Capítulo 53 - Rompendo os Limites
O Ryuji desperta como se nunca tivesse sido ferido.
Não é alívio.
É vazio.
O corpo tá inteiro demais. Sem dor, sem marca, sem cansaço. Isso incomoda.
Porque dor ensina. E agora… ela sumiu.
Ele fica sentado na cama por alguns segundos, encarando as próprias mãos.
Os dedos fecham. Firmes. Obedientes.
Mais do que antes.
— Então é assim… — ele murmura.
Fecha os olhos.
Não grita. Não chama.
Ele convoca.
— Cerberus.
O mundo rasga.
O chão vira areia grossa, quente, grudando na pele. O ar é seco, pesado, cada respiração arranha o peito. O céu não tem sol — só uma luz morta, amarelada, como se o próprio mundo estivesse doente.
O rugido vem antes da visão.
Grave. Triplo.
Faz o chão vibrar.
O Cerberus surge à frente dele, enorme, as três cabeças se movendo de forma independente. Uma rosna. Outra observa. A terceira… sorri, do jeito que um monstro consegue sorrir.
Primeira luta.
Ryuji avança e erra o tempo.
A pata acerta o peito dele como um caminhão. O ar some. O corpo voa.
Areia na boca. Sangue no gosto.
— Droga… — ele cospe, se levantando.
Ele vence.
Mas vence mal. Arrastado. No limite.
Quando a criatura cai, Ryuji tá de joelhos, respirando como se tivesse corrido quilômetros.
O mundo não dá tempo.
Segunda luta.
O Cerberus volta mais rápido do que ele queria.
Agora Ryuji bloqueia melhor. Erra menos. Ainda dói. Ainda sangra.
Mas não cai.
Terceira.
Algo muda.
Ele começa a sentir o padrão. O intervalo entre as mordidas. A perna que o monstro sempre avança primeiro.
Quando a cabeça central ataca, as laterais expõem o pescoço por um instante.
Instante suficiente.
Quarta.
Ryuji já não recua.
Ele entra. Cruza o espaço. Aceita o risco.
A areia explode sob seus pés.
Quinta.
O Cerberus parece confuso.
Não mais dominante. Não mais absoluto.
Ryuji sente o coração calmo demais para alguém lutando pela vida.
— Tá lento… — ele percebe, quase surpreso.
Sexta.
Não é mais uma batalha.
É execução.
Ryuji avança em silêncio. O olhar vazio. Os golpes precisos.
Cada movimento tem propósito. Nenhum desperdício.
Quando a última cabeça cai, o corpo do Cerberus se desfaz em partículas escuras que o vento carrega.
Silêncio.
O deserto inteiro fica quieto, como se estivesse observando.
Atributos aumentados
+48 pontos acumulados
O impacto não é explosivo.
É interno.
Os músculos não crescem, mas ficam densos. O peso do próprio corpo parece menor. A respiração mais funda. Mais controlada.
Ryuji fecha os olhos por um segundo.
Sente o mundo… menor.
Então a voz surge.
Antiga. Profunda. Sem emoção.
Condição cumprida.
Título desbloqueado.
O espaço ao redor dele congela, como se o tempo tivesse prendido o fôlego.
Título: Caçador de Cerberus
Bônus aplicáveis:
+5 Força
+5 Resistência
Dano aumentado contra criaturas Rank C ou inferiores
Um arrepio percorre a espinha dele.
Não é medo.
É algo sendo reconhecido.
Deseja equipar o título?
Ryuji abre os olhos.
Não hesita.
— Equipar.
O impacto vem como uma pressão invisível esmagando e reorganizando tudo por dentro.
Não dói.
Mas marca.
A postura dele muda sem perceber.
Os ombros relaxam. O olhar endurece.
É como se o mundo tivesse aceitado quem ele está se tornando… antes mesmo dele aceitar.
Ryuji olha para as próprias mãos de novo.
— Então agora eu tenho um nome… — ele sussurra.
No fundo daquele espaço que não é mundo nem sonho, o Sistema observa.
O Príncipe começou a caçar.
O silêncio volta a dominar tudo.
A areia começa a se dissolver, como se o chão estivesse cansado de existir. O espaço perde forma. Fica neutro. Sem céu. Sem horizonte. Só Ryuji… e o Sistema.
Ele solta o ar devagar.
— Ei. — a voz sai baixa, controlada. — Me mostra tudo.
Nada acontece por um segundo.
Então a presença retorna, densa, ocupando o espaço sem ocupar lugar nenhum.
Solicitação reconhecida.
Exibindo atributos atuais.
A visão de Ryuji se fragmenta.
Linhas translúcidas surgem no ar, flutuando à frente dele como se fossem parte do próprio pensamento.
Força: 95
Resistência: 95
Agilidade: 90
Percepção: 90
Controle de Sen: 90
Vontade: 90
Inteligência: 90
Magia: 90
Vitalidade: 900
Mana: 900
Ryuji percorre cada número com o olhar.
Não sorri. Não se empolga.
Ele mede.
