtores. Eles estão montando um foguete na base próxima à cratera do Imperador. Se você levar ela até lá… vocês saem da Lua.

    Victor passou a mão pelo rosto, pensou rápido.

    — Isso fica a dias daqui. Ainda mais agora. — Lançou um olhar para o rover. — Que alguém destruiu meu transporte.

    Solstice sorriu de leve.

    — Eu já o consertei.

    Victor arqueou uma sobrancelha.

    — Claro que consertou.

    — Você usa o rover até o Parque da Terra, passa pela cratera Gideon, cruza os desabamentos… e chega na base.

    — Quanto tempo?

    — Um dia.

    Victor soltou o ar devagar.

    Olhou para Stella e os olhos azuis brilhantes dela encontraram os dele.

    Ele estendeu a mão para a Synapser, em um cumprimento.

    — Vamos.

    Solstice fez o mesmo gesto, espelhando o movimento.

    As mãos quase se tocaram. Victor atravessou a projeção e piscou.

    — Ah… é. Você é só uma projeção. — Franziu o cenho. — Então por que você levantou a mão?

    Solstice deu de ombros.

    — Não queria te deixar no vácuo.

    Stella soltou uma risadinha baixa, abafada contra o traje.


    O rover avançou pela superfície irregular, levantando poeira fina que se espalhava em um rastro longo atrás deles.

    Crateras abertas, cortes profundos no solo, estruturas quebradas espalhadas pelo caminho.

    A Orbital já tinha passado por ali.

    Victor manteve o volante firme, desviando de rochas soltas e fendas que cortavam a paisagem. Stella observava pela janela, o rosto colado no vidro, absorvia tudo em silêncio.

    Logo à frente, uma cúpula grande, antiga e translúcida surgiu no horizonte.

    Eles se aproximaram.

    Dentro dela, ruas esburacadas serpenteavam entre casas arredondadas, com paredes suaves demais, como se tivessem sido moldadas e não construídas. Algumas portas estavam abertas, outras arrancadas. Nenhum sinal de vida.

    — O que é isso? — perguntou Stella.

    Victor nem tirou os olhos da estrada.

    — Casas. Antes da Orbital comprar a Lua, a ideia era terraplanar isso aqui e colonizar.

    Solstice apareceu sentada na traseira do rover, como se sempre tivesse estado ali.

    — O Parque da Terra foi construído na única área que realmente conseguiram estabilizar.

    Stella virou o rosto.

    — Por que eles não continuaram?

    Victor ficou em silêncio.

    — É complicado — respondeu Solstice.

    Ninguém falou mais nada.

    O rover deixou a cúpula para trás e seguiu contornando uma cratera enorme. O fundo estava rachado, com marcas que lembravam leitos antigos, algo já tinha fluído ali há muito tempo.

    Mais à frente, uma nova estrutura surgiu.

    O Parque da Terra.

    Um complexo gigantesco, cercado por muros baixos e torres de observação abandonadas. Portões largos enferrujados marcavam a entrada principal.

    Lá dentro, estruturas coloridas ainda resistiam: arcos decorativos, trilhos elevados, prédios temáticos que imitavam paisagens terrestres. Hologramas apagados ainda projetavam sombras falhas nas superfícies. Era feito para simular a Terra.

    Victor estacionou o rover a uma distância segura e desligou o motor.

    Saiu, deu a volta e pegou Stella no colo.

    — Daqui vamos a pé.

    — Por quê? — perguntou ela.

    — Eles foram rápidos — disse Solstice.

    Um som cortou o céu.

    Um caça dos EUG passou acima deles, veloz, deixando um rastro invisível.

    Victor se abaixou na hora.

    — Merda…

    Solstice olhou para cima.

    — Por sorte, não tem nenhum Hellwalker aqui. Só soldados comuns.

    Victor já subia as escadarias da entrada. O portão principal estava travado, então ele desviou para um acesso lateral, forçou a estrutura e abriu passagem.

    Entrou.

    Stella se encaixou na unidade dorsal do traje, os braços ao redor da cabeça dele.

    — Eu posso fazer aquilo que fiz com o Gideon neles…

    Victor continuou andando.

    — Isso te força demais. Só usa se eu estiver realmente em perigo.

    — Tá… — A voz dela perdeu força.

    — Relaxa. Vai ser tranquilo. Eu tenho isso. — Ergueu a pistola de plasma.

    Stella se animou um pouco.

    O interior do parque era um contraste estranho. Vegetação ainda crescia em alguns pontos, plantas adaptadas ao ambiente fechado.

    Caminhos sinuosos cortavam áreas temáticas onde animais empalhados estavam posicionados como se ainda fizessem parte de uma exibição e estátuas gigantes de dinossauros surgiam entre as árvores.

    Victor avançava com cuidado, enquanto desviava das rotas de patrulha. Soldados passavam ao longe, atentos, mas ele conhecia ângulos, sombras e caminhos secundários.

    Stella observava tudo.

    Os olhos brilhavam.

    — Olha…

    Ela apontava para as flores, para os animais, para as estruturas. Cada detalhe parecia novo.

    Eles subiram uma escada larga que levava a uma área mais alta do parque. No topo, uma estrutura suspensa prendia o esqueleto de uma baleia, enorme e pendurada, como se nadasse no ar.

    Stella parou.

    — Um animal desse tamanho voa?

    Victor olhou para cima.

    — Você não sabe o que é uma baleia?

    Ela balançou a cabeça.

    — Eu nunca fui pra Terra.

    Solstice apareceu ao lado, olhando para a estrutura.

    — Elas vivem nos oceanos.

    — O que é um oceano?

    — É um lugar com muita água.

    Stella soltou um “uau” baixo, quase sussurrado.

    Eles seguiram.

    Plataformas suspensas conectavam partes do parque. Em uma delas, quase escondida por vegetação que cresceu sem controle, havia uma porta lateral.

    Victor abriu.

    Entraram.

    A sala de controle estava parcialmente tomada por plantas. Painéis desligados, telas quebradas e cabos expostos. Ainda assim, oferecia abrigo.

    Victor tirou dois bastões de proteína do bolso e entregou um para Stella.

    Ela abriu, mordeu e fez uma careta imediata.

    — Eca… isso é nojento.

    Victor mastigou o dele sem reagir.

    — Desculpa. É o que tem.

    Ele se sentou no chão, encostou na parede.

    — Vou fechar os olhos por cinco minutos. Solstice, me acorda se acontecer alguma coisa.

    Ela suspirou.

    — Claro. Porque nada melhor do que dormir no meio de um parque cheio de soldados.

    Victor dormiu.

    Stella terminou de comer, limpou os dedos no vestido e caminhou até uma janela parcialmente coberta por plantas. Ela afastou as folhas e olhou para fora.

    O teto projetava um céu azul, com nuvens falsas que cruzavam lentamente, a luz parecia quente e ela ficou parada, absorvendo aquilo, com os olhos brilhantes.

    Solstice se aproximou.

    — É lindo, não é?

