Índice de Capítulo

    “E lá segue o tordo

    O pobre e pequeno tordo.

    Nas costas, algo grande

    Na cintura, algo justo,

    e no peito

    um girassol.”

    Izandi, a Oniromante

    Diferente da biblioteca do castro Beesh, que era escura, austera e úmida e inteiramente monopolizada por Cile Henri, a biblioteca dos yeo’Chowett era a mais bela, clara e lustrosa que Hyd já vira. E era alta. Assim como todo o palácio por onde andara, era esculpido de dentro da montanha, com paredes tão altas quanto as muralhas do castro, e praticamente todas eram cobertas ou transformadas em estantes para calhamaços tão pesados quanto ela. Mais ainda, as paredes eram conectadas entre si por arcos e pilares de rocha entalhada, alguns que seguravam luzeiros de cristal, outros, placas de madeira, escritas na língua do Império. As capas dos livros eram de cores variadas, mas formavam um padrão se vistos ao longe, e Hyd via cada vez melhor.

    Desde o desenho aleatório que os pontilhados imensos faziam nas estantes de rocha à cada detalhe da anatomia das estátuas de animais e humanos, das pinturas altas e grandiosas que enfeitavam a biblioteca. Até onde Hyd andara, o lugar era praticamente um labirinto cujas formas se aprofundavam em uma forma geométrica que lhe daria dor de cabeça só pensar, e quão mais fundo procurava, mais livros e paredes encontrava. Mas ela não queria pensar; ao contrário. Tudo que sua mente clamava era por descanso.

    Mas já dizia para si há tempos não ter esse direito. Não enquanto não torna-se à casa.

    “A Espada de Deão”, “Tratado de Retórica”, “Comentários Sobre as Seis Esgrimas Imperiais”. A garota pedira para que Jenna utilizasse de uma escada para pegar os livros e os enfileirou no banco mais próximo. “História Póstuma do Pé-de-Ferro”, ela leu. “Um Breve Resumo das Linhagens dos Generalíssimos e de Sua Majestade Imperial”, leu. Cada um dos livros que escolhera tinha mais tempo de vida que ela, e um peso próximo. Foleando, o último chegava a cinco mil páginas. “Sinto falta de minha harpa.”

    — Como queria que a situação fosse diferente — murmurara.

    — Não perca as esperanças, senhorita Hydele… — murmurou Jenna, ficando de joelhos para a ruiva. Hyd encontrou conforto nas palavras dela, no entanto, sua voz escondia um tremor doloroso.

    Hyd olhou pelo canto do olho e devolveu um olhar macambúzio para sua mestra de esgrima.

    — Em que língua estamos falando?

    A morena apertou um braço.

    — …Recifano.

    Hyd sentiu suas pernas, agora desiguais e mais longas, fraquejaram, e ela despencou no banco; abaixo dos olhos de uma estátua monstruosa. Ela se assustara na primeira vez que vira a criatura, e não fazia ideia do porquê de haver algo como isso numa biblioteca.

    Entalhado de uma parede a forma de uma criatura hedionda observava o lugar abaixo. Era uma criatura alta cujo torso e quatro braços escapuliam da rocha tal uma mariposa saindo do casulo. Seus braços eram tão grandes e grossos quanto pinheiros amarrados uns nos outros. Deles, saiam mãos com dedos enormes, que acabavam em pontas afiadas. Do torso humanoide, não havia pescoço que separasse da cabeça felina, com seis olhos enfileirados e um colossal par de chifres que se enfiavam na rocha do teto.

    Seu par inferior de braços se uniam e formavam um banco. Hyd sentou-se no braço esquerdo, com os livros aos pés, e Jenna ficou ao seu lado, atenta. Havia nos seus olhos uma pequena escuridão incomum que assustava a pequena ruiva, e esta sabia bem a razão. Ela tocou no primeiro calhamaço que escolhera, A Espada de Deão, e só de tentar entender como compreendia as letras na capa, sua cabeça doía.

    Jenna estremeceu quando Hyd contraiu os ombros e focou seus olhos no livro, e quando suspirou brevemente, fora como se uma brasa dourada ardesse no centro de suas pupilas amarelas-âmbar. A pequena sentiu uma ardência direto da cabeça, uma dor como a de um marinheiro guiando seu navio dentro de uma tempestade. A dor era como ondas empurrando algo para o fundo, ondas de uma chama dourada, mas que não era quente.

