Capítulo 51 - O Despertar do Príncipe
O som ecoou por toda a instalação.
Grave. Metálico. Inconfundível.
“Atenção a todos os lutadores do Projeto Fighters World.”
Corredores silenciaram.
Portas se abriram.
Passos começaram a convergir.
“Reúnam-se imediatamente no Salão Principal.”
O nome por trás da voz não precisava ser anunciado.
Todos sabiam.
Daizen Takatora.
O Salão Principal foi tomado por presença.
Dezenas de lutadores alinhados, uniformes impecáveis, auras contidas por respeito — ou por medo.
No centro, Daizen estava parado, mãos para trás, expressão neutra demais pra ser confortável.
— A partir de hoje — começou, a voz amplificada pelos alto-falantes internos —, o Projeto Fighters World passará a operar sob um novo sistema de medição de força.
Um murmúrio baixo atravessou o salão.
— Os Ranks. — ele continuou. — De E a S.
Cada um representa não apenas poder bruto, mas impacto real no equilíbrio do mundo do Sen.
O silêncio voltou a dominar.
— Em consequência disso — Daizen ergueu a mão —, as lutas previstas para daqui a doze horas foram adiadas.
Alguns rostos se fecharam.
— O novo prazo é de quarenta e oito horas.
A informação caiu pesada.
Tempo extra nunca era um presente no Fighters World.
Daizen deu um passo para o lado.
No centro do salão, o chão se abriu em linhas precisas.
De dentro, uma esfera negra se elevou lentamente.
A superfície parecia absorver a luz.
Em volta dela, uma aura roxa pulsava, viva, instável.
— Esta é a Esfera de Classificação. — explicou Daizen. — Toquem nela.
— Ela irá analisar o Sen, o corpo e a existência de cada um de vocês.
— O Rank revelado… não pode ser alterado por vontade própria.
Um por um, os lutadores avançaram.
Quando San Ryoshi tocou a esfera, a aura explodiu em roxo intenso.
RANK: A+
O salão reagiu com respeito imediato.
Mitsuya Drako foi o próximo.
A resposta foi quase idêntica.
RANK: A+
Os olhares começaram a pesar.
Shidou Akira tocou a esfera.
A aura oscilou, firme.
RANK: A
Renji Asakura avançou em seguida.
A esfera vibrou.
RANK: A
A linha entre os monstros e o resto do mundo ficava clara.
Saka Senrou tocou a esfera, respirando fundo.
RANK: B+
Naki Senrou veio logo depois.
A aura reagiu de forma semelhante.
RANK: B+
Kaede Shizuma encostou a mão com calma.
RANK: B
Genjiro Okabe tocou a esfera, expressão firme.
RANK: B
Tsubasa Hayashi foi o penúltimo.
A esfera demorou um segundo a mais do que o esperado.
RANK: B-
Alguns cochichos surgiram.
Então, restou apenas um.
Ryuji Arata.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
Ele caminhou até a esfera sem pressa.
Sem aura.
Sem intenção de impressionar.
Quando a mão dele tocou a superfície negra…
nada explodiu.
Nada brilhou.
A aura roxa apenas pulsou uma vez.
O visor apagou.
Rank C.
Nada mais.
Ryuji ficou parado alguns segundos a mais que o normal.
Não foi raiva. Não foi choque.
Foi um vazio seco, daqueles que fazem o peito afundar.
As vozes ao redor viraram ruído.
Rank A comemorando. Rank B suspirando aliviado.
E ele ali, sentindo que algo não encaixava, mas sem saber explicar.
Quando virou o corpo pra sair…
o mundo esticou.
Um arrepio subiu da base da coluna até a nuca.
Não era medo.
Era reconhecimento.
O ar ficou pesado.
O Sen ao redor dele se ajoelhou, mesmo que ninguém percebesse.
Então a voz veio.
Não alta.
Não agressiva.
Absoluta.
“Ryuji Arata.”
O coração dele bateu uma única vez. Forte.
“O mundo decidiu o seu valor.”
“Mas o mundo erra.”
A realidade pareceu desacelerar.
“Se você aceitar o desafio:
O Despertar do Príncipe,
você caminhará por um sistema que não pertence a este mundo.”