    Stella assentiu.

    — É assim que a Terra é?

    — Em alguns lugares… sim.

    Stella se afastou da janela, ajeitou o vestido e olhou para Victor.

    — Então eu quero ir logo pra lá.

    Solstice soltou um riso leve.

    — Então é só acordar aquele ali.

    A garota sorriu e deu um passo na direção dele.

    — Espera.

    Ela parou e olhou para Solstice.

    A projeção cruzou os braços, com a expressão mais séria.

    — Tem uma coisa que eu quero conversar com você. — Inclinou levemente a cabeça. — Só nós duas.


    Stella caminhava ao redor dele em silêncio, e observava com curiosidade cada detalhe do traje, da postura e do jeito que ele dormia.

    Um sorriso surgiu no rosto dela. Estendeu a mão e tocou o capacete com cuidado. Victor resmungou baixo, o corpo reagiu, mas não acordou. Stella segurou o riso, subiu com cuidado sobre ele e deu uma batida mais forte.

    Victor acordou no susto, o corpo reagiu de imediato, e Stella caiu sentada no chão, rindo. Ele já estava de pé no instante seguinte, com o olhar atento, procurando uma ameaça.

    — Quanto tempo eu dormi?

    Solstice apareceu ao lado, tranquila como sempre.

    — Três horas. Mas relaxa, não é como se estivéssemos ficando quase sem tempo.

    Victor soltou o ar, se abaixou e ajudou Stella a se levantar, puxando ela de volta para perto.

    — Ninguém veio aqui nesse meio tempo?

    — Você teve sorte.

    Ele assentiu, ajeitou Stella na unidade dorsal.

    — Eu estava muito cansado… me desculpa.

    — Você pede desculpa demais — comentou Solstice.

    Victor saiu da sala e deu alguns passos para fora e entrou novamente na área aberta do parque, mas parou no mesmo instante ao perceber o som vindo do alto.

    Abaixou-se rapidamente, puxando Stella junto, e se escondeu atrás de um guarda-corpo coberto por vinhas. O caça dos EUG cruzava o céu outra vez, agora mais baixo, e alguns soldados pararam na passarela logo à frente.

    — Senhor, nenhum sinal — disse um deles.

    — Mais uma última busca e voltamos — respondeu o capitão.

    Victor quase não acreditou na sorte, o coração acelerou por um segundo, e ele começou a se mover devagar, tentando contornar pela lateral da estrutura sem chamar atenção.

    O problema surgiu no momento em que o pé tocou uma parte comprometida da ponte. O metal cedeu com um estalo seco, uma seção inteira desabou e o som ecoou pelo parque. Ele conseguiu recuar antes de cair, mas já era tarde. Os soldados viraram-se

    — Ali!

    — Movimento!

    Victor puxou Stella para baixo, pressionando o corpo contra a estrutura.

    — Se abaixa.

    Ela obedeceu sem hesitar, e em poucos segundos o espaço ao redor encheu de passos, vozes e armas sendo apontadas. O caça começou a descer ainda mais.

    — Reúne eles em um só lugar — disse Solstice.

    Victor soltou um riso curto, tenso.

    — Claro… como se fosse fácil.

    O primeiro disparo veio rápido e arrancou faíscas do metal ao lado dele. Victor já estava em movimento. Correu pelas passarelas, desviou dos tiros, virou uma curva fechada, saltou uma abertura onde parte da ponte tinha cedido e passou por baixo de uma viga caída.

    Os soldados vieram atrás, organizados, e fecharam as rotas de fuga. Ele manteve o ritmo, forçou o caminho em círculos e voltou sempre para o mesmo ponto central, guiou a movimentação deles sem que percebessem.

    Mais disparos cruzaram o ar, mais metal saltou das estruturas, e Stella se manteve firme nas costas dele, silenciosa.

    Após mais uma curva, Victor voltou ao centro da plataforma, exatamente onde queria, mas percebeu tarde demais que não havia mais saída. Os soldados já estavam posicionados ao redor e bloquearam todas as rotas, o caça pairou acima deles e lançou uma luz intensa que cegou parcialmente à sua visão.

    Um dos soldados avançou, com a arma firme.

    — Mãos pra cima.

    Victor ergueu as mãos devagar, sentindo o peso da situação.

    — Olha… a gente pode…

    — Cala a boca — interrompeu o soldado. — Entrega a garota.

    Victor tentou manter a voz estável.

    — Você está cometendo um erro.

    — Não basta o que você fez na terraplanagem?

    Victor desviou o olhar, o comentário acertou mais fundo do que deveria, e nesse instante a voz de Solstice veio baixa.

    — Stella. Agora.

    A garota saiu da unidade dorsal e ergueu a mão na direção do caça. Pequenas distorções surgiram ao redor da aeronave, linhas vermelhas tremiam no ar como falhas.

    O som dos motores falhou, perdeu força, e o caça começou a cair. Os soldados olharam para cima, sem entender.

    O impacto foi direto. A estrutura não aguentou. A ponte cedeu sob o peso, desabando junto com a aeronave, e tudo ao redor virou ruína em segundos. Victor foi arremessado para o lado, conseguiu agarrar uma vinha presa à parede e ficou pendurado sobre o vazio enquanto, abaixo, o caça explodia junto com os soldados.

    Com esforço, ele subiu, puxando o corpo até alcançar a borda de uma parte ainda estável da estrutura. Com a respiração pesada, e o peito doendo, ele olhou para Stella.

    — O que foi isso?

    Ela virou o rosto para Solstice, que estava sentada tranquilamente em um trecho intacto da ponte.

    — Uma dama não revela seus segredos.

    Victor soltou o ar, já cansado de tentar entender.

    Usou as vinhas para alcançar a saída lateral do parque, encontrou um caminho seguro e atravessou com a garota. Do lado de fora, o silêncio da superfície lunar voltou a dominar tudo, como se nada tivesse acontecido ali dentro.

    Stella olhou para trás, depois para ele.

    — Foi divertido.

    Victor passou a mão pelo visor do capacete, ainda processando tudo.

    — A cratera Gideon fica muito longe? — Agarrou-se na nuca dele.

    Ele olhou para o horizonte.

    — Alguns minutos só.


    Victor avançou pela superfície da Lua. O corpo pendia, curvado sob o peso do traje e da própria exaustão. A luz do Sol brilhava em um branco violento que golpeava o solo cinza e ricocheteava em uma luminosidade quase insuportável para os olhos.

    O terreno irregular puxava o pé para trás, pequenas pedras escorregavam sob as botas magnéticas. A radiação atravessava o traje, acumulava desconforto e secava a garganta. O silêncio só era quebrado pelo som mecânico do sistema de suporte de vida.

    Stella se mantinha presa às costas dele, o corpo leve, mas presente, com os braços ao redor do pescoço.

    — O que você fazia?

    Victor ajustou o ritmo, sem parar.

    — Eu estudava o hélio.

    — O que é hélio?

    Ele pensou por um instante, e buscou uma forma simples.