— 900 de vitalidade… — murmura. — Isso explica por que eu ainda tô inteiro.
O olhar desce mais uma linha.
Ele franze o cenho.
— Mana?
A palavra soa estranha na boca. Diferente de Sen. Diferente de Kidou.
Mais… primitiva. Mais ampla.
O ar vibra levemente.
Confirmação.
Mana é um recurso distinto de Hadous e Kidou.
Pode ser utilizada para conjuração de Magias.
Ryuji cruza os braços, pensativo.
— Magia… — ele repete, quase testando o som. — Então eu posso usar ataques mágicos?
O silêncio se estende por tempo demais.
Como se a resposta não fosse simples.
Negativo.
Seco. Direto. Sem pena.
Ryuji ergue o olhar.
— Não?
Você não possui Magias aprendidas.
Magias não são concedidas automaticamente.
Um incômodo cresce no peito dele.
Não frustração.
Curiosidade afiada.
— Então como eu aprendo?
A pressão no espaço muda. Algo antigo se move.
Acesso disponível apenas na Torre do Mago.
O nome cai pesado.
Torre do Mago.
Não soa como um lugar.
Soa como um limite.
Ryuji respira fundo.
— O que é isso?
Por um instante…
o Sistema hesita.
Local de provações arcanas.
Conhecimento não é dado. É arrancado.
A Torre testa mente, vontade e controle.
Falha resulta em consequências reais.
O coração de Ryuji bate mais forte.
Não por medo.
Mas porque algo dentro dele responde àquilo.
— Então lá eu consigo magias de verdade… — ele conclui.
Correto.
Ryuji fecha os olhos por um breve segundo.
Ele lembra da sensação de impotência.
Do Rank C estampado pra todo mundo ver.
Do jeito que o mundo começou a olhar pra ele diferente.
Quando abre os olhos, não há dúvida neles.
— Me leva.
A presença do Sistema se expande, preenchendo tudo.
Confirme o deslocamento.
Destino: Torre do Mago.
O espaço começa a escurecer, como se a realidade estivesse sendo drenada.
— Eu aceito.
No instante seguinte, o chão desaparece sob seus pés.
A escuridão engole tudo.
Mas, no fundo dela, algo se ergue.
Alto. Antigo.
Uma estrutura que parece tocar o nada e o infinito ao mesmo tempo.
A Torre o espera.
E pela primeira vez, Ryuji sente:
O Sen não é mais o limite.
A escuridão se rompe como um véu rasgado.
Ryuji pisa em chão sólido — frio, antigo, vivo.
As paredes da Torre do Mago se erguem ao redor dele como ossos gigantes de algum deus esquecido. Símbolos arcanos pulsavam em azul e violeta, girando lentamente, como se estivessem respirando.
O ar pesa.
Não é pressão física.
É conhecimento comprimido.
Ryuji dá dois passos à frente. O eco volta diferente. Mais lento. Mais fundo.
— Sistema… — ele diz, sem levantar a voz. — Me responde uma coisa.
O espaço vibra.
Pergunta detectada.
Ele ergue o olhar, encarando o vazio à frente.
— O que é mais forte?
Hadous… ou Magias?
Por um segundo, os símbolos nas paredes desaceleram.
Então a resposta vem.
Magias são, em média, cinco vezes mais poderosas do que qualquer Hadou abaixo da Hadou 60.
O mundo parece dar uma leve inclinada.
Ryuji pisca.
— Cinco vezes…?
A mente dele faz o cálculo sozinha. Cruel. Instantâneo.
Cacete…
A minha Hadou mais forte era a Hadou 34…
O coração bate mais forte, não de medo — de antecipação.
— Então… — ele murmura, quase rindo sem humor. — Se eu aprender magias…
Ele fecha a mão devagar.
— …eu viro um monstro.
O silêncio confirma antes mesmo da voz surgir.
Ryuji respira fundo.
— Como eu aprendo magias?
As runas nas paredes mudam de cor. Ficam mais intensas.
Magias não são ensinadas.
São conquistadas.
O chão à frente dele se projeta em imagens etéreas: silhuetas humanoides, cajados, círculos mágicos se quebrando.
Derrotando magos.
Cada mago derrotado pode gerar Fragmentos Arcanos.
Ao acumular 50 Fragmentos Arcanos, uma Magia aleatória pode ser adquirida.
Ryuji estreita os olhos.
— Aleatória… — ele repete. — Beleza.
Mas qual é o nível desses magos?
A resposta vem rápida. Sem suavizar.
Os magos mais fracos possuem força equivalente a um lutador de Rank B.
O ar parece esfriar.
— Rank B… — ele sussurra.
Ele pensa em Kaede.
Em Naki.
Em Genjiro.
Todos fortes. Todos perigosos.
Ele engole seco.
— Então me diz uma coisa. — diz, sério. — Qual é o meu nível de força agora?
Por um instante, nada acontece.
Então:
Nível atual: 0.
Classificação: Rank C+.
A resposta cai como um soco invisível.
Ryuji fecha os olhos por um segundo.
— Nível… zero.