Silêncio.
“Você ficará mais forte, Ryuji Arata.”
“Não por hierarquia.”
“Mas por direito.”
A última pergunta caiu como um veredito:
“Você aceita?”
Ryuji não sorriu.
Não tremeu.
Não hesitou.
Os olhos ficaram frios, focados — diferentes.
— …Aceito.
No mesmo instante, algo se moveu.
Não dentro dele.
Mas acima.
Como se o mundo tivesse acabado de reconhecer
que um trono…
finalmente tinha dono.
O mundo voltou ao normal.
Ninguém gritou.
Ninguém percebeu.
Nenhum alarme tocou.
Só uma única linha queimou na mente de Ryuji, limpa, sem emoção, sem ornamento:
DESAFIO ACEITO.
TÍTULO INICIAL CONCEDIDO: PRÍNCIPE.
O SISTEMA DO REI FOI ATIVADO.
A PARTIR DE AGORA, O CRESCIMENTO É OBRIGATÓRIO.
Nada mais.
Sem números.
Sem explicações.
Sem misericórdia.
Ryuji sentiu o peso daquilo cair nos ombros como uma coroa invisível.
Ele saiu dali em silêncio.
Chegou ao quarto.
Trancou a porta.
Encostou as costas nela.
— …Sistema. — disse baixo. — Como eu fico mais forte?
Nenhuma resposta.
Por um segundo, achou que tinha sido loucura.
Cansaço. Pressão. Frustração.
Então o chão umedecceu.
O cheiro veio primeiro.
Terra molhada. Ferro. Algo antigo.
A luz apagou como se nunca tivesse existido.
Quando Ryuji piscou…
não estava mais no quarto.
O chão era escuro e encharcado, como areia depois de uma chuva impossível.
Cada passo afundava um pouco.
O céu não existia — só um vazio pesado acima.
Ele entendeu antes mesmo da voz falar.
“Você entrou no Domínio Interno.”
A voz não vinha de lugar nenhum.
Vinha de tudo.
“Desafio Diário disponível.”
O coração de Ryuji acelerou.
“Você aceita?”
— …Aceito.
No instante em que a palavra saiu, o mundo mudou.
A água sumiu.
O chão se desfez em areia, infinita, seca, viva.
O vento cortou.
E então…
a areia se moveu.
Um corpo gigantesco rompeu o solo com violência.
Escamas negras como obsidiana.
Olhos verticais brilhando como lâminas.
Uma serpente colossal, mais de vinte metros de puro ódio silencioso, ergueu-se diante dele.
Cada respiração dela fazia o chão vibrar.
A voz voltou. Fria. Justa.
“DESAFIO DIÁRIO: PROVA DO CORPO.”
“OBJETIVO: DERROTAR O MONSTRO.”
“RESTRIÇÕES ATIVAS:”
— Kidou: BLOQUEADO.
— Sen Externo: BLOQUEADO.
— Auxílios: NEGADOS.
Silêncio.
“Aqui, Príncipe…”
“Só a sua vontade luta.”
A serpente abriu a boca.
Presas do tamanho de espadas reluziram.
Ryuji fechou os punhos.
Sem aura.
Sem poder.
Sem atalhos.
Só carne, instinto…
e um trono distante demais pra ser alcançado sem sangue.
— …Então é assim que começa.
A serpente atacou.
E o Sistema do Rei
observou.
A serpente veio como um deslizamento de mundo.
O corpo colossal cortou a areia num arco violento, rápido demais pra algo daquele tamanho.
Ryuji mal conseguiu rolar antes das presas rasgarem o espaço onde sua cabeça estava.
O impacto fez o chão tremer.
— Droga… — ele cuspiu areia, se levantando cambaleante.
A cauda veio logo depois.
CRACK.
O golpe acertou em cheio o torso dele e o lançou longe, o ar sendo arrancado dos pulmões.
Ryuji caiu rolando, o corpo queimando.
Sem Kidou.
Sem Sen.
Sem truque.
Só dor.
Ele tentou avançar, acertar um soco no corpo da criatura — e sentiu os nós dos dedos gritarem.
Era como bater em pedra viva.