    — O hélio é um gás invisível e muito leve que faz os balões flutuarem no céu e deixa a nossa voz bem fininha e engraçada.

    Stella riu.

    — Quando a gente for pra Terra, eu quero ouvir sua voz fininha. — Fez uma pausa, pensativa. — O que são balões?

    Victor desviou de uma fenda no solo.

    — São esferas coloridas que flutuam.

    Os olhos dela brilharam.

    — Eu quero ver baleias… e balões.

    Victor manteve o olhar no horizonte.

    — Eu te levo pra ver quantas baleias você quiser… e te dou todos os balões do mundo.

    Stella sorriu, mas o corpo perdeu um pouco de energia.

    — Eu tô cansada…

    — Descansa um pouco.

    — A gente tá… chegando? — A voz arrastada por um bocejo.

    — Falta pouco.

    Ela bocejou de novo.

    O peso nas costas mudou.

    Victor percebeu o movimento estranho, virou o rosto o máximo que conseguiu e viu Stella dormindo, o rosto relaxado e o corpo entregue.

    Ele voltou a olhar para frente.

    Solstice apareceu ao lado, caminhando no mesmo ritmo.

    — Ela passou a vida inteira presa em uma cela. É por isso que eu odeio os corpes.

    Victor respirou fundo.

    — Mas por quê ela? O que ela tem de especial? Eu sei que ela pode se teleportar… mas isso não é raro, posso citar vários heróis com esse mesmo poder.

    Solstice cruzou as mãos atrás do corpo, aumentou levemente o passo e olhou para o céu escuro, evitando a pergunta.

    Victor ficou irritado com a falta de respostas.

    — Você desvia muito do assunto. Nunca responde nada. Como eu posso confiar em você? Como eu sei que você não é igual a eles? Que você não quer só o poder e o cromo dela?

    Solstice parou e virou para ele, com o olhar firme.

    — Eu sei que você está irritado. Mas isso não é algo que eu possa sair explicando.

    — Você tem que me entender.

    — Eu entendo. Eu sei que você está frustrado… mas eu te prometo que quando a gente chegar na Terra, eu te conto tudo.

    Victor desviou o olhar e apertou o passo.

    — Desculpa, eu não quis… — Solstice suspirou.

    Eles seguiram em silêncio por alguns minutos.

    — Não se preocupa — disse Solstice, depois de um tempo. — Eu sou como ela. Não existe ninguém no mundo que entenda ela mais do que eu… nem que queira ver ela tão bem como eu quero.

    Victor soltou o ar devagar.

    — Desculpa… eu fiquei irritado. — Manteve o olhar à frente. — Você leu meu chip… sabe por que eu sou assim.

    Solstice abaixou o tom.

    — Eu sinto muito pela sua perda. Se quiser falar…

    Victor balançou a cabeça.

    — Você já viu tudo. Não tem nada sobre mim que você não saiba. E… isso é coisa que eu prefiro deixar quieto. — Fez uma pausa curta. — É o tipo de coisa que a gente só se lembra quando tá morrendo.

    — Não diz isso… eu só acho que desabafar melhora um pouco. Ajuda a organizar a mente.

    Victor acelerou o passo.

    O terreno começou a mudar. O solo se inclinava, rachaduras maiores surgiam, marcas de escavações antigas cortavam a superfície. Estruturas quebradas apareciam aqui e ali, peças de máquinas, trilhos abandonados e restos de operações que nunca foram concluídas.

    Uma borda gigantesca surgiu.

    A cratera Gideon se abria à frente como uma ferida na Lua. As paredes desciam em camadas irregulares, desmoronadas em vários pontos e revelavam cortes profundos feitos por mineração pesada.

    No fundo, estruturas destruídas de plataformas inclinadas, braços mecânicos partidos e veículos esmagados sob toneladas de rocha.

    Victor parou na borda. Levou a mão para trás e cutucou Stella de leve. Ela se mexeu, soltou um bocejo longo e abriu os olhos devagar.

    — A gente já chegou?

    Victor manteve o olhar na cratera.

    — Chegamos. — Respirou fundo. — A um dos meus erros.

    O caminho de descida era estreito, escavado na lateral da cratera que serpenteava até as profundezas.

    A luz do Sol ainda alcançava as camadas superiores, mas conforme avançavam, as sombras se alongavam e o ambiente ficava mais pesado, mais opressor.

    Victor mantinha o ritmo, mas o corpo estava tenso.

    — Eu não tô gostando nada disso… não tem ninguém aqui.

    Solstice caminhava ao lado e analisava tudo com os olhos.

    — Mesmo desmoronada, ainda é uma cratera ativa. Devia ter pelo menos alguns mineradores.

    Stella apertou mais o abraço ao redor do pescoço dele.

    — Tô com medo…

    Victor continuou descendo, mas algo mudava dentro dele a cada passo. Uma sensação antiga começava a subir, lenta e insistente. Remorso. Culpa. Um tipo de memória que ninguém gosta de lembrar.

    As mãos suavam dentro das luvas, o coração acelerava, a respiração ficava mais curta. Cada metro parecia puxar ele de volta para algo que ele tinha tentado enterrar.

    Uma parte dele queria parar. Dar meia volta e fugir. Voltar para qualquer canto esquecido da Lua e desaparecer ali.

    Mas outra coisa o mantinha em movimento.

    As vozes atrás dele.

    — Stella, sabia que os antigos achavam que a Lua era feita de queijo? — disse Solstice, com um tom leve.

    Stella soltou uma risada.

    — Por quê?

    — Porque ela é toda esburacada.

    Stella riu mais alto.

    — O que mais eles achavam?

    — Que o Sol era puxado por cavalos.

    — O que é um cavalo?

    — Eu te levo pra ver quando a gente chegar na Terra.

    Stella ficou em silêncio por um segundo, absorvendo aquilo.

    — Eu gostei das plantas do parque… mas eu nunca tinha visto nenhuma antes.

    — Existem flores chamadas girassóis. Elas giram a cabeça e seguem o Sol o dia inteiro.

    Stella se empolgou tanto que bateu de leve na nuca de Victor.

    — Ei — disse ele, surpreso. — O que foi?

    — Eu também quero ver girassóis.

    Victor travou por um instante. Girassóis, a palavra puxou uma memória desagradável. Engoliu seco.

    — E-eu te levo… é claro.

    Solstice percebeu, mas ficou quieta.

    Eles continuaram descendo até o terreno finalmente se abrir em uma área mais plana no fundo da cratera. Diferente do restante, aquele espaço estava limpo. Sem entulho, sem restos de máquinas e sem sinais de abandono.

    Victor parou e varreu o chão com os olhos, encontrou marcas frescas e rastros organizados. O sangue dele gelou porque alguém tinha limpado a sujeira e preparado o cenário. Se houve preparo, não podia significar outra coisa além de que acabara de cair em uma armadilha.

    Não teve tempo de dizer nada.

    Hahaha

    Victor virou devagar.