    Uma dor que diminuía a cada instante, mas que não cessava nenhum pouco.

    Jenna deu um salto para trás, mas Hyd não notara. Sua mente era um turbilhão, e, pela pouca concentração que conseguia manter, imaginava que não voltaria caso fosse levada pelas ondas. Por isso, ela abriu o livro e cerrou os dentes, e a dor ficava mais tênue. E quando enfim se quebrou, a pequena ruiva abriu o calhamaço e encarou as letras ali, e as devorou.

    “Deão, o Odiável, era filho de Elói e Diana dax Eztrieliz, fruto de um pecado que o tornara doente desde o nascimento: fraco e nauseabundo, todavia, ainda perspicaz e astuto como lhe era propício. No entanto, com a morte de sua mãe, seu pai tomou outras mulheres, e seus irmãos logo clamaram por seu devido trono. Deão, no entanto, fora mais esperto e, invés de insistir em batalha, deixou que seus irmãos batalhassem pelo trono. Quando quase todos morreram, ele parou a guerra que conspirara, e decidiu que deixaria que qualquer um deles governasse, desde que ficasse sentado no trono o dia inteiro.”

    E então, amarrara as espadas de todos os mortos em batalha no teto do salão imperial, amarrados ao pomo por pelos da cauda de cavalos velhos.

    “Assim ele garantiu seu trono, e sua linhagem foi longa”, Hyd pensou. Sua cabeça ardeu como se fosse atingida por um martelo. O livro tinha quinze capítulos e resumia boa parte das batalhas e de seus causadores e heróis.

    — Jenna, por quanto tempo fiquei…

    — Uma hora, senhorita.

    “Uma hora”, pensara. “Uma hora para um livro que demoraria dias para um erudito comum. Para mim.” Seus olhos ardiam como se não tivesse piscado por todo esse tempo. Lágrimas quentes escorreram por suas bochechas rosadas e cheias de espinhas e os olhos piscaram repetidas e dolorosas vezes enquanto fechava o livro com um baque surdo. Ele escapou das mãos de Hyd, caindo no chão ao lado do livro de cinco mil páginas. “Qual o próximo?”

    Imagina que o livro de retórica seria perfeito. Cile Henri sempre a contava que essa era a única arma que toda pessoa fraca poderia empunhar e vencer um adversário, desde que tivesse o mínimo de desonestidade no coração — uma desonestidade saudável, dizia ele. No entanto, estar no Império tinha lhe mostrado o contrário. Como argumentaria contra seu avô, cujas meras palavras destruíram seu coração e aceitar a ideia de um esposo antes do final da primavera? Como argumentaria contra um insano cujas mãos criavam chamas?

    Hyd juntou forças nos braços magros e pegou o Comentários Sobre as Seis Esgrimas Imperiais.

    — Senhorita, que tal parar? Seus olhos…

    — Eu estou bem, mestra Jen — respondeu, sua voz para dentro de tanta fadiga mental.

    Ela se ajoelhou novamente, tocando levemente o braço de Hyd, um gesto que pretendia ser reconfortante, mas que traiu um leve tremor em seus dedos. “Ela me protege e eu a assusto.”

    — Estou bem — dissera de novo, e voltou sua atenção para o calhamaço com capa de pele de cordeiro. “Só este, e então dormirei um pouco”, pensou. A capa era macia e mole, e as páginas estavam amarelas de tão velhas, com as bordas amassadas de muitas leituras anteriores; muito anteriores.

    Hyd sentiu seu cérebro queimar mais uma vez.

    “Pé-de-Ferro não levantou o Império sozinho. Em sua jornada imperial, seis grandes Mestres os acompanharam e se tornaram seus generalíssimos. Em cada um corria o sangue de bruxo, que lhes tornava excepcionais na arte do Ahvit, e sobre-humanos em suas capacidades. De suas famílias meandraram grandes tradições de espada. Os yeo’chowett tinham a Espada da Coruja, a fonte de seu sobrenome…Era também… chamada de Lâmina das Fagulhas.”

    — Este livro está desatualizado há uns seiscentos anos — falara uma voz que cortou Hyd do transe. Seus olhos saltaram das órbitas e voltaram com um baque na sua mente. Seu primeiro impulso foi tentar fugir para Jenna, que estava parada e alerta, e depois reparar na mão macia e suave que tocava em seu ombro.

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