— Tá de sacanagem… — murmurou, respirando pesado. — Isso aqui tá sendo pior do que enfrentar o Ayumi e o Kaede juntos…
A serpente não reagiu às palavras.
Só atacou de novo.
Mordida.
Cauda.
Areia voando.
Ryuji errou o tempo por um segundo — e isso custou caro.
As presas atravessaram seu ombro de raspão, rasgando carne. O sangue escorreu quente.
Ele gritou.
Não de medo.
De raiva.
Caiu de joelhos, a visão tremendo.
— …Então é isso? — pensou. — Eu vou morrer aqui igual um idiota?
A serpente se ergueu mais uma vez, sombra cobrindo tudo.
O golpe final vinha.
Ryuji não pensou em técnica.
Não pensou em honra.
Não pensou em vitória bonita.
Pensou em sobreviver.
Quando a boca da criatura se abriu, ele se jogou pra frente, direto pra zona mais perigosa.
O corpo dele foi engolido até a cintura.
As presas atravessaram o chão atrás dele.
Por dentro, tudo era quente, apertado, pulsando.
Ryuji cravou os dedos nos olhos da serpente.
Ela rugiu. Um som que rasgou o domínio inteiro.
Ele socou, mordeu, rasgou.
Não com força perfeita — com desespero.
A criatura se debateu.
O corpo gigantesco se contorceu.
Ryuji escorregou, caiu na areia, coberto de sangue que não sabia se era dele ou dela.
A serpente tentou se erguer…
e falhou.
O corpo caiu pesado, a areia engolindo aos poucos aquela massa absurda.
Silêncio.
Ryuji ficou deitado, olhando pro vazio, o peito subindo e descendo como se fosse explodir.
Nenhuma pose.
Nenhum grito de vitória.
Só cansaço.
— …Vencer assim é uma merda… — sussurrou. — Mas vencer é vencer.
A voz voltou. Não fria. Justa.
“DESAFIO DIÁRIO CONCLUÍDO.”
O mundo começou a se desfazer em areia.
“AVALIAÇÃO: INEFICIENTE.”
“RESULTADO: APROVADO.”
Antes de tudo desaparecer, a última frase caiu como uma sentença:
“UM REI NÃO PRECISA LUTAR BONITO.”
“PRECISA VENCER.”
E Ryuji apagou.
O corpo da serpente virou poeira.
A areia parou de se mover.
Ryuji ainda estava no chão quando a voz voltou — não solene, não cruel. Exata.
“RECOMPENSA CONCEDIDA.”
“TODOS OS ATRIBUTOS: +10.”
As palavras ficaram suspensas por um instante.
Ryuji franziu o cenho.
— …Atributos?
O mundo não respondeu.
Mas algo clicou dentro dele.
Não foi empolgação.
Foi estranhamento.
— Espera… — murmurou, a respiração ainda pesada. — Isso é igual um jogo…
O pensamento veio acompanhado de um desconforto profundo.
Ele não tinha recebido força por mérito espiritual.
Nem por despertar de Sen.
Nem por talento.
Ele tinha sido recompensado.
Como uma ação bem-sucedida.
Como um sistema avaliando desempenho.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, o chão desapareceu.
Ryuji acordou de repente.
O teto do quarto voltou com tudo, a realidade batendo forte demais.
O corpo inteiro doía.
Não uma dor específica — várias.
Costelas latejando.
Ombros pesados.
Músculos queimando como se tivessem sido espancados por horas.
Ele tentou se mexer… e gemeu baixo.
— …Droga…
A sensação era clara:
não tinha sido sonho.
Cada movimento confirmava.
O corpo lembrava da luta mesmo que a mente quisesse negar.
Ryuji ficou deitado, encarando o teto, o peito subindo devagar.
— Então é assim… — pensou. — Eu fico mais forte… pagando com o corpo.
Um silêncio pesado tomou o quarto.
E pela primeira vez desde que o Sistema falou com ele, Ryuji não sentiu empolgação.
Sentiu medo.
Porque agora ele sabia:
o caminho pra ficar forte não ia pedir talento.
Ia pedir sobrevivência diária.
E o Sistema do Rei
não dava recompensas de graça.

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