    Lá em cima, descendo de uma plataforma elevada, estava Gideon, que batia palmas.

    — Bravo… bravo… nossos heróis chegaram até aqui — Um sorriso aberto, quase divertido, estampava seu rosto. — Meus parabéns, estão a poucos metros da saída.

    Victor se colocou em posição de combate.

    — Seja lá o que você quer com essa garota… você não vai ter.

    Gideon inclinou a cabeça, como se aquilo fosse uma decepção leve.

    — Victor… Victor… tão inteligente… e ainda assim tão ingênuo.

    Victor não recuou.

    Gideon deu mais alguns passos, com os olhos atentos.

    — A sua amiguinha da Terra ainda não te contou o que ela é?

    Solstice apareceu ao lado de Victor, com o olhar fixo em Gideon.

    — Como você sabe que eu estou aqui?

    Gideon ergueu um dedo, balançou de leve e estalou a língua.

    Tsc, tsc, tsc… eu não estou falando com você, Sol Mi-La.

    Solstice franziu o cenho.

    Gideon, então, estendeu a mão na direção de Stella.

    — Vem comigo, criança. Eu posso te garantir… esse homem é pior do que eu.

    Stella se escondeu atrás de Victor.

    — Eu nunca mais vou com você!

    Hahaha… então você não contou pra ela? — Olhou direto para Victor. — Você não contou O QUE VOCÊ FEZ?

    Stella puxou o traje de Victor.

    — O que ele tá falando, Vic?

    Os olhos de Victor caíram para o chão.

    Gideon abriu os braços, indicando toda a cratera ao redor.

    — Esse lugar… a cratera que ele batizou com o meu nome… é fruto da sua ganância e da sua soberba. — O sorriso cresceu. — E também… o túmulo da sua esposa e da sua filha.


    Victor estava sentado atrás de uma mesa de carvalho escuro, com a postura relaxada, o rosto limpo, sem barba, e com os traços ainda firmes.

    A sala ao redor era organizada e cheia de telas, relatórios, e modelos do projeto Spacium espalhados de forma quase metódica. Ele segurava uma bola de beisebol e a lançava contra a parede à sua frente, pegava no retorno e repetia o movimento, sem pensar.

    O telefone sobre a mesa tocou.

    Victor virou o corpo para atender, em um gesto rápido. A bola escapou da mão, passou direto por ele e quicou no chão. Continuou rolando até atingir a estante atrás da cadeira.

    O impacto derrubou um retrato, o vidro se partiu no chão com um estalo seco.

    Victor não olhou e apertou o botão do telefone.

    — Fala.

    A voz do outro lado era jovem, hesitante.

    — Senhor… o emissário do imperador chegou. Ele quer informações sobre o projeto Spacium.

    Victor apoiou o cotovelo na mesa, sem surpresa alguma no rosto.

    — Gideon. O que diabos você está esperando? Prepare a sala de conferências.

    — Agora mesmo, senhor.

    Victor desligou e levantou-se

    A cadeira girou levemente quando passou, ele não perdeu tempo ajustando nada. A porta se fechou atrás dele.

    No chão, o retrato permanecia caído.

    O vidro rachado espalhava reflexos irregulares pela superfície. Dentro da moldura, o doutor Victor aparecia mais leve, sorrindo ao lado de uma mulher de cabelo preto, o rosto sereno, e de uma garotinha no colo, pequena, com traços que lembravam os dele.


    A sala de reuniões da Orbital era composta de paredes lisas na cor branca. Painéis embutidos percorriam as laterais com dados que surgiam e desapareciam em projeções suaves.

    No centro, uma mesa longa de superfície escura parecia flutuar alguns centímetros acima do chão, sustentada por suportes invisíveis. Ao redor, sofás de veludo vermelho contrastavam com o resto do ambiente.

    Um emissário já aguardava sentado em um desses sofás.

    Postura reta, imóvel. Cabelos castanhos penteados para o lado. A barba, curta e perfeitamente aparada, desenhava o contorno de um rosto sério. O terno preto sob medida era de um tecido caro, importado de outra colônia humana.

    Atrás do sofá, duas figuras de três metros de altura erguiam-se.

    Armaduras de placas douradas cobriam todo o corpo robusto, sem nenhuma fresta visível. As superfícies refletiam a luz da sala em tons quentes, pesados, quase opressores. Cada um segurava uma arma cujo cano tinha o comprimento de todo o torso de Victor, apoiadas com facilidade.

    Victor entrou, a presença de um emissário do imperador e de dois Astrolegionários, os super soldados do império, não o intimidava nem um pouco.

    Atravessou a sala com calma, sentou no sofá oposto com elegância, cruzou as pernas, apoiou o braço no encosto e fez um gesto mínimo com a mão.

    Gideon se aproximou.

    Mais jovem, mais baixo e carregando um pequeno caco de dados entre os dedos, segurava aquilo com cuidado. Parou ao lado do emissário e entregou o dispositivo.

    O emissário encaixou o caco na superfície da mesa.

    Uma projeção surgiu no ar, gráficos e leituras preencheram o espaço entre eles com uma luz azulada.

    Victor lançou um olhar rápido. Depois fez outro gesto com a mão, dispensando Gideon.

    Ele hesitou por um segundo, o olhar passou por Victor, carregado de algo que não verbalizou, um resquício de decepção. O doutor não percebeu. Os olhos já estavam presos na projeção, mas não pelos dados. Imaginava quanto dinheiro receberia por isso.

    Gideon saiu.

    O emissário analisou os dados sem pressa.

    — O Imperador espera resultados. Caso ele não se contente com esses dados… a terraformação ocorrerá conforme o programado.

    Victor cruzou os braços, com o corpo relaxado demais para a situação.

    — Respeitoso emissário Jericho… o Projeto Spacium está superando todas as expectativas. Não apenas estabilizamos o confinamento inercial, como a produção de hélio-3 está no pico. A terraformação da Lua é um capricho caro. Uma distração. Nossas descobertas garantirão a expansão do Império Humano. O hélio é a única fonte alternativa de combustível para viagens de longa duração. Os resultados são ótimos. Absolutamente ótimos.

    Mentira. Ele estava a meses travado no mesmo ponto e os dados que entregara eram adulterados.

    O emissário permaneceu em silêncio por alguns segundos, analisando. Então removeu o caco da mesa e guardou no bolso interno do terno.

    — Levarei isso pessoalmente ao Imperador. Até lá… continue o projeto.

    Eles se levantaram.

    Jericho levou o punho fechado ao peito.

    — Glória ao Imperador.

    Victor repetiu o gesto.

    — Que sua luz brilhe nos cantos mais escuros da galáxia.

    O emissário se virou e deixou a sala, os dois soldados dourados o acompanharam.


    Papéis espalhados pelo chão do laboratório, alguns amassados, outros rasgados ao meio.

    Restos de comida empilhados em bancadas, embalagens abertas, roupas jogadas em cadeiras e no chão. As projeções flutuavam no ar, desalinhadas e sobrepostas, gráficos instáveis tremiam em vermelho, com dados inconclusivos.