Quando abre os olhos, o olhar está mais fundo. Mais frio.
— Como eu subo de nível?
As paredes da torre parecem se aproximar um centímetro.
Ganhando experiência.
Derrotando inimigos.
Completando desafios.
Uma nova informação surge diante dele, brilhando em dourado pálido.
Experiência necessária para o Nível 1: 100 XP.
Ryuji solta uma risada curta. Sem humor.
— Então é isso… — ele murmura. — Rank não é tudo.
Agora existe nível também.
Ele passa a mão pelo rosto.
— Rank C+.
Nível 0.
Contra magos de Rank B.
O silêncio da torre observa.
Ryuji dá um passo à frente.
— Beleza. — diz, firme. — Então vamos começar do zero.
O eco da voz dele sobe, gira e retorna diferente.
Não como resposta.
Mas como convite.
A Torre do Mago aceita o desafio.
E, no fundo do subconsciente de Ryuji, uma certeza nasce:
Aqui…
Ele não vai apenas ficar mais forte.
Ele vai ser reconstruído.
O ar muda.
Não é vento.
É ameaça.
Ryuji sente antes de ver. Um arrepio sobe pela espinha, igual lâmina gelada passando devagar. As runas da torre escurecem, como se o próprio ambiente estivesse prendendo a respiração.
Inimigo detectado.
Classe: Mago Arcano.
Ameaça: Alta.
— Ótimo… — Ryuji murmura, flexionando os dedos.
O chão à frente dele se abre em um círculo de luz violeta. De dentro, uma figura emerge.
Um homem alto, corpo envolto em mantos flutuantes feitos de energia pura. O rosto não é velho nem jovem — é vazio. Os olhos brilham em azul profundo, como estrelas mortas. Um cajado se materializa na mão dele, e o ar começa a gritar.
— Então esse é um mago… — Ryuji sussurra.
Antes que termine a frase, o mundo explode.
Um projétil arcano atravessa o espaço como um cometa, rasgando o chão onde Ryuji estava um segundo antes. Ele some, reaparece metros ao lado, rolando, sentindo o impacto vibrar até os ossos.
— Rápido… — ele rosna.
O mago ergue o cajado.
Círculos mágicos surgem no ar, um atrás do outro, se sobrepondo como engrenagens. O brilho aumenta.
Alerta: conjuração múltipla.
— Cacete! — Ryuji dispara para frente.
Uma chuva de lanças de energia despenca. Ele corta algumas com a Kidou Katana, mas cada impacto rasga o braço dele como se fosse papel. Uma lança atravessa o ombro. Outra explode perto da perna.
Dor absurda.
Não filtrada.
Real.
Ele cai de joelhos, ofegante.
— Rank B fraco…? — ele ri, cuspindo sangue. — Mentiroso do caralho…
O mago avança sem pressa, flutuando. O cajado aponta direto pro peito de Ryuji. A energia se condensa, pesada, densa.
Ryuji sente.
Se aquilo acertar… acabou.
— Sistema… — ele murmura, a visão tremendo.
Nada responde.
Só ele.
Ele força o corpo a se mover. A Kidou falha por um segundo. O braço não obedece.
Então ele lembra.
— CTD…
A adaga surge na mão dele como um reflexo. Pequena. Simples. Mas viva.
O mago dispara.
Ryuji se joga pra frente, não pro lado. O feixe passa raspando, queimando o ar, arrancando parte do chão atrás dele.
Ele corre.
Não elegante. Não bonito. Correndo como um animal encurralado.
O mago conjura outro círculo.
Ryuji salta.
A CTD corta o ar. O golpe não atinge o corpo — atinge o círculo mágico.
O impacto gera um grito agudo, quase humano. O círculo se quebra.
O mago recua um passo.
Só um.
Mas é o suficiente.
— Te peguei… — Ryuji rosna.
Ele avança com tudo. Cada músculo gritando. Cada osso reclamando. O mago tenta conjurar de novo, mas a CTD brilha, vibrando, como se odiasse magia.
Ryuji atravessa a defesa.
A lâmina entra no peito do mago.
O mundo trava.
O mago olha para baixo, incrédulo, enquanto fissuras de luz se espalham pelo corpo dele.
Ryuji gira a adaga e arranca.
O corpo do mago se desfaz em fragmentos arcanos, virando poeira brilhante que se dissolve no ar.
Ryuji cai de costas no chão.
Respiração falhando.
Coração disparado.
Corpo inteiro queimando.
— Por pouco… — ele murmura, olhando pro teto da torre. — Por muito pouco…
Uma notificação surge, flutuando.
Mago Arcano derrotado.
Fragmentos Arcanos adquiridos: 6.
Experiência adquirida: 18 XP.
+10 Pontos
Ryuji fecha os olhos, sentindo a dor pulsar.
— Então é assim… — ele diz, quase rindo. — Cada luta… é uma aposta com a morte.
Ele aperta a CTD na mão.
— E eu vou precisar ganhar todas.
A Torre do Mago permanece em silêncio.
Mas agora…
Ela observa Ryuji com interesse.

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