    Victor estava no centro disso tudo.

    Barba por fazer, cabelo desalinhado, olhos fundos. Ele se apoiou em um painel de controle, o peso do corpo recaiu mais do que deveria, como se as pernas não sustentassem mais a mente.

    A próxima vez que o emissário vier… e eu não tiver nada físico…”, fechou os olhos por um segundo. “O Imperador não vai aceitar mais números.”

    Passou as mãos pelo rosto, pressionou os olhos, e tentou forçar algum tipo de clareza.

    A porta do laboratório se abriu. Gideon entrou. Carregava uma xícara de café com cuidado, em passos contidos, quase silenciosos. Parou ao lado de Victor e estendeu a mão.

    — Seu café, senhor.

    Victor pegou sem olhar.

    — Demorou.

    Gideon abaixou levemente a cabeça.

    — Desculpa. Não vai acontecer de novo.

    Victor levou o café à boca, tomou um gole curto.

    — O emissário mandou mensagem?

    — Sim.

    — E o que ele disse?

    Gideon respirou fundo antes de responder.

    — Que na próxima visita eles esperam dados mais conclusivos… e uma demonstração funcional. Eles foram misericordiosos e mencionaram um protótipo simples. Um caça pequeno em voo já seria suficiente. Disseram que o tempo está acabando.

    Victor apertou a xícara com mais força.

    — Diga a ele para esperar. Estou ajustando a seção de choque D-He³. Esse é o futuro da humanidade.

    Gideon hesitou e pigarreou.

    — Com todo respeito, senhor… o projeto de terraformação está no prazo final. Se o emissário não for convencido, a prioridade volta para o Projeto Gaia e a gente perde o financiamento no próximo ciclo.

    Victor não desviou o olhar das projeções.

    — Eu sei o que estou fazendo. Como já te disse antes, às vezes, você precisa mudar a metodologia para ampliar sua visão.

    Silêncio.

    — Sim, Doutor Alonso.

    Victor voltou completamente para o holograma. As equações giravam diante dele, números se rearranjavam, hipóteses surgiam e morriam no mesmo instante.

    O que diabos eles querem com um jardinzinho na Lua?” Ele ajustou um parâmetro. “A Terra já existe.

    Uma notificação piscou no canto da visão.

    Chamada de Casa. Não atendida. 3 vezes.”

    Já sabia que era Maria, sua esposa. Querendo saber se ele viria jantar ou se ele veria a filha, Samira.

    Ela tinha acabado de completar dez ciclos, e ele havia prometido levá-las para a cúpula de terraformação no feriado.

    Sua esposa queria que Samira visse as raras flores que cultivavam por lá, os girassóis. Victor havia prometido isso apenas para se livrar logo dessas incomodações.

    Não tenho tempo para distrações sentimentais“, repreendeu-se.

    Gideon deu um passo à frente.

    — Senhor… se me permite…

    Victor não tirou os olhos dos dados.

    — Fala.

    — Eu acho que o senhor deveria abandonar o projeto.

    O café escapou da mão de Victor. A xícara bateu no chão e se partiu, espalhando líquido escuro pelos papéis. Ele virou devagar, seu olhar mudou, agora, mais frio.

    — O que você disse?

    Gideon abaixou a cabeça.

    — Eu não quis ofender… mas se continuarmos mentindo pro Imperador… não é só a gente. Nossas famílias também…

    Victor avançou um passo.

    — Eu tenho certeza que, se o senhor explicar as dificuldades, o Imperador, em toda sua graça, pode nos direcionar outros recursos… outros meios de gerar energia…

    O doutor deu um tapa no seu assistente.

    Gideon não reagiu. O rosto virou com o impacto, mas não levantou a cabeça.

    — NUNCA MAIS DIGA ISSO! — Virou o corpo e saiu da sala, com  passos rápidos e duros, carregando a raiva com ele.


    Victor vestia um traje, pesado, branco, selado em torno do corpo, e permanecia imóvel diante da mesa de testes. No centro, uma miniatura da nave repousava sobre uma base magnética. Mantinha as mãos apoiadas na borda da mesa, os dedos tensos pressionavam contra o metal.

    — Pelos cálculos… isso deve voar com menos gasto de energia — disse Lúcia.

    Victor não tirou os olhos da miniatura.

    — Vai realmente funcionar?

    — Sem dúvidas. Eu calculei tudo do zero… cinco vezes.

    Victor respirou fundo.

    — Espero que funcione. — Estendeu a mão e pressionou o botão lateral.

    O sistema ativou.

    Um zumbido baixo percorreu a estrutura. Luzes acenderam na base. A miniatura permaneceu imóvel.

    Victor não piscou.

    Os segundos se arrastaram. Nenhum som ou movimento.

    Ele sentiu o corpo endurecer dentro do traje. A respiração ficou mais curta. Os dedos apertaram ainda mais a mesa.

    Nem ele nem Lúcia falaram, apenas observaram.

    Mais um segundo. Dois. Nada. Então, a miniatura tremeu.

    Victor inclinou o corpo para frente.

    A nave começou a subir.

    — Os números estão bons. — Lúcia quebrou o silêncio.

    Victor não desviou o olhar.

    — E a taxa de queima?

    — Dentro do esperado. Tudo está estável… vai funcionar.

    O corpo dele relaxou de uma vez. Um riso escapou. Depois outro.

    Ele soltou uma gargalhada, deu um passo para trás e se jogou na cadeira. Girou, pegou um monte de papéis e lançou para o alto, deixando que caíssem ao redor.

    — Lúcia… nós estamos ricos.

    — Desculpa interromper… mas sua esposa ligou de novo.

    Victor fez uma careta leve.

    — O que ela quer?

    — Falar com você. Faz dias que você não volta pra casa.

    Ele girou a cadeira de volta, ainda sorrindo.

    — É sobre o aniversário da Samira?

    — Sim.

    Victor balançou a mão no ar, dispensando.

    — Diz pra ela ir amanhã ver o lançamento. Depois disso… quando a gente estiver rico… ela vai me agradecer por eu não perder tempo com essas coisas.

    — Você deveria ir pra casa. Pelo menos hoje. Descansar antes de amanhã.

    Victor já estava de pé.

    — Bobagem. Eu tenho uma apresentação pra preparar. O emissário vem amanhã.

    — Eu estou te avisando…

    Victor virou o rosto, irritado.

    — Se continuar me dando sermão, eu te desligo e te substituo.

    Victor voltou para a mesa.


    A sala de comando tinha paredes de vidro reforçado voltadas para o abismo escavado abaixo. De lá, era possível ver tudo. O fundo da cratera, marcado por trilhos e plataformas antigas, agora preparado para o teste.

    Um caça dos EUG repousava no centro da área delimitada. Ao redor, soldados da Orbital formavam um perímetro rígido. Mais afastados, atrás de barreiras improvisadas, mineradores e suas famílias observavam.

    Entre eles, Maria segurava Samira no colo. A garota tinha um girassol preso ao cabelo e segurava um algodão doce que já começava a desmanchar.

    Dentro da sala, Victor permanecia diante do painel. Gideon estava ao lado, com os olhos fixos lá embaixo. O emissário Jericho ocupava o centro do espaço com as mãos cruzadas atrás das costas. Ao lado da porta, dois Astrolegionários permaneciam imóveis, com armas em punho.

    O emissário observou a cratera.

    — Ela tem um nome?

    Victor chegou próximo de Gideon e colocou a mão em um de seus ombros.

    — Eu a nomeei cratera Gideon a uns anos atrás, porque ambos não produzem nada de interessante, hahaha.

    Gideon ficou constrangido.

    Jericho avaliou a piada por alguns segundos e depois voltou-se para o vidro panorâmico acima do painel de controle.

    — O Imperador disse que uma miniatura bastava, mas eu vejo um modelo completo.

    Victor caminhou até o painel e manteve a postura firme.

    — Fiz alguns testes ontem à noite. Já conseguimos com um caça completo.

    — Veremos se sua soberba é justificada.

    Jericho desviou o olhar para Gideon por um instante, o assistente desviou o olhar, depois, o emissário voltou a encarar a cratera.

    Victor estava completamente preso à cena abaixo. Procurou entre as pessoas e encontrou Maria e Samira. A pequena levantou o algodão doce, rindo de algo que a mãe disse.

    Jericho notou.

    — Sabem o que dizem pela galáxia?

    Victor respondeu sem tirar os olhos do painel.

    — Sobre o quê, emissário?

    — Que todos os caminhos levam ao Imperador da humanidade.

    Victor assentiu.

    — Claro. Vossa majestade é, sem dúvidas, o mais poderoso entre os deuses.

    Jericho corrigiu com calma.

    — Ele é o único. — Tossiu de leve — Se todos os caminhos levam até ele… eu sou aquele que os constrói.

    Victor franziu o cenho, sem entender.

    — Não há nada que você queira me dizer? — Jericho sustentou o olhar por mais um momento antes de voltar para a multidão.

    — Todas as especificações já estão no caco que entreguei. Não tenho mais nada a acrescentar.

    Jericho virou o rosto para Gideon.

    — Curioso. Seu assistente me disse que os dados foram adulterados.

    O sangue sumiu do rosto de Victor. Ele virou para Gideon.

    Antes que dissesse qualquer coisa, um dos Astrolegionários se aproximou de Jericho.

    — Comece — ordenou o emissário.

    Gideon abaixou o olhar.

    Victor deu um passo à frente.

    — Senhor, perdoe meu assistente, tivemos uma discussão e receio que ele tenha te mentido…

    — Eu sou um homem justo — interrompeu Jericho. — Inicie o teste. Se funcionar, ordeno a execução dele aqui mesmo. Se falhar… você já sabe.

    Victor engoliu em seco, mas estava confiante. Tinha dado certo ontem e, com certeza, daria certo hoje. Depois ele veria o que fazer com seu assistente.

    Desgraçado… Depois de tudo o que eu fiz por você, te ensinei…“, afastou os pensamentos, não era hora para isso.

    Apertou o botão.

    Lá embaixo, os motores do caça ligaram. Um som crescente tomou a cratera, uma vibração subiu pelas paredes e chegou até a sala. O caça começou a subir. Estável.

    Victor sorriu ao olhar para Jericho, mas logo a sala mergulhou em um súbito tom de vermelho.

    Alarmes dispararam.

    Victor olhou para o painel.

    — Lúcia… o que está acontecendo?

    — Os números estão elevados demais… instabilidade crítica.

    — Impossível. Ontem funcionou. Desliga agora!

    — Eu estou tentando…

    Victor bateu no painel.

    — MINHA FAMÍLIA ESTÁ LÁ EMBAIXO, DESLIGA!

    — Desculpe… algo corrompeu o sistema. Eu não consigo. — A IA respondeu depois de alguns segundos.

    — O quê…?

    Lá embaixo, o caça tremeu.

    O metal se retorceu e o som, antes mecânico, virou um urro visceral. A fuselagem partiu ao meio e uma luz branca, agressiva, escapou pelas fendas até que tudo pulsou.

    E então, explodiu em um vácuo que engoliu o oxigênio de uma só vez. O brilho devorou a cratera e o chão ondulou feito água. Plataformas voaram como folhas secas, enquanto os trilhos se dobraram e sumiram no caos.

    Os soldados sequer perceberam o fim. Seus corpos se desintegraram no ar, metal e carne reduzidos a poeira e, logo depois, ao vazio.

    Quem estava longe tentou correr, mas a onda de choque os alcançou.

    Victor assistiu a tudo. Maria virou o rosto num instinto final para proteger Samira, que ainda apertava o algodão doce entre os dedos. O girassol balançou e, num estalo, as duas sumiram.

    A explosão subiu pelas paredes da cratera, devorou tudo que encontrava, rasgando pedra e metal.

    Ela veio em direção à sala de comando.

    Jericho ergueu a mão pra frente e uma barreira rosa se formou ao redor deles, envolvendo o espaço inteiro em uma bolha translúcida.

    A onda bateu, dividiu-se ao redor deles e seguiu adiante, carregando o mundo inteiro na passagem. Quando o clarão enfim cedeu, a cratera, as máquinas e as pessoas tinham sumido, restou apenas um vazio calcinado.

    Victor disparou. Ele abandonou a sala antes de qualquer aviso e seus passos martelaram os corredores enquanto descia, tropeçava e ignorava o que quer que estivesse pelo caminho. Alcançou o ponto onde o caça estava, e manteve o fôlego na corrida desesperada.

    Caiu de joelhos onde antes havia sua família. Suas mãos afundaram na poeira fina. Ele começou a cavar desesperadamente, abriu sulcos rasos, puxou a cinza para os lados e espalhou o que restou.

    — Elas têm que estar aqui… — A voz saiu quebrada. — Foi minha culpa…

    Ele puxou mais poeira, mais cinza, como se pudesse encontrar algo sólido ali, qualquer coisa que dissesse que não acabou.

    — Se eu não tivesse mentido… — As mãos tremiam. — Se eu tivesse…

    A frase não terminou.

    Ele repetiu o gesto, mais rápido, mais desesperado, como se o chão fosse ceder a uma resposta. A poeira grudou nas luvas, subiu pelos punhos, marcou o traje. As lágrimas desceram sem controle, atravessaram o rosto e caíram naquilo que não tinha mais forma.

    — Se eu tivesse passado mais tempo com elas…

    Agora saiu inteiro.

    E foi pior.

    Victor bateu o punho no chão. Uma vez. Outra. O impacto não devolveu nada. Ele desceu o corpo, encostou a testa e os antebraços na superfície fria e chorou alto, sem tentar conter, sem dignidade.

    Jericho parou a poucos metros. Gideon ficou ao lado, rígido. Os Astrolegionários mantiveram a posição, imóveis.

    Jericho observou por um instante, o olhar vazio de qualquer peso.

    — A partir de hoje, você está dispensado de seus deveres no projeto Spacium e proibido de pisar novamente na Terra.

    Victor não reagiu.

    Continuou ali, curvado, respirando em soluços, as mãos ainda presas à poeira. O título não importava. Nada mais ali importava.

    Jericho virou o rosto para Gideon.

    — A partir de hoje, você é o novo encarregado do projeto Spacium. O Imperador viu futuro… mas não com o hélio. Aguarde novas ordens.

    Gideon deu um passo à frente e fez uma mesura.

    — Obrigado, senhor.

    Jericho e os soldados se viraram e começaram a se afastar, com passos firmes, como se nada tivesse acontecido. Gideon o seguiu, sem olhar para trás.

    Victor permaneceu.

    O corpo cedeu de vez, caiu de lado sobre o chão cinza, os olhos abertos, vazios e a respiração irregular. Ele não procurou mais. Não havia mais o que encontrar.


    Gideon inclinou levemente a cabeça, o sorriso frio voltado para Stella.

    — Agora que você sabe… o que pensa do seu salvador?

    Stella desceu das costas de Victor devagar. Os pés tocaram o chão com cuidado. Ela virou o rosto para ele.

    Uma lágrima descia pelo rosto de Victor.

    — Isso é verdade?

    Victor não conseguia encarar a garota. Os olhos ficaram presos no chão.

    — Sim…

    O tempo travou por alguns segundos.

    É… ela me odeia agora… Victor, seu idiota… você estragou tudo de novo…

    Ele fechou os olhos. Depois de alguns segundos, sentiu algo quente na mão. Abriu eles, espantado.

    Stella segurava a mão dele com força. Os olhos dela também estavam cheios.

    — Você estava sofrendo esse tempo todo?

    Ela o abraçou.

    Victor desmoronou. O corpo cedeu, os braços envolveram a garota com força.

    Gideon estalou a língua.

    Tsc. Deu dois passos rápidos à frente. — Já que não vai vir por bem… eu mato ele, quebro suas pernas… e te mantenho trancada pra sempre.

    Victor reagiu. Pegou Stella no colo, puxou a arma do coldre e disparou, o primeiro tiro fez Gideon parar e o segundo girou o corpo dele de lado.

    Victor não recuou.

    Gideon estalou o pescoço, como se nada tivesse acontecido.

    — Vai ter que fazer melhor que isso.

    — O que a gente faz? — perguntou Stella, com a voz trêmula.

    — A gente corre.

    Ela voltou para as costas dele, os braços firmes.

    Solstice apareceu ao lado.

    — Stella, tenta usar a matrix contra ele…

    — Não precisamos mais de você. — Gideon estalou os dedos.

    A imagem de Solstice falhou e sumiu.

    Victor só teve uma reação, correr.

    Os pés batiam na rocha irregular, desviava de destroços, saltava sobre trilhos retorcidos, escorregava em encostas instáveis.

    Atrás, passos pesados e constantes. Gideon vinha, implacavelmente.

    HAHAHA! Você sabe mesmo como deixar as coisas mais divertidas, Victor.

    Victor virou um desnível, desceu uma rampa de pedra solta, entrou entre duas estruturas caídas e mudou de direção, tentando quebrar a linha de visão. O corpo já começava a falhar, o ar não vinha como antes, as pernas pesavam.

    Gideon riu.

    — Você não consegue se esconder pra sempre!

    Victor encontrou uma abertura entre placas desmoronadas e se enfiou ali, puxando Stella junto. Prendeu a respiração e manteve seu corpo imóvel.

    Escutou passos, agora mais longe.

    Silêncio.

    — VICTOR!

    Stella se encolheu.

    — Você não consegue se esconder pra sempre! — continuou Gideon, mais distante.

    Os passos se afastaram.

    Victor soltou o ar devagar, um alívio curto.

    Quando começou a se mover para sair, uma mão agarrou o pescoço dele por trás com uma força absurda.

    O corpo foi levantado do chão.

    A arma caiu.

    Stella bateu no braço de Gideon, tentou soltar, mas não fez diferença.

    — Aquela rata não te contou por que essa pirralha é importante, né? — disse Gideon, aproximando o rosto.

    — Solta ele!

    — O sangue dela… dá poderes. Eu sou o resultado disso.

    A visão de Victor escurecia, não havia tempo para refletir sobre essa revelação.

    — Ela foi o presente do imperador pra mim depois que eu assumi o Spacium.

    O corpo de Victor começou a ceder.

    — Ela chegou até mim como um embrião… eu a estudei e coletei seu sangue por dez anos… e agora… — O aperto aumentou. — Eu sou inevitável.

    O corpo de Victor cedeu, ele não tinha mais forças. Stella viu aquilo e soube que precisava fazer algo. Reuniu toda a força que lhe restava e tocou no braço de Gideon.

    — Nem tente, garota. Você vai morrer.

    Stella o ignorou. Solstice havia lhe ensinado a usar seus poderes e ela se concentrou. Seus implantes lhe permitiam acessar a Matrix, a borda da rede neural, e abrir uma barreira para IAs maliciosas, ou, pelo menos, era isso que Solstice a tinha dito no Parque da Terra.

    Ela abriu o espaço. Gideon gemeu de dor e largou Victor, que caiu sufocado, buscando ar. O doutor malvado se afastou, cambaleou e segurou a cabeça.

    — Agh…

    Gideon recuou, os joelhos falharam por um instante.

    — VOCÊ VAI TER QUE FAZER MELHOR QUE ISSO!

    Victor rastejou e encontrou a arma que havia caído a poucos centímetros dele. Quando alcançou, Stella caiu ao lado, exausta.

    Gideon levantou o rosto, seus olhos brilharam em um carmesim doentio, ele disparou contra a barriga de Victor. Ele não desviou, não conseguiria, o tiro atravessou seu abdômen e sangue jorrou.

    Gideon avançou. A mão agarrou o cabelo de Victor e puxou a cabeça para trás.

    — Últimas palavras?

    Victor ergueu o braço, a arma encostou na têmpora do doutor.

    — Me desculpa, amigo…

    Puxou o gatilho.

    A cabeça de Gideon explodiu e o corpo caiu. Em condições normais, isso não teria sido suficiente para pará-lo, mas Stella havia o enfraquecido.

    Silêncio.

    Victor caiu junto. Ficou ali por um segundo, dois, depois, forçou o corpo para se arrastar até Stella. Pegou ela no colo.

    Ela olhou para ele e o rosto mudou.

    — Você tá sangrando muito!

    Levantou, cambaleou e começou a andar em direção ao topo da cratera. O sangue escorria pelo traje branco, e o manchava.

    Stella chorava, com os braços presos nele.

    — Não… não… por favor…

    Victor continuou. A subida parecia não ter fim.

    As pernas falhavam, o corpo ameaçava ceder, mas ele seguia, arrastando o peso de si mesmo e segurava ela com tudo que restava.

    Finalmente, a borda. Saiu da cratera e a luz voltou a atingir o corpo inteiro.

    Solstice apareceu à frente, a expressão diferente pela primeira vez, ela estava genuinamente preocupada.

    — Victor, para… você não vai aguentar…

    Ele ignorou. Deu mais um passo, depois outro.

    O mundo começava a apagar nas bordas, a visão perdia o foco, mas ele ainda segurava Stella.

    Ela estava apoiada contra o peito dele, o rosto escondido, os ombros tremendo em silêncio antes de desabar em choro aberto.

    Solstice mantinha o olhar fixo nele.

    — Descansa um pouco… você pode morrer assim.

    Victor soltou um ar fraco, quase um riso.

    — Eu vou morrer. — Manteve o olhar à frente. — Você sabe que eu não posso mais pisar na Terra… esse tempo todo foi uma ilusão boa.

    Stella levantou o rosto, seus olhos estavam vermelhos.

    — Não faz sentido… eu não quero ir pra Terra se você não for junto.

    Victor ergueu a mão com esforço e fez um carinho leve na cabeça dela.

    — Não se preocupa… você é forte. Vai passar por muita coisa… a vida vai tentar te derrubar…

    Ela o encarou, tentando segurar cada palavra.

    — Mas nunca esquece de ser feliz. De estar perto de quem você ama… assim você não vai acabar como eu… arrependido. — Respirou com dificuldade. — Você me promete?

    Stella não conseguiu responder de imediato. O choro voltou, entrecortado.

    — Eu… eu prometo…

    Victor assentiu, então virou o rosto para Solstice.

    — Promete pra mim… que vai cuidar dela… nem que isso custe sua vida.

    Solstice não desviou o olhar.

    — Isso provavelmente vai custar minha vida.

    Victor deu mais um passo.

    Depois outro.

    Uma estrutura surgiu à frente, montada próxima à cratera do Imperador. O foguete era pequeno e compacto.

    Victor chegou até ele.

    A mão tremeu ao acionar o mecanismo. O vidro abriu. Colocou Stella dentro, com cuidado. Ela segurou o traje dele com força.

    — Não… vem comigo…

    Ele balançou a cabeça devagar.

    — Eu não posso.

    Eles se abraçaram, ele encostou a testa na dela.

    — Viva por mim.

    Stella começou a chorar mais forte.

    O vidro fechou e o sistema iniciou a contagem.

    No cinco, Victor ainda sorria e acenava, no quatro, ele parou de acenar, no três, ele cambaleou. No dois, Stella bateu no vidro com força, no um, caiu sentado. No zero, ela decolou. Quando o foguete saiu da órbita da Lua, deitou, mas nunca deixou de sorrir.

    O sangue já havia tomado o traje. Ele tentou se mexer, mas não conseguiu.

    Solstice apareceu e se sentou ao lado dele.

    Victor virou levemente o rosto.

    — Eu consegui…

    — Conseguiu… Olha, eu só queria te dizer que tudo que aconteceu… não foi culpa sua.

    Victor soltou o ar.

    — Eu… era um merda.

    Solstice ficou em silêncio por um momento, então se levantou.

    — Acho que você merece saber.

    Victor manteve o olhar no céu.

    — Stella… assim como eu… é descendente de um dos primordiais. Da entidade do espaço e do tempo. Ela consegue atravessar dimensões… se locomover livremente pelo tempo.

    Victor virou o rosto, com dificuldade.

    — Primordiais…?

    — Os seres que originaram os poderes. É por isso que ela era tão importante.

    Victor fechou os olhos por um instante.

    — Ainda bem que eu salvei ela… imagino o que fariam com ela…

    — Você aceitou isso rápido.

    — Eu estou morrendo… pela primeira vez… eu não quero questionar tudo.

    Solstice assentiu.

    — Entendi.

    Victor voltou a encarar ela.

    — E agora…?

    — Eu vou pra 25ª colônia. Existe alguém que pode nos ajudar.

    — Quem…?

    — Um herói. — Fez uma pausa curta. — Seu nome é Radiante.

    Victor sorriu fraco.

    — Não sei quem é…

    — Eu gostaria que você conhecesse. Em todas as realidades que eu vi… ele sempre foi uma lenda.

    Victor tentou responder, mas não saiu som.

    Solstice o observou por um tempo maior do que qualquer palavra permitiria. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. No instante seguinte, a projeção desapareceu.

    Silêncio.

    Victor ficou sozinho. O céu estrelado se estendia acima dele e então, um som familiar.

    Virou o corpo com o que restava de força.

    Elas estavam lá, sua esposa Maria e sua filha Samira. Exatamente como ele lembrava.

    Maria se aproximou, ajoelhou ao lado dele e o puxou com cuidado, deitando a cabeça dele em seu colo.

    Samira sorriu.

    — Pai… a gente vai ver os girassóis?

    Maria tirou o capacete dele e passou a mão pelos seus cabelos.

    — Que bom que você voltou pra gente.

    Victor chorou.

    — Eu senti tanta a falta de vocês…

    Sua filha o abraçou.


    Um cemitério se estendia com estruturas metálicas que substituíam lápides comuns, placas verticais alinhadas em fileiras, cada uma com um painel holográfico.

    Stella usava um vestido amarelo e segurava um buquê de flores brancas contra o peito. Parou diante de uma lápide e ficou em silêncio por alguns segundos, olhando a projeção que pulsava em azul suave.

    — Obrigado por tudo… eu prometo que vou ser feliz.

    Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. Se abaixou, apoiou o buquê na base da lápide e juntou as mãos por um instante, fechou os olhos e fez, em silêncio, uma oração simples. Quando terminou, abriu os olhos, respirou fundo e se levantou, dando um último olhar antes de se virar e sair correndo pelo corredor de luzes.

    — Filha, vamos nos atrasar! — chamou uma voz mais à frente.

    — Tô indo, mãe! — respondeu Stella, já diminuindo o passo.

    A mulher que esperava no fim do caminho era Solstice.

    Linhas de implantes percorriam a pele. As costas revelavam mecanismos expostos, placas articuladas, cabos e estruturas que se moviam. A pele refletia a luz com um brilho metálico sutil, e as mãos, completamente artificiais, negras e polidas, contrastavam com o resto do corpo.

    Stella chegou até ela e segurou sua mão sem hesitar.

    Solstice apertou de volta.

    A garota olhou para cima, um sorriso leve surgindo no rosto.

    — A gente vai ver as baleias?

    Solstice inclinou a cabeça, um traço de suavidade quebrando a rigidez mecânica.

    — Só depois de comprarmos aqueles balões que você queria.

    Stella abriu um sorriso maior.

    — Então vamos!

    As duas seguiram juntas pelo caminho iluminado e desapareceram entre as fileiras de lápides.

    Atrás delas, a projeção azul continuava ativa. O rosto de Victor Alonso surgia acima da lápide, estático e sereno. Abaixo, as datas e a frase gravada:

    O homem mais confiável da Lua.

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